Montfort Associação Cultural

27 de janeiro de 2005

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Sentimentalismo e RCC

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: anonima
  • Localizaçao: – Brasil

Caro Sr Orlando

Venho através deste email expressar minha opinião sobre o que li neste site. Sei que sou apenas mais uma pessoa a ter a esperança da tentativa, sei também que minhas idéias podem ser todas repudiadas, mas eu escrevo mesmo assim.
Sou uma jovem de 16 anos, engajada na Igreja, dentro da RCC, participo de um grupo de oração, tenho procurado missa diária, aos sábados adoro ajudar na missa, cantando e animando este encontro tão maravilhoso com Jesus.
Encontrei este site em um site de busca, e não me contentei somente com o que eu procurava. Li sobre determinados assuntos, os quais especifico nas linhas seguintes:

- Sobre a RCC: acredito eu que nada do que eu disser aqui irá mudar a maneira de pensar que vocês cultivam sobre a RCC. Mesmo assim, digo as maravilhas que tenho visto acontecer dentro dela. Acabo de participar de um retiro de carnaval, e apenas em três dias, em torno de cem jovens saíram deste retiro com amor no coração, curados de traumas e vícios, muitos retomaram a vontade de viver, e o que é mais lindo: viver para Cristo. Jovens curados de problemas com drogas, sexo, bebidas, que com certeza irão sair para este mundo novamente, mas com outros olhos, com o fogo de Deus em seus corações.
Acredito que o que acontece dentro de retiros, comunidades e grupos de oração não é apenas fruto de uma enganação da mente. Existem testemunhos maravilhosos de pessoas que mudaram sua vida ao receberem Deus em seus corações e o calor do Espírito Santo, de comunidades que fizeram maravilhas nas igrejas de todo o país, resgatando as pessoas à missa e ao encontro com Jesus.
Será que os senhores já se sentiram assim em suas vidas?
Com uma alegria que ultrapassa o coração? Não digo estas palavras por estar “cega” ou porque alguém tenha feito “lavagem cerebral” em mim. E sim por viver e presenciar as graças de Deus. Verdadeiros milagres, verdadeiras provas de amor com todos nós, que somos pecadores.
Se a RCC não fosse algo de Deus, de Jesus e Maria, e do Espírito Santo, com certeza não haveria tantas bençãos derramadas sobre nós.
Eu, particularmente, não participava da missa, e como muitos, achava a Igreja extremamente conservadora. Não que ela deva mudar seus princípios, mas que usasse de outros meios para levá-los até as pessoas, pois percebia que as Igrejas estavam cada vez mais vazias, principalmente de jovens. Com a renovação, isto muda, as pessoas se sentem atraídas ao amor de Deus e pelos irmãos. Nisto, devemos reconhecer, os evangélicos estão à nossa frente, pois eles souberam usar meios de chamar a população, com alegria e calor.
É nosso dever resgatar todos, sem excessão, à nossa Igreja Católica, a única fundada pelo Jesus vivo, e nada melhor do que fazer isso com amor.
Gostaria muito de ver os senhores falando de amor neste site. Falam tanto de Deus, da Igreja, mas Deus é amor, a Igreja também. Então falem de amor, não com palavras agressivas até, como li em muitas respostas a leitores. É nosso dever levar esse amor àqueles que ainda não o conhecem, e não privá-los de toda graça e glória de Deus.

- Sobre o perdão: algo que me assustou muito foi ler em uma resposta ao email de um leitor, que agora não me lembro o nome, o senhor falando sobre perdão. Ele iniciou seu email fazendo um pedido de perdão caso o ofendesse, e a resposta foi direta, dizendo que o senhor iria pensar se ele mereceria o seu perdão. Sei que o senhor está cansado de saber que Jesus mandou perdoar, mas parece não trazer isto à sua vida. Como pode querer pensar se a pessoa merece o perdão? O perdão é incondicional, não necessita de pré-requisitos, apenas pra Deus, pois perdão sem arrependimento não existe. O único que pode nos julgar é Deus, e mesmo assim o faz com amor. Não podemos ver as atitudes de uma pessoa, e sim tudo aquilo que levou ela a agir desta maneira. Assim como um pai perdoa o filho depos de tantas faltas, simplesmente porque o ama, nós podemos perdoar. Não acredito que o senhor fale tanto que não devemos julgar, se faz isso através de algo tão lindo que é o perdão. Se DEUS nos perdoa, na sua grandeza e majestade, nós que somos tão pequenos perto dELe podemos e devemos perdoar também.
Isto também é amor. O amor tão falado pela Igreja e por Jesus, Nosso Senhor.

- Sobre esta Associação: gostaria de saber se todos vocês são tão leigos quanto eu na Igreja católica, e como vivem dentro desta Igreja. Orações, jejum, comunhão diariamente na Santa Missa, confissões…

- Sobre a Igreja: acredito na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. Acredito que nos dias de hoje, ela não pode se mostrar “fria”, de portas fechadas ao povo. Podemos usar meios poderosos para atrair as pessoas para ela: talvez meios de comunicação, mas o maior meio de comunicação que existe, repito, é o amor, e os nossos testemunhos de vida.
Hoje sinto amor pela Igreja Católica, por saber que ela existe através de Jesus, e por saber que vive até hoje.
Não acho justo olhar apenas o passado da Igreja, tenham sido cometidos erros ou não. Devemos olhar pra frente, apostas no futuro, porque o que foi não volta mais. Se vivermos do passado, o que será do futuro desta geração que cresce no início deste novo século?

Por enquanto é isso o que eu tenho a falar. Não vim escrever este email para julgá-los, longe de mim, só vim demonstrar minha opinião a respeito das coisas que vi.
Não é por eu ser uma adolescente, jovem, participante ativa da Igreja e da RCC, que eu não tenha este direito e não possa amar a Deus também como todos aqui. Rezo por todos, para que possam sempre se tornarem o mais próximo de Deus que seus corações permitirem.
Na esperança de ser acolhida e não rejeitada pelos meus pensamentos, me despeço.
Que a paz de Jesus Cristo e o amor de Maria estejam junto
a vocês por toda a vida.

E.

Prezada “E. “
Salve Maria !

Li o que você me escreveu com atenção, e fiquei com muita pena de você e de tantos outros — como você — que estão de tal modo iludidos por uma mentalidade romântica, deturpadora da verdadeira mentalidade católica.

Não vá me acusar imediatamente de faltar com o “Amor” por lhe falar com franqueza. A verdadeira caridade exige franqueza.

É um falso amor o do romantismo que visa apenas a doçura e não a correção, e que, para manter-se doce, acaba por ser nada franco e nem sincero.
Você deveria saber que o catecismo ensina que uma das obras de misericórdia que devemos praticar é a de corrigir os que erram.
Corrigir com doçura, me ponderaria você.
Não. Nem sempre.
Há vezes que a correção deve ser dura. É o que se depreende do Evangelho, onde vemos Nosso Senhor — manso e humilde — tomar o chicote contra os vendilhões do Templo, e acusar os fariseus e os Doutores da Lei de “hipócritas”, de “sepulcros caiados”, de “filhos do demônio”, de “víboras”, etc.
Se pessoas da RCC vissem e ouvissem Jesus atacar os fariseus desse modo, diriam que Ele não estava agindo com amor… Tentariam corrigí-lo, dizendo que, com esse método, Cristo afastava as pessoas da religião, que era preciso ser amoroso, e etc.
Minha cara “E.”, você deveria estudar o Catecismo, ler os Evangelhos, meditar sobre como Jesus agiu.
E imitá-lo também quanto a correção.

Para você a religião é sentimento. E isto é um falseamento romântico da religião católica.
Veja, por exemplo, o que você me diz:

“Acabo de participar de um retiro de carnaval, e apenas em três dias, em torno de cem jovens saíram deste retiro com amor no coração, curados de traumas e vícios, muitos retomaram a vontade de viver, e o que é mais lindo: viver para Cristo. Jovens curados de problemas com drogas, sexo, bebidas, que com certeza irão sair para este mundo novamente, mas com outros olhos, com o fogo de Deus em seus corações”.

Que certeza você tem disso? Como sabe você que “muitos retomaram a vontade de viver, e o que é mais lindo: viver para Cristo”? Você tem radiografia espiritual para saber disso?
Você deveria dizer que espera e que reza para que esses moços tenham bons propósitos, mas só Deus conhece os corações.
E sua expressão de que “é lindo viver para Cristo” indica uma inexperiência do que seja a vida espiritual muito grande, como revela também um romantismo maior ainda. Que significa, para você, viver para Cristo? E que significa para você que isso é “lindo”?
Seu otimismo romântico e sua inexperiência se refletem ainda na suposição ingênua de que os que sairam do retiro, depois de três dias, abandonaram drogas, sexo, e bebida.
Deus queira que seja assim.
Mas, o que ensina a Igreja Católica sobre esses problemas e sobre a dificuldade das conversões mostra que seu otimismo é irrealista. Tenho mais de quarenta anos de experiência de apostolado, lidando com jovens, e a graça de Deus tem abençoado muito meu trabalho, pois tenho convertido um número bem grande de jovens. Alguns já não estão mais tão jovens pois que estão comigo há mais de 40 anos, praticando fielmente a religião. E considerando os bons exemplos de virtude que eles dão, poderia eu dizer com Isaac, que os “perfume de meus filhos é como o de um campo que o Senhor abençoou”, apesar de minha indignidade.

É muito raro que alguém saia de um retiro e abandone todos os vícios, do modo como você diz. Tomara que você esteja certa, e que essas pessoas, de fato, tenham vencido suas tentações e problemas, passando a ter uma vida exemplar, na prática de todos os mandamantos. Tomara…
Daqui a alguns anos, se eu ainda estiver vivo, gostaria de ver sua profecia realizada. Mas… a experiência traz outra visão, minha cara “E.”.

Que você não tem provas dessas conversões e nem do que afirma, você mesma deixa transparecer em sua carta dizendo:

Acredito que o que acontece dentro de retiros, comunidades e grupos de oração não é apenas fruto de uma enganação da mente.”

Você acredita, isto é, julga, acha…
É um puro achar, é um puro sentimento que faz você pensar assim. Mas você teme que haja “uma enganação da mente”…
Você mesma duvida.
Você me diz ainda:

“Existem testemunhos maravilhosos de pessoas que mudaram sua vida ao receberem Deus em seus corações e o calor do Espírito Santo”

Minha cara, não existe termômetro para medir o calor do Espírito Santo nos corações. Não existe meio humano de comprovar que as pessoas receberam Deus em seus corações. Isso é crendice de protestantes que garantem que tiveram uma “experiência com Jesus”.
A Sagrada Escritura nos ensina que “triste é a condição do homem, pois que não sabe se é digno de amor ou de ódio”. Nenhum de nós sabe se está no amor de Deus, apenas esperamos estar em sua graça, sem jamais ter certeza disso. E pensar o contrário, minha cara “E.”, é grave erro contra a fé.
Você quer mais uma prova de seu romantismo fundamental (e o Romantismo não é católico, e sim gnóstico)?
Pois lha dou já. Você me pergunta:

“Será que os senhores já se sentiram assim em suas vidas? “

Não.
Nao senti.
Minha cara a fé não é um sentimento. Deus pode nos dar, por vezes, um sentimento de alegria espiritual, mas não é o sentimento que prova que estamos com Deus. Antes, a Igreja previne que não nos deixemos enganar pelos sentimentos. É a Fé que importa e não os sentimentos. E a Fé é uma virtude intelectual e não um sentimento. Foram os Modernistas que reduziram a Fé a um sentimento interior, e eles foram condenados por isso pelo Papa São Pio X, na encíclica Pascendi.

Se você não se zangar comigo, aponto-lhe outra erro grave em sua carta.

Você garante que:

“O perdão é incondicional, não necessita de pré-requisitos, apenas pra Deus, pois perdão sem arrependimento não existe.”

Minha cara, o perdão exige requisitos, sim. Exige dois requisitos para ser concedido: o arrependimento e o firme propósito.
Embora devamos estar prontos a perdoar, e devamos desejar perdoar, e principalmente desejar que Deus perdoe o pecado e a injustiça que foram feitos contra nós, só devemos dar nosso perdão, caso quem nos ofendeu peça o nosso perdão, e se mostre arrependido e não querendo repetir a ofensa.
Se alguém lhe dá um tapa na cara e lhe diz: “Perdoe-me. Amanhä lhe darei outro tapa”, é claro que você não estará obrigada a dar o seu perdão a essa pessoa, ainda que deseje que ela se arrependa verdadeiramente. Por isso, devemos desejar primeiro que os maus se arrependam, para que Deus possa perdoá-los. Sem arrependimento e firme propósito de emenda não recebemos o perdão de Deus na confissão.
Será que você me perdoa estas correções?
Haveria muitas outras a fazer, mas não quero sobrecarregar sua alma.
E, como prova de que não lhe guardo rancor por seu juízo precipitado sobre minha falta de amor, me coloco à sua disposição para responder suas dúvidas.
E que Deus a faça inteiramente católica também de mentalidade. E que Ele lhe dê a sua paz, que não é a do mundo. A paz que, como dizia Santa Joana d”Arc — uma santa doce e amorosamente guerreira –a paz que só se consegue na ponta de uma lança. Que a lança do verdadeiro amor de Deus atravesse seu coração, é o que lhe desejo

in Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli.

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