Montfort Associação Cultural

24 de janeiro de 2005

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Salve Rainha

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Alyne
  • Localizaçao: Campo Grande – Brasil

Por que e para que é rezada o Salve Rainha?

Desde já agradeço a atenção

Muito prezada Alyne,
salve Maria!

Você me pergunta algo óbvio: por que é rezada a “Salve Rainha” em honra de Nossa Senhora. E lhe respondo com alegria e prazer.

Digo que você me pergunta o óbvio, porque é como se você me perguntasse: “Por que a gente ama a própria mãe? Ou porque se dá honra e glória a quem a merece?

Nossa Senhora é nossa mãe, e é Rainha do céu e da terra. Por isso, a amamos e a louvamos.

Talvez, para que você entenda melhor, convém explicar-lhe, mais longamente, o que significa ser Rei, ou ser Rainha.

Rei é aquele que, por encarnar os valores de um povo, se destaca de todos os demais, e, por isso, se torna, e é reconhecido, como o símbolo vivo desse povo.

A qualidade de ser rei não é derivada de eleição popular, nem de escolha por alguns. O Rei não é normalmente designado por Deus, como aconteceu entre os judeus apenas. Rei não é alguém que teria, em si, uma partícula divina, como afirmava a absurda teoria protestante do Direito Divino dos Reis, que deu origem ao absolutismo real, uma forma monárquica de tirania.

Não era o poder do rei que era divino, mas divina, sim, era a origem do poder dele.

Também o poder dos pais, na família, é um poder simplesmente humano, mas a autoridade e o poder do pai e da mãe, embora sendo autoridade e poderes humanos apenas, esse poder e autoridade deles têm origem divina, vem de Deus.

A qualidade de ser Rei é algo que tem fundamento no próprio ser humano daquele que é rei. É qualidade concedida por Deus, mas qualidade humana, que tem origem a misericórdia divina.

Não se elege o rei, assim como não se elege quem é o mais velho entre vários homens, ou o mais alto num grupo de pessoas. O Rei é o líder natural de um povo.

Isto, evidentemente não significa que só possa existir a monarquia como forma de governo. A Igreja, com São Tomás e Aristóteles, ensina que podem existir três formas legítimas de governo:

1) a Monarquia, ou governo de uma só pessoa;
2) a Aristocracia, ou governo de um grupo de pessoas, desde um grupo de duas pessoas até um grupo formado por todos menos uma pessoa;
3) Finalmente, a Democracia, que é o governo de todos.

Perdoe-me essa digressão de ordem política, mas eu a fiz para prevenir possíveis interpretações erradas.

Reis — ou Rainhas também — são os que, então, possuem as qualidades eminentes, que os fazem símbolos e líderes naturais de um povo.

No caso de Nossa Senhora, o título de Rainha cabe de modo evidente. Chama-se de Rainha a pessoa que é esposa ou mãe de um Rei, ou ainda aquela mulher que reúne, em si, em sua pessoa, as qualidades próprias de um soberano.

Ora Cristo, encarnação do Verbo de Deus, é Deus como é também o Homem por excelência. Por isso, Pilatos o apresentou ao povo judeu, dizendo: “Ecce Homo” (“Eis O Homem”). E Pilatos, como legítimo representante da maior autoridade humana daquele tempo, o Imperador Romano, reconheceu Jesus Cristo como Rei dos Judeus, ao mandar afixar na Cruz o quirógrafo, no qual se lia “Jesus Nazarenus, Rex Judeorum” (Jesus Nazareno, Rei dos Judeus).

E o próprio Cristo, quando Pilatos lhe perguntou: “Tu és rei?”, respondeu-lhe: “Tu o disseste“, reconhecendo que era Rei..

E Cristo era Rei mesmo, pois era o herdeiro do rei Davi. Se os Judeus não estivessem dominados pelos romanos, Jesus era o legítimo herdeiro do trono de Davi. Costuma-se salientar que Cristo foi um carpinteiro, mas infelizmente se esquece — ou se deixa no olvido — o fato de que Ele era também Príncipe, e o legítimo Rei dos judeus.

Se Cristo era Rei, é lógico que se deve chamar sua Mãe de Rainha.

E Maria foi também Rainha por ser esposa do Espírito Santo, que sendo Deus, é também Rei do Céu e da Terra. Por isso também Nossa Senhora é Rainha do Céu e da Terra, por ser a Esposa de Deus Espírito Santo, e Mãe santíssima do Verbo encarnado, o Filho de Deus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Nossa Senhora é Raínha também, porque Deus lhe deu todas as graças e todas as qualidades mais eminentes que um ser puramente humano possa ter. Dela se poderia também dizer : “Ecce Mulier”- Eis A Mulher — aquela de que Deus profetizou, cuja semente esmagaria a cabeça da Serpente.

Por essa razão o Anjo Gabriel disse dela, ao saudá-la:

Ave, cheia de graça!” (Luc I, 28).

Repare, minha cara Alyne, que, na Sagrada Escritura, os anjos sempre são saudados pelos homens, visto que eles são seres superiores ao homens.

Com Nossa Senhora, pela primeira e única vez, um Anjo saúda a um ser humano.

E ele saúda Nossa Senhora reconhecendo que ela lhe é superior por ter todas as graças de Deus, por estar plena da Graça de Deus, já antes da Encarnação do Verbo nela.

Isto significa que Deus a criara com todas as graças possíveis a um simples ser humano. Portanto, Deus a fez concebida sem pecado original.

Ela foi perfeitíssima desde o primeiro instante de seu ser. Ela foi mais do que “a Mulher, tal qual saiu de Deus na manhã de seu esplendor original”, como diz imprecisamente um poeta famoso [Paul Claudel], pois Maria não foi tal como Eva, mas muitíssimo mais perfeita do que Eva. Incomparavelmente superior a Eva, quer do ponto de vista natural, e, mais ainda , do ponto de vista sobrenatural.

A Nossa Senhora cabe, pois, do modo o mais perfeito possível , o título de Rainha.

Sendo plena de graça, Ela foi feita por Deus, então, a medianeira de todas as graças. Como o prisma refrata a luz do sol em todas as suas cores, assim também Maria, a Virgem Mãe de Deus, foi feita tal qual um prisma divino, para espalhar pelos homens todas as graças de Deus.

Toda graça é de Cristo, mas nos vem por Maria, como o próprio Cristo, fonte de todas as graças, nos veio por meio de Maria. Ele é o único Salvador nosso, o único intermediário de necessidade absoluta entre Deus e nós. Mas Ele quis vir a nós por meio de Maria. Deste modo, explica São Luís de Montfort, no seu Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora, Maria Santíssima é, para nós, uma intermediária de necessidade hipotética. Isto é, tendo Deus querido utilizá-la como meio para se encarnar e vir até nós, Ela foi então necessária, porque Deus quis utilizá-la como meio.

Ter devoção a Nossa Senhora, Mãe de Deus e nossa Mãe, Medianeira de todas as graças, é então necessário para nos salvarmos.

Ela é nossa Mãe, porque assim como gerou, em seu seio, o Verbo de Deus encarnado, por obra do Espírito Santo, assim ela nos gera como filhos adotivos de Deus.

Ela é nossa rainha, porque possui, por obra de Deus, todas as qualidades e valores que um ser humano possa ter, e no grau mais eminente.Ela é realmente Rainha.

Por ser superior aos anjos — não em natureza — mas em graça e santidade, ela é Rainha dos anjos de Deus. Foi por isso que o arcanjo Gabriel a saudou reverentemente, e não foi saudado por Ela, porque cabe ao súdito cumprimentar quem lhe é superior, e não o contrário. Maria é verdadeiramente a Rainha dos Anjos.

Os grandes patriarcas da humanidade – Adão, Set, Henoc Noé, Abraão, Isaac e Jacó — são honrados por nós, como nosso primeiros pais. Esta honra que damos a eles é dever nosso, imposto pelo quarto mandamento da Lei de Deus, e por nossa gratidão. A eles devemos a vida, e também seu exemplo de vida santa.

Se devemos honra e gratidão a nossos pais, como não devemos honrar a Maria, por meio da qual nos veio a vida sobrenatural trazida por Cristo Jesus, Filho de Deus e Filho de Maria ? E como a vida sobrenatural supera a vida natural, devemos mais honra a Maria como nossa Mãe na ordem sobrenatural, do que aos primeiros Patriarcas, a nossos primeiros pais, na ordem natural.

Mas todas as graças dadas aos Patriarcas lhes foram concedidas em previsão dos futuros méritos de Cristo. Também estas graças de Cristo foram dispensadas por meio de Maria.

Portanto, Maria é com pleníssima razão chamada Rainha dos Patriarcas.

A Santa Igreja intitula Maria ainda Rainha dos Profetas. E o faz com total sabedoria, porque foi ela ainda a Mediadora das graças de profecia concedidas aos grandes homens que profetizaram a vinda de Cristo: a Isaías, por exemplo, que dela disse: “Ecce Virgo concepit et pariet Filium”. Pois por isso o mesmo Senhor vos dará este sinal : uma Virgem conceberá, e dará a luz um Filho” ( Is. VII, 14).

E a mesma Nossa Senhora profetizou, em seu hino de júbilo, quando Isabel a reconheceu como “Mãe do seu Senhor” (Luc I, 43) como Mãe de Deus pela primeira vez, a Virgem Maria profetizou todo o restante da História, dizendo que no futuro “todas as gerações a chamariam de bem aventurada” (Luc I, 8) — exceto a geração de Lutero, que ia seguir a Serpente. Por isso os protestantes não cantam a “Salve Rainha”. Por isso eles estão excluídos das gerações profetizadas pela Virgem no “Magnificat”.

Nossa Senhora é, então, de fato, a Rainha dos Profetas.

Do mesmo modo, Ela foi a Rainha dos Apóstolos, já que estava com eles nas Bodas de Caná, no Calvário, e, segundo a Tradição, no Cenáculo, quando eles receberam todos os dons do Espírito Santo. E São João a tomou em sua casa, depois que Cristo, na Cruz, lhe recomendou que fizesse isso, pois que Ele mesmo, do alto da Cruz, a apresentou como Mãe de seu Apóstolo dileto, e como Mãe de todos os seus seguidores..

Nossa Senhora foi também a pessoa que mais sofreu por Cristo, porque a dor é tanto maior quanto maior for o bem perdido. Ora, ninguém perdeu maior bem do que Maria Santíssima, pois ela perdeu o Filho mais santo que possa jamais existir, o próprio Filho de Deus encarnado, Cristo Jesus. Ninguém sofreu maior dor moral do que Maria. E como as dores espirituais superam as dores físicas, na proporção que a alma supera o corpo, ninguém jamais sofreu tanta dor quanto a Virgem Maria, como, aliás, fora profetizado, no Templo, pelo velho Simeão: “E uma espada traspassará a tua alma, a fim de que se descubram os pensamentos escondidos nos corações de muitos” (Luc II, 35).

Maria sofreu para que as doutrinas secretas, ocultas nos corações dos fariseus, fossem reveladas ao mundo. Ela foi a Rainha dos Apóstolos e dos Apologetas, desmascaradora dos hereges e dos hipócritas.

Rainha das Virgens. Pelo que já foi dito, esse título cabe — evidentemente, — a Nossa Senhora que concebeu por obra do Espírito Santo, e não por cooperação humana. A virgindade, coroa suprema, da virtude da pureza, é um dos florões mais belos da coroa de Nossa Senhora. Ninguém teve pureza maior do que ela, por isso Ela é o modelo e a Rainha de todas as virgens. Sem devoção a Maria Santíssima ninguém permanece casto e puro.

E como ela foi exímia de maneira incomparável em todas as virtudes, ela é também a Rainha de todos os santos Não sei se você conhece os versos de Dante, em louvor de Nossa Senhora, no último canto de seu “Paraíso”, terceira parte da “Divina Commedia”.

São tão belos esses versos, que — não resisto — e os copio e mal traduzo, para você:

“Vergine Madre, Figlia del tuo Figlio, Virgem Mãe , filha de teu Filho,
umile e alta più che creatura mais humilde e elevada que toda outra criatura
termine fisso d”etterno cosiglio, objetivo fixo da eterna Sabedoria,
   
tu se” colei che l “umana natura tu és aquela que a natureza humana
nobilitasti si, ch” l suo fattore enobreceste tanto, que o seu Criador
non disdegnò di farsi sua fattura. não desdenhou fazer-se sua feitura.
   
Nel ventre tuo si raccese l “amore Em teu seio se reacendeu o amor
per lo cui caldo nell”etterna pace por cujo ardor, na eterna paz [do céu],
così è germinato questo fiore. germinou esta flor [formada pelos anjos e santos]
   
Qui se”a noi meridiana face Aqui [no céu] és face claríssima
di caritate, e giuso, intra i mortali, de caridade, e lá em baixo, entre os mortais,
se” di speranza fontana vivace. és de esperança fonte vivaz.
   
Donna, se” tanto grande e tanto vali, Mulher, és tão grande e tanto vales,
che qual vuol grazia ed a te non ricorre que quem quer graça e a ti não recorre,
sua disianza vuol volar senz” ali. seu desejo quer voar sem ter asas.
   
La tua benigtate non pur socorre A tua bondade não socorre apenas
a chi domanda, ma molte fiate a quem pede, mas muitas vezes,
liberamente al dimandar precorre  generosamente, ao pedir precede.
   
In te misericordia, in te pietate, Em ti misericórdia, em ti piedade,
in te magnificenza, in te s”aduna em ti magnificência, em ti se reúne
quantunque in creatura è di bontate tudo quanto na criatura há de bondade”

(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Paradiso, XXXIII, 1-21. A tradução, literal e grosseira, é minha).

A “Salve Raínha” é uma oração belíssima e extremamente lógica.

Ela começa pela invocação de Nossa Senhora, lembrando a Ela, quem Ela é, e o que Ela é, para nós: mãe, vida, doçura e esperança. Tudo isso Ela é para nós, Ela que é realmente a Mãe da Misericórdia, pois que é Mãe de Cristo, Deus de Misericórdia.

“Salve Rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve !.

A seguir, a oração lembra a Nossa Senhora qual é a nossa situação como descendentes de Eva, herdeiros do pecado original e de suas misérias:

“A ti clamamos, exilados filhos de Eva. A ti suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas”.

Sendo Ela nossa bondosíssima Mãe, estando nós em tanta miséria, se conclui o raciocínio, dizendo: Vós tudo podeis, e sois nossa Mãe. Nós tudo precisamos, e somos vossos filhos. Logo, ajudai-nos!.

Este raciocínio, tão claro e tão pungente, é exposto pelas seguintes palavras da “Salve Rainha”:

“Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei. E depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto de vosso ventre”.

Pede-se, pois, que agora, Nossa Senhora olhe por nós, e para que, depois de nossa morte, vejamos a Jesus no céu, isto é, que sejamos salvos.

Finalmente, vem a conclusão da oração, que é uma nova saudação agradecida:

“Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria !”

Consta que esta saudação final, foi composta por São Bernardo de Claraval, em Spira, onde fora pregar a segunda Cruzada. Nesse dia, ele fez muitíssimos milagres. Agradecido a Nossa Senhora, ao entrar na Catedral de Spira, [Speyer, às margens do rio Reno] , São Bernardo, concluiu o canto da “Salve Rainha”, com essas três exclamações amorosas, ajoelhando-se ao cantar cada uma delas.

Em latim, para formar corretamente o verso, São Bernardo cantou:

“O clemens ! O pia !
O dulcis Maria ! “

Espero tê-la ajudado, e a outros leitores do site Montfort, explicando-lhe o porquê da “Salve Rainha”. 

E, em troca, peço a você que, ao rezar essa belíssima oração, rogue a Deus que tenha pena de minha pobre alma.

In Corde Jesu et Mariae, semper,

Orlando Fedeli

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