Montfort Associação Cultural

5 de setembro de 2011

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Remédios sem contra indicação

Autor: Alberto Zucchi

Por Alberto Zucchi, Montfort.org.br

Mesmo com alguns temores e preocupações, após a publicação da Instrução Universae Ecclesiae sobre a aplicação da Carta Apostólica Motu Próprio Summorum Pontificum, o que se tem presenciado é uma maior difusão da Missa de São Pio V. De vários lugares do Brasil temos recebido notícias de padres que se dispõem a utilizar o Missal de 1962. Em muitos desses lugares, os sacerdotes, com autorização episcopal, atendem a pedidos dos fiéis. Em outros, a iniciativa é do próprio padre.  A resistência de alguns bispos parece que vai cedendo à insistência de muitos padres, que em geral, foram formados após a implantação da Missa Nova.

O período das Missas nas catacumbas, ou em casas e locais particulares,  parece que vai chegando ao fim. Tinha razão nosso estimado Professor Orlando quando escreveu, logo após a publicação do Motu Proprio:

“Como o sol faz fugir as trevas — é questão de tempo apenas — a Missa de sempre, de novo, irá iluminar a Igreja com o Sol da Verdade, Cristo Deus. Ela vai iluminar as almas fazendo rebrilhar nelas, de novo, a luz da Fé”.

Assim, foi de fato uma grande vitória da Igreja a restauração da Missa Antiga. Mas, superada uma etapa, talvez a mais importante, a luta continua.

É necessário agora reconquistar as almas.

Recentemente, conversando por telefone com um Padre do interior do Brasil, ele comentava sua preocupação em relação à situação dos seus fiéis, mais ou menos da seguinte forma:

“Eu rezo a Missa Antiga, mas infelizmente vejo que será muito difícil ocorrer nas pessoas que freqüentam a Igreja a mudança de mentalidade que se faz tão necessária”.

A inquietação deste padre não é sem propósito, se analisarmos o ambiente católico de nossos tempos. Muitos padres percebem que a teologia da Missa Antiga exige um modo de vida bastante diferente do que é praticado na sociedade moderna, enquanto a mentalidade reinante nas paróquias é de adaptação ao mundo moderno, como conseqüência da pregação do modernismo teológico, pregação triunfante pelo espaço de mais de uma geração.  Isto leva algumas pessoas que são engajadas em comunidades eclesiais a afirmar que “os jovens não aceitarão a mudança da Missa”, como se estes jovens estivesses satisfeitos com a Missa nova.

Na realidade, o que se vê atualmente são poucos jovens freqüentado os sacramentos com habitualidade. A dificuldade, na aceitação das reformas iniciadas por Bento XVI, está naqueles que se acostumaram a uma vida de católicos sem obrigações e sem deveres. A Missa antiga deixa clara a idéia de sacrifício, e o fato de que não é o “homem” o centro do universo, lembrando, portanto, que ele está submetido às leis de Deus.

Pouco tempo após o telefonema deste sacerdote, alguém me contou sobre outro Padre do interior. Era um padre jovem, em sua primeira designação como vigário. Ele estava entusiasmado em poder fazer bem às almas. Como seu primeiro ato na paróquia, quis ele rezar uma Missa antiga. Compareceram apenas três senhoras. Começou ele então nesse dia um grande trabalho de apostolado.

O local onde este padre iniciou se trabalho era Tombolo, uma pequena cidade, quase uma aldeia no norte da Itália, o ano 1858, o Padre chamava-se Giuseppe Melchiorre Sarto, e alguns anos depois viria a ser eleito Papa, adotando o nome de Pio X.

Giuseppe Sarto, jovem padre na paróquia de Tombolo

São Pio X, ao contrário dos demais Papas do século XX, teve uma grande experiência paroquial com resultados excelentes. Tombolo era conhecida por ser um local onde poucas pessoas freqüentavam os sacramentos, mas após o trabalho de Dom Sarto, que durou nove anos, a cidade estava modificada.

Por todos os lugares onde São Pio X esteve o efeito foi o mesmo. Apenas para citar um exemplo, quando assumiu a diocese de Mântua, São Pio X encontrou um seminário com apenas 22 seminaristas. É um número que poderia ser considerado alto para os padrões de nossa época, mas certamente um número muito baixo para o início do século XX. Para modificar esta situação, ele mesmo resolveu acumular as funções de Bispo com as de reitor do seminário, por algum tempo. Quando deixou Mântua, nove anos depois, o seminário contava com mais de duzentos seminaristas.

Evidentemente, a virtude de São Pio X era um fator decisivo para o resultado de seu trabalho. Como ensina Dom Chautard, em seu livro A alma de todo apostolado, a vida espiritual é imprescindível para aqueles que pretendem ajudar na salvação dos outros.

Sendo para nós impossível imitar São Pio X em suas virtudes, é adequado, ao menos, seguir seus conselhos no que se refere ao combate aos erros modernistas. Visto que foram esses erros a causa da decadência moral instalada nos ambientes católicos…

Esses conselhos estão claramente expressos na encíclica Pascendi Dominici Gregis, na qual são condenados os erros do modernismo. A encíclica foi publicada 104 anos atrás, em 8 de setembro de 1907 mas, assim como a Missa antiga, não perdeu sua atualidade e jamais foi revogada.  A terceira parte da encíclica tem o sugestivo título de “Remédios”, porque é nela que São Pio X apresenta o que deve ser feito para levantar um dique à “torrente de gravíssimos erros, que às claras e às ocultas se vai avolumando”.

Os remédios apresentados por São Pio X, não possuem qualquer contra-indicação e podem ser assim resumidos:

1 – Tomar a filosofia escolástica como base dos estudos sacros.

Este é o primeiro ponto dos remédios apresentados pela encíclica, e não se trata apenas de um conselho, pois São Pio X afirma “queremos em primeiro lugar e mandamos terminantemente”. E por filosofia escolástica, o Papa deixa claro, deve se entender os ensinamentos de São Tomás de Aquino.

2 – Os padres devem se preocupar também com o estudo das coisas naturais sem, entretanto, prejuízo dos estudos sacros.

Como São Pio X se preocupava muito com os estudos, ele dá um remédio importante em relação aos professores:

3 – Todo aquele que tiver tendências modernistas, seja ele quem for, deve ser afastado quer dos cargos quer do magistério; e se já tiver de posse, cumpre ser removido.

A preocupação de São Pio X se estende a formação dos seminaristas, não sendo ele menos rigoroso com estes:

Não  deve ser  menor a vossa  vigilância e severidade na escolha daqueles que devem ser admitidos ao Sacerdócio. Longe, muito longe do clero esteja o amor às novidades; Deus não vê com bons olhos os ânimos soberbos e rebeldes!

A seguir São Pio X trata dos livros que contém doutrinas modernistas. Neste caso o remédio é simples: fica proibida a leitura desses livros.

4 – “Qualquer livro, jornal ou periódico desse gênero não poderá ser permitido aos alunos dos seminários ou das Universidades católicas, pois daí não lhes proviria menor mal do que o que produzem as más leituras; antes, seria ainda pior, porque ficaria contaminada a mesma raiz da vida cristã. Nem diversamente se há de julgar dos escritos de certos católicos, homens aliás de não más intenções, porém faltos de estudos teológicos e embebidos de filosofia moderna, que procuram conciliar com a fé, e fazê-la servir, como eles dizem, em proveito da mesma fé. O nome e a boa reputação dos autores faz com que tais livros sejam lidos sem o menor escrúpulo, e por isto mesmo se tornam assaz perigosos para pouco e pouco encaminharem ao modernismo”.

São Pio X não se contenta em proibir a leitura de maus livros – algo já considerado atentatório à dignidade e aos direitos humanos em nossos dias – ele vai mais longe, afirmando que os bispos devem procurar impedir a impressão desses livros.

 5 – Outro remédio apresentado por São Pio X é a proibição de que sacerdotes católicos comparecem a congressos modernistas.

Concluindo os remédios contra o modernismo afirma São Pio X:

6 – “Combatam as novidades de palavras, e lembrem-se dos avisos de Leão XIII (Instr. S.C. NN. EE. EE. 27/01/1902): ‘Nas publicações católicas não se poderia aprovar uma linguagem que, inspirando-se em perniciosas novidades, parecesse escarnecer da piedade dos fiéis e falasse de nova orientação da vida cristã, de novas direções da Igreja, de novas aspirações da alma moderna, de nova vocação do clero, de nova civilização cristã’”.

Infelizmente, os remédios apontados por São Pio X não foram ministrados à sociedade doente e, se não fosse a promessa de Nossa Senhor, se suporia que o paciente morreu. Mas graças a Deus e à proteção da Santíssima Virgem, e para a surpresa de tantos modernistas, isto não aconteceu.

Da Missa inicial na paróquia de Tombolo para a Missa de canonização de São Pio X se passaram 96 anos. As três senhoras que assistiam a missa foram substituídas por um milhão de fiéis que veneravam o Papa que combateu o modernismo, sem medo do mundo moderno!

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