Montfort Associação Cultural

31 de dezembro de 2009

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Para fechar 2009: obrigado por me recordar de minha "leiguice"!

  • Consulente: Francisco
  • Localizaçao: Planaltina – DF – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Religião: Católica

Senhor Orlando Fedeli;
Venho lhe lembrar que vc é só um leigo que não teve coragem para entregar sua vida completa a Deus, então quem é você para falar de um sacerdote, ainda mais um monsenhor como jonas abib, sou católico fiél e tenho todo respeito pelo sacertode pois sem ele não recebo meu Deus e não sou perdoado. A igreja faz o que o Espirito Santo manda e a voz da igreja é a voz do Santo Papa e tudo que o monsenhor faz é autorizado pelo Papa, eu te pergunto João Paulo é quase proclamado santo e vc o que é?
 

Muito prezado Francisco, salve Maria.
 
Muito obrigado por você ter me lembrado de que sou um simples leigo.
 
Esquecera-me disso.
 
Pior ainda: esqueci-me de que me tinha esquecido disso. Estou tão velho que a sua caridade se esforçou para me lembrar de uma coisa que me acompanha há tantos anos, desde que nasci. Minha inveterada leiguice. Da qual me esquecera.
 
Deus lhe pague.
 
Você sabe?  Vou lhe confessar um terrível segredo.
 
Não conte para ninguém. Mas vou lhe contar bem baixinho: eu já nasci leigo… Pssiiiu. Silêncio. Não repita. É um segredo meu.
 
Que nem a mãe do Lula, que nasceu analfabeta… Eu também já nasci analfabeto e leigo. Alfabetizei-me. Mas permaneci sempre leigo.
 
Que fazer!?
 
Depois me casei. E nunca pretendi ser diácono permanentemente casado. Ademais sou contrário ao diaconato de casados. Isso faz uma confusão… Depois, numa igreja nova em que tudo é movimento, evolução e agitação, a única coisa que inventaram de permanente foi esse tal diaconato que não é nem carne, nem peixe. Nem bem clérigo, nem bem leigo. É dialético. Mas fixado em sua permanência.
 
Você foi tão gentil me lembrando de que sou leigo, que me animou a lhe fazer um pedido.
 
Um pedido último de último dia do ano é sempre uma atrapalhação. Mas sua caridosa atenção para com minha memória velha e cansada me anima a ser atrevido e lhe pedir: você me poderia explicar como a infalibilidade pontifícia passa do Papa até chegar em Monsenhor Jonas Abib?
 
Creio que já me deram prova dessa infalibilidade participativa por comunicação, mas me esqueci do argumento.
 
Foi uma tia minha bem gorda que me deu esse argumento. Faz tantos anos, que me esqueci. Esqueci-me do argumento. Não de minha tia gorda. Que todo o mundo teve a graça de ter uma tia gorda. Inesquecível. Docemente redonda. Inesquecivelmente redonda. E doce. Que nem lata de goiabada antiga. Doce e redonda.
 
Pois minha tia gorda me provou, certa feita, que uma comadre dela era infalível.
 
O argumento teológico de minha tia gorda era meio magro, mas era mais ou menos assim. Perdoe-me se ficar algo manco o argumento magro. Mas é que ando tão esquecido.
 
Esquecido como velho leigo esquecido de sua leiguice e de sua velhice, que tanto me pesa nas pernas. Nas pernas e na memória. Pois minha tia gorda me provou que a comadre dela era infalível.
 
Você quer saber como?
 
Pois vá lá.
 
A comadre de minha tia era vizinha do sacristão da igreja de Santo Antonio, num lugarejo chamado de Alto do Goloso do Grogotó dos Pimentas.
 
Não vá pensar que inventei esse nome tão pitoresco…
 
Pois não inventei.
 
O lugar existe. Fica perto de Ouricuri, no sertão de Pernambuco. Pode procurar. No mapa ou no Google. Se não der no Google, vá até a fazenda da Juta, que lá esta cheio de gente de Ouricuri. Gente simpática e muito minha amiga. Essa gente vai lhe provar que existe sim o Alto do Goloso do Grogotó dos Pimentas. Nair, uma empregada minha, era de lá. Nasceu lá. Foi ela que me contou. Ela era altogolosense, grogotolesesca pimentosa. Muito simpática e bondosa, a Nair.
 
Pois lá ia lhe dizendo que minha tia gorda era amiga da sua comadre que era vizinha do sacristão do Vigário da Igreja de Santo Antônio do Alto do Goloso do Grogotó dos Pimentas…
 
Ora, o Sacristão, seu Chiquinho, era muito amigo do Vigário da tal igreja. Que, aliás, era Monsenhor. Monsenhor que nem Padre Jonas Abib. E era Monsenhor sem abliblablá. Ele falava muito, mas não tinha o dom das línguas, que isso é invenção moderna da qual culpam o Espírito Santo. Uma calúnia. E acontece que o vigário, Monsenhor Quinzinho, era unha e carne com o Bispo, o qual era amicíssimo do Cardeal de Recife, a capital do Graaande Nordeste.
 
O fato era que o dito Cardeal era muito ligado ao Papa de então. O qual já era infalível, pois isso foi depois do dogma de 1870. Portanto, como o Papa infalível se abria muito com o Cardeal do Recife, tudo o que escapava da boca do Cardeal da Veneza brasileira, tudo o que corria pela cleresia entre o Beberibe e o Capiberibe, podia-se ter certeza que era infalível, pois vinha da infalível boca do Papa para a infalível orelha do fidelíssimo do Cardeal, que era transmitida para o certíssimo — que digo? – Infalível. Infalibilíssimo Bispo, amigo íntimo do Vigário da Igreja de Santo Antônio do Alto do Goloso do Grogotó dos Pimentas.
 
Que logo contava tudo para o sacristão, seu Chiquinho, que era, então, a boca infalível da verdade se abrindo para a comadre de minha tia gorda… E minha tia gorda era toda ouvidos para o que lhe dizia infalivelmente sua comadre vizinha de seu Chiquinho. Lembra-se? Seu Chiquinho era o sacristão. 
 
E, com todo o respeito pela minha falecida tia gorda – gorda e redonda –, ela dava toda sua respeitosíssima atenção de sua bem gorda orelha ao que lhe dizia infalivelmente sua comadre.
 
E minha tia gorda corria imediata e infalivelmente a me contar tudo infalivelmente a mim, miserável leigo, pois eu nascera leigo e infalivelmente falível — um pária na visão de certos clericais infalíveis!
 
Daí, que tudo o que o Cardeal contara para o Bispo, que o repetira para o Vigário de Alto do Goloso do Grogotó dos Pimentas, que dissera tudo para o sacristão amigo da comadre de minha tia gorda – seu Chiquinho, lembra-se? -, que correra a contar infalivelmente tudo para minha doce e redonda tia, que pontificava tudo para minhas leigas, falíveis e incrédulas orelhas, tudo aquilo, contado, recontado, repetido, tudo - tudinho! – era certissimamente infalível.
 
Portanto, que nem água de fonte que corre e vira um rio, rio que vem da fonte, e que cai depois em cachoeira, que continua sendo da fonte, e que depois chega no Beberibe e que se junta ao Capibaribe, e que juntos formam infalivelmente o Oceano Atlântico - como me contaram meus simpáticos amigos do Recife, a água do Oceano Atlântico é mesma que a da fonte do rio -, assim também o que vinha da boca de minha tia gorda era coisa tão infalível como o que saíra da boca infalível do Papa.
 
Roma locuta, boca de minha tia confirmata, causa finita.
 
Não é mais ou menos assim, seu raciocínio me provando que Monsenhor Jonas Abib, sendo amigo do Papa, tem que ser infalível em tudo o que ele diz, mesmo em abliblablá?   
 
Perdoe-me se não repeti perfeitamente o raciocínio de minha tia com todos os pormenores. É que, além de andar esquecido, minha leiguice inveterada me faz infalivelmente falível em tudo que eu digo, conto e faço.
 
Mas, se você não entendeu o que expliquei, posso recomeçar a lhe explicar tudo de novo o que lhe disse até agora. Aprendi esse método chato com o Suplicy.
 
Você já ouviu o Suplicy explicar o que ele pensa?
 
*****
 
Passemos a tratar de um segundo ponto de sua carta, assunto mais sério que a pseudo-infalibilidade de monsenhores, sacristães, comadres e tias gordas.
 
Você me lembra que eu não tive coragem de dedicar toda a minha vida a Deus…
 
Meu caro, tive a coragem de servir a Deus como leigo, enfrentando calúnias e perseguições de muitos padres modernistas. E nem por isso perdi a coragem de continuar lutando.
 
Não vou lhe contar aqui quantos empregos perdi por perseguição de padres hereges modernistas…
 
Tive a coragem de lutar na internet defendendo a Igreja e a Fé. E cartas que revelam raiva de minha pessoa — como aquela que você me envia – não me fizeram desistir. O Quadro de Honra da Montfort comprova quanto ódio recebo por defender a Deus e a Santa Igreja.
 
Mas nem peço sua compreensão. Espero, em Deus, que Ele, que é Juiz Justo e misericordioso, que me julgue, pouco me importando sobre o que se pensa de mim.
 
Assim foi em toda a minha vida.
 
E o pior é que nem você, com toda a sua caridade, nem você poderia me lembrar onde deixei o resto de minha vida que lamentavelmente não consagrei a Deus.
 
Como você é carismático, suponho que tenha tantos carismas, que é possível que você tenha algum dom que o torne capaz de encontrar coisas perdidas, ou esquecidas. Sem recorrer a Santo Antônio. Que fazia milagres sem ser carismático. Aliás, exatamente por não ser da RCC.
 
Então, se não for abuso – ainda mais em dia de fim de ano -, veja se encontra também, para mim, onde larguei o pedaço de minha vida que não entreguei a Deus.
               
Porque, infelizmente, é verdade: não entreguei todos os meus anos, de minha já tão longa vida a Deus, como desejara que fosse.
 
Noutro dia, ainda, li num salmo uma súplica:
 
Meu Deus ensina-me a contar os meus dias”.
 
Contar os meus dias…
 
Contar os meus anos… Os poucos anos que me restam…
 
“Agora, falta pouco”, dizia-me minha mãe, em meio aos sofrimentos de seus 96 anos.
 
Também para mim agora falta pouco.
 
Só Deus sabe quanto.
 
E tenho a voz rouca e cansada por tantas aulas dadas.
 
E tenho o coração cansado, de tanto ter sido dado.
 
E tenho o coração contente por ter tanto amado meus alunos.
 
E, neste meu coração velho e cansado, ainda canta, porém, uma velha canção, que cantei – e que canto ainda – com tantos jovens, há tantos anos:
 
Vechia canzone
 che nel cuore mio lasso.
 Batti il compasso
 per lottare qua giù.
 Fa ch’io difenda fino
al dì dal trapasso,
veritá e virtù”.
 
Velha canção,
Que em meu coração cansado,
Bates o compasso para lutar,
Aqui, neste mundo baixo.
Faça com que eu defenda,
Até o dia de minha morte,
Verdade e Virtude.
 
Até o dia do transpasse…
 
No fim dos meus dias . No fim de meus anos cansados.
 
Lamentando os anos que perdi – e perdi não sei onde, nem por que fim tolo os perdi. Pois somente não são perdidos os dias e os anos que se consagraram totalmente a Deus.
 
Miserere mei Deus, secundam magnam misericordiam tuam.
 
Por fim, quanto a mim, que tenho tão pouca memória, antes que me esqueça, desejo-lhe que Deus lhe dê muitas graças no ano que entra. E também no que está saindo.
 
Que Deus não permita que você perca um só dia de sua vida, consagrando todo o seu tempo a Deus Nosso Senhor.
 
E não a vociferar por raiva contra o que você não compreende.
 
Que Deus o perdoe.
 
E lhe rogo ainda que não acredite nem um pouquinho no argumento de minha tia, gorda, doce, redonda e tão simpática, mas também absolutamente errada em Teologia Dogmática.
 
Passe bem no ano vindouro, meu caro.
 
E, caso você tenha, como todo o mundo, uma tia gorda, mande a ela também o meu abraço amigo, aconselhando-a a não crer jamais na infalibilidade de monsenhores, de sacristães, e de comadres faladoras.
 
Principalmente, se forem carismáticos.
 
31 de dezembro de 2009,
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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