Montfort Associação Cultural

20 de janeiro de 2005

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Salvação fora da Igreja

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Jairo
  • Localizaçao: – Brasil

Caros Senhores,

Que a benção de Deus Pai esteja em vosso meio!!
É a segunda vez, num intervalo de 24h, que vos escrevo.

Graças a Deus, temos todos a liberdade de expressão!!

Debaixo da minha fraqueza humana e ignorância não pude me manter calado.
Debaixo da minha ignorância não posso deixar de me manifestar frente à intolerância dos artigos do site, da clara orientação reacionária.

1) Parece algo da TFP (Tradição, Família e Propriedade)… claramente posicionada à favor da ditadura militar do golpe de 64, que entregava nosso país ao EUA, que matou inocentes sob o lema de justiça contra subversivos comunistas.
Tão ruim como qualquer orientação marxita-leninista-stalinista-maoísta… não interessa qual das variantes deste sistema político!!
Ao ler o artigo onde Frei Betto é acidamente criticado, pergunto: quem é perfeito? Seus erros, dada influência de diversas variáveis (as quais se influenciam mutuamente), devem ser questão de julgamento puramente humano (lógica humana)?

2) Ao ler seu artigo e outros (sobre a RCC, por exemplo), me vem à mente questionamentos primários: “E quem não é católico?” ou “E quem não era católico 1500 anos atrás?” ou “E os índios?” ou “E os negros animistas da África que vivem em regime tribal e nunca tiveram contato com nossa doutrina?” ou “E homens como Ghandi, que sem ser cristão, abraçou e seguiu Cristo muito mais do que muitos católicos?” ou “O que Jesus pregou: regras ou amor ao próximo? O perdão ou a condenação?”. Por fim, me pergunto tb: “E meu pai? Meu pai é presbiteriano, não vai se salvar por mais que eu interceda por ele?”.

3) Os “padres cantores”… e o que os senhores, ao que pude entender são tradicionalistas, fizeram para descer o degrau do altar e se colocar junto com os fiéis? Padres da RCC fazem isso, falam o que o povo entende e os trazem para verdadeira fé. Sinto muito, mas me cansei de Missas e homilias vazias. Os tempos passam, a essência da Palavra de Deus nunca mudará, mas é preciso sempre adequar o meio de passá-la. Deveria haver mais diálogo, amor e consideração pelo que a RCC vem fazendo. Por fim, os senhores a atacam destacando seu “início” protestante/gnóstico. O Papa João Paulo II abençoou-a (sinto muito não poder precisar quando isso ocorreu).

4) Gostaria de deixar claro que procuro ler muito a respeito de todas as religiões. Repudio gnosticismo, espiritismo, budismo, humanismo, teosofia, antroposofia, etc. e tenho reservas ao protestantismo. Sou católico e considero que os sacramentos são nosso elo (que nos permite receber graças) com Deus, juntamente com o Espírito Santo. Mas respeito as pessoas que optam por caminhos diferentes. Não posso julgá-las. Mas posso pedir a Deus a graça de sua conversão.

Que a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco!!

Eng. Jairo S.

Prezado sr. Jairo,
Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo.

Há pouco respondi uma carta sua tratando da questão do direito — e do dever — de fazer julgamentos, com reto juízo, sobre os outros.
Mostrei-lhe que o senhor mesmo, ao condenar fazer julgamentos, nos julgava.

De novo, hoje, o sr. cai, infelizmente, na mesma contradição. O senhor diz que “respeita as pessoas que optam por um caminho diferente. “Não posso julgá-las”.

Mas a nós o senhor julga “intolerantes, de orientação reacionária“. O senhor não vê que, no próprio ato de se afirmar tolerante, o senhor age com intolerância contra nós, que “optamos” por um caminho diferente do seu?

Estou usando suas próprias palavras, argumentando ad hominem, embora não aceite essa maneira de pensar.

No segundo ponto de sua missiva de hoje, o senhor trata da questão da salvação fora da Igreja. Mostrei-lhe, em minha carta anterior, que “Fora da Igreja não há salvação”, e que isto é dogma da Igreja, proclamado pelo IV Concílio de Latrão.

O senhor vem então com o cediço argumento de um índio, que vivesse no Brasil, antes da descoberta. Pergunta, como argumento: então, esse índio não podia se salvar?

Podia, podia se salvar, sim, meu caro senhor. Esse índio se salvaria, diz a doutrina Católica, se obedecesse toda a lei natural, lei que Deus colocou no coração de cada homem. Diz São Paulo que aqueles que não podem conhecer a verdade católica por uma situação de ignorância invencível, isto é, que não tinham meio algum de conhecer a Revelação, eles seriam julgados pela lei natural. Obedecendo essa lei natural — que todos conhecem — eles se salvariam.

Tais pessoas, como o índio de que o senhor fala, não pertencem ao corpo da Igreja, mas pertencem à alma da Igreja.

No terceiro ponto de sua mensagem o senhor defende os “Padres cantores da RCC” e os elogia pelo fato de que eles “desceram o degrau do altar”.

Sua expressão mesma mostra o erro desses padres, porque o primeiro versículo rezado na Missa é : “Subirei ao altar de Deus” . E, diz o senhor, eles descem. Descer, caro senhor, em certas situações é sinonimo de decair.

É claro que o sacerdote deve buscar a ovelha perdida e inclinar-se para tomá-la nos braços e elevá-la, para carregá-la até, se necessário, em seus ombros. Foi o que fez Cristo. Mas procurar a ovelha perdida não significa descer ao nível de vida, de erros e de atitudes que a ovelha perdida está praticando.

Pelo contrário. O dever do padre é converter a ovelha e salvá-la.

Não creio que será preciso tratar do nível inteletual baixo das canções desses padres cantores. Ainda outro dia, indo eu a uma copiadora, o rádio estava ligado, e nele se cantava — era melhor dizer se berrava — uma canção ridícula e sensual que me escandalizou, porque nela se falava do nome de Jesus e se gritava aleluia, no mais baixo espírito protestante.

Informaram-me então que aquela profanação do nome de Deus era do padre Marcelo Rossi. Era uma das músicas que as escolas de samba queriam incluir – e consta que incluiram — nos treinos e desfiles de carnaval.

Foi por acaso o carnaval que ficou religioso, ou a Missa dos padres cantores que ficou carnavalesca?

Responda-me com sinceridade: O senhor acha que o carnaval “virou”católico?

Não creio que o senhor, que me parece pessoa séria, vá aderir aos desfiles de carnaval, quando o cordão estiver sambando uma canção do Padre Marcelo Rossi, de tão triste fama. (Aliás, Frei Betto recentemente atacou, em artigo, os padres cantores. Se até Frei Betto condena esses padres, como o senhor pode defender Betto e Rossi, ao mesmo tempo? Pelo menos escolha. Faça sua “Opção”!
Ainda que qualquer dessas duas “opções” seja péssima, pelo menos, optando por uma, o senhor terá o valor da coerência. Ficar optando por padres de linhas opostas, só porque são padres, não dá.

Quanto ao final de sua mensagem, na qual o senhor diz não condenar ninguém por sua “opção” religiosa, e que respeita as “pessoas”, já mostrei a contradição dessa atitude.

Veja, agora, mais outra.

Para o senhor, Deus não teria fundado uma Igreja que tivesse claramente as notas e sinais de que ela é a Igreja de Deus. Deus teria sido então pouco sábio, pois deixou o homem em uma situação tal que ele pode facilmente enganar-se, ao escolher a religião. Como resultado dessa situação confusa, motivada pela pouca sabedoria de Deus fundando uma Igreja que é dificil de encontrar, o homem teria direito de escolher, então, aquela que lhe parecesse melhor. Por isso dever-se-ia respeitar a “opção” de cada um. Cada homem escolhe a religião que quiser.

Meu caro senhor Jairo, essa maneira de raciocinar blasfema contra Deus. Ele é infinitamente sábio, e fundou a Igreja verdadeira com sinais claríssimos de sua veracidade. Basta ter boa vontade para encontrá-la.

Recomendo-lhe que leia as encíclicas dos Papas que trataram dessa questão, e que condenaram a liberdade de religião, o pseudo direito de cada um escolher a religião que quiser.

Leia a encíclica Mirari Vos de Gregório XVI. Leia a encíclica Quanta Cura de Pio IX. Leia a encíclica Libertas de Leão XIII, condenado o erro liberal da liberdade de religião. Leia a encíclica Mortalium Animos de Pio XI.

E, para aguçar-lhe o apetite por essas leituras, cito-lhe só um erro condenado solenemente pelo papa Pio IX:

“Todo homem é livre de abraçar e de professar a religião que, levado pela luz da razão, considerar verdadeira” (Pio IX, Syllabus, erro 15), in Denziger, 1715) (Essa frase é condenada por Pio IX).

Portanto, o que o senhor defende não é o que a Igreja Católica sempre ensinou dogmaticamente.

Quando se avisa um herege de que ele está em erro, e que sua religião falsa não lhe pode dar a salvação, está-se praticando um ato de amor, de caridade, tal como o médico que avisa seu paciente de que ele está com câncer e deve ser operado, se quiser continuar vivo. Esconder o câncer é que é maldade. Manter o herege em sua ilusão não é respeitá-lo, mas querer-lhe mal.

Fui professor 40 anos, e sempre respeitei e amei meus alunos. Nem por isso respeitava os erros que eles cometiam nas provas: riscava com um “X” e dava zero, quando erravam tudo. E ensinava o certo . Ensinava a verdade.

Por isso, caro senhor Jairo, Nosso Senhor não disse: “Ide e respeitai os erros de todos“. Pelo contrário, Ele disse: “Ide e ensinai a todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.”

Nosso Senhor Jesus Cristo não respeitou os fariseus, não aceitou a “opção” deles, nem a dos saduceus, nem a dos Doutores da Lei, nem a dos escribas, pois disse a eles: “Ái de vós, escribas e fariseus hipócritas”.

“Ái também de vós doutores da lei”. E chamou-os de “raça de víboras” e de “sepulcros caiados”.

O senhor já leu os Evangelhos, senhor Jairo?

Pois tire seus óculos liberais e sentimentais, e leia bem como Jesus, nosso Divino Mestre, tão cheio de mansidão e de doçura, pegou o chicote de cordas para expulsar os vendilhões do Templo, e como Ele usou o chicote da sua palavra docemente divina, para amaldiçoar os enganadores do templo e da Sinagoga.

Talvez um dia possamos conversar sobre esses temas pessoalmente.
Sempre disposto a esclarecê-lo, e respeitando-o (mas não os seus errros e “opções” más), despeço-me, rogando a Deus que o ajude e que converta também o senhor seu pai,

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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