Montfort Associação Cultural

17 de junho de 2005

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Por que a Igreja permite fazer imagens?

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Sandro
  • Localizaçao: – Brasil

Meu nome é Sandro, gostei das colocações feitas pela Associação Montfort no que diz respeito a não ter outros deuses, realmente creio que existe um só Deus e gostaria de algum tipo de explicação sobre:
“Cremos ter provado que, pela Igreja Católica: só há uma Igreja verdadeira, fora da qual não há salvação. Consequentemente, só há um Deus verdadeiro. Essas proposições valem para sempre”.
Porque, logo no inicio foi dito que: “Comecemos pela Bíblia: Êxodo 20,3: Não terás outros deuses diante de mim.” e minha dúvida está que nos versos logo a frente diz: “Não faras para ti imagem de escultura” e “Lembra-te do dia de Sábado para santificar”;
E em S. Mateus 5:17 a 19 diz que a lei (10 Mandamentos) é Eterna.

Prezado Sandro,
Salve Maria.

Antes de tudo, obrigado por seus elogios e por sua confiança.

Permita-me também fazer uma retificação necessária. No artigo que você cita houve, de fato, equívoco, cuja correção já está sendo providenciada. Não se pode dizer que, sendo a Igreja a única verdadeira, há conseqüentemente um só Deus. O contrário é que fora redigido: havendo um só Deus, conseqüentemente só pode haver uma Igreja verdadeira.

Passo agora a responder sua pergunta: se no primeiro mandamento da lei de Deus foi proibido fazer imagens, por que a Igreja Católica permite fazê-las?
Como você bem recorda, o primeiro mandamento da Lei dada por Deus a Moisés, no Sinai, diz: “Não terás outros deuses diante de Mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma do que há em cima no céu, e do que há em baixo na terra, nem do que nas águas debaixo da terra. Não adorarás tais coisas, nem lhes prestarás culto.” (Ex. XX, 3-5 e Deut. V, 8).
No Deuteronômio Deus repete essa proibição, dizendo: “Não farás para ti, nem levantarás nenhuma estátua, coisas que o Senhor, teu Deus, aborrece.” (Deut. XVI, 21).
Baseados nesses textos da Bíblia, os protestantes de todos os naipes – repetindo a heresia dos iconoclastas – acusam a Igreja Católica de não acatar a ordem de Deus, pois permite que se façam esculturas e imagens de Cristo e dos santos, para serem veneradas.
Esse raciocínio dos hereges peca, porque isola esse texto de outros. Se houvesse apenas essas frase na Escritura a respeito de imagens, eles teriam razão. Acontece que o mesmo Deus que deu essa lei em outras passagens disse o contrário, pelo menos aparentemente.
Assim, vejamos.
No mesmo Exodo, quando Deus – cujo primeiro mandamento proibira fazer esculturas do que há no céu – mandou fazer a Arca da Aliança para que nela se guardassem as tábuas da Lei, Deus diz:
“Farás também dois querubins de ouro batido, nas duas extremidades do oráculo. Um querubim esteja dum lado, o outro do outro. Cubram ambos os lados do propiciatório, estendendo as asas e cobrindo o oráculo, e estejam olhando um para o outro com os rostos voltados para o ropiciatório, com o qual deve ser coberta a arca, na qual porás o testemunho, que Eu te hei de dar. De lá te darei as minhas ordens, em cima do propiciatório e do meio dos querubins, que estarão sobre a arca do testemunho, e te direi todas as coisas que por meio de ti intimarei aos filhos de Israel” (Ex. XXV, 17-22). Esse texto será repetido em Ex XXXVII, 7.
Se Deus proibira fazer “figura alguma do que há em cima do céu”, como é que depois manda fazer as figuras de dois querubins, determinando colocá-los exatamente sobre a arca em que se guardaria a Lei que proibia fazer estátuas?
Aparentemente é uma contradição, e em Deus não pode haver cotradição. Logo, deve haver uma explicação para fazer estátuas.
Qual?
Há ainda várias outras passagens em que Deus ordenou que se fizessem esculturas. Eis algumas:
No Livro dos Números, quando os judeus se rebelavam contra Deus porque os tirara do Egito, Deus os puniu, castigando-os com serpentes. E o povo rogou a Moisés que intercedesse a Deus por ele, dizendo: “Roga [a Deus] que afaste de nós as serpentes. E Moisés orou a Deus pelo povo, e o Senhor disse a ele: ” Faze uma serpente de bronze, e põe-na por sinal; aquele que, sendo ferido, olhar para ela, viverá. Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e pô-la por sinal; e os feridos que olhavam para ela, saravam.” (Num. XXI, 7-9).
De novo: se Deus proibiu fazer figuras e esculturas do que havia sobre a terra, como então ordena que Moisés faça uma serpente de bronze? E, mais, quem olhasse para a serpente era curado, ocasionando aos judeus mais rústicos a idéia – que poderia ser uma tentação — de considerar que na serpente de bronze havia algo de espiritual ou divino capaz de curar.
Poderia haver contradição em Deus? Claro que não. Então deve haver alguma explicação para isso: Deus proibe fazer imagens e Deus manda fazer imagens. Uma delas, uma imagem de serpente que curava sendo olhada.
Repare ainda — de passagem — que na Bíblia se admitem intercessores humanos diante de Deus, ao contrário do que erradamente ensinam os protestantes de todas as seitas, que não admitem intercessores…
Quando Deus mandou fazer o Templo, ordenou que se fizesse um mar de bronze, isto é, uma grande bacia de bronze, e disse: “e [o mar] estava assente sobre doze bois, três dos quais olhavam para o setentrião, três para o ocidente, três para o meio dia e três para o oriente, e o mar estava em cima deles; as partes posteriores deles escondiam-se todas para a parte interna” (I Reis, VII, 25).
Como se explica que o mesmo Deus que proibira, no Sinai, fazer esculturas do que existe sobre a terra, mande fazer doze bois? Afinal, é probido ou não fazer esculturas?
Que confusão fazem os protestantes lendo apenas uma frase isolada da Bíblia, esquecendo — de propósito — outras.
Descrevendo o mar de bronze, diz a Bíblia: “O trabalho da base era a cinzel e havia esculturas entre as junturas. Entre as coroas e festões havia leões, bois, querubins e também nas junturas da parte de cima; debaixo dos leões e dos bois pendiam como que umas grinaldas de cobre.” (I Reis, VII, 28-29).
No Livro I das Crônicas ou I dos Paralipômenos se lêem outras particularidades das esculturas que Deus ordenou que fossem feitas por ordem de Salomão para o Templo de Deus, em Jerusalém
“Pôs no oráculo dois querubins feitos de madeira de oliveira., de dez côvados de altura”(…) “adornar todas as paredes do Templo em roda com várias molduras e relevos, figurando nelas querubins, palmas e diversas figuras, que pareciam destacar-se saindo da parede” (…) “Nestas duas portas de madeira de oliveira entalhou figuras de querubins, palmas, relevos de muito realce de ouro tanto os querubins como as palmas, e todas as outras coisas” (…) “esculpiu nelas querubins palmas e relevos muito salientes; “(I Cr. V, 23-24; 29; 32; 35).
“Também para os garfos, copos, turíbulos de ouro puríssimo, para os leõezinhos de ouro, segundo os seus tamanhos, destinou o peso de ouro para cada um dos leõezinhos. Do mesmo modo, para os leões de prata, separou outro peso de prata. Para o altar, em que se queima o incenso, deu do ouro mais fino, para que dele se fizesse a figura dum carro de querubins, que estendessem as asas e cobrissem a arca da aliança do Senhor” (I Cr. XXVIII, 17-18).
Quando a Arca da Aliança caiu em mãos dos filisteus, Deus os puniu com uma praga. Para se livrarem dela, os filisteus consultaram os seus advinhos, que mandaram que eles fizessem cinco objetos de ouro representando a parte de seu corpo ferida pela praga, e cinco ratos de ouro, colocando esses objetos junto com a Arca da Aliança, sobre um carro de boi, deixando-o livre para partir. E o carro foi em direção dos judeus, que recuperaram a Arca.
Ora, o fato de que Deus atendeu os filisteus, curando-os, comprova que Ele aceitara a dádiva dos cinco ratos de ouro e dos cinco objetos representando a parte ferida pela praga. Portanto, nem sempre as esculturas são condenáveis.

Todas essas citações comprovam que, se Deus proibiu fazer esculturas e imagens no primeiro mandamento, Ele mandou, em outras ocasiões, e por diversas vezes, que se fizessem esculturas e figuras. Como explicar, repetimos, essa aparente contradição, já que em Deus é impossível haver contradição?
A explicação não é difícil.

Há dois tipos de proibições: as proibições absolutas e as proibições relativas.
Imagine você, prezado Sandro, um professor irritado com sua classe barulhenta, que lhes grita: “Proibo que abram a boca”.
A seguir, ele chama um dos alunos para pedir-lhe a lição, numa chamada oral. Ele pergunta uma coisa ao Zezinho, que nada responde. Pergunta outra, Zezinho mantem-se absolutamente de boca fechada. Pergunta pela terceira vez, e Zezinho fica absolutamente silencioso. O professor lhe dá nota zero.
A seguir, o professor surpreende um outro aluno comendo um sanduiche. Irritado de novo, diz que doravante proibe que comam.
Terminadas as aulas, Zezinho vai para casa e recusa comer e falar: mantém-se de boca fechada. A mãe insiste e Zezinho se mantém inamovível; a boca dele não abre. Afinal explica por escrito porque não fala e não come: o professor proibira comer e falar. Por isso tirou zero na lição oral e recusa comer qualquer coisa.
Evidentemente, Zezinho é pouco entendedor… O professor “proibira abrir a boca em classe”, no sentido que proibia conversar, mas não repetir a lição oralmente. Ele proibira comer durante a aula, mas não em casa. As proibições do professor eram de caráter relativo, e não absoluto. O professor não dissera nenhuma contradição. Falta de inteligência indicava Zezinho ao entender  proibições para a classe, durante a aula, como proibições absolutas, válidas para sempre e em todas as circunstâncias.
Da mesma forma, se Deus proibiu fazer imagens e, depois, por diversas vezes, mandou fazer imagens, como em Deus não pode haver contradição, segue-se que a proibição de fazer imagens é relativa e não absoluta.
Deus proibiu fazer imagens para adoração. Deus proibiu fazer ídolos, e não fazer imagens.

Por isso a Igreja, que compreende e aceita tudo o que Deus disse na Sagrada Escritura e que não isola uma frase de outra, mas a todas harmoniza, a Igreja sempre permitiu o uso de imagens e sua veneração, mas nunca a sua adoração.

Aliás, qualquer protestante, na prática diária, desobedece o que eles dizem ser a verdadeira interpretação do primeiro mandamento, porque tiram fotografias de si e de seus parentes, guardam-nas e, se têm carinho por uma pessoa, beijam sua foto.
Se eles cressem mesmo que é proibido fazer imagens, nunca poderiam tirar fotos de nada. E nem ter espelhos em casa, porque em cada espelho se formam imagens.
Nem poderiam ter filhos, porque cada homem é feito à imagem de Deus.
Haveria muito mais a dizer. Por hoje, basta isso. Tendo outras dúvidas ainda sobre este tema e outros parecidos, escreva-nos, que responderemos com prazer.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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