Montfort Associação Cultural

31 de maio de 2005

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Pio XII e o Nazismo

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Jorge Ferraz de Oliveira Filho
  • Idade: 20
  • Localizaçao: Recife – PE – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Profissão: Estudante
  • Religião: Católica

Muito prezado professor Fedeli, Salve Maria!

Antes de mais nada, parabenizo-te pelo excelente trabalho que fazes nesse site. Sem sombra de dúvida, esse portal é um ambiente rico e cheio de vida, porque ele se propõe a – muito honestamente – repetir a Sã Doutrina da Salvação, cujas palavras são de Vida Eterna. Que Maria Santíssima possa te abençoar e a todos os teus, concedendo-te as graças necessárias ao teu apostolado e à tua salvação.

Escrevo-te mais uma vez para pedir a tua ajuda em assuntos do qual pouco ou nada sei. Em outra resposta, li que és estudioso da Segunda Guerra Mundial e de Pio XII. Pois bem, em discussões com algumas pessoas, deparei-me com algumas afirmações sobre Pio XII que desconhecia completamente. Falavam sobre apoio do papa aos regimes nazi-fascistas. Eu já tinha ouvido falar sobre apoio de autoridades católicas a Hitler e Mussolini, mas não sabia que Pio XII fazia parte dessas autoridades.

Alguns dos argumentos – e referências – que me foram apresentados foram os seguintes:

“Joseph Rovan, autor católico, comenta o acordo diplomático entre o Vaticano e o Reich nazista em 8 de julho de 1933: “O tratado trouxe ao governo nacional-socialista, considerado por quase todo o mundo como sendo formado de usurpadores, quando não bandoleiros, o selo de um acordo com a força internacional mais antiga, o Vaticano. Em certo sentido, era o equivalente a um diploma de honorabilidade internacional” (Le Catholicisme, Politique en Allemagne, Paris, 1959, pág. 231, Ed. Du Seuil).”

- Que acordo diplomático entre o Vaticano e o Reich Nazista é esse? No que ele consistia? Quem o fez?

“Império e Igreja consistem em uma série de escritos que devem ajudar na construção do Terceiro Reich, já que reúne um Estado nacional-socialista e a cristandade Católica. Inteiramente alemães e inteiramente católicos, estes escritos favorecem relações e intercâmbio entre a Igreja Católica e o nacional-socialismo; (…) A idéia de um povo de único sangue é o ponto fundamental dos seus ensinamentos e todos os católicos que obedecerem às instruções dos bispos alemães terão de admitir que assim é. As leis do nacional-socialismo e as da Igreja Católica têm o mesmo objetivo” (Begegnungen Zwischen Katholischem Christentum und Nazional-Sozialistischer Weltanschauung Aschendorff, Muster, 1933).

- Que escritos são esses? Houve mesmo instruções abertas dos bispos às suas dioceses no sentido de apóiar e clamar apoio dos católicos ao regime de Hitler?

“Os aduladores do Vaticano deveriam ter baixados suas cabeças, envergonhados, quando um membro do Parlamento Italiano exclamou: “As mãos do papa estão cheias de sangue” (fala de Laura Diaz, membro do parlamento por Livorno, pronunciada em Ortona, em 15 de abril de 1946), ou quando estudantes do Cardiff University College escolheram como tema para conferência: Deveria o papa ser trazido a tribunal como sendo criminoso de guerra? (La Croix, 2 de abril de 1946).”

- Especificamente sobre Pio XII, quais as suas relações com o regime de Hitler? É verdade que ele aconselhou os bispos a se calarem diante de Hitler, e isso foi passado para toda a hierarquia? Procede o argumento de que Pio XII aproximou-se dos regimes nacionais-socialistas devido ao medo do avanço do comunismo? Sabe-se que não houve condenações oficiais de Pio XII… até onde isso foi prudência, e até onde foi devido a um apoio dado por Pio XII ao regime de Hitler?

Essas dúvidas referem-se à questão histórica da pessoa de Pio XII, e à sua posição pessoal sobre o regime. Não refiro-me à posição da Igreja sobre o nazi-fascismo, pois sei que ela já os havia condenado nas encílicas Non abbiamo bisogno e Mit Brennender Sorge.

Agradeço antecipadamente o tempo que me concedes. Que Deus te pague.

Pro Catholica Societate,

Jorge Ferraz

Muito prezado Jorge,
Salve Maria!
 
    O tema que você coloca, pela delicadeza e complexidade que tem, exigiria escrever um tratado, para evitar posicionamentos parciais que certamente implicariam em injustiças.
    Nos limites de uma simples carta, permanecerei muito cerceado, reservando-me então o direito de responder apenas às perguntas concretas que você me coloca, sem dar um juízo total do caso, que exigiria um escrito bem alentado e cheio de distinções históricas, jurídicas e teológicas…
    De fato, estudo essa questão há muitos anos, e tenho escrito um livro de História de Pio XII que chega, já pronto, só até o início da guerra mundial de 1939. Falta-me escrever o restante da História, que vai de 1939 até 1958, data da morte de Pio XII. E o tempo para escrever sobre isso ?
    Où sont les vacances d´antan?
    Creio que é feita muita simplificação ao se condenar a política de Pio XII, tanto como ao aprová-la, sem crítica. Alguns, como esses que você cita, que desejavam processar Pio XII como criminoso de guerra, raiam pela loucura. Outros há, que fechando os olhos a problemas graves, querem canonizar Pio XII como santo. E estes raiam pelam cegueira.
    E tanto os loucos como os cegos não são bons juízes. E o pior que loucos e cegos falam muito. Sobre o que não sabem direito.
    É absolutamente certo que Pio XII sempre viu Hitler com maus olhos, e que o tinha pessoalmente como um homem furioso e criminoso.
    Mas é certo também que ele trabalhou para ser assinada a Concordata com o regime nazista, dando a ele um aval que o energúmeno Hitler explorou, para enganar os católicos.
    Pio XII fez a Concordata com o governo de Hitler, porque ingenuamente pensava que, tendo um documento oficial assinado por Hitler, isso garantiria os direitos da Igreja na Alemanha.
    Triste e trágica ilusão! Ledo e romântico engano!
    Também Chamberlain e Daladier acreditaram na assinatura de Hitler no Tratado de Munich em 1938.
    Estava-se na época em que ingenuamente se acreditava em tratados assinados por canalhas criminosos como Hitler e Stalin. Foi exatamente o acordo de Munich que trouxe a guerra de 1939. Apesar da assinatura do apedeuta nazista.
    É verdade também que muitos Bispos alemães apoiaram Hitler.    
    Como é verdade também que o Bispo de Münster, Clemens von Galen, não se calou diante dos crimes e das ameaças de Hitler, protestando alto contra os crimes nazistas.
    É verdade também que, quando o Cardeal Innitzer, de Viena, apoiou o Anschluss e gritou Heil Hitler, o Cardeal Pacelli (futuro Pio XII) o fez vir ao Vaticano, e obrigou o Cardeal de Viena a voltar atrás, e a mudar de posição em 180o. O Cardeal Innitzer teve que assinar um documento condenando Hitler e o Anschluss. O que quase lhe custou a vida, pois seu palácio foi assaltado pelos nazistas, que pretendiam atingir fisicamente ao Cardeal reviravoltesco.
    Hoje, se condena Pio XII por ter feito Bispos silenciarem por medo de perseguições promovidas pelo assassino criador de Auschwitz. Mas não se condena João XXIII por ter feito assinar o acordo de Metz com a União Soviética, fechando os olhos para os crimes do comunismo e de seus Gulags. Não se condena Paulo VI por ter feito uma política de aliança com os países comunistas. E a famosa Ost Politik do Vaticano esteve em vigor até a queda do muro de Berlim…
    Hoje se exige o diálogo.
    E são os mesmos que hoje exigem o diálogo com o comunismo e com os hereges que condenam o estilo dialogante de Pio XII com as autoridades nazistas.
    Claro que condeno e critico esse diálogo com os governantes criminosos nazistas ou comunistas. Como condeno também o diálogo com Fidel, com os hereges de todo tipo, e com os que usam hoje os métodos eugênicos nazistóides preconizando o uso de embriões humanos.
    Não se dialoga com o inimigo. O inimigo se combate.
 
    Você vê, meu caro Jorge, que o problema das relações dialogantes da Santa Sé com os regimes totalitários e também com as chamadas democracias liberais, no século XX, daria muito o que falar. E numa simples carta não cabe um juízo complexo e delicado desse tema tão complicado.
   
    ”Je me reserve, donc, pour le moment…,  à des plus grands besoins …”
    Só “pour le moment…”
   
    Pelo menos, neste momento, me reservo a necessidades mais prementes…
    Como a posição de Bento XVI sobre a Missa.
    Rezemos pelo Papa Bento XVI que quer enfrentar os lobos.
    E os está enfrentando!
    Repare como os lobos uivam de ódio, na mídia e nas… sacristias…
    Repare como o novo Pastor Supremo da Igreja está sendo odiado.
    Consta até que alguns já nem citam o nome de Bento XVI na Missa, na oração após a consagração…
    E esses são os que preconizam o diálogo.
 
    Escreva-me sempre.
In Corde Jesu, semper, 
Orlando Fedeli

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