Montfort Associação Cultural

10 de fevereiro de 2005

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Santo Agostinho e o Primado de Pedro

  • Consulente: João Martins da Silva
  • Idade: 50
  • Localizaçao: Belo horizonte – MG – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação concluída
  • Profissão: Professor Universitário
  • Religião: Católica

Prezado Professor Orlando Fedeli,

Salve Maria, Salve-nos Jesus!

Encontrei uma interpretação sobre a “pedra da igreja”, atribuída a Santo Agostinho, que difere da doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana. Gostaria, então, que o senhor respondesse a uma só pergunta:- Agostinho disse ou não disse o que lhe é atribuído no texto abaixo?

“Segundo as palavras de Agostinho, no quinto século, as palavras “tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a minha igreja” não se referiam à pessoa humana do apóstolo, mas, sim, à confissão que Pedro fizera da divindade do Cristo: “Tu és o Cristo, filho de Deus vivo”. A confisssão da divindade do Cristo, diz Agostinho, é a pedra fundamental da igreja. Acrescenta Agostinho que a pessoa de Pedro, que é chamada por Jesus “carne e sangue”, não podia ser a pedra fundamental da igreja. Pouco depois, Jesus chama Pedro “satanás”, por ter pensamentos humanos e não divinos.
A pedra da igreja é a divindade do Cristo confessada por Pedro.
Mais tarde, por motivos herárquicos e políticos, foram as palavras de Jesus interpretadas em outro sentido, como se Jesus tivesse conferido à pessoa humana de Pedro o título de pedra fundamental.”

Fonte: ROHDEN, Huberto. A Mensagem do Cristo. Martin Claret, p. 95.

Gostaria que o senhor, além de enviar-me uma resposta, publicasse-a no “sitio” da Montfort.

Saudações cristãs, com grande respeito por
Maria, mãe do filho de Deus

João Martins da Silva

Roma locuta, causa finita est (Sermão 131,10).
“Roma falou, causa encerrada”
Santo Agostinho
 
Prezado Prof. João Martins, salve Maria, mãe de Deus
 
Primeiramente peço-lhe desculpas por ter que responder a sua carta no lugar do Professor Orlando, que está viajando. Vou tentar responder a sua pergunta sobre o ensinamento de Santo Agostinho pertinente ao primado de São Pedro.
 
O texto de Hubert Rohden que você nos envia, informa que Santo Agostinho teria dito, A confissão da divindade do Cristo, diz Agostinho, é a pedra fundamental da igreja” -  infelizmente o autor não cita o documento - e continua ainda:
 
“Mais tarde, por motivos herárquicos e políticos, foram as palavras de Jesus interpretadas em outro sentido, como se Jesus tivesse conferido à pessoa humana de Pedro o título de pedra fundamental.” 
 
O que posso lhe responder é que tal conclusão é totalmente falsa, pois Santo Agostinho, assim como os demais Padres da Igreja, defendia o primado de São Pedro, e consequentemente, o Papado. Aliás, é bem absurdo tentar separar o homem daquilo que ele professa, ou seja, afirmar que a Pedra seria a confissão de Pedro, e não Pedro também. Se fosse assim, a Confissão de Pedro não seria de Pedro. 
 
Veja os exemplos do próprio Santo Doutor da Igreja:
 
Sermões 295,2: Entre estes somente Pedro mereceu representar toda a Igreja. Por causa desta representação da Igreja, que somente ele conduziu, mereceu escutar “Eu te darei as chaves do reino dos Céus”
Carta 53, 2: Desta forma, se a linha sucessória dos apóstolos deve ser levada em consideração, com que maior certeza e benefício à Igreja devemos retornar até alcançar o próprio Pedro, a quem, como uma figura que comporta toda a Igreja, o Senhor disse “Sobre esta pedra edificarei e minha Igreja, e os portões do inferno não prevalecerão contra ela”.
 
Note que no texto acima, Santo Agostinho chega a identificar São Pedro com a própria Igreja.
 
Sermão número 26, sobre Mt 14,25, diz que:
1. O Evangelho que acabou de ser lido ensina que o Senhor Cristo, que andou sobre as águas, e o apóstolo Pedro, com quem Ele estava caminhando, e que cambaleou através do medo, e começou a afundar pela falta de confiança, reerguido pela confissão, nos traz o entendimento que o mar é o nosso mundo ao redor, e o apóstolo Pedro a imagem da Igreja. Pois Pedro, o primeiro entre os apóstolos, e que confessa grande amor a Cristo, responde na maior parte das vezes sozinho pelos outros. Novamente, quando o Senhor Jesus Cristo perguntou quem os homens diziam que ele era, e quando os discípulos deram várias definições dos homens, e o Senhor perguntou de novo quem ele era, para os homens, Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Um, entre todos, respondeu, a unidade entre vários. Então disse o Senhor a ele “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas,porque isso não te foi revelado por alguém de carne e sangue, e sim meu Pai do céu”. E Ele acrescentou, “Pois eu te digo”, como se estivesse dizendo “Assim como tu disseste de mim “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”, eu te digo “Tu és Pedro”", pois antes ele era chamado Simão. 

Vemos que Santo Agostinho não rejeita que São Pedro esteja em posição de destaque entre os apóstolos. E como demonstrado acima, Santo Agostinho ensina o primado de Pedro. 

Além disso, há sua famosa afirmação Roma locuta, causa finita est (Sermão 131,10). Vemos, portanto, que Santo Agostinho, na verdade, era um árduo defensor do papado.

Algo particular que Santo Agostinho ensinou, é que São Pedro na passagem Mt 16,18-19 “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja e as portas do inferno não a vencerão. Eu te darei as chaves do Reino dos céus.” não recebeu sozinho o poder das chaves, e sim toda a Igreja. Na época O Santo Bispo de Hipona combatia os hereges Montanistas e os Novacianos que negavam o poder da Igreja de perdoar os pecados, e esses últimos diziam que tal poder era pessoal, e teria desaparecido com a morte de São Pedro. Eis mais um dos textos de Santo Agostinho, sobre esse tema:

Comentário ao Evangelho do III domingo da Páscoa – ano C (Jo 21,1-19)

Quando interrogava a Pedro, o Senhor interrogava também a nós
Quando ouves o Senhor dizendo: Pedro, tu me amas? (Jo 21,16), lembra-te de um espelho e procura ver-te nele. Pois que outra coisa Pedro aí fazia se não representar a Igreja? Por isso, quando interrogava a Pedro, o Senhor nos interrogava também a nós, interrogava a Igreja. Para saberes que Pedro era figura da Igreja, recorda aquela passagem do Evangelho: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja e as portas do inferno não a vencerão. Eu te darei as chaves do Reino dos céus (Mt 16,18-19).
É um homem só que as recebe. Quais sejam as chaves do Reino dos céus ele explicou assim: O que ligares na terra será ligado nos céus e o que desligares na terra será desligado nos céus (Mt 16,19).
Mas, se apenas a Pedro é que isso se disse, somente Pedro é que fez isso: morreu e partiu. Quem, portanto, liga e quem desliga? Ouso afirmar que também nós temos essas chaves.

Não só Santo Agostinho defendeu o primado de Pedro, como também muitos outros Padres da Igreja, bem mais antigos que o próprio Bispo de Hipona.
 
Voltando ao texto de Hubert Rohden, ele afirma Mais tarde, por motivos herárquicos e políticos, foram as palavras de Jesus interpretadas em outro sentido…”, o que é uma flagrante mentira, pois:
- desde a época de Nosso Senhor, Pedro é o Principal (Santo Agostinho: O Símbolo Apostólico)
- desde os primórdios, os documentos dos Padres da Igreja já atestam a primazia Papal. Por exemplo: Carta do Papa São Clemente aos Coríntios (ano 97), também chamado epifania do primado de Roma, admoestando-os pela injusta deposição de alguns presbíteros na Igreja de Corinto.
- e muitos outros motivos, que você pode ver no nosso site em:
http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=cadernos&subsecao=apologetica&artigo=primado&lang=bra
 
Tudo isto bem antes de Santo Agostinho, que como você sabe é do séc V.
 
Veja mais documentos ainda sobre esse tema em:
http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=cartas&subsecao=apologetica&artigo=20040816194325&lang=bra
http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=cartas&subsecao=apologetica&artigo=20040805190427&lang=bra

Espero tê-lo esclarecido quanto a coerência entre a Doutrina de Santo Agostinho e a Doutrina Católica, referente ao primado de Pedro.

Aproveito agora para retribuir a sua saudação em Maria, mãe de Jesus, que é Deus.

 
Ad majorem Dei gloriam
 
Sidney Gozzani

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