Montfort Associação Cultural

8 de agosto de 2014

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Oração, sacrifício e trabalho incansável: Santo Cura d’Ars, modelo dos sacerdotes, 8 de agosto no calendário tridentino

Corpo incorrupto de São João Maria Vianney.

Em 2009, nos 150 anos da morte de São João Maria Vianney, o Papa Bento XVI proclamou o Ano Sacerdotal, propondo como exemplo aos sacerdotes do mundo inteiro a figura desse simples pároco de aldeia. Na audiência em que comenta essa escolha, o Santo Padre dizia: “Dependem da santidade a credibilidade do testemunho e, em última análise, a própria eficácia da missão de cada sacerdote. (…) “A sua existência foi uma catequese viva, que adquiria uma eficácia extremamente singular quando as pessoas o viam celebrar a Missa, deter-se em adoração diante do tabernáculo ou transcorrer muitas horas no confessionário.” E, em meio ao desprestígio que cerca a figura do padre em nosso mundo – e Igreja – secularizados, lembra Bento XVI: “O Santo Cura d’Ars manifestou sempre uma elevadíssima consideração pelo dom recebido. Afirmava: “Oh! Como é grande o Sacerdócio! Não o compreenderemos bem, a não ser no Céu… Se o compreendêssemos na terra, morreríamos, não de susto, mas de amor!”  

“Por onde passam os Santos, Deus com eles passa”. Foi no ano de 1772, que um santo mendigo, Bento José Labre, passando por Dardilly, se hospedou na humilde casa dos Vianney. A benção de Deus entrou com ele naquela mansão; pois poucos anos depois, nasceu lá aquele que no mundo inteiro é conhecido por João Vianney – o santo Cura d’Ars. Que eficácia maravilhosa da esmola! Deus dá a pobres camponeses um filho, que vem a ser um dos seus grandes servidores, recompensando assim uma obra de caridade, que dispensaram a um pobre mendigo.
João Batista Maria Vianney nasceu e foi batizado em 8 de maio de 1786. Desde a infância, manifestava uma forte inclinação à oração e um grande amor ao recolhimento. Muitas vezes era encontrado num canto da casa, jardim ou no estábulo, rezando, de joelhos, as orações que lhe tinham ensinado: o Pai-Nosso, a Ave-Maria, etc. Os pais, principalmente a piedosa mãe, Maria Belusa, cultivavam no filho esse espírito de religião e de piedade.
A França achava-se agitadíssima com os horrores da Revolução, e como os sacerdotes estivessem exilados ou encarcerados, não foi possível a João Vianney encontrar um mestre que lhe desse instruções sobre as ciências elementares. Era natural, pois, que passasse a mocidade entregue aos trabalhos do campo. Entretanto, João continuava as práticas de piedade com todo fervor e o pecado era para ele coisa conhecida só de nome. Fez a Primeira Comunhão numa granja, sendo que a perseguição religiosa não permitia o culto público nas igrejas (e, quando o permitia, era por mãos de padres desligados da comunhão com o Papa).
Amainado o temporal da revolução, Vianney achou um grande amigo e protetor na pessoa do Padre M. Balley, vigário de Ecully, que descobrira na alma de João qualidades superiores, que deviam ser aproveitadas e cultivadas, para a maior glória de Deus. Se era grande o fervor a admirável virtude do jovem Vianney e se melhor mestre não podia haver do que o Padre Balley, tudo parecia desfazer-se diante de uma barreira, que se levantava insuportável: a falta de inteligência do estudante. Não fosse a persistência imperturbável do santo sacerdote, Vianney teria desanimado diante das dificuldades que se lhe afiguravam invencíveis. Com as orações e a caridade redobrada que dispensava aos pobres, Vianney alcançou a graça de poder continuar os estudos com algum proveito.
Quando estava prestes a ser recebido no seminário, veio-lhe ordem de apresentar-se à autoridade militar de Bayonne. Foram vãos os esforços do Padre Balley para obter isenção do serviço militar para o protegido, e pareciam aniquiladas de vez todas as esperanças. Vianney caiu doente e passou quatorze meses nos hospitais de Lyon e de Roanne.Passado esse tempo, ninguém mais se lembrou dele para o serviço militar, e só assim pode matricular-se no pequeno Seminário de Verrières e, mais tarde, no grande Seminário de Santo Irineu. Mestres e alunos eram unânimes em conceder a Vianney a palma quanto à virtude e santidade entre os condiscípulos. O preparo intelectual do jovem, porém, era tão deficiente que os mestres não se viram com coragem de apresentá-lo para a ordenação.
O vigário geral do Cardeal Fesch, Mons. Courbon, que em última instância devia decidir a questão, deu consentimento para que Vianney fosse admitido ao sacerdócio, mas impedido de ouvir confissões. O jovem teólogo recebeu as santas Ordens a 9 de agosto de 1815. Vianney contava já 29 anos. Os primeiros três anos do sacerdócio passou-os na companhia e sob a direção do primeiro mestre e amigo, Padre Balley. Este faleceu e a Cúria episcopal nomeou Vianney como Cura da Paróquia de Ars-sur-Formans, povoado localizado alguns quilômetros a norte de Lyon.

Conta a tradição que na estrada ele se dirigiu a um menino pastor dizendo: “Me mostras o caminho de Ars e eu te mostrarei o caminho do céu”. Hoje, um monumento na entrada da cidade lembra esse encontro.

O novo campo de ação era o mais ingrato possível. Ars era um lugar sem religião. A igreja vivia deserta, os Sacramentos não eram frequentados, trabalhava-se aos domingos e a frequência a bailes e cabarés estava na ordem do dia. Vianney, vendo o estado das coisas, teve ímpetos de abandonar tudo. “Que vou fazer aqui?” – exclamou. – “Neste meio nada farei e tenho medo até de perder-me”. Mas logo o seu zelo se lhe reanimou. Fixou residência na Matriz, e sua primeira ocupação era rezar pela conversão dos paroquianos. Desde a manhã à noite, com pequenas interrupções, ficava de joelhos diante do altar do Santíssimo Sacramento. As frugalíssimas refeições ele mesmo as preparava. Depois começou a procurar as famílias. Nas visitas lhes falava de Deus, dos Santos, das coisas da religião. Se bem que a maior parte não lhe desse importância, um ou outro reparava na batina rota e velha, na modéstia e piedade, no aspecto austero e mortificado do vigário. Pouco a pouco o povo ficou conhecendo o pároco, cujas orações e mais ainda o exemplo acabaram por franquear-lhe o caminho aos corações de todos. Alguns começaram a frequentar a Santa Missa.

Cozinha onde o Santo Cura preparava suas modestíssimas refeições

O número daqueles que acompanhavam o piedoso Cura na recitação do Rosário todas as tardes crescia de dia para dia, e depois de algum tempo o Santíssimo não ficava nenhuma hora durante o dia sem adorador. A Comunhão frequente foi pelo Santo Cura introduzida na Paróquia, com muita felicidade. Para as senhoras se fundou a Confraria do Rosário, e para os homens a Irmandade do Santíssimo Sacramento.
Tendo assim elevado a certa altura a vida religiosa na paróquia, Vianney passou a combater os abusos. O zelo de pastor dirigiu-se principalmente contra os cabarés, as danças e a profanação do domingo. Sem recorrer a meios rigorosos e ameaças, fazendo, pelo contrário, prevalecer a caridade, Vianney conseguiu que um cabaré após outro, se fechasse. Quanto à dança, os espíritos se dividiram em duas correntes: uma a favor da campanha do vigário e outra contra. Veio a festa de São Sixto, padroeiro do lugar. O baile fazia parte integrante do programa dos festejos profanos. Fizeram-se os convites do costume. Mas a decepção dos moços foi grande, quando, à hora do baile, nenhuma moça lá apareceu. E o baile não se realizou.
Restava ainda restabelecer o domingo, em toda a sua dignidade. Tão frequentes, tão insistentes e persuasivas eram as exortações do vigário a respeito do trabalho no domingo que determinaram mudança completa no pensamento do povo, o qual, em seguida, passou a observar, com todo o rigor, o descanso dominical.
Ars estava renovada. Os vícios já não existiam. Abusos foram extirpados. Todos queriam ser bons cristãos. Respeito humano era coisa desconhecida em Ars. Incorreria na censura pública quem não quisesse praticar a religião. Não se ouvia mais nenhuma blasfêmia; não existia inimizade alguma em Ars. Ao toque do Ângelus os homens se descobriam e interrompiam o trabalho, para rezar as Ave-Marias. O confessionário se via solicitado até altas horas da noite. Aos domingos a igreja estava sempre repleta, por ocasião das Missas, das Vésperas, do Catecismo e do Terço. Foi preciso o vigário alargar a Matriz e construir novas capelas, como as de São João Batista, de Santa Filomena, de Ecce Homo e dos Santos Anjos.

A pequena igreja da cidade foi aumentada pelo Santo Cura. Mas a parte posterior com a cúpula e as torres brancas foi construída após sua canonização.

Conhecendo a grande miséria das almas e os perigos em que se achavam as pobres órfãs, Vianney fundou na Paróquia um asilo, a que deu o nome de “Providência”. Para as asiladas era um pai que sacrifícios não media para que nada lhes faltasse. Essa fundação, em si tão útil e boa, foi para Vianney uma fonte de desgostos. Mais de uma vez lhe sobreveio o desânimo e profundamente desgostoso, exclamava: “Ah! se tivesse sabido o que quer se dizer ser sacerdote, eu teria procurado a minha salvação na Cartuxa ou na Trapa”. Por duas vezes tentou fugir de Ars para ver-se livre do pesado fardo do ministério pastoral.
O segredo dos grandes resultados espirituais, na paróquia de Ars, estava unicamente na santidade do Cura. Vianney era homem da oração e da penitência. A um colega que o visitou e dolorosamente se queixou do triste estado em que se achava, perguntou: “Rezastes entre lágrimas? Não é bastante. Jejuastes já? Deitastes-vos sobre o chão duro e tomastes a disciplina? Se ainda não o fizestes, não penseis ter feito tudo”. O que a outros aconselhava, ele o praticava. Levava vida de extrema pobreza. Dos pobres da Paróquia era Vianney o mais pobre. Possuía uma só batina e esta cheia de remendos. O estado do chapéu era tal, que provocava o riso dos colegas. Vianney não possuía nada e nada guardava. E quanto bem não fez às órfãs, e aos pobres!
A vida do Cura d’Ars em nada difere da vida de austeridade dos grandes eremitas do deserto do Egito. Quando muito, tomava três refeições cheias por semana, e que refeições! O “cardápio” não constava senão dumas ervas cruas, pão seco e água. O sono era um repouso de duas horas apenas. Quando se tratava da conversão dum pecador, mais apertava o jejum, e a cama era trocada pelo chão.
A saúde de Vianney era fraquíssima. O Santo sofria cruciantes dores nos intestinos, dores de cabeça violentas. Vinte vezes esteve doente e vinte vezes se curou subitamente, fato que grande admiração causou aos médicos. Houve quem lhe dissesse que suas penitências excediam os limites do lícito, e Vianney respondeu-lhe: “O Senhor não sabe que meus pecados exigem um tratamento como este”. Além destas práticas comuns de penitência, Vianney usava ainda outras como a flagelação, o cilício, etc.
Se com aquela santa vida agradava a Deus, tanto mais provocava as iras do inimigo, que o perseguia com toda a sorte de malefícios, chegando a ponto de fisicamente o maltratar. As influências diabólicas devem ser atribuídas também às calúnias, de que Vianney foi vítima. Tudo isso, porém, não conseguia roubar-lhe o contentamento íntimo e a alegria da alma.
Nos últimos anos o organismo lhe denunciava um estado de fraqueza extraordinário. Quando rezava o Terço na igreja, sua voz era quase imperceptível. No mês de maio de 1843 lhe sobreveio uma forte pneumonia, que lhe pôs em grande perigo a vida. Vianney pediu que lhe administrassem os santos Sacramentos do Viático e da Extrema-Unção. Diante da expectativa da morte, o Santo invocou uma grande Padroeira, Santa Filomena, pedindo que o curasse, ainda que fosse necessário um milagre. Santa Filomena curou-o e consolou-o com sua aparição.
Vianney possuía um grande amor ao Santíssimo Sacramento. Este amor, este fogo, se manifestava nas visitas que fazia a Jesus na Eucaristia, nas alocuções e principalmente na Santa Missa. Quem o via celebrar tinha a impressão do celebrante ver o próprio Nosso Senhor. Deste amor lhe brotava o culto aos grandes amigos de Deus: a São João Batista, a São José, a Santa Filomena – esta, sua padroeira por excelência – e à Santíssima Virgem. Daí também o zelo infatigável pela conversão dos pecadores.
Vianney não era só pastor das almas de Ars. Deus quis que o pobre Cura fosse o Apóstolo universal do século. A santidade do pobre Vianney atraía as almas, que nas suas necessidades o procuravam, para a ele se confessar e dele receber conselhos e conforto. Esta afluência durou trinta anos e só por uma intervenção sobrenatural pode ser explicada. As peregrinações a Ars começaram em1826. De 1835 em diante, o número anual de peregrinos que procuravam o Cura d’Ars, excedia a 80.000. Eram leigos e sacerdotes, bispos e cardeais, sábios e ignorantes, que vinham ajoelhar-se-lhes aos pés. Em 1843 recebeu um coadjutor e os missionários diocesanos vinham de vez em quando lhe prestar serviços também.
Inúmeros eram os milagres que se operaram na humilde casa do Cura d’Ars. Tão numerosas eram as curas devidas à intervenção de Vianney, que alguém um dia lhe disse: “Senhor Cura, basta que digais apenas ‘quero que estejas curado’ e a cura está feita”. Vianney ouvia os doentes em confissão e dirigia-os à capela de Santa Filomena. Era lá que os milagres se efetuavam. Só Deus sabe quantas conversões se realizaram em Ars, quantas almas lá encontraram a paz desejada.
Vianney morreu a 4 de agosto de 1859, mas a sua memória ainda está viva e glorioso se lhe tornou o túmulo. Declarado “venerável” por Pio IX, em 1925 lhe foi conferida a honra dos altares, pela solene canonização proferida pelo Papa Pio XI.
No Calendário Romano antigo, é comemorado a 8 de agosto, pois para a data de sua morte a Igreja há tempos já fixara festa para São Domingos de Gusmão.
(Texto extraído de “Na Luz Perpétua”, por Pe. J. B. Lehmann,
e disponível na Página Oriente)
Fonte: Missa Tridentina na Paróquia São Sebastião

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