Montfort Associação Cultural

23 de novembro de 2004

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Religião e capital

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: HAM
  • Localizaçao: São Paulo – SP – Brasil

Gostaria de saber qual a posição da Igreja durante o final da idade média e início da moderna em relação a visão do uso do trabalho como meio de obter lucro? Ou qualquer visào da igreja nos mesmos períodos sobre o capitalismo?

Prezado Ham, salve Maria.

Sua pergunta é sucinta, mas reveladora.

Você deve ser um estudante que tem, ou que teve, um professor marxista. Isso, afinal, é uma “advinhação” bem fácil de acertar, porque a grande maioria dos professores foram contaminados, nas Faculdades, pelo ensino marxistóide, e eles — que normalmente pouco aprendem nos Cursos “Superiores” — vão aos Colégios repetir slogans comunistas e calúnias contra a Igreja, que forçam seus alunos a engolir e a repetir. Tudo, é claro, condimentado com piadas pornográficas “educativas”, a pretexto de promover a “educação” sexual, e garantida pela “liberdade” de cátedra.

É assim que se prepara a massa de manobra para as futuras passeatas.

E qual o ponto de sua missiva que revela a influência de professor marxista, ou a pergunta posta por um tal professor?

É o que você escreveu sobre “o uso do trabalho para obter lucro”.

Nessas palavras está embutida a idéia de que todo assalariado é “explorado” pelo seu patrão. Essa é a tese marxista da mais valia, pela qual todo patrão seria um explorador.

Assim, sua família, por exemplo, seria a “exploradora” econômica da empregada doméstica que trabalha em sua casa. Todos os operários seriam “explorados” por seus patrões. O que é um absurdo.

Leão XIII, na famosa encíclica Rerum Novarum, e Pio XI na Quadragesimo Anno, ensinaram o contrário.

Ensinou Leão XIII: “O trabalho no homem tem duas características marcadas pela própria natureza, a saber, que é pessoal, porque sua força operativa é inerente à pessoa e totalmente própria daquele que a exerce e a cuja finaliddae está destinado; e em seguida, que é necessário pelo fato de que o homem necessita do fruto de seu trabalho para a conservação de sua vida; e conservar a vida é mandato da própria natureza, a que se deve obedecer antes de tudo.

“Ora, se se considera apenas o ponto de vista pessoal, não há dúvida de que está nas mãos do operário marcar um limite demasiadamente estreito ao pagamento combinado; pois assim como voluntariamente ele aloca seu trabalho, assim também ele pode voluntariamente contentar-se com escasso ou a nenhum pagamento, por seu trabalho.

Porém, de modo muito distinto é preciso julgar se, com a razão de personalidade, se juntar a razão de necessidade, que só por pensamento [mentalmente], não na realidade, é separável daquela.

Realmente, permanecer na vida é dever universal de todos, e é um crime faltar a esse dever. Daqui nasce necessariamente o direito de se procurar obter as coisas com as quais a vida se sustenta, e estas coisas, ao homem da classe mais humilde, só as proporciona o salário ganho com o trabalho.

Admita-se, pois, que o operário e o patrão convenham livremente na mesma coisa, e , concretamente, na determinação do salário. Entretanto, há sempre algo que vem da justiça natural e que é superior e anterior à livre vontade dos pactuantes, a saber, que o salário não pode ser insuficiente para o sustento de um operário frugal e morigerado. E se o operário é, forçado pela necessidade ou movido por medo de um mal pior, queira ele ou não, é obrigado a aceitar uma condição mais dura, imposta pelo patrão ou empresário, certamente isto é sofrer uma violência contra a qual reclama a justiça” (Leão XIII, Rerum Novarum, 1938, c).

Desse ensinamento de Leão XIII deduz-se que: 1) Que é de acordo com a natureza um homem assalariar seu trabalho, para sustentar-se e à sua família.O assalariar-se é um direito natural; 2) Que o operário pessoalmente é livre de aceitar o salário que quiser, e que estipula com seu empregador, e até de fazer um trabalho gratuitamente, se ele quiser; 3) Que a necessidade de sustentar-se vivo, por natureza, impõe um direito: que o salário seja justo, isto é, que permita o sustento do operário e de sua família; 4) Portanto, não se pode deixar o salário dependente apenas da lei da liberdade de contrato, pois as circunstâncias podem permitir abusos que violem a justiça natural.

Pio XI confirma essa doutrina na encíclica Quadragesimo Anno:O contrato de salário não é, por sua natureza, injusto. Em primeiro lugar, os que afirmam [socialistas] ser de sua natureza injusto o contrato de trabalho, e pretendem substituí-lo por um contrato de sociedade, dizem um absurdo e caluniam malignamente o Nosso Predecessor [Leão XIII] que, na Encíclica“Rerum Novarum”, não só admite a legitimidade do salário, mas que se estende largamente explicando as normas de justiça que hão de regê-lo” (Pio XI, Quadragesimo Anno, Denzinger, 2261). É pelo salário e pela economia que o operário pode adquirir legitimamente uma propriedade pessoal. É o que ensina Leão XIII.

“Como é fácil compreender, a razão intrínseca do trabalho empreendido por quem exerce uma arte lucrativa, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que lhe pertencerá como coisa própria. Porque se ele põe à disposição de outrem suas forças e sua indústria, não é, evidentemente, por outro motivo senão para conseguir com que possa prover à sua sustentação e às necessidades da vida; e espera de seu trabalho, não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito e rigoroso de usar deste salário como entender. Portanto, se reduzindo as suas despesas, chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo, torna-se evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado: o terreno assim adquirido será propriedade do arífice a mesmo título que a remuneração do seu trabalho. Mas quem não vê que é precisamente nisso que consiste o direito de propriedade mobiliária e imobiliária?” (Leão XIII, Rerum Novarum).

Postas essas premissas, passamos a responder sua pergunta sobre a posição da Igreja, no final da Idade Média. Responderemos, depois, sua questão sobre a posição da Igreja face ao capitalismo.

No final da Idade Média e início da Idade Moderna, o mundo sofreu transformações profundas. O mercantilismo, a industrialização, a urbanização, a descoberta de novas terras, trouxeram grandes modificações sociais, políticas e econômicas. Ao mesmo tempo, a Igreja viu diminuir sua influência, graças ao absolutismo monárquico que fez retornar uma concepção pagã de Estado. Nascia a mentalidade moderna que coloca o fim da vida humana na terra, e não em Deus e no céu.

Em decorrência disso, os bens terrenos passaram a ter uma importância fundamental para a nova mentalidade que se materializava.

O mercantilismo colocava como fim do homem o próprio enriquecimento. Pois se não há outra vida após a morte, é uma grande desgraça o ser pobre, e é suma felicidade ter riquezas que possibilitem gozar desta vida passageira.

A mentalidade medieval, católica, era o oposto da mentalidade moderna pagã. Por isso, o Syllabus de Pio IX afirmará que é impossível a Igreja e os Papas se conciliarem com o mundo e a civilização modernos (Erro 80 do Syllabus de Pio IX).

Noutro trabalho expliquei já como essas duas mentalidades se opõem, por meio do símbolo da rosa.

Mostrei então como Dante, no Convívio, descrevia a mentalidade católica medieval por meio da rosa, que prefere abrir-se ao sol, mesmo que morra, para dar seu perfume ao ambiente que a cerca. Mostrei ainda como nas poesias de Poliziano e de Lourenço, o Magnífico, se descrevia a nova mentalidade moderna através da análise da rosa que vive tão pouco, e que seria preciso aproveitar da rosa — isto é, da vida — antes que ela murchasse.

Como você vê, prezado Ham, são mesmo duas mentalidades inconciliáveis, a católica e a moderna.

É claro que a Igreja condenou a mentalidade moderna, desde que ela deu seus primeiros uivos, no fim da Idade Média, que foi também o fim de muitas coisas santas e boas, enquanto o Renascimento trouxe de volta o paganismo, a escravidão e a busca da vantagem pessoal acima de tudo.

O Mercantilismo colocou o fim do homem no ouro, dizia-lhe eu. O capitalismo é filho do mercantilsmo e da Reforma protestante, especialmente de Calvino, como foi demonstrado por estudos do tema.

Para o capialismo, time is money. Traduzindo isso, dever-se-ia dizer que, para o capitalismo, life is money. A vida, não o tempo, é dinheiro. Com o capitalismo, vive-se para ter dinheiro. E dessa mentalidade capitalista se originou, como aborto monstruoso, o marxismo, ensinando que se a vida é para ter riquezas, “o homem é um animal que trabalha”, na estúpida definição de homem de Engels, que muitos anos atrás, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, dirigida então por um católico esquerdista e socialistóide, impôs — graças sempre à liberdade de pensamento e de consciência– aos professores de História de todos os colégios do Estado.

E se “homens são animais que trabalham” — as formigas, já que elas são animais que trabalham, as formigas seriam então humanas? — Os homens podem ser tratados como animais de carga?

Foi o que fez Lenin. Foi o que fez Mao. É o que faz Fidel Castro, o tirano comunista de Cuba, que acaba de cumprimentar o nosso Presidente pela Reforma Agrária que está realizando no Brasil. Por que será que o comunista Fidel Castro está contente com a reforma agrária de FHC, Dona Ruth e Jungman, realizada com a pressão “externa” do MST?

O comunismo e socialismo tratam os homens como animais, pois são materialistas por princípio. (E não venham me falar em socialismo “cristão”. Pio XI, na mesma encíclica Quadragésimo Anno, afirmou que esses termos — cristinaismo e socialismo — são inconciliáveis , visto que ninguém pode ser verdadeiro cristão e socialista, ao mesmo tempo.).

Muitos pensam, erradamente, que o capitalismo se opõe ao comunismo. Isso só é verdade em parte, porque o comunismo leva ao extremo o que deseja o capitalismo: a igualdade social e econômica. Repito: o capitalismo é o pai do comunismo. A oposição entre eles é apenas de grau, mas a doença, os princípios deles, são os mesmos.

É o que explica que tantos “milionários” capitalistas e tantos “”burgueses” abastados apoiem o comunismo.

Veja como sempre os Estados Unidos apoiaram, desde o princípio, “os grandes acontecimentos que se deram na Rússia”, em 1917, como disse um presidente capitalista dos “States”… Repare a política seguida por Roosevelt, na Segunda Guerra Mundial…

Aqui mesmo, no Brasil, temos um senador infeliz que tem um nome de família milionária, e — na medida em que ele pensa — é marxistóide. E sua ex esposa, idem…

Erram então os que pensam que a Igreja apoia o socialismo, em que pesem as idéias heréticas de Frei Betto e do ex Frei Boff.

Erram os que pensam também que a Igreja apoia o capitalismo sem nenhuma restrição.

Se a Igreja condenou o comunismo ao ensinar que “Intrinsecamente mau é o comunismo” (Pio XI, Divini Redemptoris), ela também sempre fez críticas ao capitalismo.

Do capitalismo, a Igreja aprova o reconhecimento do direito de propriedade particular, assim como o direito de livre iniciativa, contra o coletivismo e o dirigismo socialista. Entretanto, a Igreja condena, e sempre condenou, no capitalismo, a separação entre economia e moral, típico principio liberal, como condena também a livre concorrência absoluta e sem freio, que, de fato, acaba com a própria concorrência, criando monopólios preparadores da socialização da economia.

É claro que, sendo o tema tão vasto, haveria muito mais a dizer. Creio porém que, nos limites de um email — que não pretende ser um tratado de economia política — já é suficiente para atender sua dúvida.

Pronto a atendê-lo, se algo ainda não ficou claro, subscrevo-me atenciosamente,

in Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli.

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