Montfort Associação Cultural

22 de novembro de 2004

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Rol de imbecis? Tu o dissestes

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Carlos Jerry das Neves Bispo
  • Idade: 36
  • Localizaçao: Salvador – BA – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação em andamento
  • Religião: Espírita

Caro amigo, constrange-me informar-lhe que, a despeito da crítica precipitada ao notabilíssimo Codificador do Espiritismo Cristão, carece de percepção mais ampla as vossas ilações, haja vista, que a observação fenomênica da evolução das espécies, inclusive, a humana, revela evidência científica.

Não convém confundir evolução humana com multiplicidade cultural.

A despeito, não creio que o ilustre pai do Evolucionismo Moderno, o insigne Sir Mrs. Charles Darwin, possa ser responsabilizado pelas deduções infelizes de mentes insanas que, a posteriori e a seu bel prazer, distorceram-lhes inequívocas verdades.

Cabe ainda aqui, recordar, que somos responsáveis pelos nossos pensamentos, como pelas nossas ações.

É de notável estranheza que, intelectuais contemporâneos do Sr. Kardec, como Victor Hugo, Delanne, Léon Denis e, na atualidade, figuras como as do Dr. André Luís Peixinho(filósofo, psicólogo, e professor de Medicina da Faculdade Federal da Bahia), dentre tantos outros, sejam inseridos no rol de imbecis, como o digníssimo amigo quis sugerir-nos.

Pelo ínfimo do supra-exposto recomendo, ao nobre amigo: antes de ajuizar sobre campos de conhecimentos que verdadeiramente não domina, é mais seguro refletir e comentar sobre amenidades…

Amistosas saudações.

Carlos Jerry das Neves Bispo

Excelentissimo Sr. Bispo, mui estupefatas — e mui divertidas — saudações.

Constrange-me informá-lo de que V. Exa., em sua primeira frase, certissimamente sem se ter apercebido, e por lastimável equívoco, cometeu um imperdoável erro de concordância verbal. O sujeito de sua primeira frase é o substantivo plural “ilações”, e, desgraçadamente, em uma carta que pretende ser tão escorreita, o verbo carecer foi colocado por V.Exa. na terceira pessoa do singular. O que foi um horrível equívoco do …”outro mundo”. E isso é ainda mais lamentável numa carta proveniente da sempre mui simpática Bahia, Estado justamente reconhecido, quer pelo estilo escorreito de seus ilustres filhos, quer pela exímia correção gramatical que lá tradicionalmente se observa.

Desgraçadamente, há pior ainda. E mesmo nessa primeira frase.

V. Exa., cujo estilo demonstra apreço pelas belas letras, caiu num outro erro palmar e primário: principia usando como fórmula de tratamento a terceira pessoa do singular — ["constrange-me informar-lhe"] — e. logo depois, escorrega para a segunda pessoa do plural: “Vossas ilações”.

Certamente estes foram escorregões pouco naturais.

Como caiu em erros tão grosseiros uma pessoa que pretende redigir, imitando grandes vultos literários do passado, e que, de sobrepeso, provavelmente se jacta de ter a assistência de espíritos mais evoluídos?

Mistérios literários do preter natural… Ou mistérios do além… gramatical.

Tanto preocupou V. Exa. a inocentação do racista bruto e grosseiro que foi Allan Kardec, que V. Exa. se descurou do estilo e da gramática.

Que pena!

Passando para questões mais naturais, e mais do aquém do que do além, devo ainda dar-lhe ciência de que aquele que V.Exa. chama de “o ilustre pai do Evolucionismo Moderno, o insigne Sir Mrs.(sic!) Charles Darwin”, deu com os macacos n”água: sua hipótese pseudocientífica está, hoje, inteiramente desacreditada pela mais acurada “observação fenomênica”, quer da ciência paleontológica, quer da estratigrafia geológica (e não se olvide V. Exa. que não discuti ainda o evolucionismo. Só condenei o racismo bruto e grosseiro de Kardec).

Imensamente angustiado, vejo-me obrigado a notar que V. Exa., infelizmente, cometeu um outro equívoco, este simplesmente tipográfico: é que a abreviação de senhor, em inglês, é Mr., e não Mrs. que é usado como abreviatura de senhora.

Sinto-me, outrossim, instado pela justiça a dar-lhe conhecimento seguro e certo de que: Primum: não aludi, não citei nem nunca sequer sugeri a elaboração de um “rol de imbecis”, a que V. Exa. faz alusão em sua ilustre epístola, a mim endereçada através das ondas eletrônicas. Não sei de onde V.Exa. retirou uma relação — de total e inteira responsabilidade sua — entre Kardec e outros que V. Exa. nomeia — e um imaginário “rol de imbecis”.

Secundum: nem me passou pela imaginativa a possibilidade de dar existência a tal “rol de imbecis” — imaginado por V.Exa. – sim, e não por mim– porque as Sagradas Letras me ensinaram que elaborar tal rol, ainda que fosse apenas de imbecilidades notáveis, seria tarefa impossível, posto que “Stultorum infinitus est numerus” (Eccls I, 15). Ora, sendo infinito o número dos contidos nessa imaginária rede de imbecis, mesmo apenas notáveis, o continente deveria ser também de dimensões infinitas, e nem Aracne poderia tecer tal rede infinita, capaz de conter o número infinito de tal pescaria. (Tanto mais que o nylon anda caro, devido ao aumento do dólar).

Tertium: embora conheça eu– hélas! — bom número de imbecis, dos quais poderia lhe sugerir a inserção no supracitado “rol” por V.Exa. imaginado, temeria eu cometer alguma injustiça, olvidando-me de algum nome que bem merecesse ser inscrito em tão alta honraria. (No Guiness da imbecilidade, que V.Exa. teve a glória de excogitar). Por isso, me eximo de elaborar tal “rol de imbecis” que V.Exa. imaginou e sugeriu. E nem lhe sugiro — como não sugeri — nome algum para ele. Ab peccato isto, libera me Domine.

Finalmente, “pelo totum do supra-exposto, recomendo ao nobre amigo”: antes de tecer juízos sobre campos de conhecimentos que verdadeiramente não domino e nem sugeri — isto é, o seu imaginado “rol dos imbecis” — aconselho-o que mantenha os pés no chão, em vez de andar com a cabeça no além … (E também que esqueça o dicionário, e passe a usar um vocabulário menos anacrônico e um estilo menos empolado).

E não adianta vir com imaginárias fantasmagorias e ficar tentando girar a mesa da discussão em pauta, a fim de desviar o assunto para o evolucionismo. O problema é o racismo brutal e grosseiro de Allan Kardec.

E que esse tal de Allan Kardec era um racista bruto e grosseiro, era mesmo.

Como Hitler.

Divertindo-me à beça, neste mundo muito concreto e sempre muito surpreendente, despeço-me, atenciosamente,

Orlando Fedeli

PS. Será que sua missiva lhe foi inspirada por algum espírito do além? Se foi, não deve ter sido pelo espírito do Rui Barbosa, mas talvez pelo do Ruim Barboso. OF.

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