Montfort Associação Cultural

18 de dezembro de 2006

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Protestante contrário ao ecumenismo de Bento XVI (??)

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Marcos
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação concluída
  • Religião: Protestante

Peço que comentem o trecho abaixo, extraído do “Discurso do Papa Bento XVI por ocasião do encontro ecumênico no Palácio Episcopal de Colônia” (http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2005/august/documents/hf_ben-xvi_spe_20050819_ecumenical-meeting_po.html):

“E agora perguntemo-nos: que significa restabelecer a unidade de todos os cristãos? Todos sabemos que existem numerosos modelos de unidade e vós sabeis também que a Igreja católica tem por objectivo a consecução da plena unidade visível dos discípulos de Jesus Cristo segundo a definição que dela fez o Concílio Ecuménico Vaticano II em vários dos seus documentos (cf. Lumen gentium, nn. 8 e 13; Unitatis redintegratio, nn. 2 e 4, etc.). Tal unidade subsiste, segundo a nossa convicção, na Igreja católica sem possibilidade de ser perdida (cf. Unitatis redintegratio, n. 4); de facto, a Igreja não desapareceu totalmente do mundo. Contudo, esta unidade não significa aquilo a que se poderia chamar ecumenismo de volta: isto é, renegar e recusar a própria história da fé. Absolutamente não! Não significa uniformidade em todas as expressões da teologia e da espiritualidade, nas formas litúrgicas e na disciplina. Unidade na multiplicidade e multiplicidade na unidade: na Homilia para a solenidade dos Santos Pedro e Paulo, a 29 de Junho passado, revelei que plena unidade e verdadeira catolicidade, no sentido originário da palavra, caminham juntas.”

Antes de tudo, é interessante observar que, segundo a encíclica “Mortalium Animos”, o Papa nem mesmo deveria participar de semelhante evento (“Assim sendo, é manifestamente claro que a Santa Sé, não pode, de modo algum, participar de suas assembléias [ecumênicas] e que, aos católicos, de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para estas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo.”). Será que Bento XVI não conhece a referida encíclica? Se a conhece (e é óbvio que conhece), por que não a obedece (muito pelo contrário, visto que elegeu o ecumenismo como uma das prioridades do seu pontificado)? Aliás, temos visto Bento XVI envolvido não só com o ecumenismo, mas também com o chamado “diálogo inter-religioso”, conforme vimos na sua recente viagem à Turquia. É nesse “repreensível” Papa que os tradicionalistas têm apostado todas as suas fichas?

Mas voltando ao documento citado, chama a atenção particularmente o seguinte trecho: 

“(…) esta unidade não significa aquilo a que se poderia chamar ecumenismo de volta: isto é, renegar e recusar a própria história da fé. Absolutamente não! Não significa uniformidade em todas as expressões da teologia e da espiritualidade, nas formas litúrgicas e na disciplina. Unidade na multiplicidade e multiplicidade na unidade (…)”. 

Bento XVI é categórico: o ecumenismo que ele almeja “absolutamente não” é o ecumenismo de volta, isto é, aquele ecumenismo em que as igrejas ou “comunidades eclesiais” simplesmente abjuram dos seus “erros” e “retornam” à igreja católica. Diante desse tipo de ecumenismo Bento XVI exclama: “Absolutamente não!”. O que me dizem disso, senhores? O que terá querido dizer Bento XVI com “unidade na multiplicidade e multiplicidade na unidade”? Como entender que, para o Papa Bento XVI, ecumenismo “NÃO significa uniformidade em todas as expressões da teologia e da espiritualidade, nas formas litúrgicas e na disciplina”?

Sei que nem tudo que sai da boca ou da pena do Papa goza da prerrogativa da infalibilidade (como os senhores não se cansam de ressaltar!). Porém, não estará na hora dos senhores repensarem suas expectativas em relação a Bento XVI e ao seu pontificado?

Muito eutímico “Marcos”, que se diz protestante,
salve Maria!
 
     Que estranho protestante você é !
     Um protestante preocupado com um engano dos “tradicionalistas” católicos! Um protestante que quer alertar católicos apostólicos romanos, anti-ecumênicos e contrários ao Concílio Vaticano II, como nós da Montfort somos, a que não se deixem enganar por Bento XVI !
     Você se afirma um protestante… “eutímico”, isto é, sem otimismos e sem pessimismos. Você se julga um homem equilibrado…
     Saiba, meu caro eutímico, que não colocamos todas as nossas “fichas” em um homem, mesmo que esse homem seja um Papa. Não colocamos todas as nossas “fichas” em Bento XVI. Você está bem eutimicamente enganado.
     Não temos “fichas”. Temos esperança.
     Colocamos toda a nossa esperança em Deus, que prometeu que a Igreja não seria vencida pelo demônio da heresia, fosse ela a protestante, fosse ela a modernista ou qualquer outra mentira teológica que o inferno invente.
     Vemos as coisas excelentes que Bento XVI está fazendo, ao permitir que o Instituto do Bom Pastor reze exclusivamente a Missa de sempre; o decretar que esse Instituto tenha o dever de criticar o Concílio Vaticano II; ao condenar o “espírito do Vaticano II”; ao condenar, em sua aula de Regensburg, o relativismo, a separação entre razão e Fé, o “Sola Scriptura” da Teologia protestante, o kantismo, a teologia liberal protestante e o método histórico crítico do modernismo, bases do Vaticano II, bases em que ele confessou ter sido formado.
     São esses fatos que dão esperança, em Deus, no que poderá vir a acontecer sob o pontificado de Bento XVI
     Você argumenta que Bento XVI defende o ecumenismo.
     Não somos cegos para não ver isso. Ainda nesta semana, criticamos as contradições de Bento XVI em sua viagem à Turquia. E vamos logo mais criticar a mensagem de paz de Bento XVI, que saiu hoje.
     Portanto, vemos o bem que faz surpreendentemente Bento XVI, graças a Deus, e vemos os erros decorrentes da letra do Concílio Vaticano II que ele defende. 
     O bem nos dá esperança. A contradição nos dá tristeza. Sem matar a esperança.
     E você? Qual a sua expectativa?
     Como protestante só poderia ser uma: a de que Bento XVI fosse total, absolutamente ecumênico, na linha do espírito do Concílio Vaticano II.
     Como protestante, você deveria se alegrar com nossa “expectativa” errada.
     Entretanto, você manifesta despeito, e até uma certa animosidade, eutímica é verdade, mas animosidade contra a nossa suposta expectativa errada.
     Você não parece nada protestante. Você mais parece um católico, ou sede vacantista, ou um seguidor de Monsenhor Williamson, da FSSPX, que é quase sedevacantista, e que aposta na falsidade de Bento XVI, e quase a deseja.
     Você examina discursos, e não dá a mesma atenção a decretos e a pronunciamentos mais solenes do Papa. Sua eutimia é paradoxalmente torcida…
     Você parece torcer para que Bento XVI tenha doutrina má, e que ele esteja agindo mal.
     Nós, da Montfort, somos contra o ecumenismo do Concílio Vaticano II, ao qual Bento XVI diz que quer dar prosseguimento, e consideramos que foi esse ecumenismo o causador de tantas apostasias, e não de conversões de hereges ao catolicismo. Por isso, lamentamos que o Papa Bento XVI tome posições ecumênicas, e esperamos que, pelo bem imenso que ele vai fazer com a liberação da Missa de sempre, e que pela condenação que já fez do “espírito do Vaticano II”; pelo que ele condenou em sua aula de Regensburg, que Deus Nosso Senhor o faça, em meio a tantas vacilações, trazer a nave da Igreja, de volta, para ser atada, para sempre, na coluna da Hóstia e na coluna da Virgem, como foi profetizado por Dom Bosco e pela visão do terceiro segredo de Fátima que um Papa faria.
     Essa é nossa esperança, em Deus. Não é nossa expectativa num homem.
     Não apostamos “fichas”. Não jogamos na roleta política eclesiástica.
     Cremos em Deus, que conduz a História. Cremos em Deus, que prometeu que as portas do inferno não prevalecerão sobre a Igreja Católica Apostólica Romana, fora da qual não há salvação.
     Jacinta, a pequena vidente de Fátima, viu profeticamente um Papa rezando sozinho num palácio, enquanto no zenit da crise, a multidão atirava pedras no Papa. E disse então;
    
Coitado do Papa. Rezemos pelo Papa“.
   
     Rezando, então, pelo Papa Bento XVI, que, como ele disse, está enfrentando lobos, despeço-me, in Corde Jesu, semper, e sempre pleno de esperança, inclusive em sua compreensão.

Orlando Fedeli

Replica

O objetivo da minha missiva foi apontar algumas das contradições do discurso montfortiano. Por exemplo, vocês dizem que a encíclica “Mortalium Animos” é a mais pura expressão da verdade católica com relação ao ecumenismo e às outras religiões. Não obstante, Bento XVI parece ignorar solenemente a referida encíclica, dado que elegeu o ecumenismo como uma das prioridades do seu pontificado (e não o “ecumenismo de retorno”, que fique claro!), e que tem incentivado o chamado diálogo inter-religioso. Por isso perguntei se seria nesse Papa “repreensível” (aos olhos da Montfort, é claro!) que os montfortianos (e os tradicionalistas em geral) têm depositado suas esperanças! O Papa é inspirado e orientado por Deus quando se manifesta em consonância com as expectativas montfortianas, mas, quando se manifesta (e age) de forma contrária a essas expectativas, então está sob a influência do demônio! Vocês confiam no Papa, mas não tanto… Confiam desconfiando. Mas, afinal, o Espírito Santo orienta ou não orienta o(s) Papa(s)? Os católicos podem ou não podem confiar no Sumo Pontífice? Parece que o Papa está sempre prestes a dar um passo em falso! Que tipo de assistência infalível do Espírito Santo é essa, que não nos permite confiar plenamente no Sucessor de Pedro como “condutor” da Igreja? Às vezes acho que o prof. Felipe Coelho é mais católico do que o prof. Orlando Fedeli… O primeiro pelo menos confia no Papa, confia na assistência do Espírito Santo, ao passo que o segundo é um poço de desconfiança! Parece confiar mais na Montfort (ou em si mesmo) do que no Papa!

Em seguida, comentando o trecho do discurso do Papa propriamente dito, tentei mostrar o quanto a perspectiva de Bento XVI está distante da Montfort em relação ao ecumenismo. Ora, é notório que a Montfort não admite nenhuma outra forma de ecumenismo que não o chamado “ecumenismo de volta” (usando as palavras do Papa), que é precisamente o ecumenismo que Bento XVI rejeita! Para a Montfort, os protestantes e os ortodoxos devem abandonar os seus “erros” e aderir integralmente à doutrina católica, o que é justamente o contrário do que o Papa disse no discurso citado.

Mas, infelizmente, o professor Fedeli não compreendeu minha ironia. O professor fez uma tremenda confusão! Nem sequer passou pela minha cabeça “alertar católicos apostólicos romanos, anti-ecumênicos e contrários ao Concílio Vaticano II, como nós da Montfort somos, a que não se deixem enganar por Bento XVI”! E eu não torço “para que Bento XVI tenha doutrina má, e que ele esteja agindo mal”! Aliás, o que para a Montfort seria “doutrina má” é, ao menos em certo sentido, o que eu mais tenho admirado no Papa Bento XVI (a sua ênfase no ecumenismo, sua abertura ao diálogo – inclusive inter-religioso -, a sua postura sensata e sóbria, etc.)! Como o Olavo de Carvalho diz, os brasileiros costumam confundir suas expectativas e seus anseios emocionais com a realidade mesma. Não se trata de “torcer”, mas de procurar entender a realidade como ela é, e não como gostaríamos que ela fosse. De analisar Bento XVI e o seu pontificado de forma objetiva e realista, não de forma idealista.

Enfim, é uma pena que o professor Fedeli não tenha entendido minha carta. Bom, pelo menos ela o instigou, já que ele a respondeu logo… Mas sei que não posso esperar muita coisa além disso. A mentalidade tacanha encerrada num sistema hermeticamente fechado é simplesmente a razão de ser da Montfort.

     Que estranho protestante você é… Se você é protestante…
     Afinal o que você é: luterano, calvinista, anglicano?
     
     O Papado é um assunto interno da Igreja, os protestantes nada têm que nos questionar sobre nossa fidelidade ao Papa, pois não aceitam o Papa.
     Por que um protestante manifestaria tanta preocupação com problemas tradicionalistas? Os protestantes não negam qualquer valor à Tradição? Qual é sua intenção… benévola?
     Vá cuidar você das contradições protestantes, que essas sim são insolúveis…
     E você me cita o gnóstico Olavo de Carvalho!… Será que, por ser admirador do astrólogo gnóstico Olavo, é que você tenta insinuar uma discordância muito imaginária entre meu bem fiel aluno, Felipe Coelho — aquele que deu uma lavada final no Olavo – e a minha pessoa?
     Se respondo – e logo – às suas objeções, é porque elas me ajudam a elucidar outros leitores católicos de verdade. Não respondo, então, primordialmente a você, porque sua “boa vontade” me tira qualquer esperança de convencê-lo. Isso seria perda de tempo. Uso sua carta venenosa como antídoto para premunir católicos sinceros.
     Vamos lá, então, ensinar a um protestante o que é a infalibilidade papal, visando ajudar católicos. Coisa que só é possível acontecer em tempos de contradição completa — tempos ecumênicos — como os que, desgraçadamente, estamos vivendo.

     Contraditório e ecumênico Marcos, veja se sua “boa” vontade consegue entender isto: o Papa não é infalível quando espirra. Ele não é infalível quando trata de política, ainda que eclesiástica. Não é infalível quando fala como Chefe de Estado, nem quando faz discursos meramente diplomáticos. Ele nem é infalível quando ensina só para alguns católicos.
     O Papa ensina infalivelmente:
1) quando declara que ensinará usando o poder dado por Cristo a Pedro;
2) para ensinar toda a Igreja;
3) tratando de fé ou moral;
4) definindo uma questão, isto é, afirmando que algo deve ser acreditado como verdade infalível, e que negar isso acarreta excomunhão.
     Exemplo disto nós o temos nos anatematismos do concílio de Trento que excomungou todas as heresias protestantes, que você segue, inclusive a negação do Papa, como supremo Pastor da Igreja.
     É o que se chama de Magistério Extraordinário.
     O Papa é infalível ainda em seu Magistério Ordinário, quando repete o que a Igreja sempre ensinou.     
     Assim, Pio XI ensinou infalivelmente na encíclica Mortalium Animos, ao condenar o ecumenismo, que a Igreja sempre condenou.
O Concílio Vaticano II errou ao se afastar desse ensinamento tradicional, e só conseguiu isso porque não quis usar da infalibilidade. João XXIII e Paulo VI explicitamente declararam que o Vaticano II era só pastoral e não dogmático. Daí toda a confusão doutrinária atual, e a crise que a Igreja está atravessando, e que Bento XVI está combatendo, por exemplo na Liturgia, e aos poucos, para evitar crises ainda maiores. Recentemente, até Dom Fellay disse, em entrevista ao jornal Nice-Matin, que ele está freando o Papa, que quereria ir muito depressa demais.
     O Vaticano II se pronunciou pastoralmente e muito mal. Esse Concílio usou uma linguagem “diplomática” muito ambígua, pretendendo agradar a todos. Fracassou. Pior: errou. Não agradou a ninguém. Principalmente, desagradou a Deus.
     Prova dessa ambigüidade do Vaticano II foi o reconhecimento por Bento XVI de que há pelo menos duas leituras do Vaticano II: a do “espírito” e a da “letra”.
     Bento XVI condenou a leitura do chamado “espírito do Vaticano II”, em seu famoso discurso à Cúria de 22 de Dezembro de 2005.
É bem verdade que ele defendeu a leitura do Vaticano II segundo a “letra”, e que, assim, ele continua a defender uma leitura do Vaticano II “à luz da Tradição”.
     Portanto, Bento XVI reconheceu que o Concílio Vaticano II foi, no mínimo ambíguo. Segundo outros, ele foi até polisemântico, permitindo vários entendimentos.
     Ora, ensinamento polisemântico implica em uma essencial contradição. Quem informa ou ensina algo com vários sentidos possíveis, não ensinou nada.
     Se se pede a alguém uma informação de endereço, e o informante responde tal forma que sejam possíveis vários entendimentos, o “informado” não saberá com certeza que caminho seguir.     
     Um professor de matemática que ensina um teorema de modo polisemântico não permitirá que se entenda nada. Imagine-se um professor de cirurgia, que ensina polisemanticamente como operar um paciente, quantas mortes causará.
     Magistério polisemântico não existe. Ensinar polisemanticamente é não ensinar nada. O Vaticano II foi polisemântico. Logo não foi um ato de Magistério Extraordinário infalível.
     Afirmam os menos cegos que ele foi um ato do Magistério Ordinário, que deve ser aceito como tal.
     Não sou nem teólogo, e nem canonista, mas ouso perguntar como é possível um ato de Magistério polisemântico, se um ensinamento com vários sentidos possíveis nada ensina?
     Mais ainda: se o Vaticano II ensinou coisas contrárias ao que sempre ensinou a Igreja, esse ensinamento novo é errado. A Igreja não ensina novidades doutrinárias. Ela as condena exatamente como novidades, porque não estavam no depósito da Fé.
     A conclusão mais errada e mais explícita nascida do Vaticano II foi a Nova Missa de Paulo VI, expressão mais clara do antropocentrismo do Vaticano II, e irmã gêmea da ceia luterana.
     Tanto a Nova Missa de Paulo VI é a mais lídima expressão do Vaticano II que Paulo VI declarou que jamais permitiria o retorno da Missa de São Pio V, porque permitir esse retorno seria condenar simbolicamente o Vaticano II.

“(…) essa missa dita de São Pio V, como se a vê em Ecône, se torna o símbolo da condenação do Concílio. Ora, jamais aceitaremos, em nenhuma circunstância, que se condene o Concílio por meio de um símbolo”. “Se fosse acolhida essa exceção, o Concílio inteiro arriscaria de vacilar. E conseqüentemente a autoridade apostólica do Concílio”. (Jean Guitton, Paulo VI Secreto, editora San Paolo, Milano, 4 a edição, 2.002, versão integral do francês aos cuidados de David M. Turoldo e Francesco M. Geremia, pp. 143-144-145 – Título original Paul VI Secret, Desclée de Brouwer, Paris).

     Ora, Bento XVI está prestes a liberar a Missa de sempre, dita de São Pio V. Logo, segundo Paulo VI, Bento XVI estaria prestes a condenar o Vaticano II simbolicamente.
     E é exatamente por isso que os Bispos e teólogos modernistas franceses estão uivando de ódio contra Bento XVI, acusando-o de condenar e de querer anular o Vaticano II.
     Essa é a esperança e o desejo da Montfort e que, afirmam todos os comentaristas, está prestes a se realizar.
     Nossa esperança está em Deus, que profetizou esse retorno da Missa no Terceiro Segredo de Fátima e nas visões de Dom Bosco.
     Confiando em Deus, rezamos pelo Papa Bento XVI, para que ele realize esse triunfo da Missa de sempre.
     Confiando em Deus, rezamos pelo homem Joseph Ratzinger que Deus elevou ao sólio de Pedro, mas que, enquanto homem, é sujeito a erros e contradições.
     É bem verdade que Bento XVI declarou que o ecumenismo é o fim de seu pontificado. E nisso ele segue ainda – contraditoriamente — o Concílio Vaticano II que ele vai condenar simbolicamente ao liberar a Missa antiga.
     Portanto, Bento XVI é um homem que está mudando. Rezamos para que Deus faça essa mudança ser completa.
     Segundo os Bispos e os líderes modernistas franceses, liberar a Missa de sempre será condenar ou enterrar o Vaticano II. Inclusive com o seu querido ecumenismo que jamais converteu ninguém.
     Mas, Bento XVI tem defendido o ecumenismo, insistirá você. E isso é verdade. Pelo menos em parte.
     Entretanto, mesmo quanto ao ecumenismo, notam-se mudanças em Bento XVI que vão contra o Vaticano II, e contra o que fizeram João XXIII, Paulo VI e João Paulo II.
     Bento XVI dá uma nota um tanto divergente ao seu ecumenismo, com relação ao do Vaticano II.

1) Quando Bento XVI era ainda o Cardeal Ratzinger, ele se opôs ao encontro ecumênico de Assis realizado por João Paulo II. Ratzinger chegou a pedir demissão de seu cargo no Vaticano, coisa que o Papa não aceitou.
2) João Paulo II concelebrou com Patriarcas cismáticos. Bento XVI se recusou a concelebrar ainda agora, na Turquia, com o Patriarca Bartolomeu I.
3) Bento XVI insiste que deve se afirmar Cristo como único Salvador e único Redentor. Mais: ele insiste que o dialogo ecumênico não deve significar uma atenuação das verdades católicas nas quais devemos crer. E disse que “se um não cristão pudesse concluir da participação de um cristão — [num ato ecumênico] — uma relativização da fé em Jesus Cristo, único salvador de todos, essa participação não deveria acontecer” (Cardeal Joseph Ratzinger, Fé, Verdade, Tolerância, 2002, p. 116).
4) Bento XVI apresenta a Igreja Católica como a Igreja de Cristo, e disse na Dominus Jesus que as comunidades reformadas não são igrejas. E nessa declaração Dominus Jesus, Ratzinger diluiu o famoso “subsistit”, que agora mal pode subsistir às críticas.
5) Ratzinger, na Dominus Jesus, fez colocar que Fé existe apenas na Igreja Católica, e que nas seitas não há propriamente fé, mas só crenças. E o Cardeal Ratzinger fez declarar, nesse mesmo documento, que os grupos protestantes não são igrejas.
6) Bento XVI, no discurso de Ratisbona, condenou o Sola Scriptura, um dos alicerces da teologia luterana. Embora o Papa continue realizando reuniões com os hereges protestantes, como pode prosseguir o diálogo ecumênico, se as bases doutrinárias dele forem minadas, como aconteceu nesse caso?
7) Bento XVI declarou recentemente que “não há comunhão possível com quem se afastou da doutrina da salvação” (Bento XVI: Catequese em 5 de Abril de 2006. Zenit).
8) E recentemente, o Cardeal Ivan Dias declarou que “o diálogo ecumênico não pode ser o evangelho do relativismo“.
Isso vai diametralmente contra o ecumenismo do Vaticano II.
9) Ainda há pouco, os modernistas falsificaram uma edição do Osservatore Romano e publicaram no site do Vaticano um discurso a Bispos suíços, atribuindo ao Papa Bento XVI uma defesa do ecumenismo que ele não fez num discurso que ele não pronunciou.
Tendo sabido da falsificação, o Papa determinou a queima da edição do Osservatore Romano e retirou o discurso falsificado do site do Vaticano. Ora, se os modernistas colocaram na boca de Bento XVI uma defesa do ecumenismo desse porte, era porque eles sabiam que Bento XVI não diria aquilo, pelo menos daquele modo.
10) Bento XVI demitiu Monsenhor Fitzgerald de um posto chave e o mandou para a Nunciatura no Cairo. Depois, fez do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso um órgão dependente do Conselho para a Cultura.
Ora, isto colocou o diálogo ecumênico numa esfera meramente humana, visando fins terrenos, como a paz e a cooperação em coisas civis, tirando-lhe a nota religiosa que lhe dera o Vaticano II.
Isso foi uma bem séria restrição ao ecumenismo tal como foi praticado desde o Vaticano II. Desde esse fato, no Vaticano de Bento XVI, as religiões falsas são assimiladas a fenômenos culturais…
Nos discursos ecumênicos mais recentes feitos por Bento XVI, ele fala em colaboração das várias religiões para fins naturais: paz, fim do terrorismo, ajuda aos pobres, combate a leis anti naturais como ao aborto, etc
11) O Decreto da Congregação para o Culto Divino obrigando a trocar o famoso “por todos” das missas novas pelo correto e evangélico “pro multis” – “por muitos”, como disse Nosso Senhor Jesus Cristo – foi também um golpe anti ecumênico, visto que a expressão “por todos” insinuava que todos são salvos, pouco importando a religião a que pertencessem.
Essa decisão foi pessoal de bento XVI contrariando a maioria das Conferências Episcopais e os membros da Congregação da Doutrina da Fé, como informou Dom Fellay em sua conferência recente em Buenos Aires.
12) A própria aprovação da Missa de sempre – expressão da doutrina tridentina – vai contra o ecumenismo. E a reforma da missa nova de Paulo VI também vai contra o ecumenismo, pois a Missa nova foi fabricada para agradar os hereges luteranos e para facilitar o diálogo ecumênico com os protestantes.
13) Em discurso recente, Bento XVI falou em direito à liberdade da Fé e não liberdade de religião, o que é uma mudança sutil, mas de enorme importância visto que, para Ratzinger as religiões falsas não têm Fé”.
14) Bento XVI permitiu oficialmente ao Instituto do Bom Pastor que critique a própria letra do Vaticano II, do qual ele, Bento XVI, já condenou o “espírito”, quando de seu discurso de 22 de Dezembro de 2.005 à Cúria Romana.
Desse modo, Bento XVI implicitamente já admitiu que o Vaticano II não é infalível, pois que esse Concílio pode ser criticado em sua letra, e condenado em seu “espírito”.
Que resta, quando se condena o “espírito” de um texto, e se permite que se critique a sua letra?
Se, como disse a Sagrada Escritura, “a letra mata e o espírito vivifica” (2 Cor. III, 6), então condenando o espírito do Concílio Vaticano II, se condenou sua alma. E se Bento XVI permitiu criticar também a letra do Vaticano II, como pretender que ele quer simplesmente continuar o Vaticano II? Sem espírito e sem letra, como vive um documento doutrinário, mesmo que só pastoral?
E se é o próprio espírito do Vaticano II que mata, que dirá a sua letra?

     Esses fatos mostram que, se é verdade que Bento XVI realiza atos ecumênicos e declare que o ecumenismo é o fim precípuo do seu pontificado, concretamente, ele coloca certos princípios que solapam o Vaticano II e o ecumenismo.
     Bento XVI está mudando, ainda que um pouco, mesmo com relação ao ecumenismo do Vaticano II.
     Alguém dirá que nisso há contradição em Bento XVI. 
     Isso nos dá esperança.
Em Deus. Em sua graça que pode mudar um ex perito do Vaticano II, num Papa que, mudando, mude a História. Isso não será a primeira vez que acontece na História. Houve caso parecido em Damasco.
     Portanto, não há contradição no que dizemos e esperamos.
     Infelizmente, ainda há alguma contradição em Joseph Ratzinger ao querer liberar a Missa de sempre, reformar a Missa nova de Paulo VI, e, ao mesmo tempo, defender a letra do Concílio, querendo prosseguir nos caminhos do ecumenismo.
     Há contradição nele ao condenar o Sola Scriptura e o relativismo doutrinário, e, em seguida, preconizar o ecumenismo como fim de seu pontificado.
     O Espírito Santo inspira sim o Papa sempre que ele ensina ex cathedra. Não o inspira necessariamente quando ele atua como homem, por exemplo, quando age politicamente como governante e diplomata.
     O Papa Leão X foi inspirado por Deus ao excomungar as teses de Lutero. Não era inspirado por Deus, quando elogiava o estilo de Lutero ao escrever suas heresias e blasfêmias, em latim.
     Os católicos devem sempre confiar no Papa, quando ele fala como Pedro e com o poder dado por Cristo a Pedro.
     Os católicos sabem que sempre devem temer que o Papa – como homem — pode se equivocar, pode pecar, e pode errar, como qualquer homem. Como eu. Como você.
     Por isso sempre os católicos devem rezar pelo Papa porque, como homem, a qualquer momento, ele pode dar um passo em falso.
Como eu. Como você.
     E a Montfort, que não é infalível e nem inspirada por Deus, só é fiel quando repete fielmente o que os papas sempre ensinaram.
     Doutrina má, para a Montfort é a doutrina herética do protestantismo, que você, Marcos, diz professar.
     Doutrina herética que o leva a me escrever muito contraditoriamente, tratando da infalibilidade papal e da tradição, nas quais um protestante não crê.
     Será você sincero?
     Acho que nem você crê plenamente em sua sinceridade…
     Finalmente, deixe-me indicar os pontos com os quais concordo em sua missiva: de fato, “a Montfort não admite nenhuma outra forma de ecumenismo
     Acertou! E acertou na mosca! Como você foi perspicaz nesse ponto! Parabéns!
     A Montfort não admite nenhum ecumenismo irênico, pois o ecumenismo e a liberdade de religião foram condenados por Gregório XVI na encíclica Mirari Vos, por Pio IX na Quanta Cura e no Syllabus, por Leão XIII ao condenar o Americanismo e o Congresso de Religiões de Chicago, como o ecumenismo foi condenado por Pio XI, na Mortalium Animos.
     Concordo perfeitamente que você acertou ao dizer que “a Montfort, [quer que ] os protestantes e os ortodoxos devem abandonar os seus “erros” e aderir integralmente à doutrina católica“.
     É exatamente isso que desejo para você: que abandone todas as heresias protestantes e liberais que infernam a sua alma, e que você se torne um verdadeiro católico, e possa salvar sua alma, porque fora da Igreja Católica não há salvação.

     Cristo Jesus não mandou aos Apóstolos: “Ide e dialogai” e sim “Ide e ensinai“.

     Cristo Deus não enviou discípulos que fossem diplomatas relativistas, mas Apóstolos que condenassem os erros e ensinassem a Verdade.
     Cristo Deus não instituiu uma Igreja dialogante, mas militante, polêmica. Cristo Deus não mandou os Apóstolos dialogarem com os lobos, e sim mandou que desmascarassem os lobos travestidos de cordeiros.
     E só tenho que lhe agradecer seus sofismas e incompreensões que me permitiram tornar mais clara ainda a posição da Montfort; contra a Missa Nova, contra o Vaticano II, contra o ecumenismo.
     Sempre a favor do Papa, sabendo distinguir entre Pedro, Supremo Pastor, e o homem no exercício desse Supremo Pontificado, homem que sempre pode dar um passo em falso, sem jamais deixar de ser Pedro.
     Por isso a Igreja sempre rezou pelo Papa, cantando ainda hoje: 

Oremus por Pontífice Nostro Benedicto!
Dominus conservet eum, et vivificet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum ejus.

     Por isso tudo a Montfort clama, sem contradição:
Viva o Papa!
     Viva Bento XVI, de quem a Igreja tanto espera, esperando a liberação da Missa de sempre, início da vitória total sobre o Modernismo!
     Depois da liberação da Missa a batalha prosseguirá contra o ecumenismo, a liberdade de religião, a colegialidade e contra os demais erros do Vaticano II. Até o triunfo da Igreja através do triunfo do Imaculado Coração de Maria, como foi predito em Fátima.
     Com a Missa teremos o começo da vitória.
     E basta.
     Passe bem.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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