Montfort Associação Cultural

23 de novembro de 2004

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Realismo e objetividade na análise do debate

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Rafael Morales
  • Localizaçao: – Brasil

Caríssimo Irmão em Cristo Orlando,

Como tenho acompanhado, percebo estar acontecendo uma certa acirração dos ânimos no que diz respeito às bases que fundamentam o Caminho Neocatecumenal.

De um lado Vossa Senhoria faz alegações a cerca da doutrina pela qual se pauta dito movimento, de outro pessoas que pertencem a este e tem se mostrada deveras ofendidas com suas respostas.

Tentarei aqui fazer algumas argumentações para ambos os lados, eis elas:

Tu sustentas seus argumentos com base em obra publicada por um padre italiano, o que a meu ver é totalmente concebível já que, deduzindo-se de suas respostas, o primeiro contato que o Sr. teve com o movimento talvez tenha sido através destes escritos. A partir disso o Sr., como qualquer outra pessoa, formou opinião a respeito, até que se prove ao contrário.

E neste ponto é que percebo e concordo com o Sr: que estás compelido a somente esclarecer as dúvidas e questionamentos que ora permeiam a contenda. E nesse caso nada mais racional do que obter as devidas provas, momento em que entram as benditas apostilas de que tanto se fala.

Como outros, sou também membro do Caminho Neocatecumenal e não pretendo aqui incorrer nos mesmo erros de meus caros irmãos.

Muito já se falou de ambos os lados, que o padre não é autoridade competente para criticar o caminho, etc, etc, etc. Posso falar um pouco melhor sobre o livro pois o li e reli várias vezes, e como meus colegas, a princípio fiquei indignado com seu teor, porém falhei em algo: fiz julgamento, li o livro sob à luz de uma clara influência, portanto não válido. Percebes agora onde quero chegar, a melhor forma de provar algo, e nisto toda a ciência está pautada, seus pensadores, é através da abstração, ou seja, reunir fatos, experimentações e a partir disso tecer a argumentação. Nesse contexto é válido citar que muitos dos grandes pensadores da humanidade, muitas vezes, se viram ladeados por teorias totalmente antagônicas, mas que a partir dessa disparidade, e se não fosse assim talvez não tivessem chegado à “perfeição”, é que puderam alcançar o conhecimento.

Minha sugestão, assim, é a seguinte: reuna o material disponível e principalmente – faça uma visita a uma comunidade neocatecumenal, seguidos esses passos, faça seu julgamento, melhor! sua tese!

Já deves ter lido inúmeros textos enviados por catecúmenos, mas vou insistir, para tanto vai anexo textos oficiais da Cúria Romana e outros de testemunhos de pessoas que participam do movimento. Sugiro também buscar informações em sites, é simples localizá-los: vá até um site de busca (Cadê e Altavista têm uma boa lista de sites sobre o assunto) e digite “caminho neocatecumenal”, lá poderá encontrar páginas de várias regiões do Brasil. Querendo ir mais longe podes procurar nos idiomas espanhol, italiano e inglês para tanto digite assim: “camino neocatecumenal”; “neocatecumenale” e “neocatechumenal way”. Alguns títulos de livros publicados pelo caminho seria de muita valia para seu estudo, a saber: “O Caminho Neocatecumenal segundo João Paulo II e Paulo VI” pela Loyola e facilmente encontrado na livraria de mesmo nome. Na mesma livraria o título “No Cárcere Porém Livres” da coleção Teshuvá, livro de serena leitura que relata a conversão de presos num presídio italiano. Pode até ser muita leitura mas trata-se muito mais em perceber o plano de salvação de Deus na vida do homem, do que propriamente uma reunião de fatos para uma peleja, lhe asseguro, só tens a ganhar com estas leituras.

A cerca do livro do Padre Zoffolli, cabe esclarecer: as ditas apostilas de que tanto se fala são apenas transcrições de catequeses dados por catequistas. Os trechos nos quais se baseia sua argumentação foram propositalmente tirados dessas catequeses sem se levar em conta o contexto na qual foram ditas, portanto existe uma clara manipulação de conteúdo literário, o que o Sr. há de concordar comigo inviabilizaria a construção de qualquer argumentação séria.

Mesmo que tais catequeses tenham em seu corpo frases como aquelas, é importante ressaltar que trata-se, e aqui temos que deixar de lado a racionalidade, muito mais de uma inspiração na qual o catequista, sob a tutela de uma assembléia, de um padre e guiado pela Espírito Santo profere o anúncio do Kerigma. Parece até meio difícil compreender isto sob o ponto de vista racional, mas para se prestar a tal tarefa seria de fundamental importância a presença ao acontecimento. Muito diferente é ler algo, com todos nossos julgamentos e preconceitos, do que presenciar, pois neste caso existe toda uma liturgia que prepara as pessoas para receberem a catequese e sob um ambiente clerical e de oração, o que muda radicalmente a percepção que adquirimos.

São Paulo foi assim; um apaixonado; alguém que sob a inspiração do Espírito Santo e ao mesmo tempo guiado por toda sua racionalidade de homem helenista, teceu toda a malha da tradição Cristã , não fosse assim talvez a mensagem do Cristo nem tivesse chegado aos nossos tempos. Muitas vezes ele era duro, radical, mas assim era preciso, a causa do Evangelho era maior.

A isso que o Caminho se presta, a levar o evangelho, e a partir disso fazer com que o homem colha, permeado pelo sentimento do Kerigma, os frutos da conversão e receba os louros da ressurreição em Cristo Jesus. E pense, não é isto que importa na verdade? Procure se informar sobre os frutos que o caminho tem dado ao longo do tempo, se dispa de julgamentos precipitados, perceberás então a grandeza, não do movimento, nem do Kiko, mas de Deus, de seu amor para com o homem.

Caro irmão, sei que vais mandar uma resposta cobrando a apostila ou mesmo contrapondo-me e nesse caso me perdoe pelo julgamento, mas não vá por esse lado, não é uma disputa, e sim uma tentativa de encontrar o Cristo em nossas vidas. Faça o que lhe sugeri, construa seu pensamento a cerca do movimento, vais ganhar muito mais do que ter acesso a tais apostilas e como o padre, tentar encontrar frases que incriminem um ou outro lado. Percebes! A preocupação nossa não é em torna das apostilas, se as tivesse passaria ao Sr, estamos restringindo-nos a questões muito pequenas, não vale a pena!

Por fim perdoe-me se me fiz parecer arrogante ou algo parecido, mais do que isso trata-se de alguém que teve sua vida inundada por Cristo, assim resumido no sentimento de São Paulo:

“Para mim o viver é Cristo e Morrer é uma sorte”

Um forte abraço e que a paz de Jesus Cristo Ressuscitado esteja contigo.

Aguardo seu contato.
Rafael Morales

Muito prezado Rafael,
salve Maria.

Estimei muito a ponderação e o equilíbrio que você manifestou em sua missiva, tanto mais que você pertence ao neocatecumenato. Parece-me que você disse muitas coisas com realismo e objetividade.

Em primeiro lugar, você viu bem que do neocatecumenato — basicamente — eu só tinha as informações do que lera do Padre Zoffoli (possuía ainda alguns depoimentos pessoais, mas nada muito extenso). Mas tenho a observar-lhe que não tenho ânimo acirrado contra as pessoas desse movimento. Tenho certeza — como bem parece o seu caso — que muitas delas são católicas sérias, sinceras e com muito boa intenção, e que assim permanecem por desconhecerem completamente o que se ensina nas apostilas de Kiko e Carmen para os Catequistas do Movimento neocatecumenal.

Creia-me, não tenho o menor acirramento pessoal nessa questão. Tanto assim que me limitei a pedir que me fornecessem as tais apostilas, e que reveria minha posição caso ficasse provado que Padre Zoffoli mentira. Reitero ainda agora essa posição.

A sinceridade com que você enfrenta o problema se percebe no fato que você procurou ler as acusações do Padre Zoffoli, embora influenciado por seu ambiente, para ver se ele dizia a verdade.

Agradeço-lhe os sites e as fontes que você me indica para conhecer o neocatecumenato. Algumas delas já me haviam sido fornecidas.

Entretanto, e aplicando os próprios princípios que você colocou e admite, creio que só se resolve minha dúvida se tiver as benditas apostilas em mãos.

Você me confessa que não as possui, mas que ela existem, fato que foi negado veementemente por vários dos que me responderam defendendo Kiko. Eles estavam enganados. Mais grave: eles foram enganados.

Alguém no neocatecumenato garantiu a essas pessoas que as apostilas não existem. E elas existem. Um movimento que engana desse modo seus participantes não me parece louvável. Pior: isso revela que há de fato no Movimento neocatecumenal coisas secretas. Isso também não é aceitável.

Segundo você, essa apostilas existem, mas Padre Zoffoli as deturpou, retirando frases de seu contexto.

Veja o que você me escreveu:

“Acerca do livro do Padre Zoffolli, cabe esclarecer: as ditas apostilas de que tanto se fala são apenas transcrições de catequeses dados por catequistas. Os trechos nos quais se baseia sua argumentação foram propositalmente tirados dessas catequeses sem se levar em conta o contexto na qual foram ditas, portanto existe uma clara manipulação de conteúdo literário, o que o Sr. há de concordar comigo inviabilizaria a construção de qualquer argumentação séria.”
Permita-me perguntar-lhe: se você não tem as apostilas, como sabe que as frases citadas foram retiradas de um contexto que as inocentaria?

Não me parece que você pode afirmar isso. Sua sinceridade e retidão me dão certeza de que você compreende este meu argumento. Para afirmar se houve deturpação pela retirada de um contexto devemos — você e eu — ter as apostilas em mãos.

Você me escreve ainda:

“Mesmo que tais catequeses tenham em seu corpo frases como aquelas, é importante ressaltar que trata-se, e aqui temos que deixar de lado a racionalidade, muito mais de uma inspiração na qual o catequista, sob a tutela de uma assembléia, de um padre e guiado pela Espírito Santo profere o anúncio do Kerigma” (O negrito é meu).

Você me pede que compreenda que Kiko e Carmen podem ter dito coisas erradas sob a inspiração do Espírito Santo. Ora, meu caro e compreensivo missivista, você deve saber muito bem que o Espírito Santo não leva ninguém a dizer bobagens e, pior ainda, erros de doutrina. A presença de erros num texto ou numa pessoa provam que ela não agiu sob o influxo do Espírito Santo

Você me pede ainda para “deixar de lado a racionalidade”.

Nisso não posso atendê-lo. Deixar de lado a racionalidade seria admitir como legítimo dizer coisas não racionais. Ora, estamos buscando a verdade na questão, e ela só pode ser alcançada por meios racionais.

Antes de encerrar, quero deixar bem claro que você não foi nada arrogante, nem ofensivo, e ficou claro que você não quis “polemizar” mas sim ajudar, pelo que lhe agradeço. Vejo em tudo isso a prova de que há pessoas de boa intenção no neocatecumenato.

A todas essas pessoas eu gostaria de ajudar, alertando-as contra os erros e doutrinas secretas que ocultam delas.

Tenho a dizer-lhe que já possuo parte das apostilas de Kiko, e que as estou traduzindo. Logo mais as publicarei no site Montfort. As frases que contém erros graves contra a fé estarão no seu contexto. E elas são inescusáveis.

Esteja certo de minha admiração pessoal por você, pelo valor e sinceridade demonstrados, e que lhe asseguro rezar por você

in Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli

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