Montfort Associação Cultural

Professor Orlando Fedeli

Está nos planos da Montfort a elaboração de um livro sobre a ação do movimento litúrgico no Brasil. Se Deus permitir que consigamos concluir este trabalho, que se encontra apenas em sua fase inicial, pretendemos apresentar, dentre os diversos temas que serão abordados neste material, a danosa ação de traição realizada por Plinio Correa de Oliveira e pela TFP como, por exemplo, o estranho acordo realizado com Dom Paulo de Evaristo Arns, impedindo a publicação  do livro de Arnaldo Xavier da Silveira sobre a Missa Nova, e a inesperada metamorfose de parte desta seita nos Arautos do Evangelho.

Este trabalho será uma ótima ocasião para tratarmos da história do fundador de nossa Associação, Professor Orlando Fedeli – a quem sempre chamamos simplesmente de Professor – que dedicou sua vida ao apostolado, recrutando pessoas, sobretudo jovens, para o combate em defesa da Igreja e da tradição católica.

No momento, nesta seção do site, nos limitamos a transcrever o Prefácio do Livro “No país das maravilhas: a gnose burlesca da TFP e dos Arautos do Evangelho”, que conta de uma forma muita simplificada e geral, alguns aspectos da vida e da obra do Professor, livro este que até o presente momento, não teve nenhum de seus fatos ou documentos contestados por quem quer que seja.

 

Prefácio

Foi no começo do ano letivo de 1.972, no início do mês de março. Estávamos em pleno verão. Naquele tempo havia menos dias letivos, mas se aprendia muito mais.  Recordo-me bem que era uma terça-feira, segundo dia de aula. Nós aguardávamos o novo professor de História.  O sol forte da manhã havia vencido as brumas da madrugada, elas haviam se dissipado dando lugar a um dia claro, os raios de sol penetravam pela janela. A porta se abriu e entrou na sala um Professor. Todos os alunos ficaram de pé ao lado da carteira. Eram outros tempos, apesar de não fazer tanto tempo. Diferente dos demais professores, ele fez um sinal da cruz. Um sinal discreto, mas facilmente notado.  Jamais me esqueci daquele sol, jamais me esqueci daquela manhã, jamais me esqueci da minha primeira aula, jamais me esqueci daquele gesto.

Em apenas alguns segundos, recebi a primeira aula do nosso estimado Professor Orlando Fedeli, a quem durante os muitos anos de nossa convivência chamei apenas de Professor.  Ele me ensinara, com seu exemplo, a resposta à pergunta de número 6 do Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã:

Pergunta: Qual o sinal do cristão?

Resposta: O sinal do cristão é o sinal da cruz.

Ensinou a todos os alunos daquela sala, e a todos os outros que assistiriam suas aulas naquele colégio estadual, que não havia motivo para que um católico escondesse a sua religião, que a profissão de fé deveria ser pública e que para ser católico era necessário aceitar sofrer.

Na seqüência desta mesma aula, o Professor entrou rapidamente na matéria, e perguntou para a sala:

“Quem sabe dizer se o Brasil realmente foi descoberto por acaso?”

Eu que já tinha ouvido algo sobre o assunto e inspirado pelo espírito moderno da conciliação, diante de uma sala que permanecia em silêncio, arrisquei a resposta:

“Existem duas correntes, ninguém sabe ao certo o que aconteceu”

A contestação do Professor veio de forma imediata.

“Eu sei o que aconteceu e vou provar”.

Era uma segunda lição bem diferente de outras tantas que eu havia recebido. Diante de uma onda de relativismo e de incertezas, o novo Professor nos ensinava que era necessário proclamar a verdade. A verdade existe e um bom professor deve ensiná-la.

Na seqüência, o Professor discorreu, deixando claro que o Brasil não fora descoberto por acaso, tese hoje aceita por qualquer historiador com um pouco de seriedade. Assim, a aula se concluía com uma terceira lição. É preciso estudar para compreender a verdade e, uma vez compreendida, ela deve ser difundida.

Durante as conversas do recreio daquele dia, não havia ninguém indiferente ao novo Professor de História. Alguns tinham gostado muito, outros, entretanto, demonstravam uma grande insatisfação. Eu me via diante de um sentimento novo, pois pela primeira vez na minha vida de estudante comecei aguardar com ansiedade a próxima aula de um professor.

Nesta minha primeira aula, tive um resumo do que seriam os meus contatos com o Professor nos trinta e oito anos seguintes: amor à Igreja, amor à verdade, amor à cruz.

Nos longos anos de convívio pude, ainda, constatar  que os seus ensinamentos  não se limitavam às teorias. A doutrina católica, que me era ensinada, tinha que ser colocada em pratica.  Era comum o Professor repetir:

 “O argumento convence, mas é o exemplo que arrasta”.

Assim, por exemplo, o Professor nos ensinava a necessidade de obedecer à Igreja e aos seus mandamentos e por isto jamais faltava à missa; combatia o sentimentalismo e por isto não ouvia musicas românticas; falava da prática da virtude e por isto jamais dizia palavras inconvenientes; tratava conosco sobre o sacrifício pelos outros e era o primeiro a ajudar  aqueles que se encontravam em qualquer dificuldade.

Desta forma durante muitos anos vi o Professor não somente convencer as pessoas, mas arrastá-las para a prática da religião. De fato, o Professor não tinha uma autoridade formal sobre estas pessoas e por isto nunca pode, nem quis, obrigar ninguém a seguir suas orientações. As pessoas que com ele tiveram relações de amizade, o fizeram da maneira mais livre e espontânea possível.

Ao ler o site Montfort, acredito que muitos daqueles que não tiveram a oportunidade de conhecer o Professor pessoalmente o imaginem como sendo um homem rodeado de livros, com seu tempo tomado quase exclusivamente por exaustivas pesquisas. É verdade que o professor estudava muito, mas esta visão está muito distante da realidade. O Professor era cercado muito mais pelas pessoas do que pelos livros.

É muito conhecido entre os seus alunos o fato de um rapaz, que há pouco tempo havia sido  convertido pelo Professor,  estando em sua casa para assistir algumas aulas, por volta da meia-noite, pediu:

“Professor, o senhor não poderia me falar agora sobre Lutero?”

Assim, as aulas muitas vezes invadiam a madrugada, simplesmente porque seus alunos não iam embora, e ele jamais os dispensava.

Foi esta conformidade entre aquilo que era ensinado e o que era vivido que nos mostrou claramente um dos muitos e grandes defeitos de nossa época, ou seja, a incoerência entre o que se acredita e o modo de se viver.  Quantas pessoas do povo não fazem críticas contundentes e graves contra a televisão, mas jamais deixam de assisti-la? Quantas pessoas da classe política não atacam a corrupção, mas acabam por se utilizar dos meios que eles condenam para enriquecer? Quantos membros do clero  não levam uma vida contrária aos ensinamentos que são proclamados nos púlpitos?

O resultado desta contradição é uma absoluta esterilidade na tentativa de convencer as pessoas no que se refere a comportamentos particulares, restando apenas o emprego da força, cada vez mais brutal, para que se coíbam as falhas de conduta moral.

Com a graça de Deus, este não era um defeito do nosso estimado Professor Orlando. Pelo contrário, ele sempre teve  um modo de vida totalmente coerente com a doutrina católica, que não se cansava de repetir. Como disse, esta coerência sempre foi uma característica marcante de seu apostolado.

Recordo-me de um jornalista – que foi depois um importante redator de um dos principais jornais do país, e que tinha, já na época, papel de destaque nos órgãos de sua classe trabalhista, graças, é claro, a um pensamento fortemente esquerdista – perguntando ao Professor durante uma entrevista:

“Mas o senhor, em suas aulas de história no colégio estadual, ensina que a Idade Média foi uma boa época”?

Ao receber, como resposta enfática, um sonoro “evidente que sim”, completado por um questionamento:  “por que essa pergunta, o senhor é capaz de escrever algo diferente do que pensa?”, o jornalista não se intimidou em contar o seguinte fato:

“Em um único dia escrevi um artigo super-reacionário para uma revista agrícola e  outro defendendo as teses mais radicais do comunismo para o… (não me recordo o nome do jornal mas devia ser alguns desses pasquins de esquerda). Não vejo qualquer problema em fazer isto se for necessário na minha profissão”.

Contar a história do Professor exigiria que este prefácio fosse maior que o próprio livro que está sendo publicado. Se Deus permitir, fornecendo-nos os recursos necessários,  isto será feito em um livro que já se encontra em nossos planos próximos e em outros que, por enquanto, são apenas desejos.

Mas para abordar apenas um ponto da sua biografia, acredito que o presente livro represente de forma bastante adequada esta característica marcante da coerência entre a doutrina e o modo de viver do Professor. Creio ainda que este seu modo de pensar e agir  pode ser representada pela seguinte formulação:  é necessário conhecer e estudar a doutrina católica, este conhecimento permite identificar erros contrários ao pensamente católico, e uma vez identificados tais erros  é necessário agir procurando destruí-los.

Dizia sempre o nosso Professor “quem ama o bem, odeia o mal”. É obrigação de todo católico combater a heresia.

Neste livro o Professor procura apresentar de forma inteligível as absurdas doutrinas ensinadas por Plínio Correa na antiga TFP, a qual acabou por se dividir em outras duas instituições, algum tempo após a sua morte.

A primeira, que certamente em nossos dias tem  pouca importância, é o  Instituto Plínio Correa de Oliveira,  dirigido pelos chamados “provectos”, os mais velhos amigos de Plínio. Para esses foi dado, por ele próprio, o poder de direito dentro da antiga TFP, ou seja, eram os diretores oficiais segundo o estatuto. Ainda agora este grupo segue o modelo institucional da finada TFP, mas não tem destaque quer seja no terreno político quer seja no campo da religião.

A segunda, os Arautos do Evangelho, nasceu composta pelos jovens da TFP,  liderados pelo então discípulo predileto, João Scognamiglio, o qual possuía na antiga instituição um poder de fato, dado também pelo próprio Plínio. Este poder paralelo foi construído através da propaganda e divulgação das supostas  virtudes de João – hoje monsenhor João – dentre as quais era destacada a fidelidade a Plínio. Incutia-se assim, nos mais jovens da TFP, uma admiração pelo discípulo predileto, enquanto para os mais velhos Plínio dirigia apenas críticas.

Os Arautos, desde que se separaram da TFP, sofreram uma metamorfose,  adquirindo uma forma jurídica dentro da hierarquia católica.  Esta metamorfose permitiu aos Arautos uma grande propagação. Apesar desta institucionalização, não deixa de surpreender o volume de recursos financeiros de que eles dispõem, e a boa vontade que eles encontram em muitos setores do clero. A surpresa é maior quando se considera que, há pouco tempo,  Plínio e seu discípulo dileto denominavam a hierarquia da Igreja Católica como a “estrutura”.

Entretanto, parece-nos difícil mensurar a real importância dos Arautos, no contexto religioso atual, pois ao mesmo tempo em que apresentam a grande riqueza de seu patrimônio e se ufanam de seus contatos eclesiásticos nas altas esferas do Vaticano, pouco se vê sobre estudos que tenham realizado e que, de fato, poderiam indicar uma influência sobre o pensamento contemporâneo, na Igreja ou na sociedade civil.

Por isso, ao escrever seu livro, o Professor precisou utilizar três fontes: os documentos da antiga TFP e as publicações posteriores patrocinadas pelos provectos e pelos Arautos.

Não foi uma tarefa fácil para o Professor apresentar um esquema lógico das doutrinas de Plínio Correa. A Gnose que é a base deste pensamento é sempre confusa. Além disto, Plínio era uma pessoa de pouco estudo e gostava de divagar em suas reuniões e conversas (nos dias atuais se diria que ele “enrolava”), quer fossem elas públicas ou secretas.  Ademais, como ele pretendia esconder seu pensamento, havia ainda uma intenção deliberada de ocultá-lo para que fosse claro apenas para os iniciados.

Para esclarecer e combater a gnose em Plínio Correa, foi necessário ao Professor escrever um livro com muitas, e às vezes longas, citações das aulas e conversas do próprio Plínio, a fim de que não se pudesse afirmar que essas citações foram deformadas retirando-as do seu contexto. Também foi fundamental apresentar muitas citações sobre doutrina, de autores sérios e insuspeitos, para comparar e deixar claro as diferenças entre a Gnose romântica de Plínio e a verdadeira doutrina católica.

O resultado deste trabalho foi um livro extenso e com uma quantidade de notas e referências muito acima dos nossos padrões habituais do Brasil, mesmo para livros que tratam de temas doutrinários.  Talvez alguns leitores tenham que realizar um esforço adicional para a leitura completa do livro, mas não há dúvida de que este esforço será recompensado não só com  o entendimento da versão doutrinária de uma gnose atual, no caso a gnose pliniana, mas também com um aprofundamento do conhecimento da doutrina católica.

Entretanto, o leitor habitual dos trabalhos do Professor pode se tranqüilizar porque também não faltaram os tradicionais comentários divertidos e irônicos que facilitam o entendimento e dão leveza ao texto, mantendo de forma agradável a atenção.

Para facilitar a compreensão das doutrinas herméticas de Plínio, o Professor divide seu livro em seis partes. As duas primeiras e a quarta tratam das teses fundamentais do pensamento de Plínio, a saber:

A  inocência primeva, que representaria um estado primitivo do homem no paraíso terrestre, no qual seus atributos seriam praticamente iguais aos de Deus,

A contemplação sacral do universo, que apresenta uma visão gnóstica como a chave para a compreensão deste mesmo universo,

A teoria do conhecimento de Plínio, que muito se aproxima da teoria do conhecimento da Gnose de Bergson.

O livro contempla ainda três outras partes:

A terceira trata da mentalidade romântica de Plínio. A aplicação da mentalidade romântica em seu discurso permitia a Plínio ser impreciso em seus conceitos, criticar aqueles que estudavam, colocar o sonho acima da realidade, recontar a História sem qualquer base nos fatos reais, mas fundamentando-se apenas em suas impressões e, ainda, fazer previsões que de fato nunca se realizavam. Esta mentalidade romântica se espalhou por toda a TFP e fazia com que seus membros não se preocupassem em comparar as doutrinas de Plínio, nem com a lógica, nem com a realidade.

A quinta parte trata do culto a Plínio e a sua mãe Dona Lucília, assunto que era, e continuou sendo, muito caro a João Scognamiglio. Até em nossos dias é possível ver no Cemitério da Consolação, local onde eles estão enterrados, peregrinações de membros dos Arautos do Evangelho (aliás, parece-nos difícil crer que tal ato público não seja de conhecimento das autoridades eclesiásticas de nossa Arquidiocese). Não fosse a farta documentação apresentada pelo Professor, não fosse eu mesmo testemunha da grande maioria dos fatos apresentados neste capítulo, teria dificuldade em acreditar que tal delírio  tenha realmente existido.

A sexta e última parte trata da “Sempre Viva”, a seita secreta que existia na TFP.  Mais um delírio de Plínio, que conseguiu arregimentar um grupo de pessoas que seriam seus escravos. Escravidão esta entendida nos termos do direito romano, segundo o qual o senhor poderia dispor de seu escravo como bem entendesse, excetuando apenas o direito pagão de vida e morte.

Vemos que sem um conhecimento profundo da doutrinas e dos sistemas gnósticos, bem como da história dos grupos que adotaram este pensamento, e sem um grande conhecimento da doutrina católica, teria sido impossível a qualquer pessoa  sistematizar e apresentar de forma clara os princípios desta doutrina secreta. Foram os anos de estudo do Professor que permitiram compreender este sistema gnóstico e apresentá-lo neste livro.

Temos, no conteúdo doutrinário do livro, a primeira parte da fórmula enunciada anteriormente e que bem resume a atuação do Professor:  é necessário conhecer e estudar a doutrina católica pois este conhecimento permite identificar erros contrários ao pensamento católico.

Vejamos agora a segunda parte de nossa fórmula, a ação do professor para combate as falsas doutrinas.

Estará muito equivocado quem imaginar que o trabalho para elaboração deste livro por parte do Professor limitou-se a consulta de material bibliográfico. As informações que permitiram ao Professor escrever o livro foram obtidas com muito esforço, muitas conversas, muitas viagens e muito sacrifício.

Somente para citar um exemplo, as informações e descobertas sobre a sempre viva, última parte do livro, e que na realidade foram a primeira porta para o conhecimento da doutrina gnóstica escondida nos ensinamentos de Plínio, foram conseguidas graças a diversas viagens realizadas por algumas das principais capitais brasileiras. Algumas delas de carro, durante madrugadas que pareciam não ter fim.

Uma vez identificado todos esses erros teria sido mais fácil e mais cômodo ao Professor permanecer em silêncio. Se as autoridades eclesiásticas não se pronunciavam porque o Professor teria a obrigação de fazer uma denuncia pública? Denunciar os Arautos do Evangelho, um instituto internacionalmente reconhecido e colocado na “crista da onda” por algumas autoridades eclesiásticas certamente traria muitas incompreensões, críticas e injustiças.

Mesmo com  a saúde bastante abalada, e com o coração muito enfraquecido, nosso Professor não poupou esforços para ver seu livro concluído, e com a graça de Deus nada deteve a sua publicação.

Um dúvida que poderá surgir é como tendo os graves erros,  o Papa Bento XVI pode elogiar os Arautos do Evangelho em seu último livro.

A resposta é simples e óbvia ele não têm conhecimento do que se passa no intra-muros dos arautos, nem conhece suas doutrinas secretas.

Este não é o primeiro caso na história da Igreja e certamente não será o último em que um Papa se engana desta forma. Veja-se, por exemplo, os elogios que os papas fizeram a obra de Dante a Divina Comédia. Hoje sabe-se que se trata de uma obra que escondia nos versos estranhos a gnose. Os papas que elogiaram tal obra, não conheciam a doutrina escondida e elogiaram apenas a aparência de catolicismo que permitia a divulgação da Divina Comédia, uma obra herética, em plena Idade Média.

Também são Pio X se enganou com o Sillon, veja-se o item 4 da encíclica “Notre charge apostolique” :

“Porque, é necessário dizê-lo, Veneráveis Irmãos, nossas esperanças, em grande parte, foram ludibriadas. Houve um dia em que o Sillon começou a manifestar, para olhares clarividentes, tendências inquietantes. O Sillon se desorientava. Podia ser de outra forma? Seus fundadores, jovens, entusiastas e cheios de confiança em si mesmos, não estavam suficientemente armados de ciência histórica, de sã filosofia e de forte teologia para afrontar, sem perigo, os difíceis problemas sociais, para os quais tinham sido arrastados por sua atividade e por seu coração, e para se premunir, no terreno da doutrina e da obediência, contra as infiltrações liberais e protestantes”.

Em nossos tempos tivemos ainda o caso dos Legionários de Cristo Rei, cujas regras talmúdicas de comportamento em muito se assemelham ao “ordo” dos Arautos.

Uma outra pergunta  que certamente muitos dos leitores do livro se farão  é porque Deus permitiu que o Professor fosse enganado por Plínio Correa durante tanto tempo.

Evidentemente não podemos conhecer os desígnios de Deus , mas podemos fazer conjecturas sobre eles.

O Professor passou durante aproximadamente trinta anos na  TFP, ele assim como muitos outros, por exemplo Dom Mayer, no passado e Roberto de Mattei ainda nos dias atuais, foram enganados pelo modo dúbio com os quais Plínio Corra de Oliveira expressava seu pensamento. Fazendo-se de católico exemplar ele na realidade disseminava uma doutrina gnóstica.  Para atingir seu objetivo, Plínio divulgava sua doutrina de uma maneira obscura permitindo que ao ser questionado poderia ele apresentar uma interpretação católica para suas teorias, mas, ao mesmo tempo ele poderia aliciar novos adeptos para as suas loucuras e a para a sua seita secreta.

Esta forma de agir trazia como conseqüência que os adeptos desta doutrina, uma vez convencidos, perdessem a verdadeira fé católica. Quando nos afastamos da TFP muitos daqueles com quem discutíamos nos diziam; “se Dr. Plinio está errado, então a igreja Católica é falsa, Jesus Cristo não é Deus e Deus não existe”.

Não creio que tivesse sido possível conhecer de maneira profunda todo o sistema e todas as doutrinas elaboradas por Plínio sem estar dentro da TFP. Parece-me, portanto, que Nossa Senhora permitiu que o Professor fosse enganado para que ele pudesse desmascarar esta doutrina de uma forma completa, e assim, outros católicos que estivessem ou ainda se encontrarem em semelhante situação pudessem melhor se aproveitar deste trabalho, condenado a gnose de Plínio sem perder a fé.

Uma última pergunta que poderia ser feita é se valeu a pena despender tantos recursos, que nos são tão escassos, tratando de uma organização cuja importância é bastante duvidosa.

Inicialmente é necessário dizer que desmascarar uma seita é sempre algo bom. Se temos oportunidade devemos fazê-lo, independente a real importância da seita.  Seria uma grande omissão não completar o trabalho que o Professor iniciou. Para não me alongar nas justificativas sobre a importância deste livro trato apenas rapidamente das surpreendentes amizades que a TFP possuía e a sabotagem realizada por Plínio naquilo que se refere a luta contra o progressismo na Igreja.

Em relação aos estranhos relacionamentos da TFP  cito dois exemplos.

O primeiro deles se situa na esfera eclesiástica. Em uma ocasião o Professor foi informado que em uma igreja em são Paulo por ocasião da comemoração do aniversário de Plínio, onde ele mesmo estaria presente, seria feita uma cerimônia na qual os membros da TFP lhe prestariam um verdadeiro culto. Segundo o informante este ato seria sem dúvida um sacrilégio, uma verdadeira profanação na igreja.  Para tentar impedir a realização do culto a Plínio fomos ao encontro de Dom Evaristo Arns, então cardeal de São Paulo, para alertá-lo,  de forma que este prevenisse ao pároco da Igreja, impedindo assim a realização da tal cerimônia. Para nossa surpresa após informamos Dom Arns sobre o que ocorreria ele simplesmente respondeu:

“Não acredito que uma coisa dessas possa acontecer. Eu confio na TFP. Todas as igrejas de São Paulo estão abertas para serem utilizadas pela TFP”.

Um segundo exemplo, ocorreu no campo jornalístico. Ao tratarmos sobre uma possível publicação de uma reportagem sobre a TFP, no jornal Estado de São Paulo que se apresentava como um grande inimigo desta entidade, ouvíamos de Lenildo Tabosa, na ocasião um dos seus principais jornalistas:

“o Mesquita manda avisar que se for para destruir a TFP vocês não terão nem uma linha no jornal”.

O outro ponto que mostra a importância da publicação deste livro está relacionado a questão religiosa no Brasil que surgiu com a promulgação por parte de Paulo VI do novo “Ordo Missae”.  Plínio colocava as suas estranhas doutrinas, bem como o culto que lhe era devido, como tema central da vida da TFP, assim, Plínio desviava a atenção de muitos católicos que ao menos quando de seu ingresso na TFP eram sinceros, dos problemas fundamentais que existiam na igreja católica, ou seja, o concílio Vaticano II e a Missa Nova. Internamente ele se apresentava como um católico tradicionalista, mas para o público em geral procurava esconder estas questões.

Exemplos desta forma de atuação foram o ocultamento do livro de Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira contendo os erros sobre a Missa Nova,  a ausência de qualquer crítica pública ao modernismo, e total falta de apoio as questões religiosas levantas por Dom Antonio de Castro Mayer e por Dom Marcel Lefebrve, principalmente em relação ao Vaticano II.

Lembro-me bem que quando da publicação por Dom Mayer de uma carta pastoral condenado o divórcio, Plínio muito a contra gosto aceitou envolver a TFP na divulgação desta pastoral e somente após pressões internas originadas em alguns dos elementos de destaque da própria TFP, aceitou envolver a TFP no combate ao divórcio.

Os Arautos, também neste ponto, agem de forma semelhante a TFP. Simplesmente ignoram as questões referentes a Missa Nova, ao Vaticano II e ao avanço modernista na Igreja. Ressalte-se, que no intra-muros da TFP a posição de João Scognamiglo era bem diferente, pois este criticava a Missa Nova, apesar não dar qualquer importância a Missa Antiga,  e abusava das críticas ao clero progressista, chegando mesmo a se recusar em chamar João Paulo II de Papa.

Agora que a antiga TFP parece estar no caminho do desaparecimento e não ter qualquer importância no cenário da Igreja ou mesmo do Brasil, surgem os Arautos do Evangelho, que procuram para o grande público dissimular qualquer ligação anterior com esta mesma TFP, mas que na realidade, são uma continuação da doutrina de Plínio. Para isto basta conhecer as estranhas teses de doutorado de João Scognamiglio.  É difícil pensar como  as autoridades eclesiásticas responsáveis pela aprovação dos Arautos desconhecessem o passado do seu fundador, o discípulo predileto de Plínio. É impossível não relembrar nosso encontro com Dom Arns.

Longe, portanto, de ser um estudo somente teórico o livro do Professor traz uma doutrina, cujo o instituto que a transmite atualmente de modo discreto se apegou a Igreja tal como uma erva daninha que vive da seiva da arvore.

Não há dúvida, portanto, que este é um livro que precisa ser lido por todos aqueles que se interessam pelas questões religiosas no Brasil. Deus parece ter permitido que o Professor completasse com uma experiência bastante concreta os estudos que realizou  durante sua vida de forma ampla e profunda  sobre seitas, sociedades secretas e as suas doutrinas.  Muitos mais do que simples horas de estudo foi necessário uma vida inteira para escrever este livro.

Poucos dias após o livro ter sido postado no site Montfort, recebi um telefonema da Ivone, esposa do Professor informando que ele havia desmaiado em casa. Como estava longe do local pedi a um dos meus filhos que para lá se dirigisse rapidamente e que nos encontrássemos em um hospital. Chegamos praticamente juntos e ajudei a retirar o Professor do carro. O rosto dele  demonstrava uma grande calma e paz. Cheguei mesmo a chamar o Professor pelo nome pensando que ele já estava se recuperando do desmaio. Ajudei a colocá-lo na maca e fiquei aguardando na porta do local para onde ele foi levado. Achava que em breve seria chamado e eu poderia conversar com ele. Aproveitaria a ocasião para dizer que ele precisava trabalhar menos e descansar um pouco mais, pensava em sugerir umas férias.

Assim, como muito tempo antes, a porta foi aberta, eu estava sozinho na sala, não havia outros alunos. O Professor não entrou. Em seu lugar apareceu um enfermeiro que me anunciou que ele havia morrido.  Foi a primeira vez em minha vida que me preocupei em estar sozinho.

Era o dia 9 de junho de 2.010, quarta-feira, fazia trinta e oito anos que eu havia conhecido o Professor, mas me parecia que fora apenas um dia antes. Em vão eu havia esperado a porta abrir para encontrar com o Professor. Ele havia deixado a vida invocando o nome de Nossa Senhora: “doce coração de Maria…”. Eu acabava de receber minha última aula. O Professor me ensinara que mais importante do que viver bem é preciso morrer bem. Em poucos dias estaríamos no inverno. Era fim de tarde, o sol perdera sua força. Estava anoitecendo…  Jamais me esquecerei daquele poente, jamais me esquecerei daquela noite, jamais me esquecerei da última aula, jamais me esquecerei do rosto sem vida mas completamente tranqüilo que tinha visto…

 
Alberto Luiz Zucchi
24 de abril de 2011
Domingo de Páscoa