Montfort Associação Cultural

21 de outubro de 2004

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Pobreza e Riqueza

  • Consulente: Wagner Herbet Alves Costa
  • Idade: 35
  • Localizaçao: Itapetinga – BA – Brasil
  • Religião: Católica

Viva Cristo Rei! Viva a Virgem de Guadalupe!
Wagner Herbet Alves Costa
Itapetinga-BA

Prezado Prof. Orlando Fedeli

Quantos absurdos se escuta, hodiernamente, em pregações e homilias sobre a questão da pobreza… Eu já testemunhei até padre, em missa dominical, ensinar como sendo o projeto do nosso Divino Redentor por fim à pobreza; que não era para existir (no mundo) ricos. Obviamente, esse irreverente ensinamento é devido aos influentes maus e nauseabundos ares duma “teologia” satânica que se diz libertador (tão em voga, depois do Vaticano II), a qual, visivelmente, está eivada do ranço socialista.

Não à-toa que, os partidários de tão pestilenta tese prefiram, quando citam o Sermão da Montanha, a passagem do evangelho lucano, que diz: “Bem-aventurado os pobres”. Ao invés da citação mateana, que muito esclarece o sentido de tal bem-aventurança, que é a pobreza espiritual: “Bem-aventurado os pobres em espírito” (Mt 5,3). A qual, claramente, torna possível, também, uma pessoa possuidora de muitos bens materiais participar de referida bem-aventurança.

Uma outra passagem bíblica que esses “socialistas”, infelizemente de plantão no seio da Igreja de Deus, muito gostam é o trecho do Magnificat, em que Nossa Senhora canta: “Dispensou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias” (Lc 1,21-23. Isto é, gostam até descobrirem que ele não tem nada de igualitarismo. Aí, então, dão preferência, como já ouvi, a frases melosas de, por exemplo, um D. Helder Câmara: Maria, não precisa dispensar os ricos de mãos vazias. [E o porquê disso? Pois, certamente, sabia D. Helder que se os ricos fossem dispensados de mão limpas, logo eles se tornariam pobres. E, assim,continuaria a existir pobres... No fundo, portanto, é um atestado que o discurso de Maria estava sempre em sintonia com o do seu divino Filho (e olhe que este nem havia ainda nascido): "Sempre tereis pobres convosco" (Jo 12,8). E de que o Evangelho, de forma alguma, sustenta o fim das estratificações sociais.].

De fato, na passagem que Santa Maria diz que os poderosos serão destituídos e os humildes exaltados; logo, de cara, percebe-se que Deus não destrói os tronos. Tão-somente troca os ocupantes. Um soberbo regente, ao estilo de Saul, pode dar lugar – no trono – a a um humilde Davi… Se os ricos vão ficar de mãos vazias e os pobres de mãos cheias; conseqüentemente, continuará a existir as “classes” da pobreza e da riqueza – e não o fim delas. Ademais, a Virgem Santíssima é claríssima: “Dispensou os homens de coração orgulhos… e a humilde exaltou” (Lc 1,51-52). É o orgulhoso que é destronado e o humilde
elevado! (E não o pobre porque não tem bens materiais, nem os ricos porque os têm.)E, é por isso, é que, o Inferno está cheio de pobres orgulhosos e, no Céu, ricos humildes não cessam de dar glórias a Deus – como também o contrário é verídico (ricos orgulhosos na danação e pobres humildes na bênção eterna). No fim, é o que está escrito: “Ricos e pobres se encontraram, ambos fez Deus” (Prov 22,2). E se encontrarão: quer na glória, quer na perdição. Aliás, é assim mesmo que o Paraíso é descrito; haja vista, ao lado do pobre Lázaro, encontra-se o rico Abraão: “Na mansão dos mortos… ao longe Abraão e Lázaro em seu seio” (lc 16,23).

Professor, não fica patente, pelo cântico mariano, que Deus não tem a riqueza como uma coisa ruim? Tanto é que Ele, por vezes, assim recompensa os humildes (que lhes são agradáveis): cumulando-os de bens; e pune os orgulhosos: retirando-lhes as posses. E, como já foi dito, também o mesmo, não é promotor do fim das classes – mas o seu sustentador. Maria, como toda certeza, não tinha nada de socialista; ela que é nossa Mãe e Rainha.

Nós cristãos devemos ter em mente que, cono foi explicitado, a bem-aventurança da pobreza não está vinculada, antes, aos bens que uma pessoa possa ter ou não; mas a humildade que ela nutra em sua vida. Como bem ensinou o santo doutor da graça (Agostinho): “Abraão foi um rico muito pobre porque foi humilde. Talvez tu sejas um pobre muito rico, porque és orgulhoso” [AQUINO, Felipe Rinaldo Queiroz de, Na Escola dos Santos Doutores, 2a. edição, Editora Cleófas, Lorena-SP, 1996, p. 41].

Viver a pobreza espiritual é uma obrigação de todos; viver (por opção) a pobreza material é uma decisão de poucos. Felizes os primeiros; no entanto, mais felizes são aqueles que – vivendo a pobreza espiritual – aceitam também viverem pobres materialmente. Estes, que assim desposaram a pobreza, verdadeiramente, a amam; pois grande ser-lhes-á a recompensa no Reino do Céu. Não a amam em si (não por masoquismo), mas pela liberdade que obtém ao fazerem o desenlace de seus bens. Mais livres para servirem a Deus! Mais desapegados das coisas deste mundo que passa! E, por conseguinte, mais facilmente se lhes abrem as portas celestiais…

PS.: Nas palestras que me pedem que eu faça, quando em vez, alguém me questiona pela tal opção preferencial pelos pobres, misturada com os malfazejos princípio da Teologia da Imbecilização (ops! quer dizer; “Libertação”). [Aliás, desta "libertação" livra-nos Deus!] E não deixa de vir à tona fraseios do tipo: Deus está do lado do pobre; daí, ter dito: Bem-aventurado os pobres. Deus quis nascer pobre e São Francisco desposou a pobreza, etc.

E eu lhes respondo, na limitação do meu saber: Em primeiríssimo lugar: “Rico e pobre… ambos fez Deus” (Prov 22,2), pois: “É Iahweh que empobrece e enriquece” (1 Sm 2,7). Em segundo, se Jesus fez opção pela pobreza e São Francisco a desposou: por que, então, nos discursos desses infelizes (por vezes, travestidos de ministros do Altíssimo), eles atacam a pobreza e tanto lutam para pôr-lhe fim?… vejam que gigantesca contradição! Não deveriam, os mesmos, pregarem aos pobres, que estes, deveriam acolhê-la e desposá-la – já que assim o fez Nosso Senhor e tantos santos?… Ademais, se bem-aventurado fossem os pobres materiais (e não os pobres em espírito), porque bolas querem por fim a pobreza? Haja vista não havendo pobreza, não haveria mais pobres materiais; e,assim, estes deixariam de serem bem-aventurados!

E concluo citando dois santos doutos da Sagrada Igreja de Deus. Santo Afonso de Ligório que diz: “Muitos são pobres, mas porque não amam a pobreza, não têm nenhum mérito” [AQUINO, Felipe Rinaldo Queiroz de, Na Escola do Santos Doutores, Idem, p.52]; e São Bernado: “Não é a pobreza que é considerada virtude, mas o amor à pobreza” [AQUINO,Felipe Rinaldo Queiroz de, Na Escola dos Santos Doutores, Idem, p. 145].

Paz e bem!

Bíbliografia

- AQUINO, Felipe Rinaldo Queiroz de, Na Escola dos Santos Doutores, 2a. edição, Editora Cleófa, Lorena-SP, 1996.
- BÍBLIA DE JERUSALÉM, Editora Paulus, SP, 1996.

Muito prezado Wagner, salve Maria!

Tomo a liberdade de responder-lhe em lugar do professor Orlando.

Você sempre nos envia textos muito bons, e este é mais um deles, onde você com clareza, objetividade e sagacidade explica muito bem o valor da existência das diferenças sociais.

Deus lhe ilumine sempre na defesa da Santa Igreja.

Paulo Sérgio R. Pedrosa

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