Montfort Associação Cultural

9 de fevereiro de 2013

Download PDF

Presidente do Pontifício Conselho para a Família defende direitos gays

Dom Paglia e Dom Fisichella se abraçam: igual defesa de posições não católicas

Seria bom que não fosse verdade! Mas o Presidente do Conselho Pontifício para a Família, Dom Vincenzo Paglia, disse isso mesmo. Foi segunda feira passada, em uma conferência de imprensa para apresentar as atas do Encontro Mundial das Familias, ocorrido em 2012. Após chamar Babel a vigorosa reação dos Bispos e povo francês contra o projeto do Presidente Hollande de “Casamento para Todos”, ele declarou: 

O matrimónio é uma dimensão clara do direito. Existem depois as outras formas de convivência não familiares, que são muitas. Nestas perspectivas procure-se encontrar soluções de tipo de direito privado e, na minha opinião, também de natureza patrimonial. Eu penso que este é um terreno que a política deve começar a percorrer tranquilamente”.

Diante do escândalo mundial, Dom Paglia deu entrevistas ao Osservatore Romano e à Radio Vaticana “desmentindo-confirmando” suas declarações…

Em meio à consternação geral dos católicos e à surpresa dos próprios ativistas da causa gay, uma voz se levanta para apoia-lo: Dom Rino Fisichella, o horrível defensor do aborto – só em certos casos! – que foi removido do Conselho Pontifício Pro Vida, após um protesto de outros membros do Conselho que subiu até o Papa antes de ser atendido. O legislador deve responder às exigências que antes não existiam”, disse ele.

Senhores Arcebispos, responsáveis pela Vida e pela Família da parte do Santo Padre, tais “exigências” não existiam  porque antes se chamava ao mal, mal!  As uniões homossexuais eram chamadas “intrinsecamente desordenadas” pelo Catecismo de João Paulo II e “pecado que brada aos céus, clamando por vingança”, no Catecismo de São Pio X. Os sucessores dos Apóstolos não defendiam soluções “de direito privado”, nem “de natureza patrimonial”, que levariam as almas ao inferno.   Não se pensava, na sociedade civil depois da Antiguidade, nem em seus piores momentos, em “percorrer tranquilamente” o caminho da auto destruição.

Infelizmente também o Cardeal Damasceno, possivelmente constrangido pela atitude do responsável vaticano, declarou que “os gays precisam ser tratados com respeito por sua opção”. Talvez Sua Eminência tenha querido dizer que os gays devem ser tratados com respeito – como todo ser humano – e caridade pela sua triste situação, apesar de sua péssima opção!

Comentário Montfort Lucia Zucchi 

Textos de O Globo e  El País, publicados pela Unisinos

Quinta, 07 de fevereiro de 2013

 Presidente de dicastério vaticano reconhece direitos para casais de fato

O presidente do Pontifício Conselho para a Família, o arcebispo Vincenzo Paglia, reconhece direitos para os casais de fato, homossexuais ou não.

A reportagem é de Juan G. Bedoya e está publicada no jornal espanhol El País, 05-02-2013. A tradução é do Cepat.

O ‘ministro’ do Vaticano que se ocupa de zelar pelo matrimônio católico e indissolúvel, o arcebispo Vincenzo Paglia, presidente do Pontifício Conselho para a Família, defende a família tradicional, mas reconhece direitos para os casais de fato, homossexuais ou não. Ele expressou essa opinião na segunda-feira diante de numerosos jornalistas, causando grande alvoroço, pois se trata de um giro radical nas rígidas posições da Igreja católica. “Infelizmente, não sou um especialista em direito, mas pelo que sei, me parece que é o caminho que se deve trilhar”, acrescentou. Pouco depois, o prelado recebeu o apoio de um de seus colegas da cúria da Santa Sé, o também arcebispo Rino Fisichella, responsável pelo ‘ministério’ papal recentemente criado com o nome de Nova Evangelização. “O legislador deve responder às exigências que antes não existiam”, disse este.

Apenas há um mês o papa Bento XVI admitiu que os ataques que, segundo ele, a família católica sofre em numerosos países europeus são um perigo para a humanidade e geram violência e pobreza. Da mesma opinião são seus hierarcas na França, que aplaudiram as massivas manifestações contra a iminente legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Paglia, ao contrário, reconhece agora que se trata de situações que o Estado deve resolver para impedir injustiças e discriminações, não sem antes abrir debates mais prolongados.

“É preciso encontrar soluções no âmbito do código civil para garantir questões patrimoniais e facilitar condições de vida para impedir injustiças com os mais fracos. É um assunto que deve ser debatido mais amplamente e não imposto pelos governos”, disse, em clara referência à França e à Espanha.

Paglia é um dos fundadores da Comunidade de Santo Egídio, uma organização nada conservadora em comparação com outras de grande poder no Vaticano, como se demonstra por sua mediação em conflitos internacionais, entre eles em El Salvador, ou por sua postura a favor da causa da beatificação do bispo salvadorenho Arnulfo Romero, assassinado por forças ultracatólicas desse país por sua defesa dos mais pobres.

O destacado religioso italiano foi escolhido por Bento XVI há um ano para presidir um dos ‘ministérios’ chaves do Vaticano, até então nas mãos do cardeal provavelmente mais conservador da cúria, o colombiano Alfonso López Trujillo, no cargo durante muitos anos.

Acostumado com o debate e avisado por seus irmãos da Comunidade, muito comprometidos com os trabalhos de ação social, Paglia dá uma guinada nas posições mais intransigentes de sua Igreja por causa do escândalo que representa o fato de que, ainda hoje, haja países que condenam à morte os homossexuais ou os castigam como réus de um dos mais graves crimes que podem ser cometidos. “Em vários países a homossexualidade é considerada um crime. É preciso combater isso. É claro que é preciso garantir os direitos individuais”, disse na entrevista coletiva, antes de expressar sua “total oposição” a essas formas de discriminação em países do Oriente Médio e da África.

Sexta, 08 de fevereiro de 2013

Defesa de direitos gays pelo Vaticano surpreende militantes

Associações brasileiras de defesa dos direitos homossexuais receberam com surpresa a declaração do ministro do Vaticano para a Família, monsenhor Vincenzo Paglia, que num encontro com a imprensa se mostrou a favor do reconhecimento dos direitos civis de casais não unidos legalmente – incluindo os homossexuais – para impedir injustiças e discriminações.

As palavras de Paglia também repercutiram na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que respaldou a posição de não discriminação pelo Estado por orientação sexual, mas reiterou o conceito católico de casamento entre homem e mulher.

A reportagem é de Elisa Martins Mariana Timóteo da Costa e publicada pelo portal do jornal O Globo, 08-02-2013.

- Existe hoje uma conjuntura de conquistas para nossa comunidade, com avanços em países como Espanha, França e Inglaterra. Isso possivelmente leva a Igreja a se posicionar de modo menos radical. O Vaticano não pode ficar isolado – disse ao GLOBO Carlos Magno, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT). Apesar de inesperada, afirma, a declaração é positiva, pois não se ampara em questões religiosas.

- Só o fato de desvincular os argumentos morais e religiosos dos de direitos já é bom. Não queremos que a Igreja vá contra seus dogmas, mas que respeite nossos direitos – pondera Magno.

Isso não significa, porém, o reconhecimento pela Igreja da união homossexual. Para o antropólogo e ex-frade dominicano Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, nunca houve um Papa tão homofóbico quanto Bento XVI.

- O Papa já falou que o “homossexualismo”, termo pejorativo associado a uma doença, é essencialmente ruim. Lamento que ele insista na intolerância, condenando a homossexualidade, o divórcio, a pílula anticoncepcional, em contradição com a opinião da maioria dos católicos e até do baixo clero – diz Mott. Ele afirma que a declaração de Paglia parece um “deslize, um descuido” da Igreja, mas pode levar o alto clero a uma maior aceitação e mais esclarecimento em relação à homossexualidade.

- Pode abrir caminhos para que no futuro a cúpula da hierarquia católica acompanhe a nova teologia moral de outras igrejas protestantes históricas. Só que é algo que não imagino acontecendo já nesse pontificado – completa.

Mudança, mas não de conceito

O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Raymundo Damasceno Assis, disse não ter acompanhado as declarações de Paglia, mas afirmou que o religioso está certo ao defender que o Estado impeça injustiças ou discriminações porque a “Igreja não deve discriminar ninguém por nenhum motivo de crença, cor ou opção sexual”. Dom Raymundo, no entanto, frisou que para a Igreja Católica o casamento é sempre entre um homem e uma mulher.

- O monsenhor falou na resolução de questões patrimoniais e não matrimoniais. Não discriminar é uma coisa: nenhum homossexual é excluído da Igreja, todos devem ter os mesmos direitos perante a lei, mas união matrimonial, para nós católicos, é entre um homem e uma mulher – afirmou.

Dom Raymundo disse, ainda, que a CNBB não analisou o projeto de lei que criminaliza a homofobia (PLC 122), em tramitação no Congresso, mas afirmou que a Igreja preza pelo “respeito a todos os seres humanos”.

Ele opinou também sobre as ações favoráveis aos direitos gays defendidas pelo presidente dos EUA, Barack Obama- o que para muitos ativistas pode representar avanços no setor nos próximos anos – e ressaltou que “os gays precisam ser tratados com respeito por sua opção”.

No Vaticano, Paglia admitiu que ficou surpreso com a repercussão de suas declarações e ao ver que alguns veículos de imprensa publicaram que ele apoiava os casais homossexuais. Numa entrevista à Rádio do Vaticano, ele tentou se explicar e disse que era necessário “verificar nos ordenamentos jurídicos existentes a possibilidade de utilizar normas jurídicas que tutelem os direitos individuais”, em respaldo a um papel que caberia ao Estado. No tocante à Igreja, porém, ele reiterou sua defesa do conceito heterossexual do casamento.

Para a deputada italiana Anna Paola Concia, do Partido Democrata, o Vaticano está “encurralado”. – As hierarquias eclesiásticas parecem obcecadas com a homossexualidade. Nos últimos anos elas têm falado pérolas sobre o assunto. Hoje, porém, estamos diante de um cenário em que muita coisa mudou. A centro-esquerda está historicamente na vanguarda da defesa dos direitos dos gays, não podemos continuar com esta situação, fruto de uma visão obscurantista — afirmou.

Publicações relacionadas

Vídeos: Televisão: Um “Fast Food” envenenado para a alma – Parte I - Marcelo Andrade

Vídeos: Comentários sobre o Sínodo da Família – Parte 1 - Alberto Zucchi

Artigos Montfort: Células-tronco: Carta aberta ao Presidente da República - Orlando Fedeli

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais