Montfort Associação Cultural

19 de novembro de 2004

Download PDF

RCC fora da Igreja

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Sandro
  • Idade: 28
  • Localizaçao: MG – Brasil
  • Religião: Católica

Caro professor Orlando Fedeli, que a paz de Cristo esteja em seu coração. Salve Maria, a Mãe do meu Senhor!

Há mais ou menos seis meses escrevi perguntando sobre o fato de alguns protestantes afirmarem que Santo Agostinho era contra a transubstanciação. Na época, disse-lhe que não precisava responder meu e-mail, bastando colocar um link que levasse a este assunto, já que procurei por todo o site um documento tratando deste tema e não encontrei. Se possível, aguardo ansiosamente, porque fiquei de responder tal afirmação a alguém e ainda não o fiz. Preciso de sua ajuda.

Mas o que me leva a escrever esta carta é apenas contar rapidamente a minha história.

Meu nome é Sandro e tenho 28 anos. Eu era chefe de uma torcida uniformizada e sempre levava violência aos estádios de futebol. Um dia quebrei o braço em uma briga contra a torcida adversária, fui internado e operado. Nesta situação conheci a Renovação Carismática Católica e me converti a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo.

Comecei a participar ativamente do movimento RCC, sendo presença constante em grupos de orações, pregações, encontros e demais atividades. Em minha cidade, ninguém acreditou. Até hoje tem gente que diz que eu, de marginal, virei crente . A própria polícia deu graças a Deus pela minha mudança e depois de minha conversão eles nunca mais tiveram problemas após os jogos.

Ocorre que, mesmo tocado e transformado, sempre teve algo que me incomodou na Renovação de minha cidade, e que continua me incomodando até os dias de hoje: a incrível facilidade que seus membros tem de marcar encontros, reuniões, pregações e demais atividades nos mesmos horários das Missas. Eu, no início quase completamente ignorante na fé católica, sempre achei aquilo meio esquisito. Já havia aprendido que a Eucaristia é o que temos de mais importante. A chamada casa de formação onde estas atividades extras-paroquiais acontecem está localizada a cerca de 100 metros da igreja matriz No começo eu não questionava muito. Via as obras que eram e continuam sendo realizadas em minha cidade pela RCC e me conformava .

Porém, todos lá sabiam que eu sempre chegava atrasado aos encontros porque ia a Missa antes. Mesmo de forma meio ignorante, eu dizia para eles que achava que todos deviam ir a Missa primeiro.

Comecei a me apaixonar pela Igreja. Para mim, participar de uma procissão, meramente devocional ou litúrgica, era um grande orgulho. Aprendi com o padre que a procissão servia para a exteriorização da fé . Nunca mais esqueci esta expressão. Eu simplesmente queria gritar para o mundo que eu era Católico, que Jesus tinha mudado a minha vida. Quando ganhei um livro chamado Católicos perguntam , li sobre os passos dos judeus pelo deserto com a Arca da Aliança a frente, rumo a terra prometida. Li também como Josué deu sete voltas por fora de Jericó, e após tocar as trombetas, os muros caíram. Eu sempre me senti um guerreiro de Josué durante as procissões, sabendo que quando as trombetas soarem no final dos tempos todos os muros cairão, sobrando somente a glória de Cristo e de sua Igreja triunfante.

Estas analogias me fizeram chorar por diversas vezes enquanto caminhava atrás dos andores de São Benedito, de São Sebastião ou de São José. Que dirá de Nossa Senhora!

Em minha ignorância, agora não tão ignorante, eu percebia que o povo da Renovação não participava das procissões (e continua não participando). Comecei a questionar muito isto. E comecei a perceber também que em nenhuma das atividades da paróquia os carismáticos estavam presentes. Nem procissão, nem via-sacra, nem adoração ao Santíssimo Sacramento. Não posso ser injusto, na Missa de Domingo todos vão. Mas eu achava que esta participação era ínfima, ou seja, pessoas consagradas comungarem uma única vez na semana. Na minha visão, aquilo era muito pouco.

Participei por alguns anos consecutivos de encontros para pregadores da RCC. Neles, apesar de muitas verdades serem ditas, como a carência e a sede que o povo se encontra de Deus, também me incomodava a recomendação de que apenas Jesus deveria ser pregado em nossos grupos.

Preguem Jesus morto e ressuscitado , diziam eles, e eles serão levados pelo Espírito Santo . Eu pensava comigo: se eu pegar o microfone um dia, prego Jesus na hóstia sagrada, e digo que se tiverem que escolher entre um grupo de oração e a Missa que acontecem no mesmo horário, deveriam escolher a Missa .

Professor, nesta época eu NUNCA havia ouvido falar em Renovação do Sacrifício do Calvário .

Sempre gostei de ler e para mim a Bíblia e o Catecismo da Igreja Católica viraram companheiros inseparáveis. Fui me aprofundando e começando a entender melhor as coisas.

Conheci o site www.veritatis.com.br e achei que tinha encontrado o paraíso na terra. Quanto informação! Ele me ajudou a crescer e a partir daí eu já questionava abertamente os líderes do movimento em que eu ainda participava. As respostas não me convenciam, porque eram algo como: a Renovação foi suscitada para levar Jesus e o Espírito Santo . Eu argumentava: Ora, isto é muito bonito, leve Jesus e o Espírito Santo, mas leve também Cristo Eucarístico. Levar este Jesus é pregação protestante. O Jesus Católico é corpo, sangue, alma e divindade, e quem separa a alma e a divindade do corpo e do sangue é anátema . Nunca concordaram comigo, mas também nunca me deram argumentos para justificar que uma comunidade católica consagrada pudesse viver tão a margem da Eucaristia e da Igreja. O que eles insistentemente utilizam como argumento é a passagem onde diz que cada membro tem uma função no corpo, escrita por São Paulo. A mão não pode ser o pé , fui obrigado a ouvir por di versas vezes. Como se pregar Jesus Eucarístico fosse uma deformação aos princípios da RCC .

Um belo dia, por misericórdia de Deus, acabei conhecendo o site www.montfort.org.br. A partir daí minha vida realmente começou a mudar, e para melhor, muito melhor. Comecei a ler sistematicamente os artigos e muitas coisas ainda nebulosas passaram a fazer sentido. Um tal professor Orlando Fedeli, que a princípio achei meio zangado , foi o instrumento usado por Deus para que eu de fato começasse a crescer na fé. Quantas e quantas horas, noites, madrugadas e finais de semanas lendo seus inúmeros textos. Marcos Libório Fernandes também me ajudou muito.

No princípio as críticas a RCC me incomodavam. Mas percebi que o professor Fedeli era muito sincero e simplesmente dava sua opinião, baseando-se em inúmeros documentos. Quando li que o professor Felipe Aquino, que eu admiro muito, recusou um convite para conversar pessoalmente com o professor Fedeli, então entendi muita coisa. Nem sempre o silêncio é sinal de sabedoria e muitas vezes quem cala, consente.

Hoje, caro Fedeli, creio que os grupos de orações não são maus, mas devem acontecer após as Missas, dentro da igreja, e de forma adequada ao que prega o catecismo. Porque é bonito católicos se unirem em oração, cantando belos hinos e recitando salmos. Porém, Missas-shows e comunidades carismáticas paralelas não passam de protestantismo penetrando lentamente no catolicismo.

Uma prova desta afirmação é um fato ocorrido comigo, em uma das últimas vezes em que entrei na comunidade carismática de minha cidade. Lá existe um grupo de recuperação de alcoólatras e drogados, que eu ajudava a coordenar. Tal grupo inicia seus encontros as 19h30. Eu sempre fui a Missa antes de ir ao grupo, e um dia sugeri aos presentes: vamos todos a Missa antes, e posteriormente iniciamos o nosso encontro. Como dependentes químicos, o melhor remédio para vocês e que irá curá-los é a hóstia sagrada . Todos os iniciantes concordaram, porém os mais velhos disseram que tal mudança atrapalharia o grupo, que teria que começar mais tarde, as 20h00min. Eu disse que não, que na verdade iria começar mais cedo, as 19h00min, e que a participação na Missa seria a primeira etapa dos encontros. Uma das pessoas, que graças a Deus está limpo das drogas a um ano e seis meses me disse: olha, Sandro, eu acho que nós temos todos os dias da semana para irmos na Missa. As sextas -feiras são as nossas reuniões. E depois, tem outra, quem mudou a minha vida foi a Renovação Carismática, e não a Igreja Católica . Tive misericórdia daquele recuperante e lhe perguntei quanto tempo ele estava freqüentando aquela comunidade. No fundo, sabia que a culpa não era dele. A culpa é da coordenação, que não leva as pessoas a Eucaristia, e sim ao batismo no Espirito Santo , a sentir Jesus queimando no coração e a tantas outras experiências místicas que geram conversões de no máximo dois anos, ou que fazem da Renovação porta de entrada para as garagens protestantes.

Outra prova de que comunidades carismáticas paralelas não passam de protestantismo penetrando lentamente no catolicismo se deu no último dia 12 de outubro de 2003, dia de Nossa Senhora, mãe de Deus e da Igreja. Este para mim é um dia muito especial, e acredito que para os católicos verdadeiros também. Neste dia acontece em minha cidade a mais longa caminhada do ano, cuja trajeto é de seis quilômetros. Posteriormente é celebrada a Missa. Pois bem, em dia tão importante o grupo de jovens da RCC realizou uma gincana.

Cerca de 150 pessoas entre 12 e 18 anos participaram. O evento aconteceu em uma fazenda, com vários jogos e atividades que duraram o dia inteiro, terminando por volta das 18h00min. A procissão começa as 16h00min e a Missa por volta das 18h30min. Em outras palavras, quem participa da gincana, não tem condições de participar das atividades da paróquia. O fato da gincana ter acontecido nesta data verdadeiramente me revoltou. Procurei um dos principais coordena dores do movimento e falei-lhe sobre o meu descontentamento: você acha certo retirar 150 jovens no dia de Nossa Senhora e levá-los para o meio do mato para jogar peteca? , questionei. Ele respondeu algo do tipo: ah, eles não iriam a procissão mesmo . Eu contra-argumentei: pode até ser que estes jovens não fossem, mas vocês precisariam ir. E depois, como eles vão se não forem convidados? Vocês dizem para 150 jovens que em um dia de Nossa Senhora não é preciso participar das atividades da Igreja, e tudo bem. Eles virarão adultos que certamente não iram participar de procissões, das Missas e das demais atividades litúrgicas, porque aprenderam que esta participação não é necessária. Serão 150 pessoas a menos na Igreja de amanhã, e certamente elas irão para outras garagens .

Professor Fedeli, quem são mesmos que realizam atividades paralelas a Santa Igreja no dia de Nossa Senhora?

Talvez existam comunidades carismáticas bem orientadas, cujos fiéis participem ativamente da Missa e das atividades paroquiais, e preguem Jesus inteiro, sem deformações. Mas estas eu não conheço.

Ao invés de sair descendo o pau na Renovação de minha cidade, participei por mais uma vez de uma reunião com a chamada equipe de serviço . Em uma quarta-feira, levantei-me e diante de 200 pessoas disse que aquela comunidade precisava ter uma vida Eucarística mais ativa. Que precisávamos pregar Jesus na hóstia sagrada. Que era preciso falar de Nossa Senhora e que ali ninguém comparecia as atividades paroquiais. Nas minhas palavras, muitos dos textos extraídos da Montfort.

De lá para cá, tenho procurado sistematicamente nossos párocos para tentar trazer aquele povo para a Igreja. Engraçado, eles agora me dizem que foi graças a Renovação que eu me converti. Eu respondo que realmente isto é verdade, mas que quando eu entrei na Igreja eu não encontrei a Renovação lá dentro. Este movimento para mim assemelhou-se a um pai que leva seu filho a Missa e que o deixa a porta, sem entrar, sob o pretexto que está lá fora indo e voltando buscando mais filhos perdidos. Porém, não percebe que nestas andanças, gasta muito combustível e consegue trazer meia dúzia de gatos pingados. Se entrasse na Igreja, com seu testemunho e participação, atrairia muito mais pessoas.

Pois bem, professor, esta é a minha breve história, da qual o senhor faz parte, e que ainda não acabou. Só Deus sabe como vai terminar.

De certeza na vida só tenho uma: Jesus Cristo é o Senhor e presente está na Eucaristia, que quando levantada pela Igreja tem o poder de atrair tudo a si. E que esta Igreja tem como mãe Nossa Senhora, Maria Santíssima!

Professor, aceito toda e qualquer crítica e correção fraterna a minha carta. Entre os muitos sonhos que eu tenho na minha vida, um deles é conhecer o senhor pessoalmente. Nem que seja por um breve minuto. Se isto não for possível nesta vida, espero encontrá-lo na eternidade.

Um abraço mais do que fraterno.

In corde Iesu et Mariae (que eu nem sei o que significa, mas acho que é no coração de Jesus e Maria)

Sandro

Obs. 01: Não citei a minha cidade, que fica no Estado de Minas Gerais, para preservar os meus irmãos e grandes companheiros de tantas horas de oração e adoração sincera a Jesus Cristo, e que me ensinaram tantas coisas corretas sobre a Igreja, ainda que não obedeçam plenamente.

Obs. 02: Não se esqueça, se possível, de colocar um link sobre o assunto Santo Agostinho e a Transubstanciação . Preciso urgentemente responder a um herege sobre isto. Obrigado.

Muito prezado Sandro, salve Maria!

Apresso-me a responder esta sua missiva que muito me comoveu.

Eu também quero conhecê-lo o quanto antes. Mais: quero que você participe, caso aceite, do grupo Montfort, pois é de pessoas de fé viva na Eucaristia, como você demonstra ter, que precisamos para nosso combate em defesa da Fé Católica.

Lembra-se você dos sonhos de Dom Bosco, que publicamos no site Montfort ?

Neles, Dom Bosco fala do retorno da barca da Igreja às duas colunas que são a da Eucaristia e a da devoção a Nossa Senhora.

São exatamente essas duas colunas que você defende com tanto afinco e coragem.

Que Deus o mantenha sempre assim.

É com almas ardendo de Fé e de amor por Jesus Eucarístico e por Nossa Senhora que Deus fará a barca da Igreja, guiada por um santo Papa, retornar às duas colunas das quais ela não devia ter se afastado.

Infelizmente não encontrei, em meio às milhares de cartas que recebo, aquela que você me pergunta sobre um texto de Santo Agostinho. Peço que você me mande, de novo, esse texto. Evidentemente, porém, já lhe respondo, que Santo Agostinho só podia defender a presença real de Cristo na Eucaristia, senão ele não teria sido santo.

Fiquei impressionado com seu depoimento sobre a recusa de participação nas atividades paroquiais por parte de membros da RCC de sua cidade, e, muito mais fiquei chocado com a recusa deles de participar de cerimônias de culto eucarístico. Você tem toda a razão: isso prova que eles mais são protestantes do que católicos.

Impressionou-me a exatidão de suas palavras ao dizer que a RCC o converteu à Igreja Católica, mas que quando você voltou à Igreja, não encontrou a RCC, lá dentro.

Faço questão de colocar, aqui, suas próprias palavras, que são muito expressivas e precisas:

“Engraçado, eles agora me dizem que foi graças a Renovação que eu me converti. Eu respondo que realmente isto é verdade, mas que quando eu entrei na Igreja eu não encontrei a Renovação lá dentro. Este movimento para mim assemelhou-se a um pai que leva seu filho a Missa e que o deixa a porta, sem entrar, sob o pretexto que está lá fora indo e voltando buscando mais filhos perdidos”.

Que bem isso está dito !

Você exprime, nessas frases, uma grande verdade, e de modo muito preciso.

E você comprova, muito bem, com os fatos que narra, a protestantização da RCC, e como ela trabalha para protestantizar os católicos, mesmo que alguns de seus membros não se dêem conta do que estão fazendo.

Você diz muito bem ainda que “Missas-shows e comunidades carismáticas paralelas não passam de protestantismo penetrando lentamente no catolicismo”.

E como é verdade o que você testemunha da RCC de sua cidade, ao me escrever que:

“A culpa é da coordenação, que não leva as pessoas a Eucaristia, e sim ao batismo no Espirito Santo , a sentir Jesus queimando no coração e a tantas outras experiências místicas que geram conversões de no máximo dois anos, ou que fazem da Renovação porta de entrada para as garagens protestantes”.

Sim ! Isso é certíssimo: a RCC é porta de entrada para seitas protestantes.

São palavras fortes e cortantes como as suas que podem abrir brechas em muralhas mais resistentes do que as muralhas de Jericó.

Quem sabe muitos membros enganados pela RCC, lendo suas palavras, percebam como eles estão sendo enganados, e como estão sendo levados a trabalhar para protestantizar os católicos.

Tomara ainda que alguns Bispos e sacerdotes leiam estas suas palavras, de testemunho tão vivo, publicadas no site Montfort!

Quero conhecê-lo o quanto antes, porque não posso deixar de querer ter como meu amigo alguém que defende a Eucaristia e a Nossa Senhora com tanto ardor como você. Mais ainda: quero tê-lo como a um meu verdadeiro irmão na Fé. Como um verdadeiro cruzado da Igreja Católica.

Quero conhecer esse moço que brada a Fé católica com a força das trombetas de Jericó.

E enquanto espero por esse dia, rezo agradecendo a Nossa Senhora por ter suscitado uma alma como a sua.

Que Ela o mantenha sempre nesse santo ardor, é o que lhe deseja do fundo da alma este velho professor, que o admira

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

TAGS

Publicações relacionadas

Cartas: Reação contra heresias pentecostais

Cartas: Canção Nova - Orlando Fedeli

Cartas: TV Canção Nova – a serviço do protestantismo - Orlando Fedeli

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais