Montfort Associação Cultural

15 de fevereiro de 2013

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Pe. Elilio: Encontro de Bento XVI com o clero de Roma

Autor: Padre Elílio Matos

Bento XVI chega ao encontro com o clero de Roma, em 14 de fevereiro de 2013

Presente ao encontro do clero de Roma com o Papa Bento XVI, onde este falou de improviso sobre suas memórias, o Padre Elílio de Faria Matos Junior, de Juiz de Fora MG, nos envia esse relato.

RELATO DO NOSSO ENCONTRO DE PADRES COM O PAPA BENTO XVI (parte I)
Às 9 horas da manhã, já estava eu na Praça São Pedro, aguardando o encontro do Papa Bento XVI com o clero de Roma. Embora eu seja do clero de Juiz de Fora, atualmente tenho a função de colaborador paroquial na Parrochia Gesù Bambino a Sacco Pastore, em Roma, e, portanto, estava me sentindo membro do clero romano (rsrsrs)! Ainda mais que o pároco me havia concedido o seu bilhete amarelo (exclusivo dos párocos) para que eu ficasse mais próximo de Sua Santidade.
Pelas 10 horas, o Cardeal Vigário, Agostino Vallini, chegou ao Obelisco Vaticano, onde mais de 500 padres estavam reunidos, e começamos uma breve peregrinação rumo ao túmulo de São Pedro. Enquanto caminhávamos, cantávamos a Ladainha de Todos os Santos. Atravessamos a praça e entramos pela nave central da Basílica Vaticana.
Chegados ao túmulo do Pescador, rezamos em uníssono pelas necessidades da Igreja e entoamos o “Tu es Petrus”, e me veio à mente o mistério dos planos de Deus, que, confiando os supremos cuidados da sua Igreja a um homem simples da Galileia, fez com que o coração visível do Cristianismo chegasse a Roma, a capital do então muito extenso Império Romano. A comunidade cristã de Roma, desde seus inícios, foi marcada pela diversidade, o que exprime bem a catolicidade ou a universalidade da Igreja. Em Roma havia cristãos de toda a parte do mundo. Roma era o centro do mundo (caput mundi). Judeus e pagãos convertidos constituíam essa diversidade unida pelos laços da fé proclamada pelo Primeiro dos Apóstolos, que, justamente ali onde estávamos, fora sepultado depois de ter derramado o sangue por amor a Cristo. Éramos bispos, padres e diáconos e, sem dúvida, todos vivíamos com intensidade o momento atual, de grande importância para a história da Igreja de Jesus.
RELATO DO NOSSO ENCONTRO DE PADRES COM O PAPA BENTO XVI (parte II)
Depois de termos rezado junto do túmulo de São Pedro, seguimos para a “Aula Paolo VI”, onde o Papa, de costume, realiza suas catequeses de quarta-feira. Eu consegui ficar relativamente próximo do lugar onde Bento XVI deveria parar para falar ao clero. Estávamos todos na Aula às 10h45m e o Papa só devia chegar às 11h30m.
Foi, então, que o Cardeal Vigário anunciou que, enquanto não desse a hora, assistiríamos ao vídeo da visita que Bento XVI fizera recentemente ao Seminário Romano, quando os seminaristas tiveram a oportunidade de ouvi-lo. Aos seminaristas o Papa falou coisas belíssimas. Cheguei a emocionar-me fortemente algumas vezes. Entre outras coisas, disse que devemos sentir a grande alegria de sermos católicos. Deus pensou em nós e nos quis católicos. Quis, em muitos casos, que nascêssemos em uma família católica, onde se respira o ar da fé. Assim, tivemos o dom de conhecer o rosto humano de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, que não é um entre outros dos grandes fundadores de religião, mas é Deus mesmo que entra no nosso tempo para fazer história conosco!
Essa alegria de ser católico, disse o Papa, não é triunfalismo. Triunfalismo seria se atribuíssemos tamanha graça a nossos méritos. Mas não. Não temos mérito nenhum diante da soberania e da grandeza de Deus. É pura graça. Ele pensou em cada um de nós e quis que conhecêssemos o seu Unigênito.
Bento XVI disse ainda que Deus, por pura graça, o quis como sucessor do Apóstolo Pedro. Quis que ele, neste tempo em que o ministério lhe é confiado, cuidasse dos irmãos, confirmando-os na fé da Igreja. Quis os sacerdotes como sacerdotes, ministros do Cristo.
O discurso do Papa foi profundamente espiritual, tocando as raízes mais profundas do mistério da nossa eleição em Cristo. O Papa estimulou os seminaristas a ver a sua vocação do ponto de vista do amor eterno de Deus, que elege e chama.
Citando Santo Agostinho, o seu autor preferido, disse também que nós cristãos temos raízes. Mas elas não estão para baixo, como as das árvores. Estão para cima, no coração de Deus. Bento XVI soube transmitir com simplicidade e profundidade, o sentido da nossa existência cristã e convidou os seminaristas a confiar no futuro de Deus. Porque o futuro é de Deus. O futuro é nosso, filhos de Deus!
Recordou que a Igreja é uma árvore que sempre se renova. Não precisamos temer. Com realismo, disse que se deve evitar dois perigos: o pessimismo, para o qual nada vai bem e só o pior se pode esperar; e o otimismo ingênuo, que não faz caso dos reais problemas e não enxerga o perigo da defecção da fé num mundo que, por vezes, toma distância do Cristo.
RELATO DO NOSSO ENCONTRO DE PADRES COM O PAPA BENTO XVI (parte III)
Depois de termos assistido ao vídeo da fala do Papa aos seminaristas, aproximava-se o esperado momento em que o Bento XVI chegaria ao grande salão. Enquanto não chegava, ensaiamos o “Tu es Petrus” para cantá-lo em sua presença.
De repente, a grande tela que estava diante de nós sacerdotes e diáconos começou a mostrar o Papa ao vivo que caminhava, nos bastidores, rumo à “Aula Paolo VI”, onde nos encontrávamos. Estava acompanhado de seu secretário particular, o Mons. Gerog Gänswein, e usava uma bengala.
Foi, passo a passo, aproximando-se da porta de entrada do palco do salão. De repente, ei-lo! Com seu jeito tímido que sempre o caracterizou, acenava para nós enquanto os aplausos prorromperam-se numa efusiva manifestação de carinho e não se interromperam sequer por um instante num prazo de dez minutos ou mais. Não queríamos para de aplaudir o Vigário de Cristo na terra! O homem que, por amor à Igreja e por desapego ao poder, retirar-se-ia para um mosteiro dentro de poucos dias, e, como um bispo sem nenhum cargo na Igreja, empenhar-se-ia ainda a seu modo para servi-la, na oração e no estudo.
Tive a impressão de que o Papa não poderia nos falar, pois as manifestações de acolhida dos sacerdotes não paravam. Gritamos muitas vezes: “Viva o Papa!”. A emoção sem dúvida era grande. Vi lágrimas molharem a face de alguns sacerdotes e eu mesmo não pude contê-las. Ainda bem que tinha um lenço no bolso.
Indescritível é a serenidade e a humildade da postura de Bento XVI. Vi-o tranquilo, calmo e, pelo que pude perceber, em grande paz. O seu jeito nos transmitia a paz! Bento XVI é de temperamento introvertido, e, por isso, eu reparava as suas reações à calorosa acolhida, tão tímidas quanto verdadeiras e sinceras.
RELATO DO NOSSO ENCONTRO DE PADRES COM O PAPA BENTO XVI (parte IV)
Finda a calorosa acolhida com uma saudação do Cardeal Vigário Agostino Vallini e com o canto “Tu es Petrus”, o Papa ancião pôs-se a falar. Em primeiro lugar, agradeceu a todos os sacerdotes pela oração em seu favor. Ele nos confessou, repetindo o que dissera Quarta-feira de Cinzas, que sentiu quase fisicamente a força das preces de todos. Disse ainda que ficaremos unidos, ele a nós e nós a ele, pela força da oração, ainda que, para o mundo, ele permaneça oculto.
Bento XVI confessou também não haver preparado um grande e elaborado discurso para a ocasião, por causa da idade. Ele disse que teria lugar, em vez, uma “piccola chiaccherata”, isto é, uma conversa amigável sobre o Concilio Vaticano II e sobre como ele o viu. Sabe-se que Joseph Ratzinger participou da grande assembleia de Padres na qualidade de perito quando era ainda um muito jovem teólogo. Tinha apenas 35 anos de idade. A conversa sobre o concílio veio a propósito, uma vez que celebramos os 50 anos da abertura desse evento que marcou irreversivelmente a vida da Igreja.
Bento XVI falou brevemente sobre o sentido da convocação do concílio. O Concílio Vaticano I, que havia proclamado a infalibilidade papal em matéria de fé e moral quando fala “ex cathedra”, teve de ser interrompido abruptamente por causa da guerra franco-prussiana. Com isso, ficou faltando o desenvolvimento da eclesiologia tratada pelos Padres. O Vaticano I falou da função do Papa na Igreja e de seu papel insubstituível, mas não pôde desenvolver-se no que tange ao papel dos bispos. Sempre se ficou na expectativa de que o Vaticano I pudesse ser reaberto para levar a termo a matéria eclesiológica, que tinha sido focada de modo não completo.
João XXIII, entretanto, não quis simplesmente reabrir o Vaticano I, mas, sim, convocar um novo concílio, cuja meta principal seria o “aggiornamento” (atualização) da Igreja. Bento XVI disse que a Igreja gozava, à época da convocação do grande evento, de certa estabilidade e tranquilidade. A frequência aos sacramentos, de modo especial à Missa dominical, era boa. Havia bom número de vocações. As missões aconteciam. Entretanto, ressaltou o Papa, a Igreja parece que era vista mais como uma coisa do passado que do presente. E muito menos do futuro. Sentia-se a necessidade de que a Igreja pudesse ser vista, não só como aquela que traz a sabedoria do passado, mas também como aquela que abre caminhos para o futuro.
De qualquer modo, pairava no ar a sensibilidade de que a Igreja, que sempre apoiara o estudo, a ciência e o desenvolvimento da civilização, precisasse colocar-se diante do mundo moderno para cancelar aquela sensação, que tivera seu início emblemático com o caso Galileu, de desajuste entre a sua mensagem e as novas e legítimas conquistas.
Bento XVI disse que o momento do concílio foi vivido por ele com grande esperança e entusiasmo.

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