Montfort Associação Cultural

31 de maio de 2006

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Onde estava Deus durante o holocausto?

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Jordano Copetti
  • Idade: 38
  • Localizaçao: Cruz Alta – RS – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação concluída
  • Profissão: Médico
  • Religião: Católica

O Papa bento XVI questinou ontem, na sua visita à Polônia, no campo de concentração de Auchvitz, onde estava Deus no holocausto, porque Ele se calou e permitiu que tantas vidas fossem massacradas. Esta pergunta vindo de um Papa levanta muitas questões:
- O Papa não tem as chaves do céu? Não ocupa o trono de Pedro? Então como ele não sabe porque Deus se calou durante o holocausto?
- Se o Papa não sabe porque Deus se calou, como culpar que pessoas comuns duvidem da existência de Deus e se afastem da Igreja?
- Se Deus se calou no holocausto, no maior massacre da história, quando então ele vai se manifestar?

A pergunta do Papa deixa todo um mundo inseguro. Se o Papa não sabe porque Deus se calou, quem poderá manter uma fé firme?

Jordano

Muito prezado Dr.Jordano,
Salve Maria.
    Agardeço-lhe por sua carta que honra o site Montfort pela confiança com que nos faz sua pergunta.
    Creio que poderei ajudá-lo a compreender a pergunta do Papa. Também Nosso Senhor, na Cruz, perguntou a Deus Pai: “Senhor, Senhor, por que me abandonaste?
    Há mistérios na ação de Deus na História que só compreenderemos no Juízo Final. O que o Papa Bento XVI quis dizer é que a maldade humana — tal qual se revelou em Auschwitz — nos coloca dante de dois mistérios: o mistério do mal e o mistério da História.
    Deus nos deu liberdade pela qual podemos responsavelmente escolher amá-Lo ou, infeliz e desgarçadamente, odiá-Lo.
    Nisso se oculta o que a Igreja chama de mistério da iniquidade. Outro mistério é o da História, na qual Deus providencialmente permite que aconteça o mal — até o do Deicídio no Calvário — e desse mal Ele é capaz de retirar um bem. Santo Agostinho disse que Deus é tão bom que até do mal retira algum bem, enquanto o diabo é tão mau que até do bem quer tirar um mal.
    A exclamação de Bento XVI diante do campo de atrocidades e genocídio de Auschwitz é a pergunta perplexa do homem diante do mistério da maldade humana que fica estarrecida e pergunta: Meu Deus por que permitiste isso? Do mesmo modo que perguntamos: Por que, meu Deus, permitistes a morte de teu Filho na Cruz?
    Como o senhor, doutor Jordano, certamente assistindo doentes terminais em sofrimentos terríveis se perguntou: Meu Deus, por que?
    Esse é o sentido da pergunta do Papa. Não que Bento XVI não soubesse onde estava Deus. Apenas sua pergunta era um espanto diante da imensa maldade humana. Coloco então aqui as palavras do Papa que terminam na citação de um salmo, mostrando a conformidade com a vontade de Deus mesmo quando ela nos é misteriosa e incompreensível, como é incompreensível a maldade humana:

“Onde estava Deus naqueles dias? Porque Ele se calou então? Como pode tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêem-nos à mente as palavars do Salmo XLIV, a lamentação de Israel sofredor: “Tu nos batestes num local de chacais, e nos envolvestes em sombras tenebrosas. Por Ti fomos postos à morte, considerados como ovelhas num matadouro. Levanta-Te Senhor! Por que pareceis dormir , Senhor? Levanta-Te, não nos repilais para sempre! Por que escondes o teu rosto, esquecendo de nossa miséria e opressão? Porque estamos prostrados no pó, e o nosso corpo está extendido no chão. Levanta-Te, vem em nossa ajuda; salva-nos por tua misericórdia” (Salmo 44,20.23-27).
    Essas belas palavras de Bento XVI e do Salmo XLIV, cabem também para a situação da Igreja, hoje.
    Porque hoje, caro dr. Jordano, a Igreja sofre um massacre de almas semelhante ao de Auschwitz. Vivemos num Auschwitz espiritual. 
    E nós também, como São Pedro na barca durante a tempestade, podemos perguntar a Deus Nosso Senhor: “Onde estás, ó Senhor? Por que pareceis dormir? Não vedes que perecemos? Não vedes quantas almas se perdem nos vícios, nas drogas, na luxúria e no crime? Não vedes que vossos sacerdotes — com santas exceções — traem a Fé? Onde estás, Senhor Jesus, que não vedes a tragédia da Igreja, as profanações das Missas, o escândalo de tantos sacerdotes infiéis a seus votos e traidores da Igreja, correndo atrás dos ridículos e mentirosos aplausos do mundo. Onde estás, Senhor? Por que pareceis dormir? Por que permitis tanto mal?”
    Espero, Doutor, tê-lo ajudado a compreender as palavras do Papa, e que, comigo o senhor reze por Bento XVI, — como ele mesmo tem pedido — para que Deus dê a ele a coragem para enfrentar os lobos vermelhos e avermelhados…
    Escreva-me sempre.
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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