Montfort Associação Cultural

13 de junho de 2013

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Papa Francisco critica o “pelagianismo dos devotos” – tese de Ratzinger!

Autor: Andrea Tornielli

Fonte: Vatican Insider

Tradução: Unisinos

Quinta, 13 de junho de 2013

Francisco, Ratzinger e o risco do ”pelagianismo”

Embora, compreensivelmente, o que tenha chamado a atenção do mundo midiático tenham sido as palavras atribuídas ao pontífice sobre a corrupção no Vaticano, sobre a existência de um lobby gay e sobre o fato de que os religiosos não devem se desencorajar quando acabam na mira do ex-Santo Ofício, a síntese do diálogo ocorrido no último dia 6 de junho entre Francisco e a cúpula da Clar (Confederência Latino-Americana e Caribenha de Religiosos) contém passagens interessantes sobre a Igreja contemporânea. Como se sabe, os dirigentes da própria Clar tomaram distância da publicação desse texto “reconstruído” através de recordações dos participantes e, em todo caso, proveniente deles.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 12-06- 2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

As duas “preocupações” que o papa teria expressado no diálogo com os religiosos latino-americanos referem-se ao risco do “pelagianismo” e da gnose “panteísta”. A primeira refere-se às às doutrinas do monge irlandês Pelágio,combatidas por Santo Agostinho e condenadas pelo Concílio de Éfeso em 451.

Segundo a heresia pelagiana, o pecado original não teria realmente contaminado a natureza humana e, portanto, o ser humano seria capaz de escolher o bem e de não pecar por si mesmo, sem a ajuda da graça. O retorno do pelagianismo havia sido denunciado por algumas vozes nas últimas décadas, com relação ao fato de que o hiperativismo na Igreja, a confiança nos planos e nos projetos humanos, a crença de que a Igreja é feita pela ação humana acaba esvaziando a ação da graça e reduzindo tudo às capacidades do ser humano.

Francisco, segundo as palavras que lhe foram atribuídas pela síntese do diálogo com a CLAR publicadas no sítioReflexión y Liberación, falou, assim, de uma “corrente pelagiana que existe na Igreja neste momento”, aplicando-a aos grupos “restauracionistas”. “Eu conheço alguns – teria dito o papa –, eu tive que recebê-los em Buenos Aires. E sentimos que é como voltar 60 anos atrás! Antes do Concílio…”.

Francisco, então, teria relatado este episódio: “Quando me elegeram, eu recebi uma carta de um desses grupos, e me diziam: ‘Santidade, oferecemos-lhe este tesouro espiritual: 3.525 rosários’. Por que não dizem ‘rezamos pelo senhor, pedimos’… mas isso de fazer contas…”. O papa referiu esse episódio advertindo que não pretendia, de modo algum, ridicularizá-lo.

A menção ao mundo tradicionalista logo provocou a reação indignada de alguns supostos censores ratzingerianos, que imediatamente observaram na web a descontinuidade com Bento XVI. Os censores, porém, se equivocam, porque foi justamente o então cardeal Joseph Ratzinger que falou primeiro do “pelagianismo dos piedosos”.

Ratzinger, durante um curso de exercícios espirituais realizados em 1986 (publicados em 2009 com o título Guardare Cristo: esempi di fede, speranza e carità, pela editora Jaca Book), havia afirmado: “O outro rosto do mesmo vício é o pelagianismo dos piedosos. Eles não querem ter nenhum perdão e, em geral, nenhum verdadeiro dom de Deus. Eles querem estar em ordem: não perdão, mas sim justa recompensa. Eles querem não esperança, mas sim segurança. Com um duro rigorismo de exercícios religiosos, com orações e ações, eles querem obter um direito à bem-aventurança. Falta-lhe a humildade essencial para todo amor, a humildade de receber dons para além do nosso agir e merecer. A negação da esperança em favor da segurança diante da qual agora nos encontramos se fundamenta na incapacidade de viver a tensão com relação ao que deve vir e de se entregar à bondade de Deus. Assim, esse pelagianismo é uma apostasia do amor e da esperança, mas, em profundidade, também da fé”.

Também muito interessante é a segunda das preocupações expressadas por Francisco, que parece remeter a pronunciamentos da Congregação para a Doutrina da Fé contra filosofias e correntes de pensamento que acabam “esvaziando” a encarnação. Trata-se de “uma corrente gnóstica. Esses panteísmos…”.

O gnosticismo é um movimento filosófico-religioso, particularmente difundido entre os séculos II e IV, hoje presente em algumas tendências religiosas como a “Nova Era”. Tanto o pelagianismo quanto a gnose são “correntes de elite”, teria dito o papa, mas a segunda “é de uma elite mais formada… Eu soube de uma superiora geral que incentivava as irmãs da sua congregação a não rezar pela manhã, mas sim a tomarem um banho espiritual no cosmos, coisas assim… Isso me preocupa porque pulam a encarnação! E o Filho de Deus se fez nossa carne, o Verbo se fez carne, e na América Latina temos carne aos montes! O que acontece com os pobres, as dores, essa é nossa carne… O evangelho não é a regra antiga, nem esse panteísmo. Se você olhar para as periferias, os indigentes, os drogados, o tráfico de pessoas… Esse é o evangelho. Os pobres são o evangelho…”.

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