Montfort Associação Cultural

26 de janeiro de 2005

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Plínio Salgado, um exemplar cristão

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Leonardo H. S. Matos
  • Localizaçao: – Brasil

Me desculpem por enviar esta segunda mensagem após minha primeira resposta.

Vejam essa carta de um Padre Católico elogiando o livro “A Vida de Jesus” de Plínio Salgado.


CARTA DO PADRE LEONEL FRANCA C0 PLÍNIO SALGADO APóS RECEBER O LIVRO “VIDA DE JESUS”.

Por ocasião do lançamento do livro “Vida de Jesus”, do Sociólogo e Escritor Plínio Salgado, o Padre Leonel Franca dirige ao Autor a Seguinte Carta:

Rio de Janeiro, 28 de Outubro de 1942.

Externato e Semi-Internato Santo Inácio – Rua Jose Clemente, 226 – Rio de Janeiro.

  
Meu muito prezado Amigo Dr. Plínio Salgado. Pax Christi!

Acabo de receber um presente régio: a sua magnífica “Vida de Jesus”, que me pus logo a ler com avidez e entusiasmo crescente. Não lhe terminei ainda a leitura, mas não quero perder a oportunidade de lhe manifestar logo, com a minha gratidão sincera, a profunda impressão que me deixaram as páginas lidas. Meu caro amigo acaba de enriquecer a literatura brasileira com seu grande livro, único talvez em seu gênero.

Neste grande momento elevado à gloria de Cristo colaboram em continua harmonia a informação exata do historiador, a piedade sincera do cristão e a inspiração sempre delicada e por vezes, sublime do artista. E a concorrência rara de todos esses dotes é sempre necessária para escrever uma Vida de Jesus destinada a ser como a sua, a jóia de uma literatura.

Creia, porém, que, para lá do enriquecimento do nosso patrimônio literário, regozijei-me ainda mais, com as ascensões interiores de sua grande alma. Uma obra desta, não se escreve sem um contato prolongado com os evangelhos, isto é, com a pessoa de Jesus, com a sua vida, a vida eterna que já começa no tempo “que te conheçam a ti mesmo, único Deus verdadeiro e a quem enviaste Jesus Cristo”.

Imagino com imensa consolação todo o seu progresso interior nesta vida intensa de luz e de paz e penso com gratidão e adoração humilde nos caminhos misteriosos da providencia que tudo dispõe para o maior bem de seus eleitos.

Meu caro e saudoso Plínio, aceite com a expressão de um reconhecimento muito sincero, as minhas mais vivas felicitações.

Humilde servo em Cristo,

Padre Leonel Franca, S.J.


Desculpem a insistência.

Leonardo H. S. Matos

Sei Irmão e Cristo.

Muito prezado Leonardo, Salve Maria!

Perdoe-me a demora de minha resposta. Recebo centenas de cartas e a sua foi ficando para trás, infelizmente.

Recentemente, tive que responder ao Padre Afonso Chrispim algo sobre Plínio Salgado – carta da qual lhe envio cópia – e essa carta me fez retomar a leitura do livro Vida de Jesus, que você, escudado no Padre Leonel Franca, de tão grande prestígio, defende.

Não entendo como o Padre Leonel Franca pode ter elogiado a Vida de Jesus de Plínio Salgado.

É verdade que o Padre Leonel Franca diz que não terminara a leitura do livro, e, exatamente no final do livro, quando o salgado líder do Integralismo descreve a descida de Jesus aos infernos, encontram-se lá coisas inacreditáveis. Vai ver que o Padre, de tanto valor, mas bem jesuíta, não chegara a ler esse trecho do livro…

Porque, se tivesse lido, não deixaria de protestar contra o que lá está escrito. Copio-lhe uns pedaços:

“Cristo desce aos Infernos “É o “outro lado” (Plínio Salgado, Vida de Jesus, ed. Voz do Oeste, São Paulo, 21a edição, p. 611) .

“O Cristo vai ao Tártaro,o horrendo Averno, o Orco em turbilhão. (…) Cristo e Satã se encontram face a face”
(idem p. 612).

Meu caro Leonardo, isso não está no Credo e nem nos Evangelhos. Quando Cristo foi aos infernos, Ele não desceu ao inferno de Lúcifer e lá não se encontrou, face a face, com Lúcifer. Isso é pura imaginação romântica de Plínio Salgado.

E Plínio Salgado transforma o limbo dos justos e o dos inocentes em um local ecumênico, onde se acham toda a espécie de idólatras, filósofos, parecendo o limbo de Dante ou o céu do Vaticano II, de tal modo ele é ecumênico.

Você não me acredita?

Copio-lhe alguns trechinhos ecumenicamente seletos.

 “É o Limbo, onde também se espera o Messias. A região crepuscular, onde os povos se encontram e as civilizações se conhecem. O país, o mundo, onde mora a inocência das crianças e dos selvagens; a bondade natural dos espíritos harmoniosos; a justiça dos justos e a santidade dos santos” (idem p. 615).

Veja lá, meu caro Leonardo, que seu Plínio bota no mesmo saco, quero dizer, no mesmo limbo, “a inocência das crianças e dos selvagens”. O limbo dos inocentes existe e é católico, mas o limbo da “Inocência dos selvagens”, esse limbo é o inventado por Rousseau. Nele moram o Peri e o Tarzan. Isso é puro sonho romântico e não catolicismo

Como o Excelente Padre Leonel Franca foi elogiar Plínio Salgado antes de chegar ao limbo?

Foi inocência demais, por parte dele, elogiar o chefe integralista antes de chegar ao limbo de seu livro. Talvez, por essa precipitação, Padre Leonel tenha tido que passar pelo Purgatório. Pax anima ejus! Requiescat in pace!. Et lux aeterna luceat ei”! Bom Padre Leonel Franca!

E que são esses “espíritos harmoniosos” de que fala Plínio, o Salgado (porque há outro Plínio não salgado, mas azedo em seus ódios). Esses tais “espíritos harmoniosos” tem cheiro de Alan Kardec.

Francamente, Padre Franca, nesse caso, foi imprudente demais, elogiando o criador desse estranho limbo, onde ele fez  inconvenientemente Jesus descer.

Dou-lhe mais provas dessa imprudência ecumênica.

“É ali que estão Sócrates e Homero, Platão e Sófocles, Sólon e Fídias, o Raciocínio e a Poesia, a Idéia e a Tragédia, a Legislação e a Beleza. Os astrônomos da Caldéia, os sábios de Mênfis, os filósofos da China, os navegadores da Fenícia encontram-se naquele estranho país, onde nenhum pensamento pensado e nenhum gesto realizado, e nenhuma palavra pronunciada deixaram de existir em vibrações perenes” (Plínio Salgado, idem , p. 615).

Mas esse limbo parece até o Grande Hotel do Além !

Todo mundo está lá!

Isso não é nada católico!

Estranho país, realmente estranho, onde convivem — em vibrações perenes – a Lao Tsé e os espertos navegadores e comerciantes fenícios junto com A Idéia!

E tudo em “vibrações perenes”. (Tive um conhecido cearense cuja esposa se chamava Aidéia, infeliz tradução de Aidée. Meu amigo cearense, embasbacado exclamava: “Eu me casei com a Idéia”).

Que confusão nesse limbo integralizador do chefe integralista”!

Imagina você que caravanas, que bazar, que mercado, esse limbo do Plínio, o Salgado, entenda-se, onde toda palavra pronunciada deixa de vibrar para sempre ? !

Esse é o paraíso sonhado por minhas vizinhas em eterna fofocagem: lá nenhuma palavra é perdida. É a garantia de que nem um boato deixará de ser ouvido em suas perenes e eternas vibrações !

Disse-lhe que o limbo do Plínio—o Salgado, o salgado, não haja confusão com outro Plínio, o único imortal amargamente falecido—que o limbo do Plínio integralista era tão ecumênico quanto o espírito de Paulo VI. Veja lá a prova.

Lá no limbo onde Jesus teria se encontrado face a face com Lúcifer – que mentira deslavada ! – lá se encontravam…:

“o homem, com todas as suas religiões seus mitos e cultos: a teogonia germânica, os ritos druídicos, a liturgia faraônica, as magias caldaicas, o ocultismo tibetano, os mistérios elêusicos, e órficos, as iniciações pitagóricas, o fetichismo selvagem. E as filosofias de Confúcio, Lau Tseu, Anaximandro, Anaxágoras, Platão, Zenão, Epicuro, Aristóteles.  Mora naquela região – Que cortição, hein ! – a História dos Povos: Heródoto, Moisés, Xenofonte, Tucídides. Cantamos poetas: salmos de Davi  – [Pobre Davi, em que exílio babilônico o meteu o integralizador Plínio, sem qualquer respeito pelo santo monarca!]  — epitalâmios de Salomão, hinos de Hesíodo, canções de Anacreonte” (Plínio Salgado, idem p, 616);

Nesse limbo caótico, só faltou a Missa Nova do maçom Monsenhor Anibale Bugnini. E que programão nesse limbo! Parece até o Festival da Canção Universal!

Quer ler você como só falta nesse limbo caótico apenas a Missa do Padre Marcelo Rossi?

Veja lá;

“A voz dos profetas se levanta: Isaías, Elias, Enoc, Malaquias, Jeremias, Habacuc, Naum, Ezequiel, Jonas,– [ sem a baleia]- Miquéias, Ageu, Joel, Amós, Obadias ( Sic),… Falam os magos e as sibilas. Passam os patriarcas: Abraão, Isaac, Jacob dominando o mundo antigo com a idéia de Deus único. Tubalcaim, forjando o ferroe o bronze; Noé, construindo a arca; Matusalém contando os sois de nove séculos” (Plínio Salgado ob.cit. p. 616).

Imaginou? O Profeta Elias no meio da sarabanda desses sacerdotes de Lúcifer e desses magos de Baal, que estrago ele ia fazer nesse limbo absurdo incrustado na Vida de Jesus do integralista — nada católico — Plínio Salgado?

E há uma coreografia inaudita, na presença do rei Davi e de Abraão:

“O ritmo das danças sagradas, das danças profanas; o místico bailado das sacerdotisas; as alegres pastorais dos campos da Arcádia.; flutuações de véus, passos leves das naíades” (Plínio Salgado,idem p. 616).

“Orfeu dedilha a sua lira; Davi tange a sua harpa
(sic!!!) — [Que orquestra absurda!] —-no fundo da Ásia há crótalos cantando; gemem flautas, soluçam alaúdes; os címbalos soam; e as trompas de parta despertamos ecos.

Gestos hieráticos de ofertórios:

Melquisedec oficia na montanha. Gestos de glorificação: os sacerdotes de Heliópolis saúdam o Sol que vai nascer” (Plínio Salgado, Vida de Jesus, ed. cit. p. 618).

Quem poderia imaginar tamanho panteão na vida de Jesus ?

E que importa que o padre Leonel Franca tenha elogiado tal obra. Esse elogio não redunda em benefício de Plínio Salgado, mas em desdouro para o insigne jesuíta, que tão bem lutou contra o protestantismo.

E, para coroar esse limbo infernal, escreveu Plínio, o Salgado:

“A marcha dos séculos! O Homem se arranca pesadamente, penosamente, da treva em que tombou desde o Pecado, e através de cuja cadência verifica, dia a dia, não lhe dar a conquista da natureza reconquista daquela Harmonia Inicial que, no fundo da consciência, compreende haver perdido” (Plínio Salgado,op. Cit. P. 619).

Que modo arrevezadamente esotérico de falar do pecado original! Parece até linguajar maçônico…

 ***

Para esse esotérico mal fantasiado de católico nessa Vida de Jesus, outra coisa totalmente censurável é a narração da Encarnação do Verbo. Veja lá, meu caro Leonardo se o seu catolicismo pode engolir isto:

“Que é a criação do Universo diante da humanidade de Deus? O Fiat não passa da revelação do Verbo, do Verbo que era em princípio, no limbo dos mundos, nas adormecidas energias cósmicas” (Plínio Salgado, Vida de Jesus, ed cit, p.21) E isso é completamente herético !

“O Verbo, in principio, estava em Deus e o Verbo era Deus” (Jo, I, 1)

O Verbo não estava – coisa nenhuma—nas “adormecidas energias cósmicas”! Afirmar isso, ou é panteísmo ou é Gnose! Isso jamais foi Catolicismo.

E como o Padre Leonel Franca engoliu isso ? Isso está no começo do livro!.

Nem a desculpa de ter elogiado esse livro herético de Plínio Salgado, antes de ter chegado a seu limbo serve mais, porque essa imersão do Verbo “nas adormecidas energias cósmicas” está no princípio da obra de Plínio Salgado. É a Gnose que está no princípio, segundo Plínio Salgado.

***

E que adianta esse fascista travestido de católico devoto afirmar, no início desse livro péssimo, em seus Apontamentos  Iniciais::

“Cumpre  ficar bem claro: creio na divindade de Jesus Cristo” (Plínio Salgado, Vida de Jesus, ed cit, p. correspondente ao número 4).

Quando alguém escreve uma Vida de Jesus de 640 páginas, e se vê obrigado a declarar, nos Apontamentos Iniciais, que ele crê na Divindade de Jesus, é porque, ele mesmo está consciente que, em suas 640 páginas, isso não ficou muito claro.

E que vale essa afirmação de crença na divindade de Jesus, se Plínio Salgado escreveu e assinou noutro livro, que para ele, a Divindade, se identifica com o Destino dos Povos, e ele o invoca dizendo:

“É que escondes teu fogo imortal, Destino dos Povos, no risco fosfóreo do Boitatá, nas fagulhas da Mãe de Ouro, no ritmo de nossas canções tristes, e na brasa do cachimbo do Curupira e do saci”? (Plínio Salgado, Quarta Humanidade,  2ª.edição, p.147)                                                                       

***

Você me permite completar toda essa argumentação com uma derradeira citação?

Ei-la:

“Passado, presente, futuro confundem-se na unidade dos tempos eternos (Sic!). A única realidade é aquela imortalizadora luz, aquela luz que “estava no princípio em Deus” e que “era Deus”. Nela “estava a vida e a vida era a luz dos homens” (Plínio Salgado, Vida de Jesus, ed cit, p. 619).

Essa afirmação é gnóstica ou panteísta, pois que nela se diz que a “única realidade” é a luz divina do Verbo. Se for assim, tudo é divino.

Plínio Salgado afirma, nessa frase, um monismo anti Católico.

***    

Espero não tê-lo magoado destruindo uma ilusão, derrubando um ídolo. Mas, por mais dor que lhe cause, viso purificar e fortalecer a sua Fé. Porque sem a Fé íntegra ninguém pode agradar a Deus e se salvar.

Aguardo-o, pois, com toda estima e com imensa esperança,

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

PS. Havia eu terminado esta carta, quando meu amigo, aluno e muito competente colaborador Marcos Libório me enviou as seguintes informações, que inocentam bastante a pessoa do Padre Leonel Franca em seu elogio ao livro de Plínio Salgado. OF:  


Caro Professor, salve Maria,

As duas informações que acredito diminuem o elogio do Pe. Leonel Franca ao livro de Plínio Salgado (fonte: D´Elboux, Pe. Luiz Gonzaga da Silveira, S. J., O Padre Leonel Franca SJ, Ed. Agir, 1953):

1. Em todo o livro (e são mais de 500 páginas!, com muitos e muitos detalhes de personagens desconhecidos), a única referência a Plínio Salgado é de um retiro que ele teria feito com um padre amigo de Leonel Franca, o Pe. Bannwarth, com a ajuda do Pe. Franca. (pág. 165); nenhuma palavra sobre os livros de Plínio Salgado ou qualquer outro fato de sua vida;

2. No final da vida, Leonel Franca confidenciou que um livro que gostaria de ter escrito é … uma VIDA DE JESUS! : “Queria ainda (o Pe. Leonel Franca), e confessou mais de uma vez ao Pe. Provincial, queria realizar um sonho de muitos anos: terminar a série de suas obras com uma “Vida de Jesus”.” (pág. 293). Curioso, pois parece enfraquecer muito o elogio a Plínio Salgado.

Se o livro do pai do integralismo era tão bom, por que escrever outro sobre o mesmo tema, até com o mesmo título?

Abraços.

Libório

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