Montfort Associação Cultural

7 de maio de 2014

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Os novos católicos franceses, segundo Jean-Marie Guénois

A fé a a prática católicas voltam a germinar aqui e ali na juventude francesa. O primeiro dado impressionante é que 90% dos jovens filhos de católicos praticantes sejam também praticantes. Aparentemente, está se estancando a hemorragia de católicos na Igreja da França.   Em outra publicação, um prefeito da região parisiense afirma que 10% de seus cidadãos são católicos praticantes mas, entre os adolescentes, os católicos são 20%, pois a média dos filhos de suas famílias católicas era de quatro filhos, ou seja, o dobro das demais famílias. E também ele notara a fidelidade à fé recebida desses novos adolescentes.

Os políticos se assanham para capitalizar esses novos católicos…Quando os bispos – que são os pastores de direito – vão tomar a liderança desse movimento?

 

Católicos e rebeldes

 

Jean-Marie Guénois

Figaro Magazine

Original publicado em francês em 18/04/2014.

Tradução livre

 

Uma nova geração nasceu entre os católicos franceses. Plenamente engajada nas questões da sociedade, tais como o “casamento para todos”, ela provoca o debate até dentro da hierarquia da Igreja.

 

A Igreja da França tem a consciência pesada. Ela lastima ter “perdido” a classe trabalhadora ao longo do século XX… Mas, hoje, ela bem corre o risco de perder sua própria juventude! A cegueira de uma parte dos bispos em não ver o que em seu vocabulário, no entanto, denomina o “sinal dos tempos” é terrível. Há alguns meses, de fato, católicos firmes, jovens ou velhos, essencialmente famílias, mobilizaram-se em centenas de milhares diante das mudanças na sociedade desejadas pelo governo socialista. Entretanto alguns prelados, e não dos menos importantes, fingiram não ver essa movimentação…

 

Uma parte dos bispos certamente compreendeu e acompanhou essa indignação em massa, encorajando abertamente a resistência, e até mesmo indo manifestar-se pessoalmente. Mas, outra, incluindo a atual direção do episcopado francês, manteve-se reservada; considerando que o que estava em jogo – a sobrevivência ou desaparecimento da célula familiar composta por um homem, uma mulher e seus filhos – não valeria o transtorno. Por três razões: A Igreja, segundo eles, só teria a perder, em termos de imagem, nesse combate por uma “causa perdida” e retrógrada, porque seria importante, hoje em dia, “caminhar junto” com a evolução da sociedade. Ao envolver-se, a Igreja arriscaria, de acordo com eles, a se fazer instrumentalizar, num combate puramente político, pela direita e pela extrema direita. Alguns bispos, enfim, bastante benevolentes com o governo socialista, não queriam perturbar a ação deste, considerando a questão do casamento homossexual como um debate social de importância secundária.

 

Único problema: alinhando-se  com o politicamente correto, esses bispos perdem seu crédito junto a uma parte dos católicos, sobretudo junto aos jovens, que, longe de serem “reacionários”, tornaram-se autênticos ‘’rebeldes”, interiormente insubmissos, que não se encaixam em categoria política alguma, menos ainda nas de extrema direita; mas que compreendem mal por que a hierarquia católica é tão relutante em se envolver abertamente nos grandes assuntos da sociedade, preferindo se refugiar no não dito em vez de por em discussão as divergências que dividem os bispos.

 

Em Lourdes, os bispos se explicaram vivamente.

 

Como exceção, no último dia 8 de abril, um pequeno milagre se deu em Lourdes. Reunidos a portas fechadas em seu encontro de primavera, os bispos da França se explicaram “muito sinceramente”, de acordo com seu porta-voz, Mons. Bernard Podvin, sobre os assuntos que os dividiam há dois anos.

 

A gota d’água que fez transbordar o jarro episcopal foi o “caso Brugère”. Em 19 de março passado, essa filósofa, discípula de Judith Butler – a papisa americana da ideologia de gênero – foi a convidada da conferência episcopal, em Paris, para uma jornada de formação dos responsáveis diocesanos da pastoral familiar… Fabianne Brugère deveria, é verdade,  tratar do “care”, da “atenção” a ser dispensada aos outros, uma de suas especialidades, e não sobre gênero.

Mas o fato é que sua escolha, pela diretora da Comissão para Família e Sociedade da Conferência Episcopal, Monique Baujard, foi tida, a justo título, pelos bispos e delegados diocesanos, como uma verdadeira provocação. A polêmica se inflamou ao ponto de a conferência ter sido cancelada pelo bispo responsável pela família, Mons. Jean-Luc Brunin, que, entretanto, havia apoiado o convite. Isso começou então outro incêndio: os defensores da “abertura” acusaram os manifestantes de recusar o diálogo com a sociedade, alguns denunciando um “recuo” do episcopado diante de uma “extrema direita” infiltrada na Igreja via “Manif pour tous[1]!

 

Alguém poderia pensar que essa falta de discernimento por parte da Comissão da Família e Sociedade do Episcopado conduziria a mudanças. Não houve nada disso. Não apenas Monique Baujard declarou que esse recuo representava “um passo de lado e não um passo para trás”, portanto uma etapa estratégica, para prosseguir dentro da Igreja o trabalho visando a conduzir os fiéis a abordar de outra forma as questões da família; mas também em Lourdes, Mons. Brunin, presidente do Conselho Família e Sociedade do Episcopado, cujo mandato chegava ao fim, foi mantido para um novo mandato por seus pares.

 

Os bispos distantes da “Manif pour tous

 

Desde a substituição do Cardeal André Vingt-Trois, em abril de 2013, pelo Mons. Georges Pontier, na presidência dos bispos, uma clara distância foi estabelecida em relação aos protagonistas da mobilização contra o casamento gay.

 

A discussão franca de Lourdes, em 8 de abril, não mudou em nada a situação. Se os bispos partem todos da mesma constatação – a família clássica está sendo destruída aos poucos pelas mudanças na sociedade – uns, como os cardeais Vingt-Trois e Barbarin e muitos bispos, tais como Mons. Brouwet e Mons. Rey, pensam que essa é uma razão para não desistir; outros, como Mons. Brunin, consideram que a Igreja não deve privilegiar uma visão única da família, mas levar em conta todas as suas formas, colocando-as num mesmo plano. Essa prudência – leia-se esse medo – a jovem geração de católicos não compreende.

 

Comprometida há um ano e meio no combate à lei Taubira, ela inventou novos meios de mobilização, provocada por um governo que cometeu o erro de colocar luvas de boxe para lutar contra um judoca: derrubando violentamente ao chão esses jovens católicos, o governo  despertou neles uma consciência cívica. Mas essa geração não nasceu de maneira espontânea durante as manifestações dos dois últimos anos. Ela vem de muito mais longe.

 

Pois o ponto chave dessa geração não tem outro nome senão a interioridade… Rebeldes éticos, esses jovens solidamente estabelecidos obtêm seu oxigênio num oásis interior de… oração e de cultura. Oração? Duas pesquisas, realizadas separadamente e com metodologias diversas, em 2011, pelo La Croix e pelo La Vie, e que visavam traçar o perfil dos jovens da JMJ chegaram ao mesmo resultado.

 

O que faz a força da geração dos jovens católicos de hoje é que a fé não é transmitida entre eles através dos movimentos da Igreja rotulados de Ação católica, mas, em 99% dos casos, no coração das… famílias. E em particular através dois pais que, eles próprios, pertenceram à famosa “geração João Paulo II”. Uma geração que há três décadas tinha 20 anos, e que foi  profundamente marcada pelo impulso missionário dado à Igreja pelo papa polonês e por sua preocupação em encorajar as famílias cristãs.

 

A herança da geração João Paulo II

 

Os jovens católicos atuais, portanto, não nasceram do chão de Paris. Eles receberam e continuam a receber da geração precedente uma visão da Igreja mais unida, mais pacificada e mais espiritual, livre das velhas disputas internas dos anos 70 entre progressistas e tradicionalistas. À maneira de João Paulo II, os pais dos jovens de hoje preferiram edificar, construir, avançar, descobrindo na Igreja uma casa, não tão ultrapassada assim, e que soube adaptar tradição e modernidade para uma presença renovada na sociedade. Numa palavra, João Paulo II soube devolver aos cristãos um verdadeiro orgulho de serem católicos. Essa herança exerce ainda efeitos concretos.

 

Como resultado, os filhos dessa geração, hoje com idade de 16 a 30 anos, são antes de tudo praticantes. 90% deles o são! Eles podem não representar mais que 1% dos católicos praticantes de toda a França, mas não vão à igreja no domingo por costume ou motivo social e cultural: eles vão para suprir uma necessidade interior.

 

Índice muito surpreendente, mas muito característico desses novos jovens católicos, um número significativo dentre eles – 6% – vai à missa todos os dias! O fenômeno é certamente urbano, mas bem real. Não é raro ver nas igrejas, em dia de semana, ao lado do estereótipo da velhinha fiel à missa quotidiana, estudantes de tênis esportivos e camisetas; cabelos despenteados, mas de joelhos; imersos no recolhimento…

 

Porque esses jovens tem algo de místico. Para 80% deles, a fé cristã é, sobretudo, uma maneira de viver “uma grande proximidade com Deus”. E, ainda de acordo com as pesquisas, 77% reservam à Eucaristia (a crença católica na “presença real de Cristo” na hóstia, consagrada e consumida no momento da comunhão) um lugar “essencial” ou “muito importante” em sua vida. E, uma vez que essa questão da Eucaristia é uma marca católica, 72% dos jovens dessa geração se sentem antes “católicos” que “cristãos”. A mesma pesquisa, nos anos 70, teria tido resultado inverso: era então de bom tom se dizer antes “cristão” que ser “católico”.

 

Esses jovens, enfim, numa proporção menor, mas ainda majoritária, se dizem, 58% deles, confortáveis com o ensinamento moral da Igreja católica. Aí se encontra, pois, quase com todos os traços, o perfil duma geração que não será mais aquela de João Paulo II, papa que esses jovens conheceram como já de idade avançada, mas uma autêntica “geração Bento XVI”, com identidade católica e preocupada em levar uma vida espiritual aprofundada em torno do mistério da Eucaristia, dois principais eixos do papa alemão.

 

Tal confiança na Igreja se exprime também fortemente, aos olhos dessa geração, através da figura do padre. Se os pedimos, por exemplo, para citar “uma pessoa de referência”, 62% deles cita o nome de um padre! Aparece aí – ao lado de seus pais – uma segunda filiação. Essa geração não existiria e não seria assim convicta sem o testemunho dos padres, que têm hoje entre 30 e 50 anos e que foram, eles mesmos, tocados pelo pontificado de João Paulo II. De fato é necessária uma dezena de anos para “fazer” um padre. O clero “Bento XVI”, se o podemos dizer, papa eleito em 2005, acaba de começar a sair dos seminários. É portanto o clero “João Paulo II” que, há bons vinte anos, está em ação.

 

Esses padres são menos numerosos que seus predecessores, mas movem montanhas. Seria preciso citar centenas de nomes. Tais como o padre Ronan de Gouvello, que ressuscitou o santuário de Rocamadour, inventando formas atrativas de peregrinação para os jovens; como o padre Pierre-Hervé Grosjean, criador, juntamente com dois colegas, do site Padreblog, mas principalmente fundador da escola de verão Acteurs d’avenir[2], que atrai dezenas de estudantes ávidos por uma perspectiva cristã da sociedade; como o padre Alexis Leproux, fundador do grupo Even, que, toda segunda-feira à noite, na nave lotada da igreja Saint-Germain-des-Près, oferece uma catequese sistemática da fé católica…

 

Entre os Veilleurs[3], os católicos são numerosos

 

Através desses padres, milhares de jovens se beneficiam de uma formação contínua da fé e são incentivados a traduzi-la em atos. Esses jovens católicos, antes de tudo espirituais, provam também sua capacidade e sua vontade de se engajar na sociedade, como o demonstrou, por exemplo, o movimento dos Veilleurs. Um dos líderes, Gaultier Bès de Berc, da Faculté Nationale, é professor de letras. Durante as noites, ele lia Antonio Gramsci (1891-1937), italiano que foi um dos grandes teóricos do marxismo e que entendeu que a luta política mais eficaz passava pela cultura e pelas ideias.

 

Essa arma formidável foi então manejada, com brio e sem agressividade, por esses jovens católicos. “Nós queremos agir na cultura”, confirma Axel Rokvam, cofundador dos Veilleurs, movimento cujo objetivo é “suscitar uma revolução interior e espiritual”, recusando “todo rótulo político” e sem misturar gêneros, respeitando a laicidade. É assim que esses milhares de jovens Veilleurs – existem 200 grupos ativos na França – jamais fizeram profissão de associação religiosa.

 

Espiritual e instruída, essa nova geração que se afirma católica, sem ter vergonha alguma, perturba uma parte dos bispos, mas ela mesma se sente livre diante da hierarquia. Ela interessa aos partidos políticos, particularmente à direita, mas estima sua independência. Desprovida de líder oficial, enfrenta brigas grandes, como a agitada pela Manif pour tous. Ainda que minoritária, aparece como um presságio dum possível despertar do catolicismo na França. Cobiçada, surpreendente, inspirada, essa geração de rebeldes é um berço de talentos. Ela ainda não disse sua última palavra.

 



[1] “Manifestação para todos”.

[2] “Protagonistas do futuro”.

[3] “Vigias”.

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