Montfort Associação Cultural

8 de outubro de 2004

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René Guénon: carta de Olavo de Carvalho

  • Consulente: Cledson
  • Localizaçao: – Brasil

Caro Prof. Orlando,

Tomei a liberdade de enviar ao Sr. Olavo de Carvalho textos de www.montfort.org.br sobre René Guénon. Eis, logo abaixo, a mensagem que recebi, que lhe repasso na íntegra.

FElicidades,
Cledson

—– Original Message —–
From: Olavo de Carvalho
To: CRB
Sent: Sunday, January 28, 2001 10:47 PM
Subject: René Guénon

Prezado Sr. Orlando Fedelli, Acompanho seus artigos com muito interesse e sou inegavelmente um
apreciador do seu belo trabalho em defesa da religião católica.
Vejo-me no entanto no dever de apontar pelo menos um grave erro no seu
artigo recente sobre René Guénon. Sou um estudioso da obra de Guénon e
tenho com ele pontos de concordância e de divergência. Deste últimos,
alguns são bem sérios, mas nunca julguei que isto devesse me levar a
enxergar na obra desse autor algo de essencialmente maléfico. Ao contrário,
a elevação espiritual de que ele dá mostras cabais em inúmeros trechos da
sua obra é suficiente para inibir qualquer veleidade minha de contestá-lo
em termos desrespeitosos.
V. Sa., no entanto, não sente assim, e fala de Guénon de uma maneira que me
parece totalmente inadequada, seja à nobreza do assunto, seja à própria
dignidade do autor que subscreve o artigo.
Já seria uma coisa bem inapropriada tentar desqualificar um escritor
mediante o expediente de chamá-lo de toxicômano em vez de tentar refutar
primeiro suas idéias. Mas, ao fazê-lo, V. Sa. cai ainda no erro de citar
como única fonte (pois as demais mencionadas são alheias a esse ponto) a
obra de Marie-France James, “Esotérisme et Christianisme Autour de René
Guénon” (Paris, Nouvelles Éditions Latines, 1981), aliás sem consulta
direta mas somente através da citação obtida de outro autor.
Conheço bem essa obra, que li e anotei há mais de dez anos, e conheço
também alguns dos personagens que ela menciona. Posso assegurar que a Srta.
James, malgrado toda a sua pesquisa de arquivo, desconhece a tal ponto
esses personagens que chega a confundir uns com os outros, não sabendo, por
exemplo, que aqueles que ela menciona com os nomes de Martin Lings e Sidi
Abu-Bakr são, fisicamente, a mesma pessoa, ou, noutras ocasiões, atribuindo
a Martin Lings episódios que se passaram com Titus Burckhardt e vice-versa.
Sei dessas coisas por ter convivido durante algum tempo com o sr. Lings e
conversado muito com ele a respeito desses episódios, dos quais a Srta.
James ignora praticamente tudo.
Ao ler depois a obra da Srta. James não deixei de dar boas risadas com as
confusões que ela fazia.
Trata-se, manifestamente, de obra feita à distância, por depoimentos
indiretos, sem pesquisa local e sem a mínima consulta a personagens que,
não obstante, estavam vivos e acessíveis na ocasião em que a autora
procedia às suas investigações.
Sem desmerecer de todo o trabalho, digo que ele vale alguma coisa pela
parte concernente aos meios católicos, que a autora investigou
profundamente, mas nada pelo que diz respeito às organizações e meios
islâmicos, e principalmente ao círculo mais íntimo de René Guénon, que ela
se limitou a conjeturar à distância e com um viés não raro malicioso.
Não vou discutir, agora, as relações entre René Guénon e o cristianismo
desde o ponto de vista doutrinal. Limito-me a dizer que elas não podem ser
resumidas como as de um perverso maçom infiltrado em meios católicos para
destruir a Igreja.
Talvez eu possa me explicar melhor sobre esse ponto mais tarde, quando
tiver tempo.
Por enquanto, só interessa assinalar que a fonte na qual V. Sa., sem dúvida
de boa fé, se baseou para atestar a toxicomania de René Guénon não é
confiável de maneira alguma.
No mais, asseguro que V. Sa. continuará tendo em mim um leitor e admirador
fiel, e faço votos de que V. Sa. tenha sucesso continuado na sua generosa
luta em prol do cristianismo.

Atenciosamente,
Olavo de Carvalho


Enviada em: Sábado, 3 de Fevereiro de 2001 15:30

Caro Prof. Orlando,

Envio-lhe mais um e-mail recebido. Caso queira entrar em contato direito com o Sr. Olavo de Carvalho, eis o seu e-mail: …

FElicidades,
Cledson

—– Original Message —–
From: Olavo de Carvalho
To: CRB
Sent: Tuesday, January 30, 2001 11:22 PM
Subject: Re: René Guénonpbm9u

Prezado amigo,

Muito obrigado. Enviei o e-mail a vocês pensando que esse era o endereço do prof. Fedelli. Já que não era e que vocês tiveram a amabilidade de repassá-lo, peço também que o avisem disso para que ele não pense que foi de propósito que a remessa foi feita a terceiros e não a ele. Peço ainda que acrescentem esse PS:

PS – O uso de fonte pouco confiável para respaldo de tão grave acusação é ainda mais espantoso porque essa fonte não vem sequer citada no original, mas mencionada de segunda mão, com o título em espanhol, a partir de citação feita num artigo de revista. A citação indireta é justificável, mas não num caso desses. Tudo isso mostra uma “libido accusandi” mais própria a induzir em falso testemunho do que a edificar na fé.

Com meus melhores votos,
Olavo de Carvalho

+

Ilmo. Sr. Olavo de Carvalho.
Saudações.

Recebi inicialmente uma sua mensagem muito gentil, com algumas críticas ao que eu escrevera sobre o gnóstico René Guénon.
Com efeito, o sr. começou sua mensagem dizendo:
“Acompanho seus artigos com muito interesse e sou inegavelmente um apreciador do seu belo trabalho em defesa da religião católica”.
Muito obrigado.

E concluía afirmando:
“No mais, asseguro que V. Sa. continuará tendo em mim um leitor e admirador fiel, e faço votos de que V. Sa. tenha sucesso continuado na sua generosa luta em prol do cristianismo.”
Muito obrigado.

Quem lesse essas palavras ficaria com a impressão de que o sr. é um católico preocupado com a defesa da Fé e pronto a apoiar quem a defende.

Ora, se essa conclusão fosse verdadeira, como se explicaria que o sr. — interessado na defesa da Fé Católica e na defesa do cristianismo — se mostrasse também defensor de Guénon, cujo caráter gnóstico o Sr. não negou ?

Há nessa dupla atitude uma contradição profunda.

Estava eu nessa perplexidade quando me chegou um e-mail seu, acrescentando um post scriptum à sua carta do dia anterior.

Parece que o sr. não dormiu bem, pensando no que escrevera, pois seu post scriptum retardatário já não era tão gentil. Nele o senhor me diz:

“PS – O uso de fonte pouco confiável para respaldo de tão grave acusação é ainda mais espantoso porque essa fonte não vem sequer citada no original, mas mencionada de segunda mão, com o título em espanhol, a partir de citação feita num artigo de revista. A citação indireta é justificável, mas não num caso desses. Tudo isso mostra uma “libido acusandi” mais própria a induzir em falso testemunho do que a edificar na fé. Com meus melhores votos, Olavo de Carvalho” (os negritos são meus).

A acusação é pesada, e mantém de pé a perplexidade: qual é a Fé que o sr. pretende edificar?

Que entende o sr. por “edificar a fé”: é aumentar a fé católica em seus leitores, ou insinuar a Gnose de Guénon?

A pergunta se justifica. Pela mensagem que o sr. me enviou, seu amigo Cledson e outros leitores não ficam sabendo qual é a “Fé”, que o sr. tem, e que pretende edificar.

Qual é a “Fé “que o sr. pretende “testemunhar” ?
O sr. é católico ?
O sr. é cristão ?
Ou o sr. aceita pelo menos algumas das teses do esoterismo gnóstico de Guénon e de outros ?

O sr. protesta que eu tenha afirmado, com base numa citação indireta, que Guénon foi viciado em tóxicos.

Eu afirmei que, pior que ser viciado em tóxicos, foi ele ter sido gnóstico e apóstata, por ter aderido ao Islamismo. Cair em heresia e na apostasia são pecados contra a fé, que, de si, são piores do que os pecados contra a caridade.

O sr. me critica por ter feito uma citação indireta. O que não é crime.

Mas já que o sr., fazendo essa crítica, põe em dúvida as informações da autora citada, pergunto ao sr., que é especialista em Guénon:

Guénon foi, sim ou não, viciado em tóxicos? O sr. ao me criticar, esqueceu-se de elucidar esse ponto.

Ele era ou não maçon da linha mística ?
Ele era ou não gnóstico ?
Ele se tornou ou não maometano no final de sua vida ?

Sua crítica à autora que indiretamente citei é curiosa. O sr. reconhece a profundidade de sua pesquisa em arquivos e no que se refere ao cristianismo, mas critica a sua pouca profundidade quanto aos aspectos islâmicos da questão.

O Sr a critica porque ela julgou que Martim Lings e Sidi Abu Bakr não eram a mesma pessoa.

Talvez a autora, Srta. James, não conhecesse mesmo a dupla identidade de Martin Lings (Abu Bakr).
Pois bem.
Martin Lings adotou um pseudônimo ? Por que um pseudônimo árabe ?

Será porque ele, como Guénon, apostatou e se tornou maometano também, como deixa desconfiar esse pseudônimo islâmico ?

E seu amigo Martin Lings é guénoniano também ? É gnóstico também ?

O sr. escreveu algum livro, ensaio ou artigo refutando a obra da Srta. James sobre Guénon? Se escreveu, gostaria de conhecer o que escreveu, porque ajudaria a esclarecer a questão.

Além disso, espero que o sr. me indique em que obras o Sr. julga que poderei eu conhecer toda a verdade sobre Guénon. Assim poderemos discutir com base em fontes comuns.

E também – o que considero mais importante a esclarecer – qual a verdadeira “Fé” de Olavo de Carvalho.

Li alguns poucos artigos seus, em que admirei a sua habilidade, mas não a sua clareza.

Por exemplo, em seu artigo “exotérico” “Fórmula da minha Composição Ideológica”, o sr. se diz ” tradicionalista e conservador” em religião. Só que — habilmente — não diz qual é sua religião.

Há tradicionalismos de todos os tipos. Há mesmo um tradicionalismo esotérico, gnóstico e cabalista.

Qual é o seu ?
É o católico ? De que tipo ? Porque também houve “tradicionalismos” ditos católicos que, de fato, eram gnosticizantes.

Já que o sr. deixa entender ser um bem defender a Fé católica e quer edificar a fé, diga explicitamente — e não “esotericamente” — qual é essa sua fé ?

Meu intuito não é de “induzir em falso testemunho”, mas sim de defender a única Fé verdadeira: a da Igreja Católica Apostólica Romana.

Com lealdade e com clareza.

Atenciosamente,
Orlando Fedeli

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