Montfort Associação Cultural

24 de janeiro de 2005

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São Gregório Magno

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Josimar
  • Localizaçao: – Brasil
  • Religião: Católica

Ouço falar que Gregório Magno se destacou como consolidador da ordem papal na Igreja.
Gostaria de saber mais sobre Gregório, sua história, seus pensamentos e realizações..

Grato
Josimar

Prezado Josimar, Salve Maria.

Perdoe-me a demora em responder sua pergunta. É que estive viajando e dando palestras, o que retardou as respostas do site. Mesmo agora, entre duas viagens, só tenho tempo de lhe dar uma resposta resumida, quando gostaria de enviar-lhe uma pequena biografia desse grande Papa, como poucos houve.

São Gregório, o Grande, nasceu em Roma em 540. Era filho de um senador romano, Gordiano, e de Santa Silvia. Os pais eram muito ricos. Conta-se que duas de suas tias também foram santas, Santa Tarcila e Santa Emiliana.

Gregório dedicou-se desde muito jovem aos estudos, alcançando uma grande erudição e, ao mesmo empo, uma grande piedade e virtude. Aos 30 anos ele foi nomeado Pretor de Roma, cargo que naqueles tempos de convulsão pelas invasões bárbaras, era equivalente a governador da cidade.

Atraído pela vida religiosa dos monges da Ordem de São Bento, Gregório resolveu entregar-se à vida religiosa. Quando morreu seu pai, Gregório recebeu como herança a fortuna de sua familia, e com esses bens fundou e dotou seis mosteiros na Sicília e um sétimo em Roma, dedicado a Santo André.

Ele distribuiu grande parte de seus bens aos pobres.

Em 575, S.Gregório entrou para o mosteiro. Uma doença estomacal o impedia de jejuar como os demais monges. Por isso, rogou a Deus que o curasse, para poder jejuar. Deus o atendeu, e, curado, passou a jejuar como os demais.

Em 576 ele se tornou Abade de Santo André, e dois anos depois, o Papa o enviou a Constantinopla como embaixador em missão especial. Lá, S. Gregório viveu como monge, apesar de sua missão.

Foi no perírodo em que estava em Constantinopla que Gregório escreveu seus Comentários ao Livro de Jó, os Moralia. Esse é um dos livros mais extraordinários escritos sobre um livro da Sagrada Escritura. O próprio São Tomás de Aquino só fez do livro de Jó um comentário “ad litteram”, ou seja, palavra por palavra, porque julgava que tudo o que podia ser dito desse livro do ponto de vista analógico, moral e místico, já fora dito por São Gregório Magno.

Em 590, S. Gregório foi eleito papa em votação unânime. Escreveu ao Imperador de Constantinopla que interviesse, não confirmando sua eleição. O Imperador, que bem o conhecia, deixou de atendê-lo. Ele então fugiu para não ser coroado Papa, mas uma luz milagrosa apontava seu esconderijo.

Ele irá governar a Igreja como Papa até 604.

Foi São Gregório que enviou um grupo de 40 monges de seu antigo mosteiro à Inglaterra, sob a liderança de Santo Agostinho (o de Cantuária, que não deve ser confundido com Santo Agostinho de Hipona).

Santo Agostinho de Cantuária foi o grande apóstolo dos anglos, convertendo os saxões. Ele foi o primeiro Bispo de Canterbury, que se tornou, desde então, capital religiosa da Inglaterra.

São Gregório, como Papa, foi um exemplo de humildade. Quando recebia louvores pelo que fazia, repondia com palavras que indicavam como era grande sua humildade.

Escreveu uma obra — A Regra Pastoral, ou simplesmente Pastoral — tratando dos deveres de um Bispo. O livro se tornou um clássico, sendo requerido que todos os Bispos do mundo nele pautem sua conduta.

Em certo ponto desse livro, dizia São Gregório:

“Os bispos são os olhos do povo. Se os que governam o povo não têm luz, os que lhes estão submetidos só podem cair em confusão e erro”.

Trata-se de verdade que hoje podemos bem constatar, desgraçadamente.

O primeiro cuidado que São Gregório teve como Papa foi o de reformar sua casa, eliminando dela todos os membros leigos.

Teve sempre muita preocupação com os pobres, numerosos em Roma naqueles tempos de decadência, mandando que se lhes distribuísse comida diariamente.

Ele mesmo convidava todos os dias 12 peregrinos à sua mesa, e ele mesmo fazia questão de servi-los.

Conta-se que, um dia, o próprio Cristo foi um dos peregrinos a quem ele atendeu.

Certa vez, um abade lhe pediu ajuda monetária para seu convento. Mais tarde, porém, se arrependeu por julgar que pedira muito ao Papa. Por isso, diminuiu duas vezes a quantia pedida. São Gregório, constatando a virtude do abade, o atendeu dando tudo o que ele inicialmente pedira e ainda mais, por generosidade pessoal.

Ao rei dos visigodos que se convertera com grande número de seus súditos, São Gregório escrevia:

“Pela misericórdia de Deus, uma coisa me consola é que a obra santa que não tenho em mim, eu a amo em vós, e, enquanto me rejubilo em vossas ações com uma grande alegria, o mérito que é vosso pelo vosso grande trabalho, se torna também meu pela caridade”.

A São Leandro , Bispo de Sevilha, São Gregório escreve ao mesmo tempo com grande caridade e santa admiração, sem espírito de bajulação:

“Eu deveria acrescentar uma instrução sobre o modo como deve viver um Bispo, mas eu a suprimo, porque vós já prevenistes o que eu deveria escrever pelas vossas próprias obras”.

Não poderia faltar a um Papa santo o zelo pela defesa da Fé. Por isso, São Gregório procurou combater de todos os modos as heresias que grassavam em seu tempo, como o Donatismo, na África.

É a São Gregório que se deve a conversão dos povos da Córsega e da Sardenha ao cristianismo, já que enviou a essas ilhas seus monges missionários.

Ele mandava cartas para serem lidas aos camponeses, a fim de levá-los à melhor prática da religião.

A um eclesiástico que negligenciava fazer justiça a alguém que tivera suas terras roubadas, São Gregório escrevia:

“Eu soube que vós conheceis que uma terra pertencente a uma pessoa lhe foi tirada, e que vós, por respeito humano, não ousais faze-la devolver a seu proprietário. Se vós sois realmente cristão, vós temeríeis o julgamento de Deus mais do que os discursos dos homens. Tomai cuidado sobre o que eu vos previno a esse respeito. Porque, se vós negligenciardes fazer o que vos digo, minhas próprias palavras darão testemunho contra vós (diante de Deus)”.

Como estas palavras calham bem a Bispos que hoje, infelizmente, incitam a violar propriedades alheias!

O zelo de São Gregório se estendeu à liturgia, regrando ele com seu Antifonário o que se deveria cantar nas cerimônias sagradas, e como se deveria cantar. Ele estabeleceu mesmo uma escola de canto litúrgico em Roma.

Também se preocupou com as infiltrações de erros judaizantes e com as superstições. Assim escreveu contra os que proibiam trabalhar aos sábados, como se esse dia fosse o dia de Deus:

“Soube que alguns semeiam entre vós erros e que proíbem trabalhar aos sábados. Que direi eu deles, senão que eles são pregadores do Anticristo?”.

E quantos pregadores do Anticristo se encontram neste século XX !

Muito mais gostaria eu de dizer-lhe deste Papa extraordinário. Infelizmente, minha limitação de tempo e de espaço me obrigam a deter-me por aqui.

Mas não quereria, antes de encerrar esta resposta, deixar de lhe recomendar que — sendo-lhe possível — leia os comentários de São Gregório ao Livro de Jó. É uma das obras mais espetaculares que se possa ler.

Quem sabe, um dia, possa eu fazer algumas notas sobre alguns pontos desse livro.

Enquanto isso, recomendando-me a que reze por mim a São Gregório, despeço-me

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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