Montfort Associação Cultural

10 de agosto de 2005

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RCC: O erro de alguns não é o erro de todos

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Padre Jonas Eduardo
  • Idade: 33
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação em andamento
  • Profissão: (Padre Religioso)
  • Religião: Católica

Roma, 5-8-05.
Caro Sr. Orlando:
A paz!
Casualmente fiquei conhecendo o seu site.
Agradeco ao Senhor Deus por suscitar no coracao de muitos batizados o desejo de defender o “depositum fidei” com coragem.
Espantei-me porém com toda a discussao entabulada sobre o “Movimento Pentecostal Católico”, como melhor o definiu o Pe. Francis Sullivan, SJ, no início dos anos 70; a “Renovacao Carismática Católica” (RCC) existente no Brasil e, com nomes diversos, em diversas nacoes do mundo, é uma de suas expressoes.
V. Sra. praticamente coloca na “fogueira inquisitória” este Movimento e os seus promotores, como p. ex. o Pe. Jonas Abib, do Brasil.
Tudo em nome da ortodoxia católica.
Concordo plenamente que certas expressoes utilizadas em impressos, pregacoes ou cancoes sejam do ponto de vista dogmático inexatas, ambíguas ou mesmo objetivamente erroneas (afirmar p. ex. que a Bíblia se explica por si mesma é impreciso, pois nao leva em conta a Tradicao eclesial, o ensinamento do Magisterio oficial e ainda o contexto extra-bíblico; etc.).
Sei igualmente que muitos que participam deste Movimento acabaram por cair em desvios de comportamento (como o triste caso do Pe. Roque, de Curitiba-PR, Brasil, que se “autoconsagrou” Bispo da Igreja Católica Carismática naquele estado, fato pouco divulgado pela imprensa).
Mas isto – falo como católico romano, religioso professo, sacerdote e doutorando em T. Dogmática pela Gregoriana de Roma – nao pode servir para condenar em bloco todos os que condividem, parcial ou integralmente, tal espiritualidade (na verdade, o Movimento Pentecostal Católico é um movimento espiritual), que, como qualquer espiritualidade ao interno da Igreja Catolica, possui elementos que lhes sao próprios (a oracao de louvor feita em grupos, uso de expressoes corporais para honrar o Senhor, abertura humilde e confiante à multiforme acao do Espirito, a intercessao mais frequente suplicando a misericordia divina pelos doentes do corpo e do espírito etc.), mas de modo algum exclui – antes! – aquilo que é patrimonio comum do Catolicismo romano.
Nao existe contradicao entre ambos.
Insisto em sublinhar: o erro de alguns nao é o erro de todos.
Creio que o Pentecostalismo Católico seja apenas um meio que a Providencia divina quis proporcionar a alguns para que retornassem ao seio da amada Igreja de Cristo, a Igreja Catolica, ou para que reavivassem a própria fé, já morta ou agonizante (Sto Tomas fala na Summa Theologiae de novas missoes do Espirito Santo na alma do batizado, além do que nos é concedido por meio dos Santos Sacramentos). – E, acrescento ainda, para que muitos pudesse comecar a experimentar um pouco da vida iluminativa e unitiva, tao bem descrita nos manuais clássicos de teologia espiritual (Royo Marín, Lagrange etc.), mas a partir do século XX tao distante da vida da maioria dos batizados pela onda de secularismo que tem invadido a sociedade moderna.
O fato de ter suas raízes no Protestantismo nao o desabona, já que Deus é livre para agir também fora dos limites visíveis da Igreja Católica, como V. Sra. bem o sabe. Trata-se sempre – antes que alguém me reprove pelo que disse – da mesma graca que nos vem do Mistério Pascal de Jesus Cristo, Verbo de Deus que assumiu a natureza humana, e unido indissoluvelmente à sua Esposa Igreja, que tem em Pedro a sua rocha visível.
Aprendamos a apreciar a verdade, o bem e a beleza presentes em realidades diversas daquelas com que estamos habituados. Se nao quero comer deste tipo de carne (parafraseando S. Paulo), que nao critique de modo exagerado aqueles que comem.
Gracas a Deus que o nosso Papa Bento XVI sabe – como o verdadeiro discipulo do Reino – tirar do seu tesouro coisas novas e velhas… os carismáticos reunidos neste último mes de julho na Cancao Nova devem ter acolhido como muita alegria a graca da Indulgencia Plenaria por ele concedida para quem recebesse os Santos Sacramentos da Eucaristica e Reconciliacao (e quantos e quantos o receberam!) no seu encontro anual.
Em Cristo
Pe. Jonas Eduardo, MIC
PS: Vale a pena ler: Kevin & Dorothy Ranaghan, “Catholic Pentecostals”, Paulist Press Deus Books, N. York, 1969.

Muito prezado e reverendíssimo Padre Jonas,
Salve Maria!
 
    Agradeço-lhe sua carta que muito me honra.
    Creio que o senhor se equivoca ao dizer que condeno todos da RCC. Jamis condenei todos os da RCC. O que condeno é a RCC, cujos maus frutos são patentes, e o senhor mesmo reconhece alguns.
    Os maus frutos decorrem dos princíos errôneos e protestantes da RCC.
    Se alguém tem o espírito Santo, para que precisaria da Igreja ? Para que precisaria do Papa, dos Bispos ou dos simples sacerdotes?
    Desde o princípio do luteranismo, esse erro de se considerar movido pelo Espírito Santo, e de possuir dons e carismas extraordinários levou os primeiros discípulos de Lutero a se rebelarem contra ele, e a fazerem igrejolas quase que particulares. No fundo, todo protestante é membro único de uma “igreja” pessoal, da qual cada protestante é o papa, e único membro. Igreja (Sociedade) e individualismo pentecostal são termos contraditórios. O pentecostalismo protestante, ou pseudo católico, tende ao separatismo até o extremo do individualismo.
    Todo carisimático tende a se separar.
    O caso escandaloso que o senhor dá do Padre Roque da RCC, em Curitiba, que acabou se auto-consagrar Bispo, e a fundar uma igrejola sua, é típico da árvore má que é a RCC.
    E o senhor deve saber, prezado Padre Jonas, que o caso de Padre Roque não é único no Brasil. No estado de São Paulo, se noticiaram vários casos de padres carismáticos que fundaram igrejolas particulares separadas. Desgraçadamente.
    Isso prova que tenho razão ao dizer que a RCC tende ao cisma, por seus própios princípíos.
    O senhor mesmo reconhece que existem graves erros doutrinários na RCC pois me escreve:
    “Concordo plenamente que certas expressoes utilizadas em impressos, pregacoes ou cancoes sejam do ponto de vista dogmático inexatas, ambíguas ou mesmo objetivamente erroneas (afirmar p. ex. que a Bíblia se explica por si mesma é impreciso, pois nao leva em conta a Tradicao eclesial, o ensinamento do Magisterio oficial e ainda o contexto extra-bíblico; etc.)”. 
    Tais erros são outra prova de que ela é uma árvore má. A Igreja sempre condenou movimentos que professem erros de doutrina. O senhor, como Doutor em Teologia Dogmática pela Gregoriana, sabe bem disso.
    Quando a Igreja condenou movimentos heréticos ou cismáticos, no passado, Ela condenou o movimento enquanto tal, e advertiu os católicos que pertenciam a esse movimentos, que deveiam deixá-los e a seus erros. Ela só condenava as pessoas que, depois da condenção do movimernto, pertinazmente continuassem a segui-los e a defendê-los.
     Foi assim, por exemplo, com o jansenismo, que se apresentava e aparentava ser grande estimulador da moral e favorecedor da santidade. Era fariseu.
    Houve também movimentos espirituais anterioes condenados pela Igreja como, por exemplo, os Irmaos do Livre Espírito, ou os Despertados da Baviera, movimento fundado pelo padre Booz, no século XVIII, e que a Igreja condenou.
    A RCC é de origem protestante e renova os erros do pentecostalismo protestante, já condenado pela Igreja. 
    Já analisei e critiquei, no site Mopntfort, vários livros carismáticos cheios de erros graves contra a Fé.
    O senhor me recomenda a ler um livro de Kevin & Dorothy Ranaghan, “Catholic Pentecostals”, Paulist Press Deus Books, N. York, 1969.
    Vou procuarar esse livro, e, depois, lhe escreverei contando-lhe o que  encontrei nele. Mas desconfio, Padre, que nele acharei os mesmos erros decorentes dos princípios errados da RCC.
    Rogando a sua bênção sacerdotal, me despeço atenciosamente

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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