Montfort Associação Cultural

8 de outubro de 2004

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Silêncio Inteiro…

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Felipe
  • Localizaçao: – Brasil

(…)

Meu caro amigo Felipe,
salve Maria!

É bem conhecido o ditado de que “para bom entendedor, meia palavra basta”.
Há porém silêncios que permitem compreender mais do que meia palavra.
Quando se fazem perguntas precisas e claras a um interlocutor inteligente e erudito e ele nada responde, o silêncio total vale mais do que meia palavra.

Para bom entendedor, silêncio inteiro basta.
Porque há silêncios que são confissões. Daí dizer-se também que quem cala, consente.

Fui criticado pelo sr. Olavo de Carvalho — jornalista exímio e muito cotado atualmente — por ter escrito que René Guénon foi gnóstico, apóstata e — citando o livro de Marie-France James — que ele foi toxicômano.

Evidentemente, ser gnóstico é ser herege, e ser apóstata é renegar a fé. Ora, os pecados contra a Fé, de si, são muito piores do que a toxicomania. Guénon cometeu esses dois pecados contra a Fé ao abraçar a Gnose e ao renegar o seu Batismo para adotar o Islamismo como sua religião “exotérica”.

O sr. Olavo de Carvalho escreveu-me uma carta defendendo Guénon, e protestando particularmente contra a acusação de toxicomania (que é bem secundária em comparação com os atos contra a Fé). Protestava o sr. Carvalho, sobretudo, porque eu citara um livro em segunda mão (o que, observo, não é crime): o livro de Marie-France James. Mandou-me, depois, um post scriptum, retardatário e zangado, dizendo-me que eu induzia em falso testemunho ao citar a mencionada obra.

Pedi então ao sr. Olavo de Carvalho que me indicasse livros confiáveis para estudar a vida de René Guénon, para não “induzir em falso testemunho”. Perguntei também se ele havia escrito algo refutando a obra de M. F. James.

Passaram-se já trinta dias desde então, e nada de resposta. Apenas silêncio.

Perguntara eu ao sr. Olavo de Carvalho se Guénon era gnóstico ou não; se ele fora maçon ou não; se Guénon fora apóstata ou não.

Aguardei trinta dias, e só obtive o silêncio como resposta.

Como o sr. Olavo me elogiara por defender a Fé Católica, indaguei a ele se ele era católico, ou qual era a sua religião, e como podia ele elogiar a defesa da Fé católica defendendo, ao mesmo tempo, o gnóstico Guénon.

Não houve resposta.
Só o silêncio.

Esse silêncio da parte de um homem indiscutivelmente inteligente, além de hábil escritor, revela muito…

Sem a ajuda dele, fui então obrigado a comprar alguns livros, a consultar outros, a fazer buscas na Internet. Um enorme trabalho. Estou ainda para receber duas biografias de Guénon escritas por autores favoráveis a ele. O livro de Marie-France James é difícil de encontrar, mas espero tê-lo logo, para citá-lo de primeira mão, o que me eximirá do crime nefando de fazer citações de segunda mão.

O curioso é que o próprio Guénon raramente citava outros autores textualmente: nem de primeira, e nem de segunda mão…Tirava quase tudo de sua própria cabeça, ou dos ensinamentos de “mestres ocultos e desconhecidos”, que insinuava serem “entidades” do mundo subtil. Eram citações do outro mundo…(cfr. carta de René Guénon de 17 – VI – 1934, citada por Jean Robin, in René Guénon, Testimone della Tradizione, ed. Il Cinabro, Catania, 1993, p.325).

“Excetuando-se Le Théosophisme, onde o método histórico adotado impunha o recurso a amplo rol de textos e documentos à guisa de prova, os livros de Guénon são geralmente isentos de qualquer aparato de notas e referências, principalmente porque na maioria dos casos ele não se apoiava em fontes escritas, mas orais, e no conhecimento direto.”(Michel Weber, Advertência do Editor, in A Metafísica Oriental, de René Guénon, tradução de Olavo de Carvalho, editora Ivpiter, São Paulo, 1981, p. 9).

O sr. Olavo, na carta que me escreveu, narrava que rira muito com seu amigo Martin Lings — que se chamava também Abu Bakr — pelo fato de Marie-France James desconhecer que Lings e Abu Bakr eram a mesma pessoa.

Ora, isso também não é crime. Eu também, pessoalmente, nunca ouvira falar do tal Lings – Abu Bakr. Perguntei ao sr. Olavo se o tal Abu, também ele, se tornara um apóstata. Silêncio…

Parece que o sr. Olavo admira e é amigo de certo tipo de apóstatas. Recentemente, em artigo publicado na imprensa paulista, ele acusou Frei Betto e o ex frei Boff de apostasia. Portanto, Olavo de Carvalho julga que certo tipo de apostasia é, de fato, um mal. Mas Guénon, que se tornou “exotericamente” maometano e adotou o nome de Abdel Wahed Yahya; e Lings , que muito provavelmente deve tê-lo imitado, adotando o nome de Abu Bakr, teriam cometido apostasias “aceitáveis”…

O que seria uma apostasia aceitável?
Seria talvez adotar uma religião exotericamente, enquanto, de fato, e esotericamente, se adota a Gnose?

De qualquer modo procurei iluminar minha ignorância Lingsiana e Abubekriana via Internet.
Veja só, meu caro Felipe, o que lá encontrei.
Uma conferência de Abu Bakr–Lings, em Londres, sobre a doutrina de Guénon.

Fiquei contente, é claro, porque tinha já alguma coisa que poderia elucidar melhor meu julgamento sobre Guénon, com um documento de primeira mão, de alguém amigo de Olavo de Carvalho e amigo de Guénon. Sim, amigo de Guénon! Do próprio René Guénon, que se fazia chamar — entre outras coisas — de “Esfinge”.

Encontrei, pois, uma conferência de Abu Bakr na qual se fazia saber que ele não só fora amigo, mas fora até secretário da Esfinge! (deve ser tremendo ser secretário da “Esfinge”, e viver próximo da esfinge! Que segredos esotéricos uma “Esfinge” não ouviu da outra esfinge! E secretário da “Esfinge” no Cairo! Literalmente pertinho da esfinge, já que Lings–Abu morara na própria casa de Guénon–Abdel, num subúrbio do Cairo, perto das Pirâmides e da esfinge!)

E o que encontrei na conferência de Lings – Abu Bakr, proferida no Prince of Wales Institute de Londres, no ano de 1994?

Encontrei simplesmente isto, que cito de primeira mão e de fonte mais do que confiável, e que transcrevo da conferência de Lings–Abu Bakr:

“On the basis of this universality, which is often known as religio perennis, it was also Guénon’s function to remind us that the great religions of the world are not only the means of man’s salvation, but that they offer him beyond that, even in this life, two esoteric possibilities which correspond to what were known in Graeco-Roman Antiquity as mysteria parva and mysteria magna, the “Greater Mysteries” and the “Lesser Mysteries”. The first of these is the way of return to the primordial perfection which was lost in the fall. The second, which presuposes the first , is the way to gnosis, the fulfillment of the precept “know thyself”. This one ultimate end is termed in Christianity deificatio, in Hinduism, yoga, union, and moksha, delivrance, in Buddhism, nirvana, that is, extinction of all that is illusory. And in Islamic mysticism, that is Sufism, tahaqquq, which means realization and which was glossed by a Sufi sheickh as self realization in God”.

[Fundamentado nessa universalidade, a qual é muitas vezes conhecida com religião perene, era também função de Guénon lembrar-nos que as grandes religiões do mundo não são apenas meios de salvação do homem, mas que elas oferecem a ele, além disso, mesmo nesta vida, duas possibilidades esotéricas que correspondem àquilo que na Antiguidade Greco-Romana era conhecido como "mysteria parva" e "mysteria magna, os "Grandes Mistérios" e "Pequenos Mistérios". Os primeiros destes são o caminho de retorno para a perfeição primordial que fora perdida com a queda. Os segundos, que pressupõem os primeiros, são o caminho da Gnose, o cumprimento do preceito ‘Conhece-te a ti mesmo’. Este último fim é chamado na Cristandade de Deificação, no Hinduismo, yoga, união, e moksha, libertação, no Budismo, nirvana, que é extinção de tudo o que é ilusório. E no misticismo islâmico, que é o Sufismo, tahaqquq, que significa realização e que foi comentada por um sheikh sufi como a auto realização em Deus."] (Martim Lings (Abu Bakr) René Guénon, Conferência pronunciada no Prince of Wales Institute, Londres, 1994, apud Sophia, The Journal of Traditional Studies. O negrito é nosso.)

Está aí em letras negritas: o secretário de Guénon e amigo de Olavo de Carvalho — Lings Abu Bakr — confessa que uma das funções de Guénon era a de lembrar que a Gnose era o meio esotérico de divinização do homem. De onde concluo que Guénon era um gnóstico, o que será confirmado pelo exame de toda a sua doutrina, que analisarei mais tarde.

É curioso que o próprio Olavo de Carvalho diz em um de seus livros:
“… os primeiros princípios são conhecidos por um método próprio, que é o método da sabedoria ou Gnose” (Olavo de Carvalho, Astrologia e Religião, ed. Nova Stella, coleção Eixo, São Paulo, 1986, p. 24. O negrito é nosso, E que curioso o nome da coleção…).

Peço-lhe, Felipe, que guarde bem essa identificação que Olavo de Carvalho faz entre os termos Sabedoria e Gnose, porque, no final desta carta, veremos textos importantes sobre a “Sabedoria” que é preciso ter, segundo Olavo…

Portanto, esse texto de Olavo, que defende a necessidade de conhecer os “Primeiros princípios” permitiria deduzir que ele também teria uma doutrina gnóstica.

E isso não é de surpreender, porque se René Guénon é gnóstico, e Olavo de Carvalho se declara continuador do ensinamento de Guénon, ele também deve ser gnóstico.

Onde se diz Olavo continuador de Guénon? Nesse mesmo livro que acabo de citar. Na pagina 8, ele escreveu:
“Julgamos que este trabalho [Astrologia e Religião] seria um comentário e prolongamento — ou de outro ponto de vista, uma introdução — à majestosa exposição de doutrinas tradicionais empreendida neste nosso século sobretudo por René Guénon” (Olavo de Carvalho, Astrologia e Religião, ed. cit., p. 8).

E esta informação “esotérica”, que escapou à vigilância de Olavo de Carvalho, eqüivale a uma confissão. Olavo de Carvalho também é um gnóstico. É o que provarei pelo exame de seus escritos, especialmente os mais reservados…

Você me diria que Olavo, recentemente, declarou que renega tudo o que escreveu antes de 1995. Por exemplo, ele afirma que não aceita mais a “descrição” entre exoterismo e esoterismo que Guénon conheceu no Islamismo, aplicando-o erradamente em outras religiões, como o budismo.

“A própria descrição de esoterismo e exoterismo que levei a sério por muito tempo, eu não aceito mais. Ela não é suficiente, é muito pobre, apesar de ser válida” (“Um acerto de contas” – entrevista de Olavo de Carvalho a Roberta Tórtora, in Porto do Céu, Recife, junho de 2.000).

Isso é muito fácil de dizer.

Como pode Olavo dizer que a “descrição” — não deveria ser distinção ? –de esoterismo e exoterismo é pobre, que não a aceita mais, que ela é insificiente, mas que é válida?

Se ele renegasse, de fato, tudo o que escreveu até aquela data, ele deveria também escrever o contrário do que havia defendido até 1995. Se não fez isso, ele não renegou nada.

O que ele disse se parece com a declaração de um devedor que anunciasse: “Renego todas as minhas dívidas anteriores a 1995″.

Fácil, não?

Na realidade, Olavo não renegou nada. Ele continua a defender os ‘Grandes Mistérios”, isto é a Gnose, isto é, o Conhecimento de Deus. E os chamados “Grandes Mistérios” são esotéricos. Como crer então que ele já não aceita a “descrição” — ou a distinção? — entre exoterismo e esoterismo?

Quer a prova disso?

Veja o que ele escreveu sobre os “Grandes Mistérios”, no livro “O Jardim das Aflições”, que foi editado em 1995.

“No romance de Goethe, à medida que Wilhem [Meister] supera a revolta juvenil para integrar-se na sociedade como cidadão educado e prestativo, a sociedade se revela como um microcosmo à imagem do universo dirigido por potências benévolas. A extraordinária beleza desta imagem da ordem universal não deve porém fazer-nos esquecer que nela se trata apenas daquilo que se chama uma iniciação de “Pequenos Mistérios”, isto é, a revelação da ordem histórico-cósmica; e que tão logo os Pequenos Mistérios se fazem passar por uma finalidade em si mesmos, se tornam um entrave ao desenvolvimento espiritual do homem, barrando-lhe o acesso aos “Grandes Mistérios” onde a ordem cósmica é transcendida pelo conhecimento do infinito e do divino. Ora, a maçonaria como todas as demais vias espirituais originadas em iniciações de ofícios, é em essência uma iniciação de Pequenos Mistérios, e só conserva seu sentido quando integrada no corpo de uma tradição espiritual maior capaz de absorver o conhecimento dos mistérios cósmicos como uma etapa transitória no caminho para o conhecimento de Deus. E o que caracteriza de maneira mais enfática o período aqui mencionado é precisamente a ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios, a tentativa de fazer da iniciação histórico cósmica a etapa terminal do sentido da vida, de barrar ao homem o acesso ao infinito e aprisioná-lo na dimensão terrestre” (Olavo de Carvalho, “O Jardim das Aflições”, Diadorim Editora, Rio de Janeiro, 1995, p. 338- os negritos são meus).

Na nota aposta a esse trecho, Olavo avisa que não é contra a Maçonaria:

“Portanto, que fique claro: Se de um lado rejeito categoricamente toda tentativa de imputar à Maçonaria a autoria dos males modernos, de outro lado me parece um fato que a ruptura entre Maçonaria e tradição católica está na raiz desses males — como pretendia aliás o próprio René Guénon –, não exclusivamente, decerto, mas ao menos significativamente” (Olavo de Carvalho, op, cit. p. 338, nota 209).

E Olavo declara, em outra nota ao pé de página, que não é “nem maçom, nem antimaçom” (Cfr. Olavo de Carvalho, O Jardim das Aflições, p. 316, nota 180).

Olavo não é nem contra, nem a favor. O que ele deve dizer é o que ele é. Mas isso é coisa difícil para ele.

A dificuldade de Olavo dizer qual é a sua religião é sintomática.

Quando alguém pergunta a você: “Qual é a sua religião?”, você, como todo o mundo, não vacila em responder. Essa pergunta se responde, em questionários, colocando um x num quadradinho.

Ninguém precisa levar um mês pensando na resposta a essa pergunta.

A dificuldade de Olavo em responder qual é a Fé a que ele adere, qual é a sua religião, me lembra a dificuldade da velha solteirona em responder a quem lhe pergunta a idade.

Pergunta difícil que exige dela uma longa meditação… Ela tem que escolher um número, entre o real e o desejado, que pareça plausível ao interlocutor.

Sei bem que o sr. Olavo já deu respostas rápidas a essa mesma pergunta, que não lhe exigiram um mês de meditação.

Há ou pouco mais de um ano ele deu uma entrevista, publicada na revista República (distribuída no supermercado de Abílio Diniz), e quando o entrevistador lhe perguntou:
“Qual é a sua religião?”
Olavo respondeu incontinenti:
“Eu sou ecumênico radical: católico-protestante-islâmico-judaico-budista-hinduísta. Eu acredito que essas religiões têm todas um núcleo de verdade metafísica que é eterno, revelado, que o ser humano não poderia ter inventado” (Olavo de Carvalho, A Miséria do Materialismo, entrevista à revista República, Ano IV, n* 40, fevereiro de 2000, p. 96).

Dizer-se católico-protestante-islâmico-judaico-budista-hinduísta eqüivale a dizer que não se é nada.

Olavo diz isso em seus artigos para a imprensa, isto é, em seus artigos exotéricos, escritos para o vulgo.

Isso me faz lembrar a anedota do caipira paulista na Revolução de 32 que, tendo encontrado uma patrulha mineira que lhe perguntou de onde era, respondeu: “Sou paulista”. O que lhe valeu uma surra solene e completa.
Desmaiou.
Ao voltar a si, passava por lá uma patrulha paulista, e quando lhe perguntaram de onde era, ele se apressou a declarar: “Sou mineiro”. O que lhe granjeou uma surra de pau.
Desmaiou pela segunda vez.
Recuperando os sentidos, passava uma terceira patrulha. E, quando lhe perguntaram de onde ele era, o caipira gritou rápido: “Sou docêis!!!”.

Assim se poderia pensar da resposta exotérica de Olavo: ele quereria não magoar ninguém e, demagogicamente, agradar a todo o mundo.

Pensar assim, porém, seria um engano ingênuo.

A razão que leva Olavo de Carvalho a se dizer adepto de todas as religiões é mais profunda, e ele a dá — parcialmente, é claro — em suas aulas ou escritos esotéricos, aqueles que são só para alguns, mais iniciados em sua doutrina oculta.

Olavo afirma que por trás das religiões haveria um núcleo comum esotérico. É o que se pode ler em seu livro “Fronteiras da Tradição“:

“Assim, quem está numa religião [repare, Felipe: numa religião qualquer] já está na Tradição, quem dentro dessa Tradição encontra um caminho espiritual — um esoterismo — está ‘mais dentro’. E quem chega à suprema realização está ‘no centro’ dessa Tradição, o qual coincide então com o centro da Tradição universal e primordial”.

E prossegue Olavo, dizendo:

“Chegar ao esoterismo sem um exoterismo é tão impossível quanto chegar ao centro de um país sem penetrar as suas fronteiras e percorrer seu território. Se alguém desligado de um exoterismo tem por acaso a felicidade de contatar um mestre espiritual autêntico, a primeira coisa que este vai fazer é mandá-lo aprender e praticar o exoterismo: “É um princípio geral do Sufismo que um firme embasamento no exoterismo é indispensável como preparação no caminho esotérico; e, na Tariqah Darqáwi…, todos os noviços eram obrigados a decorar o Guia dos Elementos Essenciais do Conhecimento Religioso (NB- famoso catecismo islâmico em versos), de Ibn ‘Ashir, como meio de assegurar que possuíam o mínimo necessário de instrução religiosa” (Olavo de Carvalho, Fronteiras da Tradição, Editora Nova Stella- coleção Eixo, São Paulo, 1985, pp. 11 e 12).

Terei ocasião de analisar melhor esses textos em outra carta.

Por hoje, dou-lhe apenas uma citação de Guénon confirmando essa idéia de Olavo, e faço-lhe um esquema para elucidar o que disse Olavo repetindo, aliás, o ensinamento de René Guénon.

A citação de Guénon está no livro “O Esoterismo de Dante”.

Como você bem sabe, Olavo de Carvalho, tal como Guénon, se afirma esotérico e tradicionalista em religião. Ora, Guénon diz o seguinte:

“A questão, para Aroux, foi assim colocada: Dante era católico ou albigense? Para outros, a questão parece por-se mais nestes termos: ele era cristão ou pagão?” [repare que essas perguntas, feitas por Guénon com relação a Dante, são paralelas às que fazemos sobre Olavo: ele é católico ou muçulmano? Cristão ou Gnóstico?]

Continua a citação de Guénon:

“Pela nossa parte, não pensamos que se deva colocar num tal ponto de vista, porque o verdadeiro Esoterismo é outra coisa diferente da religião exterior, e que, se tem algumas relações com esta, só pode ser enquanto encontra nas formas religiosas um modo de expressão simbólico; pouco importa, aliás, que estas formas sejam as desta ou daquela religião, visto que se trata da unidade doutrinal essencial que se dissimula atrás da sua aparente diversidade. É essa a razão pela qual os antigos iniciados participavam indistintamente em todos os cultos exteriores, segundo os costumes estabelecidos nos diversos países onde se encontravam; é também porque ele via essa unidade fundamental, e não devido a um “sincretismo” superficial, que Dante utilizou indiferentemente, segundo os casos, uma linguagem própria do Cristianismo ou da Antigüidade greco-romana. A Metafísica pura não é pagã, nem cristã, é universal” (René Guénon, “O Esoterismo de Dante”, Editorial Vega, Lisboa, 1978, p. 17).

Se os antigos iniciados no esoterismo participavam de todos os cultos e de todas as religiões exotéricas, então Olavo de Carvalho, que é um esotérico e que defende as iniciações esotéricas, pode dizer que sua religião exotérica é o Catolicismo-Judaísmo-Islamismo-Hinduísmo e etc. Todos os “etceteras” do mundo.

As religiões exotéricas — Catolicismo, Judaísmo, Islamismo, Hinduísmo, etc — formariam o círculo exterior da “Tradição”, isto é, da Gnose, que seria o Centro desse círculo, e que Guénon chama também de “Metafísica” (Olavo de Carvalho adota o termo “Metafísica” no mesmo sentido que Guénon, ou ainda, como vimos, “Sabedoria”, como sinônimo de Gnose).

Da circunferência exterior, exotérica, partiriam caminhos, raios, que conduziriam ao centro, à Gnose. Esse caminhos seriam os vários esoterismos, cada um com seus métodos.

Sendo a Gnose o Conhecimento inefável, é impossível traduzí-lo em fórmulas racionais. Daí, os dogmas das religiões — a Fé — serem desprovidos valor maior. “É tudo bobagem” diz Olavo:

“Mas a fé não tem importância nenhuma, isso é negócio kantiano, é tudo bobagem” (Olavo de Carvalho, Aula do Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho, 6 de Junho de 1998, Bloco 8, p. 21 da Apostila existente no site de Olavo de Carvalho –, sem revisão do autor, in http://www.olavodecarvalho.org/forum/Forum17/HTLM./000053-2.html).

E nisso Olavo concorda exatamente com a Teologia gnóstica do Modernismo. O ex Frei Boff concorda com ele nesse ponto.

Para Olavo, “É evidente que a dimensão metafísica [e veremos que para Olavo Metafísica é igual a Gnose] não pode ser totalmente abrangida pelo discurso legalista da moral religiosa e pelos símbolos de um culto público; que ela subentende, para além do véu simbólico dos ritos e das leis, um sentido, captável pela pura inteligência metafísica [a Intuição] mas irredutível tanto à representação concreta quanto às tentativas de uma formulação doutrinal acabada” (Olavo de Carvalho, O Jardim das Aflições”, p. 241. O negrito é meu.).

As religiões seriam como vasos de formatos diferentes, mas seu conteúdo seria sempre o mesmo: a “Tradição”, isto é, a Gnose.

“A realidade divina foi muitas vezes comparada à água, que momentaneamente toma a forma do copo, para metamorfosear-se, conservando-se não obstante intacta, ao ser vertida em outro recipiente. Os cultos públicos são vastos sistemas de símbolos, ritos e mitos, que contêm essa água ao mesmo tempo que a ocultam.” (Olavo de Carvalho, O Jardim das Aflições, p. 241).

As religiões seriam os “vasilhames”. A Tradição, isto é a Gnose, seria a “água”…esotérica.

 Você me diria que estou me precipitando ao identificar a “Tradição” com a Gnose?

Pois veja o que diz o mesmo Olavo, em outro livro dele, numa nota ao pé de página:

“Usa-se às vezes para nomeá-lo o termo gnose, mas esta palavra serve para designar — de modo mais genérico e sem qualquer conexão com a resistência greco-romana ao cristianismo — o elemento intelectivo e cognoscitivo de qualquer tradição religiosa e espiritual, cristã inclusive”. (Olavo de Carvalho, O Jardim das Aflições, editora Diadorim, Rio de Janeiro, 1995, p.247, nota 127. O negrito é nosso. Os itálicos são do autor).

Ora, é exatamente isto o que ensina a Gnose Rosa Cruz. Segundo Jean Robin em sua biografia de René Guénon, quem fosse Rosa Cruz poderia participar de qualquer religião exotérica:

“Não se trataria, com efeito, para os membros dessa élite, de aderir a uma tradição estrangeira e, portanto, de praticar os ritos dela (pelo menos até que não tenham alcançado o grau de Rosacruz, onde evidentemente é possível participar indiferentemente de todas as formas). (Jean Robin, René Guénon, testimone della Tradizione, ed, Il Cinabro, Catania , 1993, p. 200).

Para Olavo de Carvalho, a Fé expressa pela Igreja Católica, por exemplo, é algo que, em face do esoterismo, não tem valor real. A única coisa que importaria seria o CONHECIMENTO, isto é, a Gnose.

É exatamente isso que está, na aula dele que você me mandou.

“Para algumas pessoas, buscar a sabedoria eliminaria a fé, o mistério. Mas a fé não tem importância nenhuma, isso é negócio kantiano, é tudo bobagem” (Olavo de Carvalho, Aula do Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho, 6 de Junho de 1998, Bloco 8, p. 21 da Apostila existente no site de Olavo de Carvalho, sem revisão do autor in http://www.olavodecarvalho.org/forum/Forum17/HTML./000053-2.html).

Embora sem revisão do autor, o fato dessa apostila estar há tempo no site de Olavo, sem restrição alguma, demonstra que o autor não se preocupou em corrigir os excessos de linguagem de sua exposição oral. A vantagem desse texto, sem correção do autor, é que ele dá uma idéia mais correta de qual é o verdadeiro pensamento de Olavo de Carvalho, sem retoques “exotéricos”.

Não gostaria de encerrar esta primeira carta, tratando de Guénon e de Olavo de Carvalho, sem mostrar como essa doutrina esotérica – exposta por Olavo, recebida de Guénon – é semelhante à do Modernismo, condenada por São Pio X. Porque o Modernismo dizia exatamente a mesma coisa: a revelação divina se dava no interior de cada homem. Ao tentar traduzir o sentimento religioso em palavras, deformava-se a revelação. Como resultado, todos os credos de todas as religiões seriam deturpações de uma única revelação interior. Todas as religiões poderiam se unir, se deixassem de lado as discussões teológicas, e procurassem unir-se no que tinham de comum: a revelação inefável interior, o Conhecimento divino inefável.

Ora, Olavo de Carvalho defende um princípio que se poderia dizer idêntico ao do Modernismo gnóstico:

“As religiões não falam da mesma coisa. É preciso ter compreendido isto para atinar que é a mesma Voz que fala por meio de todas elas” (Olavo de Carvalho, artigo Lembrete de Natal, in O Globo, 23 – XII- 2.000).

E essa doutrina prova que ele continuou a defender — em dezembro de 2.000, o que afirmara não aceitar mais em junho de 2.000 — que o esoterismo tradicionalista seria o núcleo esotérico de todas as religiões exotéricas.

Olavo se diz católico-judeu-maometano-hinduista, porque acredita que há um núcleo comum por trás de todas as religiões instituídas, o que lhe permitiria ser radicalmente ecumênico e não favorável a um ecumenismo eclético. Ora, esse núcleo comum é a Gnose.

A posição de Olavo é então a mesma que a do shiismo:

“É isto mesmo que nos mostra que a noção shiita do Imamato, o Imamismo, mergulha suas raízes na idéia de uma religião profética universal, da qual nós constatamos aqui a floração, ao mesmo tempo que distinguimos ainda mal a “corrente de transmissão” que a trouxe até o ecumenismo esotérico do shiismo que engloba a totalidade da hierohistória” (Henry Corbin, En Islam Iranien, Gallimard, Paris, 1971, I vol. p. 63).

E “A doutrina shiita é por excelência a Gnose do Islam” (Henri Corbin, En Islam Iranien, vol. I, p. 128)

Uma última questão a abordar referente ao Catolicismo, nesta primeira carta, que já vai longa: o que pensa realmente o sr. Olavo de Carvalho da Religião Católica?

Quem lê as primeiras linhas da carta que ele me escreveu, elogiando a defesa que faço da Fé católica, fica com a impressão de que ele é católico.

A mesma impressão se tem quando se lê seus artigos exotéricos anti comunistas, seus ataques a Frei Betto e a Frei Boff, e suas críticas ao Vaticano II. Olavo de Carvalho, nesses artigos, quer dar a idéia de que é defensor do Catolicismo, e de um Catolicismo tradicional . Ele seria até capaz de mandar algum discípulo dele, em que ele tivesse mais confiança, assistir missa tradicional com os chamados “tradicionalistas” lefebvrianos…

Ora, quando ele fala a um círculo mais restrito — ou mais esotérico — ele se mostra nada católico, e mesmo desrespeitoso do que é mais sagrado na Fe Católica.

Essa aula de Olavo que você acaba de me enviar, assistida por conhecidos nossos, e que pode ser encontrada no site de Olavo, criticando e dando conselhos à Igreja Católica, mostra muito bem como, de católico, ele não tem nada.

Foi dito que essa aula escandalizou até alguns católicos ingênuos que a assistiram. Tratando de “Filosofia” — e haverá o que comentar na estranha definição de Filosofia de Olavo de Carvalho — na segunda parte da aula, se lê o seguinte subtítulo, (que muito provavelmente não é de autoria de Olavo, mas de quem transcreveu o texto da fita gravada da aula, mas que bem indica o que Olavo de Carvalho vai dizer com relação à Igreja Católica):

“Crítica e Conselhos à Igreja católica”

(Olavo de Carvalho, Aula do seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho, junho de 1998, bloco n* 8).

Embora, como salientamos, o subtítulo acima citado não seja de Olavo, o que ele fez a partir desse ponto, na aula citada, foi exatamente dar “conselhos” e criticar a Igreja Católica.

Poder-se-ia, então, imaginar coisa mais pretensiosa e atrevida?
Um católico de verdade jamais ousaria tomar essa atitude.
Quem é que pode dar conselhos à Igreja Católica?
É muita pretensão!
E que crítica, e que conselhos, poderia dar Olavo de Carvalho à Igreja Católica do alto do pedestal de sua imensa presunção?

Vejamos:

“Se se quer ajudar a Igreja, é preciso falar a verdade com ela: é preciso pedir para eles pararem de mentir, de falar besteira e reconhecer que têm de cumprir seus deveres, sendo o primeiro deles o de não perder a hegemonia intelectual. A Igreja só começou a entender, por exemplo, o idealismo alemão apenas no século XX, porque até então estava tontinha, desorientada” (Olavo de Carvalho, Aula do seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho, junho de 1998, bloco n* 8, p. 19 da apostila que você me enviou).

Pode haver maior desrespeito e desprezo pela Igreja Católica do que existem nessa palavras?
Como um homem que ensina isso, vem me dizer que admira minha defesa da Fé Católica?

Você vê como o que ele diz pelos jornais é o oposto do que ele diz em aulas mais reservadas?
Aliás, não poderia ser diferente num autor que se confessa esotérico…

E continua ele:

“O primeiro dever da Igreja é entender tudo, porque o clero é um guia — [Note bem: um guia, e não o guia] — espiritual e intelectual da humanidade, é a mãe e a mestra. Agora, minha mãe [a Igreja] não está entendendo nada, está desesperada, está abaixo dos acontecimentos, e ainda fica querendo segurar-me e amarrar-me e fazer de conta que manda em mim. É uma palhaçada que tem que acabar” (Olavo de Carvalho, aula citada, p. 20 da apostila).

Palhaçada…
Usar a palavra palhaçada para referir-se ao que faz a Igreja Católica é um insulto.

Veja ainda o desrespeito escandaloso de Olavo de Carvalho por vários Papas:

“A primeira coisa que o Vaticano II colocou em prática foi o Pacto de Metz: o compromisso de não falar mal do comunismo. Basta colocar isso em prática, para dizer que toda essa Igreja está condenada: não se faz acordo com o diabo. João XXIII, Paulo VI são palhaços e chamo-os de palhaços, de idiotas para não chamar de coisa pior. Estou supondo a inocência do imbecil. E o inocente, o idiota, o que não sabe nada é quem vai guiar-me?” (Olavo de Carvalho, aula citada p. 20 da Apostila. – Os negritos são meus).

Nenhum verdadeiro católico — ainda que condenando o pacto de Metz — jamais insultaria Papas desse modo tão baixo e tão grosseiro.

Essas frases atentam contra a Igreja e contra o Papado. O que diz Olavo de Carvalho é uma injúria grosseira à Igreja e aos Papas, representantes de Cristo na terra.

Olavo de Carvalho não é Católico. Dizer-se ele católico, maometano, judeu, etc. é que é uma indução a falso testemunho, pois católico, pelo menos, ele não é.

E mais:

“Existe um limite para nossa capacidade de engolir bobagens em nome de uma autoridade. Mais do que isto estamos diante de uma tentação: vou-me jogar num precipício, vou afundar, foi Deus quem mandou, sou papa e sou infalível. Espere aí! Jesus Cristo nunca fez isso!” ( Olavo de Carvalho, aula citada, p. 25).

“Temos que agüentar tudo e dizer que o papa é infalível? Claro que não! Poderíamos dizer que o papa deveria ser infalível, mas não está sendo” (Olavo de Carvalho, idem, p. 25).

E quando o Papa não foi infalível, segundo Olavo?

“Sob vários aspectos tenho problemas com a Igreja Católica que não consegui resolver até hoje. Por exemplo, há uma bula papal do século passado que nega a liberdade de consciência, proclamando que ela é uma coisa execrável. Ora, se o sujeito faz isso, e depois diz que é infalível, ah, vá lamber sabão!” (Olavo de Carvalho, idem p. 19).

Quem proclamou a infalibilidade papal como dogma, no Concílio Vaticano I, e condenou a liberdade de consciência e de religião em encíclicas, e não em bula, foi Pio IX.

É a Pio IX que Olavo manda grosseirissimamente “lamber sabão”.

E, depois, vem me dizer, dulçuroso, que admira minha defesa da Fé católica?

É claro que Olavo de Carvalho não crê na infalibilidade papal, e que, portanto, não é católico de modo algum. Veja mais esta “pérola” olaviana:

“Além disso, a infalibilidade papal é decretada no século XIX, a mesma época em que o papa negou a liberdade de consciência. Uma coisa e outra não valem nada.” (Olavo de Carvalho, idem, p. 19)

Depois de passar longo tempo insultando a Igreja e os Papas, no final de sua aula de Filosofia, Olavo tem o atrevimento de dizer:

“Veja que não estou negando em princípio a infalibilidade papal, estou dizendo que o princípio está mal compreendido e que, pelo menos, não entendemos direito ainda” (Olavo de Carvalho, idem p. 27).

Pode haver maior contradição?

Você vê que discutir com uma pessoa tão dúplice em suas afirmações, e tão claramente contraditória, é perda de tempo. Ele estará pronto a afirmar qualquer coisa numa página, para depois negá-la na outra. Quando se fizer uma citação do que ele defendeu num mês, ele argumentará que já não defende mais aquela doutrina, para, seis meses depois, voltar a expor um pensamento baseado nela. Non solo “la donna è mobile”. Também Olavo muda “d’acento e di pensiero”.

Apesar disso, esse autor esotérico vem se proclamar escandalizado pelo fato de que citei um livro de segunda mão, — Oh!! Quel crime abominable! — e a protestar contra a afirmação de Marie-France James de que Guénon foi toxicômano (coisa, aliás, que Olavo não negou. Apenas protestou que eu citasse o fato sem ter antes criticado os “argumentos” de Guénon).

Refutou ele, por escrito, o livro de Marie-France James?

Estou esperando chegar da Europa o livro dela para que meu “crime” cesse, pois vou então citá-lo em primeira mão.

Mas, enquanto o livro não chega, poderia analisar o que é a Moral conforme Guénon e conforme Olavo…

******

Algumas observações sobre a Moral segundo Guénon e Olavo de Carvalho

Olavo mostrou-se especialmente indignado com a informação de Marie-France James de que Guénon era toxicômano. O que, repito, é secundário diante da acusação de Gnose e de apostasia. Ser toxicômano é violar a ordem moral, pecando contra a caridade. Ser gnóstico e apóstata é pecar contra a Fé, o que é imensamente mais grave.

Suponha-se que Guénon não tivesse sido toxicômano. Ele continuaria totalmente condenável por seu pensamento gnóstico que o levou à apostasia de seu batismo e de sua fé original.

Que dizem a Gnose sobre a Moral e o uso de tóxicos?

Conforme a Gnose, a lei natural e os dez mandamentos que a expressam são a Lei imposta pelo Demiurgo criador do mundo. Através da Lei e dos dez mandamentos, assim como através da matéria e da razão, o Demiurgo procurou manter as partículas divinas, os éons, aprisionados. Para que o homem voltasse a seu estado divino original, ele deveria violar a Lei do demiurgo, deveria desobedecer a todos os mandamentos. Daí o antinomismo comum às seitas gnósticas. Por isso, muitas seitas gnósticas incentivavam o uso de drogas, vendo nelas a libertação, quer da servidão da razão, quer da escravidão da Lei.

Por exemplo, é muito sabido que o ismaelismo de Alamut — uma das seitas islâmicas derivadas do Shiismo -, fazia largo uso do hashishe, palavra que deu origem ao termo designativo da seita fundada por Hassan Ibn Sabbah, em Alamut: “Assassinos.”

E que dizia Guénon da Moral? Admitia ele a Moral fundamentada na Lei natural e explicitada no Decálogo?

Vejamos:

“Quanto à moral, falando do ponto de vista religioso, notamos em parte o que ela é, mas nos resevamos então a falar do que se liga à sua concepção propriamente filosófica, enquanto ela é nitidamente diferente de sua concepção religiosa. Em todo o domínio da filosofia, não há nada que seja mais relativo e contingente do que a moral; para falar a verdade, nem se trata de mais de um conhecimento de ordem mais ou menos restrita, mas simplesmente de um conjunto de considerações mais ou menos coerente, cujo objetivo e alcance só poderiam ser puramente práticos, ainda que, muitas vezes, se tenha a ilusão a esse respeito. Com efeito, trata-se exclusivamente de formular regras que sejam aplicáveis à ação humana, cuja razão de ser reside inteiramente, aliás, na ordem social, porque essas regras não teriam nenhum sentido fora do fato que os indivíduos humanos vivem em sociedade, constituindo coletividades mais ou menos organizadas; e elas ainda são formuladas colocando-se sob um ponto de vista especial, que, em vez de ser apenas social como entre os Orientais, é o ponto de vista especificamente moral, estranho à maioria da humanidade.”

(…) “Fora do ponto de vista religioso que dá um sentido à moral, tudo o que se liga a esta ordem deveria logicamente se reduzir a um conjunto de convenções puras e simples, estabelecidas e observadas unicamente para tornar a vida em sociedade possível e suportável; entretanto, reconhecendo-se francamente este caráter convencional e tomando seu partido, não haveria mais moral filosófica.”( …) Aliás, se a moral, como tudo o que pertence às contingências sociais, varia grandemente em função da época e dos países, as teorias morais que aparecem num meio dado, por mais opostas que possam parecer, tendem todas à justificação das mesmas regras práticas, que sempre são aquelas que se observa em geral nesse mesmo meio; isto deveria bastar para mostrar que essas teorias são desprovidas de qualquer valor real, só sendo construídas por cada filósofo para posteriormente colocarem a sua conduta e a de seus semelhantes, ou, pelo menos daqueles que são os mais próximos em acordo com suas próprias idéias, e, sobretudo, com seus próprios sentimentos”. É notável que a eclosão dessas teorias morais se produza sobretudo nas épocas de decadência intelectual ( …)” (René Guénon, Introdução Geral ao estudo das Doutrinas Hindús, Ciências Tradicionais Michel F. Veber, São Paulo ,1989p. 164-165. O negrito é meu).

Perdoe-me a longa e muito enrolada citação.

Você vê bem que, para Guénon, a Moral é relativa, convencional, condicionada apenas ao mundo dos fenômenos e sem relação com a “Metafísica”, isto é com a “Intelectualidade”, entendidas no sentido gnóstico.

Se a Moral é um conjunto de convenções, o homem que atingiu seu “Centro”, através do “Conhecimento”, está acima das determinações da moral convencional…

Como diziam os gnósticos, o homem perfeito, o homem pneumático ou divino, está acima da lei do Demiurgo. Se assim é, por que Guénon não poderia usar tóxicos?

Isso, por si só, não demonstra que Guénon era toxicômano. Só mostra que a informação dada por Marie-France James não é, de si, incongruente com o pensamento de Guénon.

Quanto a Olavo, que diz ele sobre moral?

No Jardim das Aflições – nome bem escolhido para um livro que aflige por sua chatice — depois de criticar a Contra Reforma dizendo que “É preciso ser cego para não ver no seio mesmo da Contra Reforma (..) o influxo de novas concepções racionalistas e platonizantes”, Olavo escreveu:

“A racionalização do dogma, que se anuncia no Concílio de Trento, completa-se alguns séculos mais tarde na Teologia Moral de Santo Afonso de Ligório. Aí pela primeira vez na história do Cristianismo, dezoito séculos após a vinda do Salvador, os cristãos recebem o formulário completo de seus deveres e direitos, segundo uma hierarquia lógica rigorosa que não admite exceções, dúvidas ou nuanças de qualquer espécie: a moral cristaliza-se num sistema axiomático, salvação torna-se um problema de lógica jurídica, resolvido por métodos matemáticos. Se uma perfeita clareza teorética com relação aos deveres morais fosse absolutamente necessária à salvação, como teria podido esperar tantos séculos para vir à luz? Que teria sido de tantas gerações de cristãos dos séculos anteriores, vivendo na incerteza de um mero empirismo bem intencionado? A resposta é: a racionalização do código moral não é necessária à salvação, mas é necessária à economia interna da mentalidade racionalista. Depois disso, o espírito de formalismo legalista vai tomando posse da religião cristã em medida tal, que hordas de almas oprimidas sob o peso dos regulamentos encontrarão mais tarde alívio no protestantismo romântico”. (Olavo de Carvalho, O Jardim das Aflições, p. 187).

É claro que um homem que escreve tais coisas não tem noção do que é a moral católica.

Para a Gnose, a salvação advém do Conhecimento de que o homem é Deus. O homem se salvaria pelo simples fato de conhecer que seu espírito mais profundo — seu atma, diria Guénon — é uma parcela da Divindade. Ao ter esse Conhecimento, pelo próprio fato de conhecer isso, ele reúne seu atma à Divindade e se torna a Divindade, identificando e unindo seu atma e Brahman. Para salvar-se, a moral e a prática da virtude são absolutamente desnecessárias. Mais: é preciso desprezar a virtude e as leis morais.

Ora, é exatamente isso que se depreende da leitura da aula de Olavo de Carvalho que você me mandou.

No final da aula, ele diz que o essencial para salvar-se é ter o que ele chama de “Sabedoria”, que ele conceitua como sendo o que está por trás, e que é comum a todas as religiões, isto é, como vimos a Gnose (cfr. texto já citado de Olavo de Carvalho in Astrologia e Religião, p. 24).

Diz ele textualmente na aula de Filosofia que citamos:

“A sabedoria é eterna e o amor à sabedoria é premiado, independentemente de você ser cristão, muçulmano, judeu, ateu.” “É no plano da sabedoria que pode haver um diálogo inter religioso: cristão, judaico, mussulmano, só aí. Fora disso, não, em matéria de fé se embanana (sic) tudo, encontrando-se diferenças. É evidente que todas essas fés pressupõem a sabedoria, não a substituem de maneira alguma” (Olavo de Carvalho, aula do Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho, Junho de 1998, Bloco 8, no subtítulo Elogio da Sabedoria, p. 26 do texto. As variações ortográficas são do original.).

E, depois, comparando a “sabedoria” com a moral e as virtudes, diz ele:

“A sabedoria é necessidade básica do homem. E a santidade? A santidade vem depois, é perfeição, é para alguns. Uns conseguem, outros não, para isto mesmo é que existe o perdão, que existe a misericórdia” (Olavo de Carvalho, aula citada, p. 21).

“Isso [a Sabedoria] é o essencial para poder ser cristianizado. A virtude, por si, não quer dizer nada” (Olavo de Carvalho, aula citada, p. 26. O negrito e o sublinhado são meus).

E se Olavo pensa que “a virtude, por si, não quer dizer nada” que significa seu escândalo por Marie F. James acusar Guénon de toxicômano?

E ele diz ainda:

“A partir do século XIX começa a haver uma ênfase cada vez maior nos aspectos rituais e sentimentais, e na moral exterior, uma bobajada” (Olavo de Carvalho, aula citada, p.22). O negrito é meu).

Para Olavo, o importante é confiar no “Espírito Santo” — sabe-se lá o que ele entende por “Espírito Santo” — e não ter apego às regras morais:

“Se o sujeito quer saber, vai entender. Esse mínimo de confiança no Espírito Santo é preciso ter. Se você não tem esse, não adianta apegar-se a sua maldita bem, a sua maldita moral, a sua maldita santidade tudo isso é lixo, perto da falta de confiança no Espírito Santo” (Olavo de Carvalho, aula citada, p. 22. O negrito e o sublinhado são meus).

Sem dúvida, essa imprecação raivosa contra a moral e a santidade lembra o conhecido princípio luterano: “Crê firmemente e peca muitas vezes”.

Daí, desse desprezo da moral, vem a opinião absurda que Olavo emite sobre Santo Afonso de Ligório:

“Santo Afonso de Ligório platonizou a moral cristã, transformando-a num sistema dedutivo, axiomático, fazendo um mal desgraçado” (Olavo de Carvalho, aula cit. p. 19. O negrito é meu).

É assim que ele trata o maior Doutor da Igreja em Teologia Moral.

E como sabe Olavo o que é mal e o que é bem, se, para ele e para Guénon, a moral é relativa; se ele recusa a moral, e julga que ela é lixo, bobagem, etc.

Dispenso-me de citar as grosserias que Olavo de Carvalho diz sobre adultério, e como ele considera tal pecado coisa de somenos.

Mas uma coisa que impressiona nos escritos de Olavo de Carvalho é seu desprezo pelas pessoas.

Veja, por exemplo, seu preconceito depreciativo das empregadas domésticas, e seu relativismo moral, nesta frase:

“Eu não acho nada desonesto o que faz a Igreja Universal, acho apenas uma santa babaquice e não agüento cinco minutos daquele rito. Acho aquilo muito bom para empregadinha doméstica. Mas errado moralmente? Não tem nada de errado, está tudo certo, não havendo desonestidade nenhuma” (Olavo de Carvalho, aula cit. p. 19).

Imoral, para Olavo, é citar um livro em segunda mão…

Isso é que é coar o mosquito e engolir o camelo.

Há dois anos, Olavo escreveu um artigo intitulado Virtudes e Vícios, no qual se pode ler algo ilustrativo do que ele entende por moral.

“Virtude’ é termo em desuso. E quando se fala de “vício”, todo mundo entende apenas algo material como o fumo, a bebida e as drogas – esquecendo o ensinamento de Jesus de que o bem e o mal não estão naquilo que entra pela boca para o pulmão o estômago, mas naquilo que vem de dentro do coração” (Olavo de Carvalho, Virtudes e Vícios, artigo in O Expressionista. com, Rio de janeiro, junho de 1998).

Você compreendeu, meu caro Felipe, como o autor do artigo distorceu a palavra de Cristo?

Se alguém lesse apenas o texto de Olavo, poderia concluir que a fumaça da maconha ou o pó da cocaína não tornam o homem impuro, e que não é pecado tomar drogas. Ora, Cristo se referia aos alimentos proibidos pela lei mosaica, não negando por exemplo, que seja ilícito tomar veneno, embebedar-se ou comer demais.

O texto de São Marcos deixa isso mais claro:

“Não compreendeis que tudo o que, de fora, entra no homem, não o pode contaminar, porque não entra em seu coração, mas vai ter ao ventre e lança-se num lugar escuso? Com isto declarava puros todos os alimentos.” (Mc. VII18-19).

Num artigo intitulado “Fórmula de minha composição Ideológica”, publicado em 15–1-2001, Olavo de Carvalho afirma o seguinte com relação à moral:

Em moral, sou anarquista. Acredito que há princípios morais universais, permanentes, que a inteligência discerne por baixo da variação acidental das normas e costumes, e acredito, enfim, que há o certo e o errado. Mas, por isso mesmo, impor o certo é errado, a não ser em caso de vida e de morte.”

E mais adiante Olavo continua:

“Mas como podemos aprender, se um tirano paternalista nos proíbe de errar?”

Como você vê, caro Felipe, ele é mesmo um anarquista em moral. Ninguém pode impor o certo. O que leva a concluir que ele não aceita os Mandamentos de Deus, que, sendo Mandamentos, nos são impostos.

*****

Estou no final desta carta.. Mas não no final do assunto.

O post scriptum de Olavo me incentivou a fazer um estudo mais fundo da vida de Guénon. Vou escrever uma pequena biografia dele. Já li alguns livros… É tão interessante…

Também vou fazer uma análise de suas doutrinas e provar que René Guénon foi um gnóstico e um apóstata.

Para concluir, vou fazer um estudo das “doutrinas” de Olavo de Carvalho, para ver em que sentido ele é um seguidor de Guénon, isto é, em que medida Olavo é um gnóstico.

Pensava eu que estava livre de ler textos gnósticos delirantes e chatos. Muito chatos e repetitivos. Agora estou lendo René Guénon – que um aluno meu chama de René “Gnose” — e sofrendo aflições no “Jardim” do Olavo, que é tão rebarbativo e tão chato quanto uma capoeira de espinheiros.

Que fazer?! São espinhos e aflições do ofício.

Tempora mala sunt.

E chatos.

In Corde Jesu, semper, Orlando Fedeli

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