Montfort Associação Cultural

18 de agosto de 2010

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Seria Bento XVI o Papa de Fátima?

Autor: Emerson Chenta

  • Consulente: Robson Carvalho
  • Localizaçao: Pitangueiras – SP – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Profissão: Técnico Em Administração
  • Religião: Católica

Prezado Emerson,
Salve Maria.

Espero não estar tomando seu tempo, mas, com o falecimento do professor, não tenho mais a quem recorrer para sanar minhas dúvidas. O fato é, que temos ouvido falar da reforma da reforma que pretende dar um basta na baderna liturgica de nossa Igreja, e restaurar a missa de Sempre como forma ordinária da Igreja. Entretanto, fico me perguntando se isso realmente irá acontecer, pois as esperanças que são postas no papa Bento XVI, encontram nele próprio uma grande contradição.

Na carta que o papa enviou junto com a publicação do Motu Proprio, ele diz:

“Em primeiro lugar, há o temor de que seja aqui afectada a autoridade do Concílio Vaticano II e que uma das suas decisões essenciais – a reforma litúrgica – seja posta em dúvida. Tal receio não tem fundamento.”

“Não existe qualquer contradição entre uma edição e outra do Missale Romanum”

Ora Emerson, as duas formas do rito católico são invariavélmente contraditórias, pois a missa de Sempre é totalmente oposta a missa nova, sendo gritantes suas diferenças. Sendo assim como entender essa dupla posição do Papa Bento XVI? Será que realmente ele é o papa da visão de Dom Bosco?

Abraços em Cristo Jesus,
Robson Carvalho.
 

Caro Robson Carvalho, salve Maria!
 
Sua pergunta é interessante e não há resposta certa para ela, na medida em que exige o conhecimento do futuro e o futuro a Deus pertence. Por outro lado, é verdade, embora não tenhamos certeza do futuro, podemos e devemos avaliar os fatos que indicam tendências. Porque os fatos e as ações humanas indicam uma determinada intenção e os seus efeitos são inegáveis.
 
Veja que eu coloquei “fatos” no plural, porque ler a História como os protestantes lêem a bíblia, isolando frases e orações para justificar sandices proféticas, é como querer analisar as tendências com um fato isolado, com uma ação isolada, com uma frase isolada.
 
Mesmo assim, devemos ter em mente que a História e as ações humanas não seguem uma lógica rígida de causa e efeito como uma ciência natural, tornando previsíveis e necessários certos acontecimentos e movimentos (tendências), como pretende a ideologia marxista evolucionista. Muito pelo contrário.
 
Deus age na História.
 
Quem diria, na época, que o perseguidor Paulo de Tarso seria o Apóstolo da Igreja de Roma? Quem diria que Santa Joana D´Arc, uma simples camponesa, mudaria a Guerra dos Cem Anos?
 
Há aqueles que afirmam com toda certeza: esse Papa não é o de Fátima!
 
Longe de profetizar o futuro, a minha resposta consiste em uma análise do conjunto dos fatos ligados ao problema do Vaticano II e da reforma litúrgica, tendo a certeza (a certeza obrigatória a todo espírito católico) de que Deus não abandona os homens na História, muito menos a Sua Igreja; e em um pedido de oração contínua e de apoio a todas as ações do Papa que colaboram para a  realização das palavras de Nossa Senhora em Fátima: “E por fim o Meu Imaculado Coração Triunfará”, quando Nosso Senhor for devidamente amado e reverenciado no Santíssimo Sacramento do altar, quando as pessoas voltarem a viver da Fé, da Caridade com Esperança.
 
E que ações são essas? Que fatos?
 
Quando ainda Cardeal Ratzinger, no prefácio do livro de Mons. Gamber, afirmou:
 
“Depois do Concílio [Vaticano II] … em vez da liturgia como fruto de um desenvolvimento orgânico abandonamos o processo orgânico e vivo do crescimento através dos séculos, e se o substituiu — como num processo de manufatura — por uma produção fabricada, um produto banal do instante. Gamber, com a vigilância de um autêntico profeta se opôs a essa falsificação, e  graças ao seu conhecimento incrivelmente rico das fontes,  incansavelmente nos ensinou a respeito da plenitude viva de uma verdadeira liturgia.” (destaque nosso)
 
(“After the Council … in place of the liturgy as the fruit of organic development came fabricated liturgy. We abandoned the organic, living process of growth and development over centuries, and replaced it – as in a manufacturing process – with a fabrication, a banal on-the-spot product. Gamber, with the vigilance of a true prophet … opposed this falsification, and, thanks to his incredibly rich knowledge, indefatigably taught us about the living fullness of a true liturgy.”
(Gamber, Mgr Klaus, The Reform of the Roman Liturgy, Una Voce Press: San Juan Capistrano, CA, 1994, contracapa.)
 
Na publicação do livro Le sel de la terre (1994):
 
Cardeal Ratzinger:
 
“Estou certo que se deverá concordar cada vez mais generosamente com todos os que desejam o direito de celebrar o antigo rito. Não se vê nada que possa ser perigoso ou inaceitável. Uma sociedade que declara de uma hora para outra interditado aquilo que até então toda ela o tinha como o mais sagrado e elevado, e que diz ser inconveniente o lamento da perda, põe-se ela mesma em questão. Como crer nela ainda? Não vai ela amanhã proibir o que hoje sanciona?
Lamentavelmente, a tolerância em relação às fantasias aventurosas, está entre nós quase ilimitada, mas ela é inexistente no antigo rito. Estamos seguramente, portanto, em maus caminhos.” (pp.172-173)
 
No Livro Intitulado Ma Vie, Souvenirs (Fayard, outubro 1998)
 
Cardeal Ratzinger:
 
“O segundo grande acontecimento no começo dos meus anos em Ratisbona foi a publicação do Missal de Paulo VI, seguido da proibição quase total da missal tradicional, depois de uma fase de transição de seis meses.”
 
Cardeal Ratzinger:
 
“Eu fiquei consternado com a proibição do antigo rito, porque jamais se tinha visto isto na história da Igreja.”
 
“Quase que se fez crer que era tudo normal. O missal precedente de compilado por São Pio V em 1570 após o Concílio de Trento. Era normal que depois de 400 anos um novo concílio, um novo Papa apresente um novo missal. Mas a verdade histórica é outra: Pio V se contentou em revisar o missal romano usado na época, como se faz normalmente em uma história que se desenvolve. Assim, numerosos foram aqueles sucessores a revisarem este missal, sem opor um missal ao outro. (pp.132-133)
 
Considerando tais afirmações é de se pensar, então, por que não tomar ações mais drásticas com relação à Missa de Paulo VI e o Concílio Vaticano II e por que não abandonar essa vai-e-vem de críticas com ressalvas, que é inegável. Que é um fato, como você mesmo constatou.
 
No dia 13 de janeiro de 2001, retomando a negociação com Roma, Monsenhor Fellay reuniu seus conselheiros e estabeleceu dois pontos para realização do acordo. Primeiro, que fosse reconhecido o direito para todo padre da Igreja Romana de rezar a Missa no rito Tridentino; segundo, que as excomunhões fossem retiradas.
 
Resposta do Cardeal Castrillon Royos, Prefeito da Congregação do Clero, no dia 07 de maio de 2001:
 
“Aquilo que concerne à primeira condição – a liberação para todos da missa de São Pio V- um certo número de cardeais , bispos e fiéis julgam que uma tal permissão não deva ser concedida.
 
“Não que o rito sagrado precedente não mereça todo o respeito e reconhecimento ou que se desconheça sua solidez teológica e sua beleza…mas que essa permissão poderia criar uma confusão no espírito de muitas pessoas que a compreenderiam como uma depreciação do valor da Santa Missa que celebra a Igreja de hoje.” (La Bataille de la Messe, Paul Aulagnier, Éditions de Paris, pp. 128-129).
 
É claro que o pronunciamento oficial do Cardeal Hoyos é um pronunciamento de Roma. E revela duas certezas: a liberação e a celebração do rito de São Pio V nas Igrejas colocaria em xeque o rito de Paulo VI, pois ao colocar lado a lado as duas missas, ficaria mais clara a superioridade de uma sobre a outra e a total incompatibilidade entre os ritos, causando “uma depreciação do valor da Santa Missa que celebra a Igreja hoje”;  a preocupação de não causar confusão nos espíritos.
 
Isso antes de Bento XVI.
 
Se analisarmos o pontificado de Bento XVI, vemos que ele caminhado a passos largos nesses últimos cinco anos, criticando a modernidade, exaltando o valor do verdadeiro sacerdócio, retomando o verdadeiro significado da caridade (que só é possível com a verdade); criando um instituto com o direito de celebrar com exclusividade o rito de São Pio V e criticar construtivamente o Vaticano II; reestabelecendo, com o Motu Proprio Summorum Pontificum, o direito da celebração do rito de São Pio V e o direito dos fiéis de exigir tal celebração; realizando o levantamento das excomunhões dos bispos fiéis a Missa de Sempre e etc, em linha com as críticas que fazia aos problemas da reforma de Paulo VI quando ainda Cardeal.
 
Veja que todos esses fatos delimitam pontos de uma mesma reta, permitindo traçarmos e muitas vezes exigir certas conclusões. Quando o Papa Bento XVI lançou o Motu Proprio Summorum pontíficum, o levamento das excomunhões era vista como uma conseqüência lógica e exigida por muitos. Veja esse texto: http://la.revue.item.free.fr/regard_monde281207.htm
 
Desse texto, podemos resumir o seguinte:
 
Que o Papa compreende o caráter modernista e protestante da Reforma de Paulo VI.
 
Que o Papa tem um problema sério para resolver na Igreja e vive um drama. Vejamos:
 
Desde seu discurso sobre a hermenêutica da continuidade, o Papa é categórico em negar que tenha havido, quer na Missa quer no Concílio V. II, qualquer ruptura com o passado.
 
Por isso ele negou, no Moto Proprio Summorum Pontificum, a existência de dois ritos. Afirmou que são apenas duas formas de um mesmo rito. Se tivesse aceitado que são dois ritos, teria que admitir uma ruptura, “fabricou-se” um novo que substituiu o antigo.
 
O Papa julga – parece evidente – que para evitar o escândalo, a divisão, os cismas e outros problemas mais, deve-se negar qualquer ruptura. 
 
Entretanto, o livro que o Papa recomenda, inclusive pedindo aos padres do IBP que o assumam como seu pensamento (“qu’on la fasse nôtre”), declara: há uma ruptura entre o Rito Romano e a Missa de Paulo VI. Há dois ritos: o antigo e o “moderno” (termo aplicado ao Novus Ordo por Mons. Gamber).
 
Por isso, caro Robson, rezemos pelo Papa Bento XVI para que ele não tenha medo dos lobos e conduza a Santa Igreja cum consilio et sapientia. Para que ele seja o Papa que caminha “vacilante e cambaleante” para um monte encimado pela Cruz.
 
Na certeza de que, se ele não é o Papa de Fátima, sem dúvida, já colaborou e colabora com o retorno prometido. Que ainda não aconteceu, como Ele mesmo afirmou no último 13 de maio.
 
Um grande abraço.
Salve Maria,
Emerson Chenta

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