Montfort Associação Cultural

28 de agosto de 2011

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Pescadores de Aquário

Por Regina Zucchi, Montfort.org.br

Quem mora no Brasil e tem a oportunidade de passar algum tempo na França, como ocorreu recentemente comigo, constata, especialmente em Paris, que a quantidade de Missas celebradas segundo o chamado rito extraordinário é muito superior ao que temos no Brasil,  mesmo na cidade de São Paulo, provavelmente a cidade brasileira onde a Missa Antiga tem sua maior difusão.

Somente em Paris existem, todos os domingos, pelo menos 12 igrejas com uma ou mais missas de acordo com o Missal de 1962. Ademais, existem algumas capelas particulares, pertencentes ao Instituto do Bom Pastor, à Fraternidade São Pedro e à Fraternidade São Pio X, onde esta mesma Missa é rezada.  É importante ressaltar que essas Missas são, na maioria, diocesanas, ou seja, celebradas por padres pertencentes à Diocese de Paris.  Estas celebrações tiveram como origem o Motu Próprio Summorum Pontificum promulgado por Bento XVI.

Igreja de Saint Eugène et Sainte Cécile em Paris

Dentre as celebrações da Missa tradicional em Paris, a mais antiga, mais importante, e a mais conhecida é a da igreja Saint Eugène. O antigo pároco responsável por esta celebração foi sagrado Bispo: é Dom Batut, bispo auxiliar em Lyon.

O início da celebração no rito antigo é bem anterior ao Motu Próprio, ela ocorreu em 1980. Posteriormente,  devido a pedidos muito insistentes de pessoas ricas e influentes da região, o Cardeal de Paris acabou concedendo oficialmente a autorização para a celebração da Missa antiga. Esta autorização estava suportada pelo  Motu Próprio Ecclesia Dei publicado em 1985 pelo  Papa João Paulo II, que permitia, em alguns casos, a celebração da Missa segundo o missal de 1962. Assim a igreja de Saint Eugène tornou-se uma  paróquia para acolher os fiéis que desejassem a Missa Antiga. Comenta-se, aliás, que não se tratou propriamente de um ato de generosidade do  Cardeal, mas sim de uma ação tática, pois, naquela situação, ou era feita esta concessão ou esses fiéis iriam assistir a Missa na Fraternidade São Pio X.

Assim, essa igreja foi um caso raro, se não único no mundo.  A princípio, o Cardeal colocou dois Padres, um para cuidar da missa de 1962 e outro da missa de Paulo IV. Mas depois, em 1998, as duas comunidades passaram a estar unidas sob o mesmo pároco.  Com o tempo, o padre foi dando cada vez mais importância para a Missa antiga, o que é comum acontecer com os sacerdotes que passam a celebrar a Missa no rito tradicional.

Em razão de sua crescente adesão ao rito antigo, o padre começou por transformar o altar fixo em forma de mesa em um altar mesa móvel, que era colocado somente durante as celebrações da nova Missa. A Missa antiga sempre era celebrada em um altar dos tempos pré-conciliares. Depois, ele trocou o altar móvel por uma mesinha, e por fim, acabou por eliminar de todo o altar mesa. Segundo informações, as duas Missas são feitas no altar antigo. A Missa antiga é celebrada não somente aos domingos, mas diariamente.

 Desde sempre, a Missa antiga de Saint Eugène, além de estar de acordo com todas as rubricas estabelecidas, foi considerada como uma Missa belamente celebrada e, por esta razão, muitos fiéis para lá se deslocam, mesmo possuindo a Missa tradicional mais perto de suas residências.

Essa igreja tem também uma característica singular para os franceses. A Missa antiga não  “sai de férias”. Na França, em geral, os padres consideram as férias um dever sagrado.  Como na maioria dos locais onde há Missa antiga, ela é rezada por um único padre, quando ele sai de férias, a Missa vai junto. Em Saint Eugene isto não ocorre.  No período de férias, como existe um só padre, ele alterna durante a semana rezando a Missa antiga em um dia e a Nova em outro. No Domingo são celebradas as duas Missas.  Assim, apesar de Paris realmente ficar vazia durante o verão, muita gente freqüenta a Missa da Saint Eugène porque, além da própria Saint Eugène, restam apenas as capelas “particulares”, ou seja, as Missas dos institutos.

Foi  exatamente devido a um período de férias  da igreja onde eu assistia à Missa antiga, que eu comecei a freqüentar a Saint Eugène. E foi no final de uma dessas  missas  que vi  um rapaz distribuindo folhetos.  Ao ler um desses folhetos vi que se tratava de propaganda convidando a viagens e formações do MJCF (Mouvement de La Jeunesse Catholique de France). Essa é uma associação leiga ligada à Fraternidade São Pio X.  Já os tinha visto na Missa final da Peregrinação de Chartres, não a organizada pela FSSPX,  e  também no final da Missa da igreja que tinha o hábito de freqüentar diariamente.

Entretanto, foi nessa ocasião que me dei conta de que este grupo realizava seu trabalho de propaganda somente com aqueles que já são os freqüentadores da Missa antiga, pois nas vezes em que presenciei os fiéis se retirando da Missa nova, jamais vi o MJCF distribuindo seus folhetos.

Este fato causou-me a impressão de alguém que quisesse aumentar sua fortuna tirando o dinheiro do bolso direito para colocar no esquerdo. Ou, melhor ainda, de alguém que pescasse no aquário da sala para levar os peixes ao tanque do fundo do quintal.

Recordei-me então do apostolado do nosso Professor Orlando que, durante toda a sua vida e especialmente  após ter  fundado a Montfort, trabalhou de forma muito diferente.  Ele jamais pescou em aquários tradicionalistas. Nunca houve, por exemplo, Montfort em Campos. Tínhamos lá muitos amigos, que presenciaram inúmeras palestras proferidas pelo Professor, mas que eram incentivados a permanecer nos grupos em que estavam e colaborar com os seus párocos.

O que o Professor sempre fez foi trabalhar em território inimigo, pescar em alto mar. Em relação à Missa, seu alvo principal não eram sequer os freqüentadores da Missa nova que não conheciam a Missa de sempre mas, na grande maioria, aqueles que não freqüentavam Missa alguma. Perdeu-se a conta do número de protestantes das mais variadas denominações, espíritas, ateus e freqüentadores de seitas as mais estranhas, algumas delas secretas, que o Professor converteu.

Na realidade, aconteceu o contrário. A Montfort foi, por diversas vezes, assediada por gente incapaz de levar para a Igreja pessoas que não pertencem às fileiras ditas tradicionalistas. Assim, muitos daqueles que se aproximaram como amigos, de forma sorrateira plantaram a cizânia. Que Deus os perdoe.

Não se pode deixar de ter presente que não é “pescando no aquário dos outros” que se combate a favor da Igreja. Não é fazendo intriga, criando escrúpulos e divisões que se ajuda o Papa no combate ao modernismo…

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