Montfort Associação Cultural

27 de agosto de 2004

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Rock, rispidez na respostas

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Fernando
  • Localizaçao: – Brasil

Caro Prof. Orlando Fedeli,

interessante estudo sobre as influências do Rock nestas últimas décadas.

No entanto, não é somente o ritmo em pauta que propicia ao ouvinte o contato funesto com doutrinas estranhas à Deus. Temos ainda, como exemplo, várias peças clássicas como “Carmina Burana” de Carl Off e toda a obra de Wagner, álias, o compositor predileto de A. Hitler.

Na minha estrada com Cristo, experimentei o gosto pela música satânica através de bandas como Led Zeppelin e Black Sabbath, mas posso dizer, com toda certeza, que hoje estou liberto dessas ignonímias, pelas graças de Nosso Senhor.

No entanto, se me permite, observei que na resposta ao jovem Artur LA, o Sr. tomou uma postura muito ríspida. Penso que não houve necessidade para tanto. Afinal, ele é apenas uma criança que irá, com a vontade do Pai, relevar todo este desejo insano pelo Rock e suas consequências. Se eu me libertei do cativeiro, o jovem Artur, inteligente como parece, também se libertará desta agrura.

Não quero ostentar sapiência, porém, ao ler o debate, senti que deveria enviar-lhe esta mensagem de admoestação.

Ao pregar a palavra de Deus, sentimos o mover do espírito e quando, algumas vezes, nos exaltamos na defesa de nossa crença, devemos ter calma e, sobretudo, amor ao próximo.

Que as benções de Deus estejam sobre ti.

Fernando

Prezado Fernando, salve Maria.

Muito obrigado por sua admoestação que, evidentemente, foi movida por sua boa intenção e por sua experiência pessoal. A experiência pessoal tem sua importância, embora não possa dispensar a doutrina da Igreja e as lições do Eavangelho.

Também eu tenho uma experiência pessoal de quase cinquenta anos de apostolado com moços, aos quais dediquei minha vida. Graças a Deus, compreendi que as almas são bem diferentes, e que cada uma deve ter um tratamento particular. Algumas devem ser levadas a Deus por meios suaves; outras reagem melhor a meios mais enérgicos.

O grande erro no tratamento dos males espirituais é o de usar ou só a energia, ou só a doçura.

Perdoe-me falar de minha experiência pessoal. Falarei como São Paulo o fez quando criticado em seu apostolado.

Apesar de ter sido professor bem rigoroso, nunca deixei de ser amigo dos alunos, dos quais sempre exigi disciplina. Graças a Deus, apesar de meu rigor, raras vezes fui obrigado a punir alunos. E conquistei a amizade da grande maioria. Era eleito, praticamente todos os anos, paraninfo dos formandos pelos colégios pelos quais passei. Mais ainda, pela benção de Deus, levei numerosíssimos a praticar a religião. Fui padrinho de batismo de tantos alunos que até perdi a conta.

Essa a minha experiência nas aulas.

Neste site Montfort, tenho travado duros embates com protestantes, modernistas, comunistas e hereges de todo tipo, e o resultado, graças a Deus, tem sido excelente: muitas vezes, apesar do tom “ríspido” de certas polêmicas, alguns adversários se tornaram católicos.

Essa a minha experiência de polêmicas pela internet.

Agora, a doutrina evangélica.

Se você ler bem os Evangelhos, verá que Nosso Senhor — nosso modelo em todas as coisas, inclusive na polêmica — tratava os pecadores de modo bem diferenciado.

Por vezes, era com brandura e doçura suavíssima. Foi o que Ele fez, por exemplo com a samaritana pecadora.

Por vezes, com o fogo da palavra mais enérgica. Alguns diriam ríspida. Por exemplo, ao responder ao moço rico que o chamara de “Bom Mestre’, Nosso Senhor retrucou: “Só Deus é bom “. E os fariseus, chamou-os de sepulcros caiados, víboras, filhos do demônio, etc. Com os vendilhões do Templo, usou até a força física para puni-los com o chicote, e derrubou suas mesas com violência.

A São Pedro, logo depois de lhe conceder o poder das chaves, chamou de “satanás”. E a São Paulo, Cristo converteu com energia doce e doçura flagelante, ao fazê-lo cair do cavalo e ficar cego… para lhe abrir os olhos.

Por que é assim?

Porque assim como as doenças do corpo devem ser cuidadas de modo diferenciado, assim também as doenças da alma.

Uma vez vi um médico cuidando de uma pessoa com suspeita de melanoma. Ele nem tocava o ponto negro existente na pele do paciente. Pouco a pouco, à medida que o exame visual prosseguia, tocou o local com prudência extrema. Outra vez, assisti um ortopedista tratando de uma certa fratura. O método foi bem diverso.

É evidente que a energia tem que ser usada com prudência e cuidado, e muito mais raramente do que a doçura. Entretanto, a correção enérgica, e até mesmo ríspida, em certos casos tem que ser usada, e é um erro excluí-la, por princípio.

Em todo caso, repito, aceito sua admoestação, fruto de sua experiência, porque não sou infalível.

Entretanto, peço-lhe que medite os métodos de Nosso Senhor, e que procure compreender que, hoje em dia, o grande erro que se comete no apostolado é o de usar exclusivamente a doçura. Mais do que isso, a excessiva e exclusiva doçura se transformou em moleza, com os resultados mais desastrosos para o apostolado católico. Da mesma forma como seria desastroso usar sempre a energia, excluindo a mansidão.

Veremos, no futuro, qual o resultado de minha rispidez. Se errei, rogo que Deus me perdoe, levando em conta minha boa intenção. Se acertei, alguns deixarão de amar o rock e outras músicas más.

Tenho recebido várias cartas de apoio e de agradecimento de jovens que abandonaram o rock, inclusive por minha carta ao tal de Arthur.

Peço suas orações para que Deus me dê o tino para escolher, no momento certo, com a doença certa e o doente necessitado, ou a energia ríspida que cauteriza, ou a docura que consola, sempre visando levar as almas a Nosso Senhor.

E que Ele me atenda, dando almas à Igreja, e tirando-me tudo o mais, inclusive a compreensão dos bons para com meus métodos, se for para maior glória de Deus e salvação das almas.

Foi São João Bosco que deu esse lema: Da mihi animas, et coetera tolle” (Dá-me almas, e tira-me tudo o mais”).

In Corde Jesu, semper, Orlando Fedeli

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