Montfort Associação Cultural

31 de janeiro de 2015

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Relendo Dom Bosco, nos duzentos anos de seu nascimento

Comemoramos neste ano os duzentos anos de nascimento de Dom Bosco, nascido a 16 de agosto de 1815. No dia de sua festa litúrgica, relembremos os dados biográficos desse grande santo e releiamos os dois sonhos proféticos que tratam de acontecimentos do futuro da Igreja.

Fonte:

Biografia

Missa Tridentina na Paróquia São Sebastião, Campo Grande

Sonhos e sua interpretação:

 Orlando Fedeli -Fátima,um segredo contendo um enigma envolto em um mistério

 Dom Bosco: dados biográficos

 

SÃO JOÃO BOSCO

(31 de janeiro)

 

“No decorrer do século XIX, quando por toda a parte chegavam à maturação os venenosos frutos de destruição da sociedade cristã, cujos germes haviam sido tão largamente disseminados pelo século anterior, a Igreja, principalmente na Itália, viu-se à mercê de muitas procelas contra si levantadas, nesses tristes tempos, pela maldade dos homens. Contemporaneamente, porém, a misericórdia divina enviou, para auxílio de sua Igreja, válidos campeões, para que evitassem a ruína e conservassem entre o nosso povo a mais preciosa das heranças recebidas dos Apóstolos – a fé genuína de Cristo. (…) Sobressai entre os demais, por elevação e espírito de grandeza de obras, o Bem-Aventurado João Bosco que, no tristíssimo evoluir dos tempos se constituiu, durante o século passado, qual marco miliário apontando aos povos o caminho da salvação. Porquanto, ‘Deus o suscitou para justiça’, segundo a expressão de Isaías, e ‘dirigiu todos os seus passos’. E, na verdade, o Bem-aventurado João Bosco, por virtude do Espírito Santo, resplandeceu diante de nós como modelo de sacerdote feito segundo o coração de Deus, como educador inigualável da juventude, como fundador de novas famílias religiosas e como propagador da fé.” (Trecho do Decreto de Canonização de São João Bosco, 1934)

São João Bosco nasceu em Castelnuovo d’Asti, Piemonte, Itália, a 16 de Agosto de 1815, numa família de camponeses pobres. Desde pequeno sentiu-se chamado a dedicar a sua vida aos jovens, mas para realizar o seu sonho teve de vencer numerosas dificuldades e sujeitar-se a grandes privações e sacrifícios. Órfão de pai aos dois anos, viveu a sua infância e juventude enfrentando várias dificuldades e desafios. Desde os mais tenros anos sentiu-se impelido para o apostolado entre os companheiros. A sua mãe, sem instrução literária, mas rica de sabedoria cristã, com a palavra e com o exemplo animava-o no seu desejo de crescer virtuoso aos olhos de Deus e dos homens.
Mesmo diante de todas as dificuldades, João Bosco nunca desistiu. Durante um tempo foi obrigado a mendigar para manter os estudos. Prestou toda a espécie de serviços. Foi alfaiate, sapateiro, ferreiro, carpinteiro e, ainda nos tempos livres, estudava música. Em 1835 entrou para o seminário de Chieri vindo a receber a ordenação sacerdotal a 5 de junho de 1841. Começou então a dar provas do seu zelo apostólico, sob a direção de S. José Cafasso, seu diretor espiritual. No dia 8 de dezembro desse mesmo ano, iniciou o seu apostolado juvenil em Turim, num encontro com um rapaz chamado Bartolomeu Garelli. Começava assim a obra dos Oratórios Festivos, destinada, em tempos difíceis, a preservar da ignorância religiosa e da corrupção, especialmente os jovens marginalizados e em perigo.
Em 1846 estabeleceu-se definitivamente em Valdocco, bairro de Turim, onde fundou o Oratório de São Francisco de Sales. Deu-se logo conta de que todo o bem que fazia por seus meninos, se perdia com as más influências do exterior, e decidiu construir suas próprias oficinas de aprendizes. As duas primeiras foram inauguradas em 1853. Em 1855 deu o nome de Salesianos aos seus colaboradores.Em 1856, havia já 150 internos, quatro oficinas, uma imprensa, quatro salas de latim e dez sacerdotes. Os externos eram 500.
Em dezembro de 1859, Dom Bosco e seus 22 companheiros decidiram finalmente organizar a congregação, cujas regras tinham sido aprovadas por Pio IX. Mas a aprovação definitiva não chegou senão 15 anos depois. O fundador deu a esta Congregação Religiosa o nome de “Sociedade de São Francisco de Sales” porque a espiritualidade deste santo (já comemorado este mês) devia inspirar um estilo educativo que denominou “Sistema Preventivo”. Para distinguir esta Congregação de outros institutos inspirados também em São Francisco de Sales mas não fundados por São João Bosco, os membros deste Instituto recebem a sigla de S.D.B. (Salesianos de Dom Bosco).
A ordem cresceu rapidamente: em 1863 havia 39 salesianos, à morte do fundador (1888) eram já 768. O seguinte passo de Dom Bosco foi a fundação de uma congregação feminina. A 5 de Agosto de 1872, São João Bosco, com outra Santa, Maria Domingas Mazzarello, fundou as Filhas de Maria Auxiliadora (F.M.A) para a educação e promoção das moças.  27 candidatas tomaram então o hábito. Dom Bosco também obteve o feito de enviar seus primeiros missionários à América do Sul em 1875, precisamente para a região da Patagônia, Argentina. Pouco a pouco os salesianos se espalharam por toda a América do Sul. Tinham 36 casas no Novo Mundo e 38 na Europa.
Consumido pelo trabalho, fechou o ciclo da sua vida terrena aos 72 anos de idade, a 31 de janeiro de 1888, deixando a Congregação Salesiana espalhada por diversos países da Europa e da América. Se em vida foi honrado e admirado, muito mais o foi depois da morte. A sua reputação de taumaturgo, de renovador do Sistema Preventivo na educação da juventude, de defensor intrépido da Igreja Católica (chegou a ter sonhos proféticos que apontavam para vicissitudes na propagação da fé e da sã doutrina) e grande apóstolo da Virgem Auxiliadora espalhou-se pelo mundo inteiro e ganhou o coração dos povos. Pio XI, que o conheceu e gozou da sua amizade, canonizou-o na Páscoa de 1934.
(com informações da Página Oriente, da Agência
ACI e da Agência Ecclesia de Portugal)

Os textos abaixo fazem parte de um estudo do Prof. Orlando Fedeli sobre o Segredo de Fátima.

Os sonhos de Dom Bosco

 

É bem sabido que São João Bosco gozou de um carisma especial, que fez dele um grande profeta. Sobre o futuro da Igreja, ele teve, no século passado, dois sonhos – também misteriosos – que entretanto, hoje, e com a versão do terceiro segredo [de Fátima], parecem se esclarecer uns aos outros. Dos dois sonhos de Dom Bosco sobre a Igreja, o primeiro é conhecido como o “Das duas colunas no mar” e o segundo como “O triunfo da Virgem“.

(…)

Sonho das duas colunas no mar

Dom Bosco teve este sonho em 1862, portanto antes da realização do Concílio Vaticano I, em 1870. Damos aqui a versão do sonho tal qual se acha na famosa obra de Lemoyne: Memórias Autobiográficas de Dom Bosco, vol VII, pp. 169 a 171.

“Dom Bosco, no dia 26 de maio, havia prometido aos jovens que lhes contaria alguma coisa bonita no último ou no penúltimo dia do mês. No dia 30 de maio, pois, contou à noite uma parábola ou semelhança, como ele quis chamá-la.

‘Quero contar-lhes um sonho. É verdade que quem sonha não raciocina, todavia, eu, que lhes contaria até mesmo os meus pecados, se não tivesse medo de fazer que vocês todos fugissem e fazer cair a casa, lhes conto isso para utilidade espiritual de vocês. O sonho, eu o tive há alguns dias.

Imaginem vocês de estar comigo numa praia do mar, ou antes, sobre um escolho isolado, e de não ver outro espaço de terra a não ser aquele que lhes está sob os pés. Em toda aquela vasta superfície das águas se via uma multidão inumerável de navios em ordem de batalha, cujas proas eram terminadas por um agudo esporão de ferro em forma de lança, que, onde era dirigido, feria e traspassava qualquer coisa. Estes navios estavam armados com canhões, carregados com fuzis, com outras armas de todo gênero, com matérias incendiárias, e também com livros, e avançavam contra um navio muito maior e mais alto que todos eles, tentando chocar-se com ele por meio do esporão, incendiá-lo, ou então causar-lhe todo o dano possível.

Aquela nave majestosa, perfeitamente guarnecida, era escoltada por muitas navezinhas que recebiam dela os sinais de comando e executavam manobras para se defender das frotas adversárias. O vento lhes era desfavorável e o mar agitado parecia favorecer os inimigos.

No meio da imensa extensão do mar elevavam-se acima das ondas duas robustas colunas, altíssimas, pouco distantes uma da outra. Sobre uma delas havia a estátua da Virgem Imaculada, a cujos pés pendia um longo cartaz com esta inscrição: Auxilium Christianorum; sobre a outra, que era muito mais alta e mais grossa, havia uma Hóstia de grandeza proporcional à coluna, e sobre um outro cartaz, com as palavras: Salus Credentium.

O comandante supremo da grande nau, que era o Romano Pontífice, vendo o furor dos inimigos e o mau partido em que se achavam os seus fiéis, pensa convocar para junto de si os pilotos dos navios secundários, para ter um conselho e decidir o que se deveria fazer.
Todos os pilotos sobem e se reúnem em torno do Papa. Mantêm uma reunião, mas, enfurecendo-se cada vez mais o vento e a tempestade, eles são mandados de volta para dirigir seus próprios navios.

Ocorrendo um pouco de calmaria, o Papa reúne os pilotos de novo, pela segunda vez em torno de si, enquanto a nau capitania segue o seu curso. Mas a borrasca volta espantosa.

O Papa permanece no timão, e todos os seus esforços são dirigidos a levar a nau para o meio daquelas duas colunas, de cujo cimo pendem, em toda a volta delas, muitas âncoras e grossos ganchos presos a correntes.

Os navios inimigos se movem todos a assaltá-la, e tentam de todo modo detê-la e fazê-la afundar. Algumas com escritos, com livros, com matérias incendiárias de que estão cheias, e que buscam lançá-las a bordo; as demais com os canhões, com os fuzis, e com os esporões; o combate se torna cada vez mais encarniçado. As proas inimigas a chocam violentamente, mas seus esforços e seu ímpeto se revelam inúteis. Em vão tentam de novo o ataque e desperdiçam toda a sua fadiga e munições: a grande nau prossegue seguramente e livre em seu caminho. Ocorre por vezes que, atingida por golpes formidáveis, apresenta em seus flancos largas e profundas brechas, mas apenas acontece o dano, sopra um vento proveniente das duas colunas e as brechas se fecham e os furos se obturam.

E explodem os canhões dos assaltantes, despedaçam-se os fuzis, e todas as outras armas e os esporões; destroem-se muitos navios e se afundam no mar. Então, os inimigos, furibundos, começam a combater com armas curtas; e com as mãos, com os punhos, com blasfêmias e com maldições.

Quando eis que o Papa, ferido gravemente, cai. Imediatamente, aqueles que estão junto com ele correm a ajudá-lo e o levantam. O Papa é ferido a segunda vez, cai de novo e morre.

Um grito de vitória e de alegria ressoa entre os inimigos; sobre os seus navios se dá um indizível tripudio. Eis que apenas morto o Pontífice, um outro Papa o substitui em seu posto. Os pilotos reunidos o elegeram tão subitamente que a notícia da morte do Papa chegou com a notícia da eleição do sucessor. Os adversários começam a perder a coragem.

O novo Papa, dispersando e superando todo obstáculo, guia o navio até as duas colunas e, chegando junto a elas, o ata com uma pequena corrente que pendia da proa a uma âncora da coluna sobre a qual estava a Hóstia; e com uma outra pequena corrente que pendia da popa o prende do lado oposto a uma outra âncora, que pendia da coluna sobre a qual estava colocada a Virgem Imaculada.

Então, aconteceu uma grande reviravolta. Todos os navios que até aquele ponto tinham combatido a nau sobre a qual governava o Papa fogem, se dispersam, se chocam e se destroçam mutuamente. Uns naufragam e procuram afundar os outros. Outras navezinhas que tinham combatido valorosamente com o Papa são as primeiras a virem a atar-se àquelas colunas. Muitas outras naus que, tendo-se retirado por temor da batalha. se acham em grande distância, ficam prudentemente observando, até que, desaparecidos nos abismos do mar os restos de todos os navios destroçadas, com grande vigor vogam em direção daquelas duas colunas, onde, chegando, se prendem aos ganchos pendentes das mesmas colunas, e aí ficam tranqüilas e seguras, junto com a nau principal, sobre a qual está o Papa.

No mar reina uma grande calma.’

Dom Bosco, neste ponto, interrogou Dom Rua: ‘Que pensa você deste relato?’

Dom Rua respondeu: ‘Parece-me que a nau do Papa seja a Igreja, da qual ele é o chefe: os navios, os homens, o mar são este mundo. Aqueles que defendem o grande navio são os bons afeiçoados à Santa Sé, os outros são os seus inimigos que com toda sorte de armas tentam aniquilá-la. As duas colunas de salvação me parece que sejam a devoção a Maria Santíssima e ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia.’

Dom Rua não disse nada do Papa caído e morto, e Dom Bosco calou-se também sobre isso. Somente acrescentou: ‘Disseste bem. É preciso somente corrigir uma expressão. As naus dos inimigos são as perseguições [à Igreja]. Preparam-se gravíssimos sofrimentos para a Igreja. O que até agora aconteceu é quase nada comparado com aquilo que deve acontecer. Os seus inimigos são figurados pelos navios que tentam afundar, se o pudessem, a nau capitania. Só restam dois meios para salvar-se entre tantas desordens: a devoção a Maria Santíssima e a freqüência à Comunhão, empregando todos os meios e fazendo de nossa melhor maneira para praticá-los e os fazer praticar, em toda parte, e por todos. Boa noite!’

As conjeturas que fizeram os jovens a respeito deste sonho foram muitíssimas, especialmente com relação aos Papas, mas Dom Bosco não acrescentou outras explicações. Entretanto, os clérigos Boggero, Ruffino, Merlone, e o senhor Cesar Chiala descreveram este sonho e nos restam seus manuscritos. Dois foram compilados no dia seguinte à narração de Dom Bosco, e os outros dois passado maior tempo: mas estão perfeitamente de acordo e variam somente em algumas circunstâncias, que um omite e outro registra.

Todavia, é de se notar como neste caso, e em outros de gênero semelhante, se bem que o conto feito por Dom Bosco fosse escrito logo depois com a maior fidelidade possível, entretanto não podia evitar alguma imperfeição. Um discurso que durou meia hora, talvez uma hora, naturalmente devia ficar compendiado em poucas folhas, colhidas apenas as principais idéias. Algumas frases não tinham podido ser percebidas pelo ouvido, algumas outras não eram mais lembradas; a mente se cansava, a ordem dos fatos se confundia, daí antes que arriscar escrever algo exagerado se omitiam aquelas coisas das quais não se estava seguro. Daqui provinham obscuridades em assuntos que por sua natureza tinham muitos pontos obscuros, especialmente referentes a coisas futuras; por isso discussões e explicações diversas e contraditórias.

E isso aconteceu também com relação ao sonho ou parábola que citamos acima. Alguém disse que os Papas que se sucederam no comando da nau foram três e não dois. Deste parecer foi o Cônego Giovanni Maria Bourlot, que foi pároco de Cambiano, o qual, sendo estudante de filosofia em 1862, estava presente quando Dom Bosco contou o sonho acima. Vindo ao Oratório no ano 1886, falando com Dom Bosco, na hora do jantar, das impressões que lhe ficaram da sua juventude, assegurava estar seguro da fidelidade de sua memória, começou a descrever o sonho das duas colunas no meio do mar, afirmando que os Papas caídos foram dois. Na queda do primeiro haviam exclamado os pilotos: ‘Apressemo-nos; é coisa fácil substituí-lo.’ E, na queda do segundo, tinham acorrido os pilotos, mas sem pronunciar esta frase. Quem escreve estas memórias [o próprio Lemoyne] naquele momento estava distraído conversando com seu vizinho à mesa, e Dom Bosco lhe disse: ‘Escuta e presta atenção ao que diz Dom Bourlot.’ Ele [Lemoyne] tendo-lhe respondido que conhecia bastante bem aquele fato pelos documentos que possuía, e que segundo ele os Papas da nau eram somente dois, Dom Bosco lhe replicou: ‘Digo-te que tu não sabes nada.’ Em 1907, Dom Bourlot, retornando ao Oratório, repetia, com exatidão – sinal de uma boa memória – depois de 48 anos, o relato do sonho, sustentava o número dos Papas serem três, recordava nossa contestação às suas afirmações e as palavras de Bosco a nós dirigidas.
Com tudo isso, destas duas versões, qual será a legítima? Aquela da crônica ou então a do Cônego Dom Bourlot? Talvez os acontecimentos darão a solução da dúvida. Devemos porém concluir dizendo que César Chiala com os outros, são as suas precisas palavras, a entendeu como uma verdadeira visão e profecia, se bem que Dom Bosco, ao contá-la, não parecesse ter outro escopo senão induzir os jovens a rezar pela Igreja e pelo Sumo Pontífice, e de atraí-los à devoção ao Santíssimo Sacramento e para com MariaImaculada.”

 

O triunfo da Virgem Maria (ou: Do triunfo do Imaculado Coração de Maria)

 

“Era uma noite escura. Os homens não podiam mais discernir qual fosse o caminho para retornar a suas aldeias, quando apareceu no céu uma luz esplendorosíssima que esclarecia os passos dos viajantes como se fosse meio-dia.

Naquele momento, foi vista uma multidão de homens, de mulheres, de velhos, de crianças, de monges, freiras e Sacerdotes, tendo à frente o Pontífice, sair do Vaticano enfileirando-se em forma de procissão. Mas eis um furioso temporal escurecendo um tanto aquela luz. Parecia engajar-se uma batalha entre a luz e as trevas.

Chegou-se a uma pequena praça coberta de mortos e de feridos, dos quais vários pediam conforto em altas vozes. As fileiras da procissão se tornaram bastante ralas. Depois de ter caminhado por um espaço de duzentos levantar do sol, cada um percebeu que não estava mais em Roma. O espanto invadiu os ânimos de todos, e cada um se recolheu em torno do Pontífice para guardar a sua pessoa e assisti-lo em suas necessidades. Naquele momento, foram vistos dois anjos que portavam um estandarte e o foram apresentar ao Pontífice dizendo: ‘Recebe o vexilo d’Aquela que combate e dispersa os mais fortes exércitos da terra. Os teus inimigos desapareceram, os teus filhos, com lágrimas e com suspiros, invocam o teu retorno.’

Levantando, depois, o olhar para o estandarte, se via escrito nele, de um lado: ‘Regina sine labe originale concepta’; e do outro lado: ‘Auxillium Christianorum‘. O Pontífice tomou o estandarte com alegria, mas tornando a olhar o pequeno número daqueles que haviam permanecido em torno de si, ficou aflitíssimo.

Os dois anjos acrescentaram: ‘Vai depressa consolar os teus filhos. Escreve a teus irmãos dispersos nas várias partes do mundo que é preciso uma reforma nos costumes e nos homens. Isto só se poderá obter repartindo aos povos o pão da Divina Palavra. Catequizai as crianças, pregai o desapego das coisas da terra.’ ‘Chegou o tempo’, concluíram os dois anjos, ‘que os pobres serão os evangelizadores dos povos. Os Levitas serão buscados entre a enxada, a pá e o martelo, a fim de que se cumpram as palavras de Daví: Deus levantou o pobre da terra para colocá-lo sobre o trono dos príncipes do teu povo.’

Ouvindo isto, o Pontífice se moveu e as filas da procissão começaram a engrossar-se. Quando, afinal, ele colocou o pé na cidade santa, ele começou a chorar por causa da desolação em que estavam os cidadãos, dos quais muitos não existiam mais. Reentrado, enfim, em São Pedro, ele entoou o Te Deum, que foi respondido por um coro de anjos, cantando: ‘Gloria in excelsis Deo, et pax in terris hominibus bonae voluntatis’.

Terminado o canto, cessou de fato toda escuridão e se manifestou um sol fulgidíssimo. As cidades, as aldeias, os campos tinham a população muito diminuída, a terra estava pisada como por um furacão, por um temporal e pelo granizo, e as pessoas iam umas para as outras dizendo com ânimo comovido: ‘Há um Deus em Israel’.

Do começo do exílio até o canto do Te Deum, o sol se levantou duzentas vezes. Todo o tempo que transcorreu para se cumprirem estas coisas corresponde a quatrocentos levantar de sol.

 

Tentativa de explicação destes sonhos de Dom Bosco

Os dois sonhos apresentam uma mesma estrutura: os dois mostram que a Igreja – ou o Papa – se afastam de um lugar seguro – e santo – para colocar-se numa situação de perigo, longe da Hóstia e de Nossa Senhora, longe de Roma. O que significa um misterioso afastamento da Fé, da devoção eucarística, portanto, da Missa, e da devoção a Nossa Senhora.

Ora, o milagre do sol em Fátima, em 1917, tem o mesmo esquema: o sol que cai e retorna a seu lugar de sempre. Depois de peripécias, o navio da Igreja e a procissão do Papa retornam ao ponto seguro, de onde não deveriam ter se afastado. O sol volta a seu lugar normal, e volta a brilhar com um tal fulgor que não podia ser fixado. Parece evidente que afastar-se o navio da Igreja das colunas, onde estava preso e seguro, foi um erro. Quem se afasta da Hóstia e de Nossa Senhora só pode encontrar perigos e tentações. Do mesmo modo, a procissão que sai do Vaticano e caminha duzentos dias, até que o Papa, e cada um, se dão conta de que não estão em Roma, indica o mesmo erro. O sol caiu em direção à terra, ao humano. E que significa aí sair de Roma? Será sair fisicamente de Roma ou sair espiritualmente? Que significa que o sol caiu?

Evidentemente, este sair não foi físico – como a queda do sol foi apenas simbólica – porque, se fosse um sair fisicamente de Roma, como o Papa e os que o seguiam só perceberam que estavam fora da cidade santa depois de 200 dias de caminhada? Sair de Roma significa afastar-se do que ensina a Fé, assim como fazer o navio da Igreja afastar-se da coluna da Eucaristia, isto é, da Missa, e de Nossa Senhora, significa abandonar os dois pontos fundamentais de nossa religião. Como o cair do sol simboliza uma queda sofrida pela Igreja em sua parte humana.

Esta visão da procissão que sai de Roma tem pormenores muito curiosos que a aproximam sobremaneira da visão do terceiro segredo, na qual os Cardeais Sodano e Ratzinger identificaram a “Via Crucis dos Papas no século XX”. Ora, a Via Crucis é uma espécie de procissão… Só que, pelo sonho de Dom Bosco, essa Via Crucis marchou para um exílio de Roma. Alguém orientou mal a Via Crucis, como alguém fez mal em soltar a nau da Igreja das colunas da Eucaristia e da devoção a Nossa Senhora. Quem cometeu essa culpa atraiu para a Igreja e para o mundo um grande castigo de que fala a visão do terceiro segredo. E tal castigo ainda não aconteceu.

No auge da crise, haverá uma intervenção sobrenatural que fará um Papa tomar o caminho de volta para Roma – para as duas colunas de salvação: a Missa e a devoção a Nossa Senhora. O Papa que iniciará esse retorno parece fazê-lo de modo vacilante. Ele cambaleia, hesita, chora, vendo os estragos causados por aqueles que deram uma orientação errada ao caminho da procissão e da nau. Não fica claro se o Papa que começa a retornar é o mesmo que, afinal, prende a nau da Igreja solidamente às duas colunas, se ele é o mesmo Papa que entoa o Te Deum de triunfo. Provavelmente são vários os Papas que são indicados nas visões de Dom Bosco, e mesmo na visão do terceiro segredo de Fátima. Que essa causa ocorreu no século XX, parece óbvio, pelo que dizem as mensagens de Fátima.

Ora, mesmo muitos daqueles que defendem o Concílio Vaticano II concordam que ele abriu uma crise sem precedente na História da Igreja. Paulo VI, como vimos, falou da fumaça de Satã que entrou no templo de Deus. E ele mesmo disse que aguardava depois do Concílio “um dia de sol para a Igreja”, e em vez disso veio uma noite de tempestade. São quase as mesmas palavras dos sonhos de Dom Bosco, com o mesmo significado. Que o Concílio provocou uma rarefação das pessoas que seguem a “procissão do Papa” parece indubitável. Basta verificar as estatísticas das apostasias e da diminuição da assistência à Missa dominical para constatá-lo.

Concluindo, vemos que os dois sonhos de Dom Bosco e a visão do terceiro segredo de Fátima fazem referência a um movimento, a um deslocamento do Papa, que deveria ser sempre estável como a pedra. Essa mudança de posição de um Papa foi a causa de todos os sofrimentos que a Igreja e o mundo tiveram e terão que suportar. E o Vaticano II foi uma mudança. E uma mudança tal que pôs tudo em movimento. O sol começou a “dançar” e a rodar sobre si mesmo, como se tivesse enlouquecido…

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