Montfort Associação Cultural

23 de maio de 2006

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Os “ramos sociais” e a violência urbana

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Juliano Sanches
  • Idade: 20
  • Localizaçao: Campinas – SP – Brasil
  • Escolaridade: 2.o grau em andamento
  • Profissão: Jornalista
  • Religião: Católica

O Estado de São Paulo serviu de palco para acontecimentos que dificilmente podem ser comparados com algum momento histórico presenciado nos últimos 10 anos no Brasil. O Primeiro Comando da Capital, o PCC, que surgiu em 1993, planejou e concretizou atos atrozes, que provocaram pânico e, conseqüentemente, conseguiram dominar através da coerção abrupta, o pensamento coletivo. Com este derramamento de sangue em massa em decorrência das ações desumanas do PCC, a memória coletiva deveria chamar a atenção para o fato de que muitos policiais justos morreram ao tentarem defender a população destes conflitos e diminuir a histeria gerada pelos atos arbitrários destes especialistas do crime.
Por trás de muitos uniformes da polícia, alguns homens de reto caráter sonhavam com a paz e com a fraternidade e lutaram até a morte em defesa delas durante os momentos trágicos que marcaram suas disputas contra a ação deste exército do PCC. Na Bíblia, algumas palavras parecem definir com clareza como foi o pensamento angustioso durante os últimos momentos de vida dos que acreditavam no amor e morreram pela ação pecaminosa destas pessoas inescrupulosas. “Já cansado de tanto gritar, enrouqueceu-me a garganta. Finaram-se me os olhos, enquanto espero meu Deus. Mais numerosos que os cabelos de minha cabeça os que me detestam sem razão. São mais fortes do que meus ossos os meus injustos inimigos” (Sl 68, 4-5).
Parece que as verdadeiras intenções de conquista da facção PCC não ficaram à luz de suas táticas, porque o fato dela pedir para que os presídios tenham televisores para que seus integrantes possam assistir aos jogos do Brasil durante a Copa do Mundo de 2006 ou que se substitua o uniforme dos encarcerados por outros novos, dificilmente poderiam ser considerados como os únicos fins que impulsionaram traficantes de drogas, assassinos e outros criminosos a organizarem o planejamento de comunicação e a estrutura dos ataques terroristas que ocorreram entre os dias 12, sexta-feira e 15, segunda-feira, de maio de 2006, em cidades paulistas.
As pessoas interpretaram este ambiente caótico como a apoteose da formação de um novo tipo de opressão, que pode ser definida com a criação da ideologia de que não existe hora nem dia definidos para que facções marginais criminosas como esta mostrem suas forças de destruição à sociedade e aos “holofotes jornalísticos” da mídia.
Alguns estrategistas do PCC tiveram a intenção de criar falsos alardes sobre – e, de fato, praticar alguns – crimes “orquestrados em série” em ônibus, escolas, órgãos públicos, delegacias de policia, e provocar mortes, para inibir a sensação de segurança da mente dos que não cometem estes atos criminosos e tem apreço ao bem comum e, acima de tudo, aliená-los, para que eles se tornem escravos deste sistema de geração de medo urbano.
Parece que alguns integrantes do PCC notaram que grande parte dos meios de comunicação prefere “beber”, de forma sensacionalista, dos fatos sociais que sensibilizem as pessoas através da exploração do sentimento de terror, do que equilibrar a cobertura jornalística do sistema midiático, para que se ofereça além de tais coisas, algumas opções noticiosas alternativas, que mostrem, como por exemplo, algumas organizações sociais brasileiras que dedicam-se arduamente para garantir melhores condições às classes sociais menos favorecidas – de modo que com a reflexão de assuntos que digam respeito aos problemas da vida grupal, se possa promover reflexão e tratar algumas das “doenças da marginalização” criadas no ambiente da pobreza.
O evangelista São João comenta uma parábola sobre os ramos de videira que, de certa forma, pode ser comparada à situação da marginalização social. Quando ele diz que “o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira” (Jo 15,4), metafórica e comparativamente, pode-se imaginar que os ramos são os cidadãos, e que a seiva que deve circular dentro deles para que eles tenham vida, é o conjunto de coisas necessárias à vida social e psicológica do cidadão.
Nesta ótica, percebe-se que algumas crianças das classes sociais menos favorecidas não conseguem ter acesso às mesmas coisas que outras classes têm. Por isso, algumas são desnutridas, não têm condições de comprar livros, discos, participar de treinamentos de práticas esportivas em clubes, e recebem educação familiar e escolar que pode ser considerada precária.
Uma criança que não recebe amparo social é como um ramo que sofre alguma avaria ou que definitivamente é arrancado da videira. Assim como o ramo, esta criança se torna “marginal” e, aos poucos, por sentir carência da ligação com a “videira”, pode “secar”, isto é, morrer. Ela sem condições para viver também pode encontrar na criminalidade, coisas que possam satisfazer suas necessidade no que diz respeito à “seiva social”. Para tanto, tem-se como hipótese que a marginalização do indivíduo pode ser considerada como uma das causas para a existência da criminalidade urbana.
Para os que já sentem-se como ramos marginalizados, isto é, sem nenhum amparo, cabe a sociedade evitar que eles escolham a criminalidade como “seiva”. Pode-se fazer isto através de trabalhos integrados entre os mecanismos sociais de garantia de bem-estar e de defesa dos direitos humanos. Eles podem ligá-lo aos demais “ramos sociais”, para que ele não sinta necessidade de buscar outros meios para a satisfação de suas necessidades.
Alguns grupos ligados às comunidades da Igreja Católica Apostólica Romana, por exemplo, atuam na recuperação e reintegração à sociedade destas pessoas marginalizadas. De acordo com o sítio virtual da pastoral da criança, www.pastoraldacrianca.org.br, “hoje, em todo o Brasil são atendidas 1.638.191 crianças menores de seis anos, com custo mensal de R$ 1,33 por criança acompanhada. Pelo censo de 2000, a pastoral atende 18% das crianças de famílias que recebem até dois salários mínimos”. Segundo este sítio, em 2006, a pastoral da criança pretende acompanhar cerca de 15 mil crianças – só em Piracicaba, interior do Estado de São Paulo, a expectativa é que sejam assistidas mais de 8 mil.
Pode-se sustentar que o PCC e outras facções ilícitas foram criados a partir da junção de pessoas que já sofriam a marginalização, e que se sentiram desamparadas socialmente, principalmente quando eram crianças. Com iniciativas como as que foram apontadas anteriormente, pode-se criar mudanças nas estruturas sociais e fazer com que grande parte da sociedade não dependa da “seiva” econômica da criminalidade para sobreviver. Tais contribuições sociais podem colaborar para que as pessoas carentes recebam a “seiva social” e sejam “podadas” por um “agricultor”, para que consigam produzir seus “frutos”. “Eu (Jesus) sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto” (Jo 15, 1-2).

Muito prezado  Juliano,
Salve Maria.

    Muito obrigado pelo envio de suas consideraçãoes sobre o PCC e as causas da criminalidade crescente em nossas cidades. 
    Permita-me, porém, não concordar com algo do que você diz.
    Você aponta como causa da criminalidade crescente em nossa sociedade os seguintes fatos:

Nesta ótica, percebe-se que algumas crianças das classes sociais menos favorecidas não conseguem ter acesso às mesmas coisas que outras classes têm. Por isso, algumas são desnutridas, não têm condições de comprar livros, discos, participar de treinamentos de práticas esportivas em clubes, e recebem educação familiar e escolar que pode ser considerada precária”.

    Isso não e verdade. Se isso fosse certo, como se explicaria que Deputados, bem nutridos desde a infância, com acesso a livros e etc, formados em faculdades se tornaram mensaleiros, sanguessugas, etc.
    Meu caro, a causa da criminalidade é a falta de religião e de moral.
    E você me fala da pastoral da criança e do atendimento social que ela dá. Não adianta dar atendimento “social” sem dar catecismo. Crianças não são como animais aos quais se dá apenas comida e remédios. Crianças são filhas de Deus e, para elas, ninguém ensina o carecismo e a rezar. Sem Deus o crime só pode crescer.
    Também discordo de sua aplicação da figura da videira. Quando Nosso Senhor disse que Ele era a videira e nós os sarmentos, Ele quis dizer que quem não está unido a Ele pela Fé e pela prática dos mandamentos, seca e perece. Não pode dar fruto quem está separado de Cristo. Nossa sociedade está perecendo, porque perdeu a Fé e abandonou a prática dos dez mandamentos. Seria necesária uma Pastoral para ensinar os padres a ensinarem mais o Catecismo do que a dar cesta básica para os pobres. Os pobres mais do que fome de pão, têm fome da verdade. Mas, infelizmente, os padres moderninhos fazem muita pastoral e comunicados e não cuidam das ovelhas.
    Se o mundo hoje afunda no pecado é porque não há bons pastores.
    De que adianta haver pastorais se não há bons pastores?
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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