Montfort Associação Cultural

15 de março de 2005

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Razão e instinto

  • Consulente: Hudson Andrade
  • Localizaçao: Paraíso do Tocantins – TO – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação concluída
  • Profissão: Psicólogo
  • Religião: Católica

Como Católico e Psicólogo sempre tive uma dúvida. É sabido que como humanos somos dotados de instintos. Áreas no cérebro que são ativadas sem nosso consentimento que controlam, prazer, emoção e desejo. Consiste em erro epistemológico dizer que racionalmente poderíamos controlar áreas específicas e inespecíficas com a razão e a consciência. De onde a igreja retirou a idéia de que padres não podem ter a seu lado uma esposa ? Sendo ele um homem é indubitável seu desejo. Outra questão: Porque uma mulher não poderia ser uma sacerdote ? Obrigado pela atenção.

Prezado Hudson,

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            Quanto ao fato de que “como humanos somos dotados de instintos“, pelo fato de sermos, por natureza, animais racionais, não há dúvida. Mas a propagação da espécie não é classificada como um instinto puramente biológico, pois, por bom senso, não é necessária à vida. A propagação da espécie, coloca Atkinson (Atkinson, Introdução à Psicologia, Artmed, Porto Alegre, 1995, p. 317), “não envolve um déficit interno que precisa ser regulado e sanado (como a fome ou a sede), para que o organismo sobreviva“. Logo, ele não é necessário, muitos podem escolher abster-se dele, como fazem os religiosos e padres .

            Você coloca que, numa tentação, por exemplo, há “áreas no cérebro que são ativadas sem nosso consentimento que controlam, prazer, emoção e desejo“.

            Ora, já dizia S. Agostinho, um grande “psicólogo” (Leia “As confissões“) que uma coisa é sentir, outra é consentir. Ele diz que há três fases na tentação: a sugestão, o deleite e o consentimento (cf. pe. Correia “A vida espiritual”, A cultural, Lisboa, 1946).

            A sugestão é a apresentação do objeto apetecível, digamos, um belo bolo de chocolate.

            O deleite é o que me agrada nele e o que isso suscita em mim, por exemplo, a salivação. A salivação é o exemplo de comportamento que não podemos controlar racionalmente, como você colocou. Ele acontece frente a determinado estímulo.

            Agora, vamos supor que há arsênico neste bolo e que eu sei disso. Minha inteligência me diz para eu não comer, apesar do desejo, das emoções, etc. Então minha vontade toma uma resolução: não vou comer o bolo. Ela recusou o seu consentimento e consequentemente, o ato, evitando minha morte.

            S. Francisco de Sales diz na Filotéia (p. 371):

            ”Quanto ao deleite que pode seguir à tentação, é muito de notar que o homem tem em si como que duas partes, uma inferior e outra superior, e que a inferior nem sempre se conforma à superior. Disto decorre que a parte inferior se deleita numa tentação sem o consentimento da parte superior ou mesmo mau grado seu. Este é justamente o combate que S. Paulo descreve dizendo que ” a carne deseja contra o espírito, etc.”

            O que não quer dizer que não tenhamos controle racional dos nossos atos ou mesmo controle de alguns tipos de deleitações e da intensidade delas. A parte superior (a vontade) sempre dá a última palavra: sim ou não.

            S. Francisco de Sales dá um exemplo (op. cit., p. 373):

            ”o mancebo citado por S. Jerônimo (…) estava preso por cordões e foi tentado por uma mulher (…) quanto deve ter sofrido seus sentidos e sua imaginação! Entretanto no meio das tentações, ele testemunhava que seu coração não estava vencido e sua vontade não consentia de modo algum; pois sua alma, vendo tudo revoltado contra ela e até de seu corpo não tendo nenhuma parte à sua disposição exceto a língua, ele a cortou com os dentes e a lançou no rosto da mulher”.

            Nós podemos sim, enquanto humanos, sempre dominar pela razão os nossos atos, mesmo que não possamos impedir uma certa deleitação. Mas, diante de qualquer tentação, sempre existe a possibilidade de se fechar os olhos, tapar os ouvidos, virar as costas e ir embora, ou mesmo distrair-se, pensar em outra coisa. Portanto não só não é erro que nós podemos controlar-nos pela razão, como é isso que permite que sejamos responsáveis por nossos atos e não um joguete de emoções. Senão não passaríamos de macacos! É porque a vontade toma as decisões que dizemos que os homem têm vícios ou virtudes. Logo, você está errado ao colocar que “consiste em erro epistemológico dizer que racionalmente poderíamos controlar áreas específicas e inespecíficas com a razão e a consciência”. Nós controlamos a nós mesmos, nós é que deixamos os olhos abertos, os ouvidos destapados de modo que os estímulos do meio estimulem ou não as áreas do cérebro!  

            Os padres (e os religiosos e religiosas) fazem voto de castidade e propõe-se a não ter esposa porque diz S. Paulo:

            ”O que realmente quero é que estejais livres de preocupações. Quem não é casado cuida das coisas do Senhor, de como agradar o Senhor; mas o que se casou cuida das coisas do mundo, de como agradar a esposa, e assim está dividido. (…) Quem casa a sua filha virgem, faz bem; quem não a casa faz melhor” (Epístola aos Coríntios, 7, 32 e 38)        

 

            Se um padre casasse não teria como cuidar das coisas do Senhor. Coloca o Catecismo Romano (versão de 1566 de S. Pio V, editada pela Vozes, Petrópolis, Rio de Janeiro, 1962, p. 320) que,

            “Esta Ordem traz consigo a obrigação de perpétua castidade e declara expressamente que não pode ser admitido à Ordem quem não se proponha de livre vontade tomar a si esta obrigação”.

            Por que uma mulher não pode ser sacerdote? Peço que leia a resposta já dada a um missivista no link: http://www.montfort.org.br/perguntas/ordenacao.html,

            Leia também a carta: http://www.montfort.org.br/perguntas/mulher_sacerdocio.html

            Na primeira carta está o documento “Ordinatio sacerdortalis” (João Paulo II) que coloca a posição da Igreja Católica:

            ”Ela defende que não é admissível ordenar mulheres para o sacerdócio, por razões verdadeiramente fundamentais. Estas razões compreendem: o exemplo – registrado na Sagrada Escritura – de Cristo, que escolheu os seus Apóstolos só de entre os homens; a prática constante da Igreja, que imitou Cristo ao escolher só homens; e o seu magistério vivo, o qual coerentemente estabeleceu que a exclusão das mulheres do sacerdócio está em harmonia com o plano de Deus para a sua Igreja”

Salve Maria, mãe puríssima!

Thais Lombardi

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