Montfort Associação Cultural

11 de julho de 2012

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Pe. Bux: A Igreja não é um concílio permanente

Riposte catholique 

Tradução Montfort 

 

Numa entrevista exclusiva a “Riposte catholique”, Padre Nicola Bux, consultor em muitas congregações romanas, homem de confiança do Santo Padre, nos confirmou que a “análise crítica” do Concílio Vaticano II é legítima e que o Papa quer de todo o seu coração a reconciliação com Écône.
1 – Padre Nicola Bux, o senhor publicou recentemente, juntamente com o Cardeal Brandmüller e com Dom Marchetto um livro apresentando as chaves de Bento XVI para interpretar o Concílio (1). Este é um ponto sensível no processo de reconhecimento da Fraternidade Sacerdotal São Pio X …
NB: Uma hermenêutica correta é aliás a primeira chave dada por Bento XVI no seu famoso discurso à Cúria Romana sobre a interpretação e a ecumenicidade do Concílio Vaticano II. A renovação, ou a reforma, não pode ser realizada na Igreja sem continuidade, à luz do binômio inseparável “nova et vetera”.
Ora, os documentos do Concílio foram retirados do contexto da Tradição da Igreja e muitas vezes usados como uma expressão de um “aggiornamento” que, em vez de associar o “nova et vetera”, tem mitificado o Concílio, mantendo apenas a novidade. Desta forma, o Concílio transformou-se em uma espécie de ideologia, um “super-dogma”, como disse o então Cardeal Ratzinger aos bispos do Chile (13 de julho de 1988).
Há necessidade de uma apresentação histórica verdadeira do Concílio como um instrumento do “aggiornamento”, no sentido de “renovação na tradição.”
Um aspecto geralmente negligenciado na compreensão do Concílio é aquele de consenso, da maneira como ele é formado. O caminho que o porta passa através do diálogo entre as várias opiniões diversas que conduzem a elaboração de uma síntese, pelo menos em relação a doutrina não definida e ainda em desenvolvimento – as novidades não são necessariamente definitivas e irreformáveis, mas são orientações que o magistério pontifício ordinário interpreta, precisa e desenvolve ulteriormente.
Devemos considerar igualmente que os documentos conciliares não são todos, entre eles, mas também neles mesmos, da mesma natureza. A este respeito, eu não vejo por que o Vaticano II escaparia da análise crítica a que foram submetidos os concílios anteriores.
2 – Na nota da Congregação para a Doutrina da Fé, explicando a nomeação surpresa de Monsenhor Di Noia como vice-presidente da Comissão “Ecclesia Dei”, foi afirmado que “A nomeação de um prelado deste nível [arcebispo, NDR] para um tal posto” pelo Papa era um “sinal da sua solicitude pastoral aos fiéis tradicionalistas em comunhão com a Sé Apostólica, mas também o seu vivo desejo de ver reconciliadas as comunidades não em comunhão”. Monsenhor Di Noia é realmente o homem escolhido pelo Papa para chegar-se finalmente ao reconhecimento da FSSPX?
NB: Não há que ter nenhuma dúvida quanto às intenções do Santo Padre, que tanto tem no coração a reconciliação e a unidade dos cristãos. Todo católico, como sugeri anteriormente, deve amar a tradição e é, portanto, “tradicional”. Além disso, na Igreja, quem recebe um encargo não tem que promover suas idéias, mas servir a verdade, em plena fidelidade ao ensinamento do Sumo Pontífice.
Para este fim, precisamos de uma segunda chave para interpretar não só o Concílio, mas também toda a vida da Igreja: aquela da fé. Não é por acaso que Bento XVI escolheu promulgar um Ano da Fé.
Na realidade, de que servirá o debate sobre o Vaticano II, se não para redescobrir a natureza do cristianismo, necessário para a salvação do homem? Pela compreensão da fé, os cristãos devem contribuir para a compreensão da realidade. Aqui está o conteúdo essencial da fé o qual o Papa compreendeu bem a urgência em reafirmar face às concepções que reduzem a fé a um discurso, um sentimento ou uma ética.
Devemos rezar para que todos na Igreja sejam dóceis ao Espírito Santo, “Spiritus Unitatis”.
3 – Dom Fellay, superior geral da Fraternidade São Pio X e, como tal depositário tanto do carisma específico dela como do legado de Dom Lefebvre, expô-se muito para permitir as condições de uma reconciliação. O senhor poderia confirmar que o desejo do Santo Padre não é negar a singularidade da FSSPX, mas sim colocá-la ao serviço da Igreja?
NB: Na carta aos bispos escrita pelo Papa Bento XVI por ocasião da revogação das excomunhões dos bispos lefebvristas, o Papa demonstrou que ele conhecia bem e que ele amava este grande segmento de fiéis que são também seus filhos. As medidas tomadas pelo Papa foram inspiradas pela “paciência de amor”, que, segundo São Paulo, deve caracterizar todos os discípulos de Jesus.
Dom Fellay, também, demonstrou estar animado desta mesma virtude e não tenho dúvida de que a maior parte da Fraternidade, bispos e padres “in primis”, saberão imitá-lo, preservando-se do orgulho inspirado pelo Demônio. Sigamos Jesus que é manso e humilde de coração. Todo bispo, todo padre, todo cristão deve ter no coração a unidade, porque é bem o mais precioso segundo São João Crisóstomo. Ela foi paga pelo preço do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor, que pouco antes de Sua Paixão, rezou precisamente: “Ut unum sint”.
Finalmente, mesmo que alguns caiam no erro, a Igreja é indefectível porque Jesus a fundou sobre a rocha da fé que Pedro representa. Sua unidade é “inamissibilis” nunca poderá desfazer-se, pois é como a túnica de Cristo, solenemente exposta este ano em Trêves: sem costura, uma só peça. As divisões entre os cristãos não podem destruir a unidade da Igreja.
O primado do Papa é superior ao concílio. E a Igreja não é um concílio permanente. A Pedro e aos seus sucessores, Nosso Senhor deu o poder das chaves: para ligar e desligar na terra o que Ele simultaneamente liga e desliga no Céu. Felizmente, além das Escrituras, os católicos tem na pessoa do Papa o anticorpo visível contra o conformismo: como escreveu Dante na Divina Comédia, temos “o pastor da Igreja para nos guiar, isto basta para nossa salvação.”
Que a Santíssima Virgem – como lha pede atualmente o Santo Padre – faça que a Fraternidade São Pio X acolha com confiança a reconciliação lhe é oferecida pelo Papa e possa assim conhecer um novo impulso para o bem de toda a Igreja Católica .
(1) Publicado por edições Cantagalli de Siena, este livro deverá ser traduzido para o francês até o final do ano.

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