Montfort Associação Cultural

20 de abril de 2005

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Rock e revolução: uma ensalada

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Fabio
  • Localizaçao: – Brasil

Olá,

Gostaria de tecer um cometário sobre a matéria “Rock e Revolução”, onde o autor, o sr.Orlando Fedeli afirma que o Rock ´n Roll assim como todas suas vertentes, estão associadas a cultos satânicos, ao anti-cristianismo e ao mal.

Antes disso, apenas gostaria de observar o meu espanto com a resposta dada ao leitor Arthur, utilizando-se da lei do “olho por olho, dente por dente”, o Sr. Orlando Fedeli utiliza de termos duros e ofensivos tanto quanto o Arthur utilizou contra ele, para formulação da resposta, não acredito neste tipo de pensamento, e espero que a resposta ao meu arrazoado não tenha igual fim.

Pois bem, li várias vezes a matéria para então me manifestar, gostaria de deixar claro que não sou anti-cristo, anti-cristianismo, pelo contrário creio em Deus e em Cristo (uma mentira não dura 2000 anos!), isto posto fica clara minha posição; Lendo o artigo noto que existe um preconceito muito forte logo no começo quando o Sr.Orlando Fedeli cita:

“O próprio Rock registra, com maior velocidade porém, estas mesmas etapas em seu caminho. Tendo começado com músicas e letras sentimentais, logo chegou ao frenesi e ao abismo do mal”

Palavras que acredito sejam de sua prórpia autoria, julgando de maneira bem sumária, um estilo de música, nivelando por baixo, quando faz a comparação entre um drogado e uma pessoa que gosta de Rock.

O texto ainda generaliza o satanismo/ocultismo, como base de sua história, assim sendo colocando todos em um mesmo patamar, e o que vejo novamente é PRECONCEITO.

É o mesmo PRECONCEITO que vez com que Hitler exterminasse Judeus e Homossexuais na Alemanha, mesmo preconceito que fez a escravidão, que fez com que a Igreja QUEIMASSE seres humanos por terem pessamentos diferentes ou divergentes de suas doutrinas. Será esta a maneira correta de agir, julgando um
estilo musical inteiro por causa de alguns?. Deveria então eu julgar a Igreja e todas religiões por causa da “Santa Inquisição”?? A resposta é não! Não por um simples fato: Quem sou eu para julgar alguém?

E porque culpar a música, se cada um é responsável por seus atos, Deus nos deu o livre arbítrio, liberdade de fazer escolhas, e julga-las corretas ou não somente cabe ele, assim como Adão não foi queimado ou morto por ter comido a maçã.

As críticas duras feitas ao Rock, ocorreram também com Beethoven, Mozart, que tocavam MÚSICA CLÁSSICA.

Culpar um ritmo, por atitudes de puro livre arbítrio vem ser no mínimo controverso. Pelo contrário do que o sr.Orlando Fedeli brada, o rock sempre teve a conotação de PAZ E AMOR, ao contrário do que vemos na história religiosa no mundo que gerou guerras e mais guerras. Para não dizer sobre a catequização indígena, um verdadeiro “estupro” cultural promovido pela “Santa Igreja” que levou a extinção tribos inteiras. Veja que não são acusações e sim fatos históricos que estou espondo.

Quando eu li a matéria do sr.Orlando Fedeli, eu não acreditei que em pleno Século 20 ainda tenhamos pensamentos tão medievais como os de se atribuir um Ritmo, um estilo músical a invocações do mal. Não questiono as letras que fazem blasfêmias, e não concordo com este tipo de atitude, porém dizer que o ritmo, as harmonias do Rock são um meio de Satã dar o seu recado, desculpe mas, é hilário e arcaico.

PRECONCEITO é uma forma velada autoritarismo, que julga pessoas por seren diferentes, e as obrigam a se tornarem iguais, contestação não significa traição ou blasfêmia, imagine se Copérnico pensasse assim!

Acredito que este pensamento, digamos, antigo tende a acabar uma vez que acho que existem coisas mais demôniacas acontecendo do mundo, fome na África, Guerras, Miséria, Racismo, Conflitos Religiosos, assuntos esses que deveriam ter uma presença mais atuante da Igreja, do que apenas politicagem praticada pela “Santa Igreja”.

Quanto a letras que citam demônios, bruxas, etc…Vejo como um filme, apenas uma exposição, assim como um filme de terror ou suspense.

Espero ter colocado meu ponto de vista, não querendo de maneira alguma ser dono da verdade ou coisa assim, apenas mostrando que RADICALISMO/FANATISMO/PRECONCEITO, estão para o mal assim como a Santa Trindade esta para a Igreja.

Agradeço este espaço, e elogio a abertura a critícas, e espero que receba uma resposta o quanto antes.

Prezado Fábio,

“Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo. (Luc. I, 28) “Bendita és tu entre as mulheres” (Luc. I, 48).

Deixe-me explicar porque citei esses versículos de São Lucas: queria fazer-lhe uma “homenagem”, ou uma gentileza…
Sendo você luterano, achei bom começar citando dois versículos do Evangelho de São Lucas. Você, como luterano, deve aceitar a Bíblia. Ora, esses dois versículos são da Bíblia. Creio então que você os apreciará.
Recomendo até que os repita, várias vezes por dia, para ser fiel ao que o Evangelho nos ensina.
Ou será que você — como todo protestante – rejeita repetir esses versículos da Bíblia?
Mas então, será que crê realmente no que diz a Bíblia?
Tenho que explicar também porque, contra meu costume, demorei tanto a lhe responder.
1) Andei muito ocupado;
2) Custei a digerir a “salada” de sua mensagem, em que você mistura rock, Copérnico, Hitler, inquisição, catequese indígena, e mais um grande etc.
3) Porque você, pouco polidamente, me exigiu resposta rápida. Por isso, coloquei sua carta depois de outras. Hoje, afinal, chegou a sua vez.
Não, não tema que eu vá duelar com você “a tacape”. A regra é que, escolhida a arma, o desafiado é obrigado a usar a mesma arma com que foi atacado. Você, por exemplo me atacou mais jeitosamente do que com tacape. Atacou-me de “ensaladeira” em punho. Responder-lhei, pois, da mesma forma.
Isso se chama legítima defesa, meu caro Fábio, e não “dente por dente”, que não tem nada que ver com o caso.
Aliás, você deve saber que Deus, na Sagrada Escritura, adotou esse modo de justiça. Veja no Êxodo, XXI, 24; Levítico, XXIV, 20 e Deut.XIX, 21. E se Deus usou esse critério, ele não pode ser intrinsecamente mau.
“Olho por olho, dente por dente” era uma fórmula para significar que deve haver uma igualdade entre o crime e o castigo dele. No Antigo Testamento, Deus, tendo em vista a decadência do povo judeu, tinha que explicar a regra de justiça de modo inteiramente material. Mas essa igualdade material entre crime e castigo nem sempre poderia ser aplicada. Imagine, respeitável Fábio, que um banguela arrancasse um dente de outra pessoa. Deveria ele ficar impune? É claro que não.
Por isso, Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus e da Santíssima Virgem Maria, nos deu um aperfeiçoamento dessa lei. Veja-a em São Mateus V, 38 e seguintes. Deve, sim, haver proporcionalidade entre crime e castigo. Por isso a Justiça é representada tendo, na mão, uma balança com o dois pratos no mesmo nível. Só que a igualdade não precisa ser material — e às vezes nem é possível, como no caso do suposto banguela. A igualdade tem que ser formal.
Você embaralhou tudo, mais ainda, ao admitir que eu, ao aceitar o “duelo a tacape” – tacape com o qual eu fora agredido – só exerci meu direito de legítima defesa.
Conhece você o ditado francês: “Cette bête est très méchante, quand on l”attaque, elle se défend”? (“Este animal é muito maldoso, quando a gente o ataca, ele se defende). Por que estranha você que, atacado a tacape, responda eu a tacape? Serei mau por me defender, quando atacado?
No seu caso, repito, você não precisa temer meu tacape, porque você não me agrediu com borduna. Como já lhe disse, seu ataque foi à “ensaladeira”. E você a usou porque, em sua carta, você fez uma “salada” roqueira-luterana.
Como resposta, então, vou apenas temperar sua “salada”, e retirar dela alguns materiais insólitos e indigestos.
Vamos então aos elementos essenciais de sua “salada”, na qual o rock desempenha o papel da alface.
E no alface você pôs pimenta. O que não é costume. Mas eu gosto muito de pimenta. Ardida. Bem ardida.
A pimentinha que você colocou foi a de me acusar de ter “um forte preconceito” contra o rock.
Meu caro Fábio, pré conceito significa adotar um juízo sobre algo sem tê-lo estudado. Ora, em meu trabalho sobre o Rock há todo um estudo preliminar sobre música, citando muitos autores e estudos científicos.
Depois, analisei as letras do Rock, e só então conclui. Logo, externei um post-conceito e não um pré conceito.
A comparação entre os efeitos do Rock e os efeitos das drogas no cérebro humano são de médicos e cientistas. Apenas os repeti, visto que nada entendo de “geografia” humana. Os estudos desses médicos é que mostram que o Rock tem efeitos nas glândulas e no cérebro muito semelhantes aos que as drogas provocam.
Isso é ciência, meu caro, não é pré conceito.
Permita-me, então, concluir que você começou a ler meu trabalho com o pré conceito de que o Rock é ótimo, e tendo lido sem ter entendido, sai-se com essa de que eu é que tenho preconceito. Meu caro Fábio, você é que é preconceituoso.
Quer uma prova?
A sua “salada”.
Nela, você colocou todos os slogans e preconceitos que os inimigos da Igreja jogam de cambulhada contra ela. E meteu tudo no mesmo tacho, com tal confusão que quase não se entende o que você quer dizer.
Quer ver você um erro de lógica em sua carta?
Você me diz: “Quem sou eu para julgar alguém?”
E passa todo o tempo a me julgar preconceituoso, a condenar a Igreja católica, a Inquisição etc.
Quem é você para julgar a Igreja?
Quem é você para julgar a “Santa Inquisição”? Duvido que você tenha lido qualquer livro sobre a Inquisição. Entretanto, você a julga e condena sem a ter estudado. Logo, você tem preconceito sobre a Inquisição.
Adão, meu caro, não comeu maçã nenhuma. Você não encontra isso nem em sua Bíblia luterana.
Quer ver como o que você escreve é incompreensível? Veja esta sua frase:
“Culpar um ritmo, por atitudes de puro livre arbítrio vem ser no mínimo controverso”.
Que quer dizer isso que você escreveu?
Eu não culpei um ritmo. A culpa não é do ritmo. A culpa é de seus compositores. Só em sentido segundo poder-se-ia falar, mas impropriamente, de culpa de um ritmo.
E não condenei o ritmo do Rock “por atitudes de puro livre arbítrio”.
Meu caro Fábio, minha condenação do Rock resultou de um exame dele por meio de minha razão, e não de meu livre arbítrio. Foi um juízo da inteligência. O livre arbítrio é relacionado com a vontade. Ele escolhe entre um bem maior e um bem menor.
Você fala do “puro livre arbítrio” como se isso fosse algo ruim. Pois saiba que o ter “puro livre arbítrio” é o que honra o homem, visto que isso indica nele auto governo.
E que quer dizer que o que fiz “vem a ser no mínimo controverso”?
Controverso é aquilo que, não tendo sido provado com segurança, contra ele se pode argumentar com razões e provas. Ora, você nem me deu provas, nem razões.
Só afirmou sua opinião. É ela sim que, não tendo base racional, pode ser controvertida facilmente.
E depois você cai ainda em outro erro, ao dizer de modo bem impreciso:
“Deus nos deu o livre arbítrio, liberdade de fazer escolhas, e julgá-las corretas ou não somente cabe ele”.
Isso também não é inteiramente verdade.
É claro que Deus nos deu livre arbítrio. Mas se Ele é quem nos julga definitivamente, cada homem, usando sua inteligência, pode julgar das ações do livre arbítrio próprio e alheio.
Aliás, se você é luterano, como vem me falar de livre arbítrio? Você não sabe que Lutero negava que o homem tivesse livre arbítrio? Ele até escreveu um livro com o título de “O servo arbítrio”, isto é o arbítrio escravo, porque negava que o homem tivesse liberdade de agir.
Não, você não sabia disso. Você não conhece bem nem mesmo a sua religião e vem JULGAR a minha?
E ainda pergunta: “Quem sou eu para julgar alguém?”
E você me diz que o rock sempre pregou “Paz e Amor”. Só que esquece de dizer que o resultado dele têm sido os violentos conflitos dos festivais de Rock, com destruição e até mortes.
Que paz esquisita, não é Fábio?
O amor do rock tem sido o Amor livre, o que não está nada de acordo com a Bíblia, e nem mesmo com o luteranismo.
Ainda tratando da alface de sua salada – do Rock, núcleo de seu interesse e de sua missiva ensaladada – você me diz:
“Não questiono as letras que fazem blasfêmias, e não concordo com este tipo de atitude, porém dizer que o ritmo, as harmonias do Rock são um meio de Satã dar o seu recado, desculpe” mas, é hilário e arcaico”.
Meu caro universitário, as letras das canções de Rock não “fazem” blasfêmias. Elas dizem blasfêmias, e chamar os uivos e guinchos do rock de harmonias é certamente exagerado.
Condenar certas letras de rock e aprovar suas “harmonias”, como você faz, é bem contraditório, e mostra que apesar de ter lido meu estudo do Rock – será que o leu? — não o entendeu. Pois você, que sabe ler e até escreve, não leu lá que a letra de uma canção é como a luz que ilumina um vitral?
A letra, meu caro Fábio, só explicita o que está simbolicamente implícito na melodia e no ritmo. A letra de uma canção é como a bula de um remédio: diz que substâncias químicas ele contém.
Você, então, condena a bula e toma o remédio. É uma contradição, meu caro. E bem hilariante.
Quanto ao meu medievalismo, eu me orgulho dele, pois os princípos “medievais” que defendo, não são arcaicos: são eternos.
E como você pode condenar o “arcaismo”, se declara: “creio em Deus e em Cristo (uma mentira não dura 2000 anos!)”?
Pois o princípio criteriológico que você aí defende implica na própria defesa do arcaismo.
Contraditório Fábio!
Restaria ainda, para fazer a “autópsia” final de sua “salada”, retirar dela e por ao microscópio da lógica, alguns monstrinhos venenosos que você lá colocou, e que são o “estupro cultural” que teria sido a catequização de nossos índios, e o caso “Copérnico”.
Que salada, hein?
Como a carta vai longa, limito-me a um argumento cultural. Como pode ter sido a catequização dos índios um “estupro cultural “, se Anchieta escreveu uma Gramática da língua Tupi, para que sua língua fosse conservada? E você já ouviu falar da arquitetura das Missões, ou das composições musicais dos índios? Já
ouviu falar da arte barroca dos índios peruanos? Estupro cultural é o que o rock tem produzido em todo o mundo!
Quanto a Copérnico, que tese defendeu ele?
Se estivéssemos frente a frente, é quase certo que você ficara embaraçado com a pergunta. Agora você está com a vantagem de poder ver sua face, escondida atrás da tela do computador e da confusão de sua “salada”.
Copérnico defendeu o sistema heliocêntrico em oposição ao geocentrismo medieval.
E que dizia o sistema geocêntrico? Que a terra era o centro do sistema a que pertencemos. Já o heliocentrimo defende que o sol é o centro do sistema. Os que ignoram a questão costumam dizer que o sol é o centro do universo.
Ora, o movimento dos astros em nosso sistema planetário é relativo. E a palavra “centro”, que todo mondo interpreta como “centro” geométrico, significa apenas centro de importância. Assim, todo o Rio Grande do Sul gira em torno de Porto Alegre, que não é o centro geométrico desse grande estado brasileiro.
E o rock é um dos centros da falsa cultura do século XX.
Nesses dois casos fico por aqui, embora houvesse muito mais a dizer, previno-o.
Você me garante que não é o “dono da verdade”.
Garanto-lhe que já percebera bem isso. Não era preciso que você o dissesse:
sua missiva, com tantos erros de todos os tipos, demonstra meridianemente que você não é não o dono da verdade, mas que é possuído por muitíssimos erros.
A verdade é que deve ser nossa dona, caro Fábio.
Finalmente estamos chagando ao fim desta enorme desensaladização.
Você me escreve na conclusão de sua carta:
“RADICALISMO/FANATISMO/PRECONCEITO, estão para o mal assim como a Santa Trindade esta para a Igreja”.
Pois saiba que Radicalismo/ Fanatismo/ Preconceito – essa maligníssima trindade que você montou – são exatamente as características da “cultura” roqueira.
Está concluído nosso pequeno duelo à ensaladeira. Você vê que ele foi divertido, e não dolorido. Não doeu tanto, creio. E, depois, quem sai à chuva, é para se molhar.
Você saiu à chuva – para me servir publicamente sua “ensalada” – e sem guarda chuva. Tinha que se molhar.
Para enxugá-lo um tanto, digo-lhe, que tive prazer em duelar com você, e espero que não fique zangado comigo, que só visei fazer-lhe bem.
Curativos também doem um pouco.
Teria prazer em receber alguma mensagem sua, em caráter particular se você quiser, para conversarmos sem duelar.
Enquanto aguardo uma carta sua amiga, permaneço rezando por você, para que Deus o ilumine e converta, e lhe conceda a sabedoria que jamais muda.
In Corde Jesu semper,
Orlando Fedeli

 

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