Montfort Associação Cultural

24 de maio de 2006

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Padre diz que a história de Adão e Eva é uma "lenda"

Autor: Fábio Vanini

  • Consulente: Claudio Dos Santos
  • Localizaçao: Jundiaí – SP – Brasil

Professor Orlando, li isso no site do Pe. Cleodon e achei duvidoso.
Não seria limitar a Bíblia?
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“A História de ADÃO e EVA é Verdadeira?

Padre, outro dia ouvi o senhor falando que Adão e Eva não existiram. Fiquei confusa. Como Deus nos criou, então? O que a Bíblia fala de Adão e Eva é mentira?

Gostaria de lhe fazer algumas perguntas:

Se a história de Adão e Eva for totalmente verdade, do jeito que imaginamos:

1) como encaixaríamos os animais pré-históricos?

2) E os homens da caverna?

3) E a Teoria do Big Bang?

A primeira coisa que se deve ter em mente, é que os judeus não quiseram escrever um livro que fosse científico e explicasse a origem de tudo. A intenção dos judeus é apresentar Deus de uma maneira maravilhosa através de contos, lendas, novelas…

Quando uma pessoa escreve uma história, ela pode usar vários recursos literários para comunicar o que quer. Há várias figuras de linguagem que ajudam neste processo. Por exemplo: nosso Hino Nacional diz:

“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas…”

As margens plácidas têm ouvidos para ouvir? São gente?

Chamamos de linguagem figurada.

Há também o que chamamos de “gêneros literários”. São formas de se contar uma história de maneira interessante a ponto de prender o leitor.

Vejamos então:

1. Adão.

A palavra Adão, inicialmente, não era nome de gente. É uma palavra hebraica, adam, que significa ser humano, humanidade. Se a tradução da palavra é humanidade, como posso pensar que significa um homem só?

Os pesquisadores bíblicos colocam várias maneiras de você entender essa palavra:

a) o nome de uma pessoa: eles não descartam a possibilidade de ser o nome do primeiro ser vivo que existiu.

b) o nome de um clã: grupos comandados por homens;

c) o nome de grupos coletivos: grupos só de homens ou cuja maioria dos participantes era homem.

Por outro lado, essa palavra ADaM vem de outra palavra hebraica: ADaMaH, que significa terra fértil. Neste sentido, essa palavra assume um significado ainda mais forte, pois terra fértil lembra plantação, colheita, comida, sobrevivência. Portanto era o símbolo da vida e da fecundidade. Eles levavam a fecundidade muito a sério; tanto que os deuses da fecundidade eram muito comuns na época.

É importante levar em conta que muitas pessoas viviam de trabalhos artesanais: vasos, cântaros, panelas, jarros, copos, garrafas, imagens…

2. Eva.

Essa palavra começou a ser empregada também como se fosse o nome de uma pessoa, mas no início não era assim.

Ela também vem do hebraico, HaVVaH, que significa “mãe dos viventes”. Esta palavra também está ligada ao verbo hebraico, HaYaH, que pode ser traduzido por “viver”.

Com isto, os pesquisadores da Bíblia também abrem margem para algumas interpretações:

a) o nome de uma pessoa: eles não descartam que Eva tenha sido a primeira mulher que houve no mundo;

b) o nome de um clã: era comum grupos dirigidos por mulheres – as matriarcas. Elas não aceitavam a liderança masculina;

c) o nome de grupos coletivos: grupos só de mulheres ou cuja maioria dos participantes era mulher. Esses grupos eram comuns e não aceitavam em hipótese alguma a presença masculina dominadora.

Se você achar que Adão e Eva eram os nomes do primeiro casal que existiu, quantos filhos esse casal teve?

Dois – responderia. Caim e Abel.

Caim matou Abel. Mas a Bíblia diz que ele foi para um lugar da terra bem distante e ali se casou (cf. Gn 4,17). Como? Se só havia Caim e Abel?

Portanto, tanto a palavra Adão como a palavra Eva podem significar:

a) nome de gente;

b) nome de vários grupos dirigidos por um homem, no caso de Adão ou nome de vários grupos dirigidos por uma mulher, no caso de Eva.

c) Adão poderia ser o nome de grupos só de homens ou que os homens dominavam. Eva o nome de grupos só de mulheres ou que as mulheres controlavam, como as Amazonas, por exemplo.

Imagine: um grupo só de homem (Adão) encontrando um grupo só de mulheres (Eva). De repente, com a intercessão de Deus, conheceram-se e deram-se bem. Namoraram e casaram, os homens de um grupo com as mulheres do outro grupo. Interessante, não?!

A história de Adão e Eva, na Bíblia, faz parte de um gênero literário chamado “lendas”. Essa palavra não tem o mesmo significado de lenda para nós hoje. Com uma linguagem bem simples, como de parábolas, histórinhas de criança, a Bíblia nos transmite verdades de fé muito profundas.

Acreditar em paraíso, em serpente que fala, em serpente que andava de pé (pois só depois da sedução de Eva que Deus a condenou a se rastejar), em árvore do bem e do mal… tudo isto são características literárias de lendas.

De repente, você se sinta meio decepcionada, achando que as coisas que a Bíblia fala não são verdadeiras. Não é isso. São verdadeiras, mas depende da maneira como você as interpreta.

Eu não disse que a história de Adão e Eva é falsa ou mentirosa.

Apresentei outras maneiras de você interpretar o que a Bíblia fala. Se quiser continuar acreditando que Adão foi o primeiro homem criado e Eva a primeira mulher, sinta-se livre. Por outro lado, como boa estudiosa e pesquisadora, você não pode descartar as outras formas de entender o texto. Isto só a enriquece mais ainda.

Pe. Cleodon, Teólogo
http://www.catolicanet.com.br/gf/conteudo.asp?pagina=1837

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Gostaria de um esclarecimento maior.

Grato
claudio

Prezado Claudio, salve Maria!

    Tenho respondido diversas cartas sobre variados temas ligados ao Gênesis e ao Evolucionismo. Algumas vêm como pedras sobre nossas cabeças, outras vêm como brisa consoladora, para mostrar que nosso trabalho não é em vão e que Deus nos ajuda muito, fazendo chover sobre nosso árido terreno.
    Contudo, ainda que você somente nos peça, justamente, um esclarecimento sobre o que escreve esse padre, poucas vezes vi um sacerdote de Deus escrever assim tão claramente o que defende.
    Esse padre Cleodon se não é herege ainda, quer ser o quanto antes.
    É simplesmente de estarrecer o que esse padre quer que a tal consulente acredite, ou propõe como explicaçao historica.
    Então Moisés, quando diz que Deus criou um homem com o limo da terra, contou uma conto? Ou, ainda, uma novela? Então Moisés não é um autor inspirado por Deus, mas um grande poeta que vale de “recursos literários“ para contar um romance belo e agradável para ensinar uma doutrina que depende de “pesquisadores biblicos“ para dar uma série de possibilidades de interpretação, de modo que o leitor aprecie como quiser, como num self-service? Então o Papa não serve para nada?
    Além disso, com respeito às mãos consagradas desse pobre sacerdote, é dificil crer que tenha realmente estudado teologia católica (pois se intitula teólogo). Qualquer um, até mesmo eu, que praticamente nada entendo de teologia, é capaz de ver que a teologia da Igreja Católica, que é Santa e infalível, jamais ensinaria afirmações como as defendidas por esse padre.
    Veja por exemplo: “A palavra Adão, inicialmente, não era nome de gente”. Mas inicialmente quando, se foi Deus que Deu o nome a Adão? E Adão significa terra, como bem disse o padre Cleodon. Porém, por que não aceitar a doutrina da Igreja que ensina o que está escrito no Gênesis, que o homem é limo da terra? Por que inventar que o termo “terra” pode estar referido às atividades artesanais de um grupo de homens? Por que se distanciar tanto da verdade, apenas para não querer acatar ao que a Igreja sempre ensinou?
    Em resumo, esse padre aceita tudo, menos a explicação tradicional da Igreja. Porém, toda a explicaçao diferente a tradicional conduz a erros relacionados à economia da salvação, portanto heresias.
    Explico-me.
    Se o primeiro homem não existiu concretamente, criado por Deus, apareceu como? O padre Cleodon não trata do assunto, pois seria mais escandaloso ainda reconhecer que teria sido fruto da evolução. O primeiro grupo de homens veio da onde, de Marte? Ou descendeu evolutivamente de uma população de simios? Pesquisadores bíblicos não seriam, na verdade, paleontólogos ateus?
    Assim, não havendo um primeiro homem, quem cometeu o pecado original? Se Adão é apenas um nome de um grupo de homens, quem destes pecou? Então haveria duas linhagens de homens: uma que herdara as conseqüências do pecado original e outra intacta… é o que defendia o nazismo e muitas outras correntes gnósticas e cabalistas.
    Pior seria se o padre não aceitasse a “novela” do pecado original e da natureza corrompida do homem.
    Mas o pior ainda está por vir: se não houve pecado original, pois não houve um casal original, mas um grupo de homens, por que seria necessário Deus encarnar num homem para pagar a divida do pecado original? Então, toda a economia da salvaçao seria uma “lenda”, inventada por alguns judeus?
    Então haveria um grupo de homens concebidos sem pecado no grupo de Adao?
    Então Cristo seria uma “lenda” também?
    Repare, meu caro Claudio, as conseqüências graves de se afirmar apenas a possibilidade de uma interpretação diversa do livro do Gênesis. Isso é gravissimo, pois levaria muitas almas ao inferno.
    A começar pelas almas dos que ensinam esses erros…
    A Igreja católica não oferece possibilidades, mas ensina certezas.
    Se um padre oferece explicações alternativas à doutrina da Igreja, esse padre é herege.
    Se um padre ensina ao fiel o livre-exame da Bíblia, ao dizer “Apresentei outras maneiras de você interpretar o que a Bíblia fala”, isso é heresia protestante.
    Se um padre defende que a Bíblia é contraditoria se não for interpretada como “contos, lendas, novelas…”, isso não é catolicismo, mas modernismo exegético, ou seja, outra heresia, condenada por São Pio X na encíclica Pascendi.
    Se um padre não ensina como tolice monumental que a tese de que Adão é “o nome do primeiro ser vivo que existiu” (ainda que tenha sido o ultimo ser criado, segundo o Gênesis…), então esse padre não pactua com o bom senso.
    Se um padre acha “interessante, não? [sic]” a tese de que havia apenas dois grupos de homens na terra que não se conheciam, um só de homens e o outro só de mulheres, e que foi a providência quem os fez se encontrarem, então esse padre permite que seja propagado um desvairio insano pouco comum no terreno das loucuras.
    Meu caro Claudio, é uma pena que esse tipo de resposta seja publicada num meio como a internet, ainda mais redigida e assinada por um membro do clero e teólogo. O mal que isso faz a uma alma é incalculável. Se o leitor não tem bom senso e crê, cai em heresia; se tem bom senso e não crê, cai em descrédito quanto ao nível intelectual dos teólogos da Igreja Católica, cuja doutrina é perfeita.
    Agradecemos a você pela contribuição e pedimos para nos incluir em suas orações, e também a alma desse padre, para que pare de propagar tão grandes falácias e erros.

No Coração de Maria Santíssima,
Fábio Vanini

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