Montfort Associação Cultural

12 de setembro de 2014

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Prova da Existência de Deus, do Movimento

  • Consulente: Alexandre Ignácio de Faria
  • Enviada em: 7 de maio de 2014
  • Religião: Católica

Boa tarde! Solicito por gentileza verificar a possibilidade de me responder uma dúvida a respeito de um pequeno detalhe da aula intitulada As provas da existência de Deus.
Aproveito a oportunidade, antes de descrever minha dúvida, para parabenizar a todos pelo excelente trabalho e por proporcionarem a tantas pessoas a graça do aprendizado e aprofundamento na fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Agradeço a Deus por ter me concedido a honra de poder conhecer os ensinamentos do Prof. Orlando Fedeli gravados neste vídeo, e por todos que dão continuidade a este abençoado trabalho.
Minha dúvida é a respeito da primeira prova (do movimento), especificamente no que se refere a nada mudar sozinho. Entendi o conceito e concordo com ele. Gostaria apenas que me ajudassem a visualizar este conceito em mais alguns tipos de movimento, pode ser com exemplos mesmo. No vídeo foram citados os exemplos da parede que precisa da tinta e da estátua de ferro que não se enferruja sozinha. O que eu gostaria de visualizar é com relação ao movimento por exemplo da mão que se desloca no ar, num gesto. Ou no exemplo que a pessoa está sentada e tem potência de ficar em pé, ou de se descolar na sala por exemplo. Neste caso como podemos visualizar que ela não mudou sozinha?
Antecipadamente agradeço e espero ansiosamente pela resposta, pois quero repassar estes preciosos ensinamentos para o máximo de pessoas que eu puder.
Fiquem com Deus, e que Ele continue nos abençoando!
Alexandre Ignácio de Faria Ribeirão Preto / SP.

Prezado Alexandre,
Salve Maria !

Primeiramente gostaria de lhe agradecer pelos elogios ao site Montfort. Reze por nós para que possamos dar continuidade ao trabalho do professor Orlando afim de que Deus seja cada vez mais glorificado.
Se bem entendi sua dúvida, o senhor gostaria de compreender melhor, através de exemplos concretos, o princípio, utilizado por São Tomás na primeira via, segundo o qual « quidquid movetur ab alio movetur », isto é: « tudo aquilo que se move (que está em movimento) é movido por outro ».
De fato, uma dificuldade aparece quando aplicamos este princípio aristostélico aos seres com capacidade de auto-locomoção. Dizemos que os automóveis e os seres vivos se movem sozinhos e isso parece justamente contradizer o princípio de que tudo aquilo que está em movimento é movido por outro. Em realidade, não há contradição pois mesmo nesses casos há diversidade entre uma parte motora e uma parte movida.
Para esclarecer a questão nós trataremos primeiramente do movimento das máquinas automóveis (carros, robôs, etc…) e em seguinte do movimento dos seres vivos e em particular do movimento livre do homem:
 No caso do automóvel e outras máquinas autônomas (robôs por exemplo) é preciso compreender que trata-se de um todo acidental, composto de várias partes ontologicamente autônomas – de várias substâncias – que agem umas sobre as outras. Há uma parte do robô que é motora e uma parte que é movida. Um artefato (no sentido filósofico) é uma agregação artificial ordenada pela razão prática do homem de várias substâncias. O homem coloca em conjunto substâncias diversas aplicando suas diferentes propriedades de tal forma que estas concorram para a produção de um efeito determinado.
 Já no caso dos seres vivos a questão é um pouco mais complicada: de fato, a espontaneidade (isto é, o fato de ter em si mesmo seu princípio de movimento) não é a principal característica dos seres vivos? Para responder à esta questão, analisemos incontinenti o caso mais complicado: a liberdade humana. A pessoa que está sentada e que se levanta por decisão própria foi movida por outro? Sim. Para entendê-lo é preciso introduzir aqui uma distinção. Há dois aspectos no ato livre: o exercício do ato (o fato de realizar o ato) e a especificação do ato (o fato de que o ato seja este e não aquele). Por exemplo, eu escolho responder às suas perguntas ao invés de ir dormir. Neste ato há o exercício: eu “escolho”, eu “quero” e a especificação: “responder à carta” ao invés de ir tirar um cochilo. Na ordem do exercício, a vontade move-se a si mesma de uma certa maneira pois querendo o fim ela vai querer também os meios; no nosso exemplo, quando decido responder à sua carta a minha vontade se move para que organize meus conceitos, para que consulte meus livros, etc. Entretanto, em última análise, a vontade está em potência em relação ao seu ato. A prova disto é que ela não está permanentemente querendo. Portanto, ela não pode passar por si mesma ao ato. É preciso uma causa, que no caso caso da vontade livre só pode ser uma moção vinda diretamente de Deus. Então, mesmo no caso da vontade livre do homem, o princípio de que tudo que se move é movido por outro é válido. Com efeito, somente Deus cuja vontade está permanentemente em ato, pode fazer com que uma vontade que está somente em potência ao seu ato passe efetivamente ao ato. Deus é causa primeira de cada um de nossos atos, mas Ele os causa enquanto contingentes não tolhendo portanto o nosso livre arbítrio. No caso de um ser vivo irracional o movimento local autônomo é também causado pela sua forma substancial, a diferença em relação ao homem é que este movimento é determinado pelo instinto e por isso não é livre.
Vejamos outro exemplo concreto de uma série causal de movimentos ordenados essencialmente: o gesto de martelar um prego. O movimento do prego é causado pelo martelo, o movimento do martelo é causado pelo movimento da minha mão, o movimento da minha mão é causado pelo movimento do meu braço, o movimento do meu braço, por sua vez, é causado pelo meu tórax. O que causou o movimento do meu tórax foi a decisão da minha vontade, minha alma; minha alma não estando submetida a nenhum movimento local pode justamente ser um motor imóvel em relação ao meu corpo. Entretanto, minha alma não está isenta de toda espécie de movimento pois a decisão ela mesma é um movimento (já que o movimento é, em um sentido largo, uma passagem da potência ao ato). Por isso, para explicar o movimento da minha alma é preciso justamente um Ser que não esteja submetido a nenhum tipo de movimento.
Vale lembrar que o princípio aristotélico de não-regressão ao infinito em uma série causal é válido somente no caso de uma série de movimentos essencialmente ordenados entre si. Uma série causal essencialmente ordenada é uma série onde as causas são transitivas e simultâneas. Neste tipo de série, a causa (A) é causa não somente de (B) mas também da operação e da causalidade de (B) além de ser simultânea à (B) isto é, se (A) cessa (B) também cessa imediatamente. A Primeira Causa Imóvel é causa permanente e simultânea ao movimento. Mas isto é uma questão para ser tratada com mais detalhes talvez em uma outra ocasião.
As vias de São Tomás de Aquino são provas estritamente metafísicas e não meramente físicas. O argumento de São Tomás se fundamenta sobre a impossibilidade para uma potência de passar ao ato sem que um ser em ato lhe comunique sua atualidade. O Doutor Comum mostra que se há qualquer tipo de movimento há portanto mistura de ato e potência. Se há mistura de ato e potência então há necessariamente um Ser que é Ato Puro Imóvel. Se o senhor quiser aprofundar em particular a questão sobre a moção divina antecedente ao ato da vontade humana, saiba que São Tomás trata disso em dois lugares principais:
 Questão Disputada De Malo q.1, a.6
 Suma de Teologia I, q. 83, a.1.

Espero ter esclarecido sua dúvida. Se este não tiver sido o caso, não hesite em nos escrever novamente pois é colocando questões sinceras que progredimos na busca pela verdade.

In corde Jesu et Mariae,
J.L. Romano

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