Montfort Associação Cultural

1 de setembro de 2005

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Retorno do filho pródigo (acordo Roma-FSSPX)

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Marcelo Moraes
  • Idade: 40
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Profissão: Advogado
  • Religião: Católica

Prezado Prof. Fedeli

Gostaria de manifestar minha estranheza com relação ao posicionamento de Vossa Senhoria ao comentar o recente encontro entre S. Santidade Bento XVI e Mons. Bernard Fellay, Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, sendo certo que o mesmo pode ser encontrado no espaço de “última notícias” existente no sítio Montfort.
A razão de tal sentimento deve-se ao fato da complacência com a qual Vossa Senhoria reportou-se a um cismático excomungado pela Santa Igreja.
O Sr. há de convir que tal postura não é usual de sua parte com relação a pessoas em tal situação jurídico-canônica e de ordem espiritual, eis que a mesma exclui o cristão da comunhão dos santos e da recepção dos sacramentos, podendo comprometer até mesmo a salvação eterna, em que pese acreditar, conforme ensinou o Senhor e ensina a Igreja, que Deus está sempre pronto a receber de volta o pecador, a começar por mim, apesar de não me encontrar em situação de excomunhão.
Ora não há maior reconhecimento público de pecado e erro do que a excomunhão.
Da mesma forma não compreendi sua empatia para com os dois excomungados Dom Lefebvre e de Dom Mayer, sendo certo caber a Deus e não a mim fazer juízos sobre salvação eterna, mas por outro lado, lembrando que em pública rebeldia realizaram ordenações episcopais sem a compulsória intervenção do Bispo de Roma, necessária para legitimá-las.
O que diferenciaria tais personagens dos ortodoxos, a quem o Sr. se refere sistematicamente com a alcunha desairosa de cismáticos?
Acaso não teriam incorrido nas penas previstas no cânon 1364 c/c cânon 751 do Código de Direito Cânonico?

Contando com uma resposta a altura de sua inequívoca cultura e argúcia.

Respeitosamente, como convém no Senhor.
Marcelo Moraes

Muito prezado Dr. Marcelo,
Salve Maria!
 
    Sua carta me fez lembrar do irmão do filho pródigo. Foi ele quem se zangou com a alegria do pai pelo retorno do irmão que andou pelo mundo a comer bolotas.
    Claro que não admito que Dom Lefebvre e Dom Myer tenham sido excomungados realmente, e que andaram a comer bolotas. Eles mantiveram a Missa de sempre. Eles — mesmo sofrendo incompreensão e penas graves — mantiveram acesa a tocha da fidelidade. A fidelidade heróica deles lembra a fidelidade de Santo Atanásio, que também foi injustamente excomungado.
    Foi Dom Corso que certo dia me explicou que a excomunhão de Dom Lefebvre e de Dom Mayer era duvidosa, dizendo-me que a excomunhão só produz efeitos canônicos, nesses casos, se o penalizado realmente cometeu o pecado que lhe é imputado.
    Ora, Dom Lefevre e Dom Mayer jamais negaram que o Papa era o legítimo chefe da Igreja, e sempre proclamaram que queriam estar unidos a ele.
    Se o senhor argumentasse com o caso dos Tribunais da Fraternidade, dar-lhe-ia certa razão. Mas, mesmo com os Tribunais – que eu acusei de cismáticos — a Fraternidade Sacerdotal São Pio X,  fazendo um acordo com Roma, liquidaria a questão, e qualquer católico deveria se alegrar com a união deles com Roma e com sua submissão ao Papa.
    Sua carta revela tristeza e até uma certa zanga pelo fato de o Papa fazer um acordo com Dom Fellay.
    Por que ?
    Quereria o senhor a desavença?
    Meu caro Dr., venha participar do jantar que o Pai de misericórdia ofereceu pelo retorno de um filho, até matando um boi gordo.
    Repito-lhe: eu é que não entendo sua zanga e sua incompreensão.
    Preferiria o senhor que Dom Fellay não se reunisse com o Papa e que não houvesse paz?
    Concordo com o senhor, quando observa, que minha atitude para com Dom Fellay — do qual estou separado, até agora – não é a usual que tenho para com “pessoas em tal situação jurídico-canônica e de ordem espiritual”.
    Pois é claro que não.
    Dom Fellay e os lefrevistas nunca foram hereges, e sempre lutaram fielmente contra a heresia modernista que assola a Igreja desde o Vaticano II.
    O senhor não acredita nisso?
    Pois lhe cito um texto do Cardeal Ratzinger — é o atual Papa Bento XVI — e dito por ele em retiro para o Papa João Paulo II e para todos os Cardeais da Cúria, em 1983: (Faz tempo, hein?)
    “A Teologia moderna está muitas vezes procurando uma certeza científica no sentido das ciências (naturais, empíricas); e, procedendo deste ponto de partida, é forçada a reduzir o ambiente bíblico às dimensões desta demonstrabilidade. Penso que este erro ao nível da certeza reside no âmago da crise modernista que reapareceu depois do Concílio” (Joseph Cardeal Ratzinger,  O Caminho Pascal, Loyola, São Paulo,, p. 28).
    Que tal?
    O senhor vê, caro Doutor, que Monsenhor Lefebvre e Dom Mayer tinham razão em combater o Modernismo renascido e rejuvenescido pelo Vaticano II.
    Compreendeu agora minha “empatia” com Dom Lefebvre e com Dom Mayer?
    Pois quero dizer-lhe mais sobre minha “empatia”, porque esse termos não é suficiente.
    Fui bem amigo de Dom Mayer, e só vi Dom Lefebvre uma vez. Concordei — e concordo — com eles no combate deles ao modernismo do Vaticano II.
    Por eles não tenho só “empatia” ou simpatia.
    Tenho muito mais: tenho admiração e fidelidade amiga a Dom Mayer, que foi muito meu amigo.Tenho admiração por muitos padres da Fraternidade que –sei – guardaram amizade para comigo, apesar da divergência sobre os Tribunais. Também à amizade deles sou fiel, porque eles são fiéis à Igreja, e inimigos da heresia modernista.
    Discordei dos lefrevistas, e me separei deles, quando eles fizeram tribunais com pretensos poderes para tratar da nulidade do vínculo matrimonial, coisa que só cabe ao Papa. Fui eu quem denunciou esses tribunais por amor a Roma e à Igreja.
    Separei-me então dolorosamente deles, o que me trouxe a perseguição do atual Dom Rifan, que negava a existência desses Tribunais (agora, ele confessa que eles existiam, e até os ataca…. O senhor sabe, Dr., a Mitra traz prudência…).
    Jamais deixei de reconhecer que os lefrevristas lutavam pela Fé contra a heresia modernista. Jamais deixei de rezar pelo acordo correto — não “campista”  – deles com Roma. Agora que se anuncia esse acordo — esse “consenso” de Dom Félay com o Papa, só podia me alegrar. Qualquer católico sincero tem que se alegrar com o retorno de uma ovelha ao aprisco do único pastor.
    Quanto mais um retorno que implica no reconhecimento da fidelidade de Bispos bem fiéis à ortodoxia!
    Estranha-me, então, sua estranheza.
    Respondi-lhe mais do que com cultura e argúcia, com fidelidade, antes de tudo, ao Papa, à Igreja e a meus Bispos amigos, já falecidos, e que combateram heróica e santamente as heresias que renasceram pujantes após o Vaticano II.
    Foi o Cardeal Ratzinger quem o disse.
    E ele é hoje o Papa Bento XVI.  
    É ele o Papa que vê os lefrevistas com olhar semelhante ou coincidente com o meu.
    É ele o Papa que está trazendo a barca de Pedro para a coluna da Hóstia e para a coluna da Virgem, como foi anunciado no sonho de Dom Bosco, e como se vê no Terceiro segredo de Fátima.
    “Dunque, é lui“, disse Dom Fellay recentemente.
    Engano-me?
    Desejo! Ardentemente desejo,
   
    E o seu olhar, Dr., olha com raiva o filho que o senhor julga erradamente pródigo?
    E mesmo que o senhor tivesse razão no julgamento canônico dos lefrevistas, o senhor estaria errado do mesmo modo, por entristecer-se com o retorno de alguém a Roma.
    Festejemos pois, Dr..
    Convido-o para a festa que será feita …”em tempo razoável…”.
    Bradaremos então juntos Viva o Papa,
    E  também Viva Dom Lefebvre! Viva Dom Mayer!!!
    E nesse dia gritarei ainda Viva Dom Fellay!
    Mesmo que me guardem rancor pelos Tribunais denunciados.
    Luto pela Fé e não para ter amigos.
 
In Corde Jesu, semper, 
Orlando Fedeli

Replica

Prezado Prof. Fedeli.
Salve Maria, Mãe do Bom Conselho!

Após refletir sobre a sua resposta, gostaria de tecer as seguintes considerações.
Inicialmente, gostaria de dizer que me sinto honrado pela resposta tão pronta e detida de V. Senhoria.
Além disso, creio que nosso interesse, como cristãos e homens honrados, certamente, não é estabelecer um debate odioso e estéril, muito pelo contrário, entendo que deixar de aproveitar tal oportunidade, de minha parte, seria um desperdício.
Assim, passo a tecer os comentários que se seguem.
Quando V. Senhoria se utiliza da parábola do filho pródigo ou como alguns preferem chamar, parábola do pai misericordioso, e me compara ao rabugento filho mais velho, corre o risco, conforme, inclusive, observou na sua resposta, de colocar os lefrevistas na condição de filhos pródigos, o que não parece justo nem com eles nem comigo.
Por outro lado, insisto no ponto, que não foi objeto de suas análises, da ordenação episcopal realizada por D. Mayer e D. Lefebrve sem a autorização compulsória do Papa.
Assim diz o Catecismo da Igreja Católica: “somente a Simão, a quem deu o nome de Pedro, o Senhor constituiu em pedra de sua Igreja. Entregou a chave da mesma, instituiu-o pastor de todo o rebanho. Porém, o múnus de ligar e desligar, que foi dado a Pedro, consta que também foi dado ao colégio dos apóstolos, unido a seu chefe. Ele é o princípio e fundamento da unidade, quer dos Bispos, quer da multidão dos fiéis”. (Catecismo da Igreja Católica – Edição Típica Vaticana – Edições Loyola, pág. 253, 881).
Dessa maneira, Ilustre Professor, sem querer ser desrespeitoso para com caros amigos seus ou sua memória, nem D. Lefebrve, nem Mons. Bernard Fellay, nem D. Pedro Casaldáliga ou D. Hélder Câmara, sozinhos ou unidos somente entre eles, o que reconheço: é impossível, têm autoridade para exercer o ministério sacramental consistente no múnus de ensinar, santificar e reger, se nele não se considerar incluído o Romano Pontífice.
A verdade é que a desobediência de realizar ordenações episcopais não autorizadas e a conseqüente excomunhão, que é um fato objetivo, jurídico, que se dá no mundo concreto, apesar de inegáveis e dramáticas implicações de natureza espiritual e de consciência, as torna ilegítimas e, por conseqüência, ilegítimo é o múnus que dela decorreria.
Não pense, por favor, que fico triste ou raivoso com o retorno dos membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X à plena comunhão.
Muito pelo contrário fico feliz e esperançoso, eis que se trata de católicos fervorosos, em que pese os desencontros que estão sendo superados, como o Sr. e como meu padroeiro, Santo Antônio, mas há de convir que, quando se fala de “retorno”, “acordo”, bem como outros termos similares, é porque o vínculo da unidade em algum momento se rompeu, tanto isso é verdade que até mesmo o Sr. admite ter deles se separado, devido à questão dos Tribunais do Vínculo.
Eu lhe digo mais, ficarei muito feliz, porque essa é a Vontade de Nosso Senhor, quando ortodoxos, anglicanos, luteranos, velhos católicos, etc. retonarem (observe que usei a expressão retornarem), porque também é Vontade do Senhor que a unidade se dê em torno de Pedro e seus sucessores, eis que princípio e fundamento dela, como anteriormente dito.
Faço as observações suso mencionadas porque respeito sobremaneira o seu apostolado e o bem que ele realiza (e como). É um parâmetro numa época de descartáveis, ressaltando, ainda, que sou freqüentador habitual do sítio, em que pese tenha, também, toda a consciência de que tal profícuo trabalho é meio e não fim em si mesmo e que a matéria que estamos conversando não se constitui verdade de fé o que, tenho certeza, também é sua opinião.
Por fim, devo confessar que fiquei um pouco impressionado com o fato do Sr. ter me considerado raivoso e zangado. Vou refletir detidamente sobre a questão porque, se me permite a brincadeira, nestes assuntos o Eminente Professor, e seu florete afiado, são mestres.

Respeitosamente, no Senhor.
Marcelo Moraes.

Muito prezado Dr.Marcelo,
salve Maria!
 
    Sua carta deixou-me bastante contente, porque o senhor deixou mais clara a sua questão, mostrando-me que se alegrou com o retorno de Dom Féllay e da Fraternidade.Deo gratias!
    Jantemos, pois, todos juntos e alegremente, o boi que o Pai misericordioso nos preparou para festejar essa reconciliação. 
    O que lhe expliquei é que a “desobediência” material e relativa praticada por Dom Lefebvre e Dom Mayer ao sagrarem Bispos, sem a licença do Papa, não se enquadra no pecado de cisma, porque eles não negavam a autoridade suprema do Papa e lhe reconheciam totalmente seu direito de jurisdição suprema.
    A “desobediência” era só material e não formal, pois visava apenas obedecer à necessidade de manter a Missa, ordenando padres que a rezassem, em obediência ao mandamento de Cristo: “Fazei isto em memória de Mim”, assim como à salvação das almas, que é a suprema lei a que todo o código canônico é subordinado.
    Aproveito esta oportunidade que o senhor me concedeu para depor os floretes, para convidá-lo, não só para jantar o “boi” da parábola , mas para aparecer em alguma palestra que darei na sede dos Amigos da Montfort, no Rio, quando poderemos tomar um café – não parabólico – juntos, e dar-lhe, bem contente, o meu abraço amigo.
 
in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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