Montfort Associação Cultural

28 de janeiro de 2015

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Por que vocês não atacam o Papa Francisco?

Porque não somos pretensiosos a ponto de julgar que esse seja um dever nosso, a cada vez que não concordarmos com algo que é dito ou feito. Nisso, nós seguimos o exemplo dos grandes santos do passado e de muitas autoridades da Igreja atual.

 

De: Claudio De Cicco
Cidade: São Paulo, SP
Data: 03/11/2014

Sabe-se que o príncipe dom Bertrand de Orléans Bragança enviou carta aberta ao papa Francisco sobre a convocação do presidente do MST para reunião de movimentos sociais em Roma. Não houve nenhuma resposta. Mas no discurso abaixo o papa mostra sua posição:

http://w2.vatican.va/content/francesco/es/speeches/2014/october/documents/papa-francesco_20141028_incontro-mondiale-movimenti-popolari.html

DISCURSO DEL SANTO PADRE FRANCISCO

A los participantes en el Encuentro Mundial
de Movimientos Populares
Aula Vieja del Sínodo
Buenos días de nuevo, estoy contento de estar entre ustedes, además les digo una confidencia, es la primera vez que bajo acá [Aula Vieja del Sínodo], nunca había venido. Como les decía, tengo mucha alegría y les doy una calurosa bienvenida.
Gracias por haber aceptado esta invitación para debatir tantos graves problemas sociales que aquejan al mundo hoy, ustedes que sufren en carne propia la desigualdad y la exclusión. Gracias al Cardenal Turkson por su acogida. Gracias, Eminencia por su trabajo y sus palabras.
Este encuentro de Movimientos Populares es un signo, es un gran signo: vinieron a poner en presencia de Dios, de la Iglesia, de los pueblos, una realidad muchas veces silenciada. ¡Los pobres no sólo padecen la injusticia sino que también luchan contra ella!
[...]
Queridos hermanas y hermanos: sigan con su lucha, nos hacen bien a todos. Es como una bendición de humanidad. Les dejo de recuerdo, de regalo y con mi bendición, unos rosarios que fabricaron artesanos, cartoneros y trabajadores de la economía popular de América Latina.
Y en este acompañamiento rezo por ustedes, rezo con ustedes y quiero pedirle a nuestro Padre Dios que los acompañe y los bendiga, que los colme de su amor y los acompañe en el camino dándoles abundantemente esa fuerza que nos mantiene en pie: esa fuerza es la esperanza, la esperanza que no defrauda, gracias.”

Enfim, o papa mostra que segue a teologia da libertação ! Não dá pra tapar o sol com a peneira…!

Por que vocês tão meticulosos em criticar a TFP, INTEGRALISMO e até a HORA PRESENTE que publicou um número inteiro sobre as CEBS e não como dizia vosso Fundador “Hora passada que nada disse contra o modernismo” , por que vocês nada comentam sobre o que diz e faz o papa Francisco ? Ou a especialidade da casa é atacar movimentos de direita, principalmente se não forem muito populares, pois popular y mucho, Francisco lo es !

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Data de resposta: 27/01/2015

Professor Cláudio de Cicco,
Salve Maria!

Não esperava, após tanto tempo passado da época em que o senhor frequentou nossa sede e nossas aulas, receber uma carta sua. Lembro-me de ouvir o Professor Orlando – nosso fundador, como o senhor prefere chamá-lo – dizer que, depois de várias idas e vindas com discussões e pedidos de perdão, o senhor estava frequentando a casa dele e estudavam. Depois disto soube, aqui e acolá, sobre as suas peregrinações pelos grupos chamados de direita. Apesar de todo este vaguear, devo dizer-lhe que foi uma surpresa receber uma carta sua em defesa da TFP.
Sua longa carta também me trouxe a sua recordação. Um enorme texto que poderia ser sido evitado, indo direto ao ponto que se desejava. Assim, para evitar a longa leitura do seu texto, coloquei apenas o “link” de onde suas citações forma retiradas.
Na realidade sua carta tem duas perguntas: porque não atacamos o Papa e porque nós atacamos a TFP, para em seguida vir a insinuação de que a resposta estaria no fato de que procuramos popularidade.
De início, é preciso dizer que colocar o Papa e a TFP no mesmo nível é um delírio próprio dos mais fanáticos da TFP, IPCO, Arautos do Evangelho, ou qualquer outra cor que este camaleão direitista quis adotar. A amizade com o pessoal da TFP não lhe fez bem. Aliás, isto não é raro. A loucura deles parece ser contagiosa: logo suas vítimas se imaginam com uma grande vocação, um chamado especial da Providência etc, etc…
Discutir com alguém que compara o Papa – que é o chefe supremo da Igreja, o sucessor de São Pedro, o representante de Cristo na Terra, que, independente de sua virtude, recebeu as chaves do Reino dos Céus – com a TFP – que não é nada, que não passa de uma seita que tem como doutrina oculta uma gnose delirante – é conversar com loucos! Mas, em respeito a todo o apostolado que o Professor Orlando realizou com o senhor, me permitirei esta imprudência.

Então, porque não atacamos o Papa, apesar de não concordarmos com muita coisa que é dita e feita? Porque não somos pretensiosos a ponto de julgar que este seja um dever nosso, a cada vez que acreditemos, ou mesmo que tenhamos evidência, de que algo incorreto foi dito ou feito. Nisso, nós seguimos o exemplo dos grandes santos do passado e de muitas autoridades da Igreja atual. Veja, por exemplo, o cardeal Burke. Não só ele evitou um ataque direto ao Papa, como foi além e pediu que o Papa se pronunciasse, no Sínodo da Família.
A delicadeza do tema – uma crítica ao Papa – exigiria que ela viesse a ser feita da forma mais reservada possível. E, rarissimamente, isto poderia ser feito em blogs, que dão a ilusão dos cinco minutos de fama na Internet.
Também a TFP muitas vezes fica em silêncio. Qual foi a defesa que ela fez, por exemplo, em prol de Dom Rogelio Livieres? Em relação à Missa Nova o que fez Plínio Correa? Somente um acordo espúrio, impedindo a publicação do livro do Arnaldo Vidigal.
Aliás, na carta de Dom Bertrand, não existem ataques ao Papa. Há muitos ataques a Stédile, ao MST e à Reforma Agrária, à esquerda em geral. A condenação de Dom Bertrand ao capitalismo, tão defendido na TFP é bem fraca. Mas também não há um ataque direto ao Papa, apenas uma pergunta que levanta uma suspeita. Veja com Dom Bertrand conclui a carta:

Faço-o, pois, nesta REVERENTE E FILIAL MENSAGEM, convencido de que Sua Santidade receberá a presente manifestação com paternal benevolência, e como uma leal contribuição para o êxito de sua excelsa missão no governo da Santa Igreja”. http://www.paznocampo.org.br/destaques/Reverente_e_Filial_Mensagem.pdf

Será que também Dom Bertrand estava preocupado em não se tornar impopular?
Ou será que neste caso o senhor considera que ele deu o devido respeito ao Papa?
Sempre que foi necessário o Professor Orlando discordou do Papa, com muito respeito, somente naquilo que era essencial e sempre da maneira mais discreta possível. Caso julguemos que isto seja nossa obrigação, nós o faremos no futuro.
Porque não manifestamos nosso apoio à carta de Dom Bertrand? Por vários motivos, mas o principal deles é que também não apoiaríamos uma carta de Stédile ao Papa pedindo a restauração da monarquia. O senhor apoiaria esta carta?
Não apoiaríamos Stédile porque ele faz parte de um movimento que, em última análise, visa à destruição da Igreja Católica. Por isto, ainda nas ocasiões em que ele possa fazer algo de bom, mantemos todas as reservas e desconfianças.

E Dom Bertrand? Ele se tornou membro de uma seita, a TFP – que também, em última análise, quer a destruição da Igreja Católica – convertendo-se em escravo de Plinio Correa e adotando o nome de Plínio Miguel. O senhor conhece outro caso na História em que um príncipe que se pretende herdeiro de um trono se transforme em escravo de outro homem? O senhor acredita que nesta condição ele teria ainda direito ao trono do Brasil?
Qual o efeito sobre a opinião pública da carta enviada por Dom Bertrand? Na realidade, nenhum! A carta foi enviada ao Papa para ser mostrada depois aos ruralistas, para que novos donativos pudessem ser pedidos. Mas o efeito sobre os católicos desta carta é zero: o único resultado é a diminuição da autoridade do Papa, já praticamente inexistente no mundo moderno…
Efeito mesmo sobre os católicos tinha o trabalho de Dom Rogélio. E por isto ele foi punido. Um bom seminarista e um bom padre têm mais valor do que todas as cartas que Dom Bertrand possa enviar ao Papa. Na medida de nossas poucas possibilidades, apoiávamos o trabalho desse destemido Bispo. Graças a Deus, nunca vi ninguém da TFP lá em Ciudad del Este.

E porque, finalmente, atacamos a direita e a TFP? Porque essa luta é o verdadeiro legado que o Professor nos deixou. Senão vejamos. O atual ataque contra a Igreja é feito, pelos seus inimigos, em duas frentes: a esquerda panteísta e a direita gnóstica. Das duas, esta segunda é a que mais ilude os católicos tradicionais e, portanto, a que deve ser mais combatida em nosso meio. Pela mesma razão que Cristo atacou principalmente os Fariseus, os quais eram, no entanto, nas palavras de São Paulo, a melhor seita dos judeus.
Nosso combate contra a direita gnóstica é necessário e produz efeito, sobretudo neste momento em que um grande aprofundamento da crise em que vivemos poderá acarretar consequências imprevisíveis: diversos bispos falam até em risco de cisma. Nesse contexto, é importante alertar sobre as falsas lideranças que tentam manipular as boas reações que começam a surgir.
Chegou ao meu conhecimento que se ventilou a ideia de um grande acordo entre toda a ala dita conservadora ou tradicionalista da Igreja. Pobres ingênuos, aquilo que eles condenam no Concílio Vaticano II como ecumenismo, defendem em proveito próprio. Não se pode fazer acordo com o modernismo, nem se pode fazer acordo com uma seita gnóstica. Convidar Dom Bertrand para uma frente ampla é cometer erro semelhante ao chamar Stédile para o diálogo.
Como toda seita gnóstica, a TFP constantemente muda de roupagem. Isto é útil para a função que ela pretende ter, que é de liderar a reação dos católicos. No passado, se apresentou como tradicionalista. Mas na realidade concentrava seus ataques nas questões civis, como o comunismo e a defesa da propriedade – deixando de lado a verdadeira questão, que era religiosa.
Lembro-me bem como Plinio Correa criticou Dom Mayer por ele ter escrito uma Carta Pastoral contra o divórcio, que Plinio, muito a contra gosto, acabou por divulgar. Dizia Plínio que essa divulgação produziria um grande ataque contra a TFP e que era melhor acabar a família do que a TFP…

Recordemos a origem desse personagem. Plinio Correa com 19 anos, sem nunca ter tido qualquer destaque no movimento católico, de repente, foi convidado a ser um dos dirigentes da Congregação Mariana, um movimento de grande importância na época. Seu único atributo foi ter estudado em um colégio de Jesuítas, o São Luís, de cuja Congregação Mariana, aliás, nunca participara. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, outro Jesuíta fez uma Congregação Mariana no mesmo colégio São Luís. Lá estava a elite da cidade de São Paulo. Após alguns anos, esse jesuíta deixou o Brasil e mandou que os membros desta congregação procurassem a Plinio, que na época vivia no “ostracismo”, como ele mesmo dizia.
Por que será que este jesuíta indicou Plinio como seu sucessor e não qualquer outro padre de sua congregação?
Agora também, de forma misteriosa, outro TFPista começa a ter destaque e ser convidado para palestras nos grupos conservadores. É Roberto De Mattei. Ele foi escolhido por Plinio para ser o seu biógrafo. Ele tem cargos no governo italiano e no Vaticano. Ele foi convidado a dar palestras no IPCO em São Paulo, assim como em outros ambientes que se autodenominam conservadores, também na Fraternidade São Pio X, na França, onde foi a vedete de um congresso em Paris – e infelizmente, não há como deixar de lamentar – no Instituto do Bom Pastor – IBP.
Na palestra no IPCO de São Paulo, De Mattei afirmou que Plinio havia sido o grande homem da Contra Revolução no Concílio Vaticano II, agindo por trás de Dom Mayer e de Dom Sigaud, que seriam uma espécie de marionetes, ou laranjas na linguagem moderna. Que eu saiba não houve protestos no auditório. De Mattei, desta forma, distorce o problema: ao invés de demonstrar sua tese, simplesmente diminui o papel de Dom Mayer e de Dom Sigaud. Não é a primeira vez que a turma de Plinio usa este truque e muitos dos que tem a mesma mentalidade o repetem.
Não tive conhecimento do que ele falou na FSSPX e no IBP. Duvido que o novo camaleão tenha tido coragem de repetir a absurda tese sobre a atuação de Plínio no Concílio. De qualquer forma, é uma pena que se tenha dado oportunidade para que ele tentasse enganar os membros destes dois institutos.
Muito do prestígio de que goza De Mattei vem de seu livro sobre o Concílio Vaticano II. Seus propagandistas o consideram como uma obra decisiva no ataque ao Concílio. No livro, De Mattei não se cansa de elogiar Plinio e a TFP, se bem que com afirmações um pouco menos absurdas e com elogios um pouco menos delirantes do que na reunião do IPCO. Mas veja, meu caro De Cicco, que afirmação interessante logo no início do livro:

O ponto de referência destas páginas é a teologia e a filosofia da história enunciada pelo Magistério pontifício entre os séculos XIX e XX, e sinteticamente resumida por Plinio Correa de Oliveira em Rivoluzione e Contro-Rivoluzione...” (O Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita, Roberto De Mattei, ed. Caminhos Romanos p. 22).

Portanto, a base para se entender o trabalho de De Mattei contra o Concílio Vaticano II, segundo o próprio De Mattei, é o livro de Plinio Correa. Ora, no livro Revolução e Contra Revolução, a questão doutrinária é colocada em um segundo plano, para se afirmar que a origem da crise moderna está nas paixões desenfreadas. Assim, o combate contra os erros modernos não seria uma ação doutrinária, mas sim uma ação de ordenar as tendências.
Se Deus quiser, publicaremos um trabalho feito pelo Professor Orlando sobre este livro, mostrando como Plínio procurou ocultar que na origem da crise existe uma doutrina, que é a Gnose.
Plinio e a direita não têm interesse em que se critique a Gnose. Eles preferem dizer que a Montfort vê Gnose em todo o lugar.
Por enquanto, apresento apenas uma pequena amostra do pensamento de Plínio que consta do próprio livro de De Mattei:

A época conciliar constituiu, no seu conjunto e na definição de Plinio Corrêa de Oliveira, uma “Revolução Cultural” na Igreja, operando profundas transformações na mentalidade e nos costumes da hierarquia e dos fiéis” (op. cit. P. 455)

Então o que ocorreu é uma mudança cultural? Mas esta é a visão dos progressistas, que desejavam uma mudança cultural, mas na realidade trabalhavam e estavam realizando uma mudança doutrinária.
As profundas transformações do pós-concílio se limitaram à mentalidade e aos costumes? E a mudança doutrinária? Porque Plinio se esqueceu dela, que é a mais importante?
A chamada direita tem dificuldade em reconhecer que o leão contrário ao Concílio Vaticano II, não passou de um gatinho. Com isto muitos do clero e daqueles que se dispõem a lutar contra o modernismo e o progressismo, mais uma vez, estão sendo iludidos.

Os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz”. (Lc 16:8)

Veja o exemplo de Dom Mayer. Quando soube da “Sempre Viva” afirmou simplesmente: “Plinio me enganou por 40 anos”.
É por isto que atacamos a TFP, para que outros clérigos não sejam enganados.
É por isto que continuaremos atacando a direita gnóstica. Sem qualquer acordo.
Tenho esperança de que o senhor, que conhece História, verá como o projeto “IPCO” não é nada mais do que a repetição de uma manobra para iludir os católicos.
De qualquer forma, tenha certeza de poder contar com minhas orações.

Alberto Zucchi

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