Montfort Associação Cultural

22 de dezembro de 2011

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Os sete selos da Virgem Maria

Edivaldo dos Santos Oliveira 

Introdução         

            Ensina-nos São Tomás: “Bonum est diffusivum sui esse”[1]. “O bem é, por si, difusivo”, ou seja, todo bem tende naturalmente a comunicar-se, a difundir-se. Assim, por exemplo, Nosso Senhor Jesus Cristo, possuindo o bem da vida na sua plenitude “Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também o concedeu ao Filho possuir a vida em si mesmo”[2], a ponto de ser a vida “Eu sou a vida”[3], quis transmiti-la: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância”[4]. Pelo mesmo motivo, o mestre quer transmitir seu saber, o qual é vida intelectual, e os pais a vida biológica.

            Deus é o sumo bem e, por isso, é infinitamente difusivo, comunicativo. Assim quis Ele, livre de qualquer necessidade, criar seres que pudessem participar de sua felicidade. Nesse sentido, a criação é um chamado de Deus, um convite às criaturas dotadas de inteligência, a  uma felicidade sem fim que, Ele, sumo bem, tem na posse de si mesmo “Vinde servo bom e fiel, entra na alegria do teu senhor”[5]. É um ato de amor, pois “amar alguém é propriamente querer para ele o que é bom”[6].

            O amor é “uma força unificadora e um princípio de coesão”[7]. Enquanto unificador o amor visa a unir, quanto possível, a coisa boa a alguém[8]. Assim Deus nos quer junto dele no céu por toda a eternidade. Enquanto princípio de coesão, o amor “integra o outro a si próprio, comportando-se com ele como consigo mesmo”[9]. Deus ao criar os anjos e os homens para possuí-Lo trata-os como a si mesmo, pois lhes dá, como fim, o mesmo bem com que Ele é feliz, o qual não é outro senão Ele mesmo.

            Para possuir esse bem infinito que é Deus, atingindo a finalidade para a qual fomos criados, é necessário conhecê-Lo, pois “ninguém pode amar uma coisa desconhecida. Assim pois, o conhecimento é a causa do amor ao mesmo título que o bem, que só pode ser amado se é conhecido.”[10]. Para amar, para possuir a Deus, é preciso antes conhecê-lo: “Porque certamente nada pode ser amado se não for conhecido, assim também é exigido o conhecimento de Deus para o amor da caridade.”[11]. Não há, portanto, amor sem verdade, nem caridade sem fé.

            Toda a criação tem como fim manifestar a glória de Deus, fazê-lo de certo modo cognoscível, visível e, assim, possível de ser amado: “Porque as coisas invisíveis dele, depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornaram-se visíveis; e assim o seu poder eterno e sua divindade”[12]. Assim como a luz é refratada por um prisma resultando na diversidade das cores, analogamente, também a luz da perfeição divina se difunde na esplêndida variedade dos seres.

“La gloria di Colui che tutto move

per l’universo penetra e risplende

in una parte più e meno altrove”.[13]

Dois livros

            Ao comentar essas verdades, ensina São Boaventura:“De tudo isso que acabamos de dizer, pode-se concluir que a criação do mundo é semelhante a um livro no qual brilha, é representada e é lida a Trindade criadora segundo um tríplice degrau de expressão por modo de vestígio, de imagem e de semelhança. A idéia de vestígio se encontra em todas as criaturas; a idéia de imagem, apenas nas criaturas inteligentes ou espíritos racionais; a idéia de semelhança, nas criaturas deiformes [portadoras da graça santificante]. Como por degraus de uma escada, a inteligência humana é capaz de se elevar gradualmente até o princípio soberano, que é Deus.”[14].

            Um livro pode ser tomado em sentido largo como um conjunto ordenado de palavras. O mundo tendo sido criado por Deus por meio de sua palavra é comparável a um livro: “Deus disse: “Faça-se a luz! E a luz foi feita.”[15]. Tudo foi feito por Deus por meio de seu Verbo “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus”; “Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.”[16]. O mundo é enfim parecido com Deus: “Uma vez que todo agente produz um ser semelhante a si, o princípio da ação pode ser considerado por seu efeito: é o fogo que gera fogo.”[17] . Toda causa produz um efeito que lhe é semelhante e, por isso, pelo efeito pode se conhecer a causa, donde a expressão de Nosso Senhor nas Escrituras: “pelo fruto se conhece a árvore”[18]. Assim, por exemplo, os filhos, que são efeito ou fruto de seus pais, lhes são parecidos.

            Devido à sublimidade e elevação do ser de Deus, e também às próprias limitações do ser humano, as quais foram agravadas pelo pecado original, a leitura do livro da criação tornou-se em extremo árdua, e sujeita a muitos enganos:

“É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam.”[19];

“Até mesmo com relação ao que a razão humana pode pesquisar a respeito de Deus, era preciso que o homem fosse também instruído por revelação divina. Com efeito, a verdade sobre Deus pesquisada pela razão humana chegaria apenas a um pequeno número, depois de muito tempo e cheia de erros”[20]

“Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto”[21].

            Por isso, Deus em sua infinita misericórdia, bondade e sabedoria, legará aos homens um segundo livro, a Sagrada Escritura, a qual é parte integrante da revelação:

“Ora, esta revelação sobrenatural está contida, consoante no-lo ensina a crença da Igreja universal, já nas tradições orais, já nos livros sagrados e canônicos, assim chamados, por isso que, escritos sob o influxo do Espírito Santo, têm a Deus por autor e como tais foram confiados à sua Igreja”[22]

“Assim, para que a salvação chegasse aos homens, com mais facilidade e maior garantia, era necessário que fossem eles instruídos a respeito de Deus, por uma revelação divina. Portanto, além das disciplinas filosóficas, que são pesquisadas pela razão, era necessária uma doutrina sagrada, tida por revelação.”[23]

            Desse modo o homem pode através da sabedoria filosófica remontar até a Causa das causas, que é Deus. Pela sabedoria teológica, aceitando as verdades reveladas, ele pode contemplar o Verbo encarnado e nele a Deus Pai “Filipe, aquele que me vê, vê também o Pai”[24].

            A criação e as Sagradas Escrituras constituem, pois, dois livros, os quais nos dão, em graus diversos de perfeição, o conhecimento a respeito de Deus. Ambos nos falam do Verbo de Deus. Evidentemente, as Escrituras constituem um livro superior e mais perfeito que o livro da criação. O mundo no-lo apresenta sob o véu da analogia e do símbolo. As Sagradas Escrituras sob os diversos véus da palavra divina escrita:

“É, então conveniente que na Escritura Sagrada as realidades espirituais nos sejam transmitidas por meio de metáforas corporais. É o que diz Dionísio: ‘O raio da luz divina só pode refulgir para nós envolvido na diversidade dos véus sagrados’”[25].

            Assim como o véu tem a característica de manifestar algo daquilo que é por ele recoberto, e, ao mesmo tempo ocultá-lo em parte, assim também os véus da Escritura e do mundo nos manifestam algo de Deus, e em parte no-lo ocultam, e isso, por três razões.

Em primeiro lugar, porque transcendendo Deus a toda criatura, não pode ser abarcado por nenhuma delas “Se o céu e os céus dos céus não vos podem conter quanto menos esta casa que edifiquei!”[26], ou seja, a verdade sobre seu ser não pode ser totalmente expressa por nenhuma criatura, nem contida por nenhuma inteligência, nem angélica, nem humana. Embora possamos conhecer algo sobre Deus, muito maior é o que permanece oculto, velado a nós.

Em segundo lugar, como ensina o papa Leão XIII, a obscuridade, o velamento, tudo aquilo que torna difícil a extração de certas verdades contidas nas Escrituras serve para aguçar a inteligência humana no desejo de desvendar e reter o que foi ensinado por Deus, bem como torná-la humilde, reconhecendo a necessidade de uma luz segura que a guie na aquisição de tal verdade:

“Não é pois de admirar que os Livros sagrados apareçam envolvidos em certa obscuridade religiosa, de modo que ninguém ouse estudá-los sem luz que lhe ilumine os passos. Assim o dispôs a providencia divina, no sentir comum dos Santos Padres, para que os homens os estudassem com mais vontade e diligência e ficassem profundamente gravados em sua alma os conceitos havidos com esforço, e, sobre tudo, entendessem que Deus confiou as Escrituras à sua Igreja, como a mestra e guia segura e intérprete fiel da sua palavra.”[27]

Em terceiro lugar, para proteger a verdade sagrada, e as coisas santas, daqueles que são indignos delas:

Ele respondeu: A vós é concedido conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos outros se lhes fala por parábolas; de forma que vendo não vejam, e ouvindo não entendam.”[28]

“Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra vós, vos despedacem.”[29]

            O mundo e as Sagradas Escrituras são, pois, dois livros que velam sabia e santamente o conhecimento sobre Deus.

            Nosso Senhor Jesus Cristo sendo o Filho de Deus, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo Encarnado, é a perfeita Imagem de Deus, a plenitude do conhecimento sobre Deus. Ou seja, em Deus, Verbo e Filho se equivalem:

“Em Deus, Verbo propriamente dito entende-se em sentido pessoal, e é nome próprio da pessoa do Filho.”[30]

 

“Para mostrar-se que é conatural com o Pai, chama-se Filho; que é coeterno, chama-se Esplendor; que é totalmente semelhante, chama-se Imagem; que é gerado de maneira imaterial, chama-se Verbo[31]

 

“Simão Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!”[32]

“Ele é a imagem de Deus invisível”[33]

 

“Filipe, aquele que me vê, vê também o Pai”[34]

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.”[35]

            Este Verbo adorável é “cheio de verdade”, pois expressa perfeita e totalmente o que Deus é, e também porque contém em si toda a verdade espelhada pelas criaturas:

“Com efeito, no próprio Verbo incriado estão as idéias de todas as criaturas”[36]

            E por isso disse o Espírito Santo pela boca de São João:

“Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.”[37].

            O livro do mundo e livro das Escrituras Santas são ditados pelo Verbo eterno de Deus, e é Dele que eles falam, é a Ele que eles guardam, velam. O Verbo está neles revestido pelos vestígios, pelas imagens, pelas semelhanças, pela palavra inspirada por Deus aos hagiógrafos.

            Ora, se aquilo que contém a Palavra Divina, se todo o receptáculo do Verbo pode ser comparado a um livro, e se tanto mais perfeito é o livro quanto mais clara e perfeitamente ele nos traz esse Verbo, podemos subir mais um degrau e atingir o cume dessa analogia com Nossa Senhora, que nos dá o Verbo em pessoa, o qual portou em si durante nove meses. É, pois a santíssima Virgem um livro, o terceiro nessa escada analógica, o livro que nos dá o Verbo Encarnado, “cheio de verdade”, a plenitude do conhecimento de Deus.

            Desse modo importa muitíssimo para atingir o fim para o qual fomos criados, conhecer e amar a Deus, conhecer e ler o livro dos livros, Maria Santíssima:

“Desejas conhecer Deus? Lede Maria como um livro”[38]

Não, ninguém no mundo conheceu Jesus a fundo como ela [Virgem Maria]; ninguém é melhor mestre e melhor guia para dar a conhecer Jesus.[39]

 

Doutrina igualmente ensinada por São Pio X:

 

“[A Virgem Maria] é o maior e mais eficaz auxílio para o conhecimento e amor de Cristo”[40]

 

“Na verdade, que seja por Maria, e sobretudo por ela, que encontramos o caminho para o conhecimento de Jesus, ninguém poderá duvidar, se considerarmos, entre outras coisas, que no mundo somente ela teve com ele, sob o mesmo teto e numa familiaridade íntima de 30 anos, essas relações estreitas que são próprias da mãe e filho. Os admiráveis mistérios do nascimento e da infância de Jesus, máxime os que respeitam à sua Encarnação, princípio e fundamento de nossa fé, a quem poderiam ter sido desvendados mais amplamente que à sua Mãe?” [41]

 

“Segue-se, como conseqüência, que jamais alguém será mais poderoso que a Virgem para unir os homens a Cristo, como já o temos insinuado. Se, com efeito, segundo a doutrina do Mestre divino, ‘a vida eterna consiste em que eles te conheçam a ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, que tu enviaste’” (Jo 17, 3); como por Maria chegamos ao conhecimento de Jesus Cristo, por ela também nos é mais fácil adquirir a vida, da qual Ele é o princípio e a fonte.”

            Nossa Senhora deve ser lida como um livro, deve ser seguida como uma mestra segura para alcançarmos a plenitude da verdade em Cristo.

“Eu te darei uma Mestra [Nossa Senhora], e sob a disciplina dela tu poderás tornar-te sábio.”[42]

            Ensinam-nos os Padres da Igreja que assim como a água, simbolizando a humildade, buscando sempre os lugares mais baixos encontra o mar, assim também todas as graças de Deus foram buscar o coração humilde de Nossa Senhora e Ele a constituiu Medianeira e Dispensadora de todas as graças. De modo semelhante, todas as verdades, e a Verdade Encarnada, buscou refúgio no coração desta Virgem Bendita. Abaixemo-nos também, corramos para esta casa da verdade, para esta morada da Sabedoria Encarnada a fim de encontrar instrução.

            É a fim de ajudar, ainda que muito modestamente, a ler este livro magnífico que nos foi legado pela alta sabedoria de Deus, que intentamos escrever, com a graça de Deus, uma série de sete artigos, para os quais o presente serve de introdução. No próximo artigo exporemos o significado e a razão do título “Sete selos  da Virgem Maria” bem como o primeiro selo.

Ave Gratia Plena!

 

 



[1] Suma Teológica Primeira Parte Q. 5, a. 4.

[2] João 5,26

[3] João14,16

[4] João 10,10

[5] Mt. 25,23

[6] Suma Teológica Primeira Parte Q. 20, a.3, resposta.

[7] Suma Teológica Primeira Parte Q. 20, a.1, sol. 3.

[8] Cf. Suma Teológica Primeira Parte Q. 20,a.1. sol.3.

[9] Idem.

[10] Suma Teol. Ia IIae, Q. 27, a.2

[11] São Tomas, Opera Omnia. Super I ad Cor. 13,4.

[12] Rom 1,20.

[13] Dante. A Divinia Comédia. Par. I, 1-3. “A glória d’Aquele que tudo move, no universo, penetra e resplandece, numa parte mais do que noutra.”

[14] S. Boaventura Breviloquio11. A criação do homem corpo e alma.

[15] Gen. 1,3

[16] João 1,1-3

[17] Suma Teol. Ia, Q. 45, a.6

[18] Mt. 7,16

[19] ICor. 2,9

[20] Suma Teol. Ia Q.1, a.1.

[21] Gen. 3,

[22] SS. Leão XIII. – Providentíssimus Deus. n.1.

[23] Idem.

[24] João 18,9

[25] Suma Teol. I, q.1, a.9

[26] 1Reis 8,27

[27] SS. Leão XIII. – Providentíssimus Deus. n.16.

[28] Luc. 8,10

[29] Mat. 7,6

[30] Suma Teol. I, q. 34, a.2, resposta.

[31] Suma Teol. I, q. 34 a.2, 3ª solução

[32] Mat. 16,16

[33] Coloss. 1,15

[34] João 18,9

[35] João 1,14

[36] Suma Teol. I, q. 93, a. 9, sol. 4

[37] João 1,1-3

[38] ROSCHINI, Gabriel Padre O.S.M. Instruções Marianas. Paulinas: São Paulo, p. 10.

[39] S. Pio X. Ad Diem illum laetissimum.1904.

[40] Idem.

[41] Idem.

[42]LEMOYNE, Giovanni Battista. Vita di San Giovanni Bosco.  SEI: Torino, 1987. pg. 42

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