Montfort Associação Cultural

25 de outubro de 2007

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Onde está o respiradouro para os católicos?

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Teresa Cristina Gomes Martins
  • Localizaçao: Duque de Caxias – RJ – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Profissão: Funcionária Pública
  • Religião: Católica

Prezado professor: Louvado seja NSJC

Há dois meses estou explorando seu site. Quando acho que estou acabando, vejo que ainda tem muita coisa. É uma verdadeira biblioteca! Tenho imprimido muita coisa, já tenho uma gaveta cheia de artigos e respostas interessantes, verdadeiramente espirituais (e até espirituosas) Na verdade já li muito e conheço bem suas posições. Estou espantada. Não sabia que existiam pessoas com tais opiniões na igreja. Veja bem, eu nasci em 1957 e a Igreja que conheço é pós Concilio Vaticano II. É difícil pra mim imaginar como seria uma Igreja diferente que deva ser restaurada. Mas , no fundo, eu a conhecia sim, pois meu coração sempre amou a Igreja só que amava algo que não via e o que via detestava.

Quando criança li as aparições de Fátima e na adolescência e pós adolescência li a vida de alguns santos. Nas entrelinhas eu percebia coisas diferentes da igreja que eu conhecia.

Lembro também de minha mãe que não freqüentava igreja mas era profunda conhecedora de tudo (teologia, exegese, sacramentos, encíclicas, historia da igreja etc). Dava um banho na minha tia evangélica que queria “convertê-la”. Mas não freqüentava igreja. “Por que , mãe?” “Deixa que eu me entendo com Deus”, ela dizia. Parece que não gostava muito de missa em vernáculo e padre de frente, e cantos populares…sei lá, “que idéia!!! Que bobagem!” , eu pensava. Mas ela não dava margem pra questioná-la, apenas não ia a igreja, embora nutrisse profunda fé na Santíssima Eucaristia. Não gostou quando eu quis ser freira, mas não tentou impedir. Nunca deixou de rezar o terço, e no fim da vida voltou a receber a Eucaristia quando já de cama pela doença, mantendo entretanto sua postura e deixando o confessor meio confuso com suas palavras, sua santidade e sua coerência.

Eu prossegui minha vida na igreja local (uma diocese arraigada na Teologia da Libertação). Entrei pro convento e saí logo. Aquilo não era a vida religiosa que eu procurava. Só os mosteiros pareciam conservar o Espírito, mas não sei se eu tinha vocação monástica. Continuei na igreja. Fui catequista, depois de adolescentes, preparadora de batismo, ministra de eucaristia de doentes, depois ministra da Palavra e da Liturgia. Pra mim tava tudo errado o que nos ensinavam e mandavam ensinar, não só porque divergia de minhas opiniões pessoais, mas porque era incompatível com a teoria que eu tinha da Igreja e com o que eu sabia sobre suas verdades.

Quando catequista eu criei minha catequese, não seguia os subsídios moderninhos que reinterpretavam a escritura e transformavam a catequese em água morna com açucar.

Quando preparadora de batismo eu falava do pecado original e de salvação, não dava a mínima pros programas usados na paróquia para os encontros com pais e padrinhos.

Quando ministra das celebrações fazia as “homilias” seguindo a exegese que eu descobria na leiltura dos padres da Igreja, e no catecismo romano, e ilustrava com exemplos de vida de santos já completamente esquecidos ou distorcidos… Eu falava com encanto de uma Igreja que nem eu nem os ouvintes conheciam, mas eles percebiam que contrastava com a idéia corrente em nossos cursinhos de aprofundamento, cursinhos bíblicos, cursinhos de história da Igreja dados pela diocese ou paróquia.

Tudo isso não era aceito por uma igreja seguidora da TL. Entrei junto com outros leigos da diocese num curso de Teologia da PUC (curso a distância) pensando poder descobrir onde os pobrezinhos estavam errando pra talvez ajudá-los. Mas saí logo no início. Não concordava que históra sagrada partisse de Abraão e não de Adão. E vi que não havia diálogo possível quando na aula inaugural o coordenador do curso (famoso teólogo Vitório Mazzuco(?)) falou que Moisés nunca existiu e que Jesus na verdade não fez nenhum milagre.

Comprei o curso do MSB (Mater Eclesiae) e fiz outro curso a distância sozinha (de teologia tomista ) elaborado por dom Estevão Bittencourt.

Ano passado apresentei meu nome para preparar um grupo de jovens pra crisma (entre os quais estavam meus filhos). Apesar de toda minha história na comunidade (30 anos), apesar de minha experiência e minha vida pessoal condizente com a fé não me deixaram ser catequista de crisma pois perceberam que eu não baixava a cabeça pra linha doutrinária “libertadora” usada na diocese de Mauro Morelli a qual pertenço (mas que felizmente já não é mais de Mauro Morelli, tem um bom bispo agora – Dom José Francisco – mas que ainda não conseguiu botar os pingos nos iis. É muito i pra botar pingo!!!). Preferiram não crismar os jovens do que confiá-los a mim, e eles acabaram debandando por falta motivação eclesial (entre os quais meu filho).

Não gosto da RCC mas olhava pra ela com simpatia pensando ser uma janelinha um respiradouro pras novas gerações e uma resposta irritante a TL pois ganhava adeptos e esvaziava igrejas evangélicas e CEBs . Eu não gostava daqueles teatros e besteiróis deles mas talvez fosse uma saída …pros outros, a final os que não tem raízes pra onde podem correr? Seria melhor a RCC do que o protestantismo , pelo menos eles tem os sacramentos, amam N.Senhora e consideram o papa sucessor de Pedro e chefe da Igreja e não o anticristo.

Mas o senhor não aprova a RCC.

Pensei em crismar meus filhos na igreja ortodoxa., afinal seus sacramentos são válidos. Mas o senhor diz que é pecado. Até meu curso de iniciação teológica de dom Estevão, acho que o senhor achará duvidoso.

Concordo com 95% de suas opiniões, mas o senhor percebe que não deixa nenhuma brecha? Que nos resta? O site Montfort? Acho que é pouco.

Há dois ou três anos apeguei-me a Medjugorie, como um náufrago a uma tábua e ela vem me dando alento e esperança. É difícil cumprir seu programa: jejuns, rosário diário, confissões mensais, missa e eucaristia quase todos os dias… mas pensar que coopero com a santa virgem pra converter o mundo e restaurar a igreja, tem me dado forças. … Mas o senhor também critica Medjugorie. Que nos resta, professor?

Tenho muita esperança no santo papa Bento XVI, já o admirava desde que li o livro “A fé em crise”. Foi um marco na minha vida. Vi, relatado ali tudo que eu pensava e não sabia dizer, nem pra mim mesma. Foi quando percebi que não estava sozinha , que Deus pensava como eu , ou melhor, eu pensava segundo Deus. Pois até então tinha horas que achava que eu é que talvez precisasse me converter. A partir daí eu vi que o Espírito havia me preservado. “No fim dos tempos haverão inverdades capazes de seduzir SE POSSÍVEL até os escolhidos”, disse Jesus. Nesse dia eu me senti escolhida, e unicamente por graça. Preservada de acolher as mentiras que seduzem gente muito melhor do que eu , mais sábias mais boas mais generosas e com mais conhecimento que eu. Ao ler o livro tranqüilizei-me pois havia na igreja alguém além de mim que pensava segundo o Espírito, um cardeal que via e percebia e sabia dizer exatamente o que estava errado e o que precisava mudar. E agora esse cardeal é PAPA. Que esperança!!! Rezemos por ele, confiemos em Deus. “A noite vai avançada, o dia se aproxima!!!” Também valorizemos o papa João Paulo II , um grande santo que fez e disse tanta coisa que abriu caminho para a restauração da verdade e favoreceu até a eleição de Bento XVI (discordo por isso que Pio X seja o único papa santo de nosso tempo).

Hoje lendo no site da Montfort , vendo cartas de seminaristas e outros cristãos como eu , sofridos, excluídos, solitários numa Igreja tomada pelos inimigos. Já não me sinto tão só e vejo que o papa também não está só, além de Deus tem muitos do seu lado. Talvez a maioria silenciosa, os tímidos filhos da luz, “pouco arrojados”, como disse Jesus. Mas estão aí sofrendo e rezando com o coração transpassado.

Só queria lhe pedir professor, que não endureça tanto. Abra mão do que não for essencial; não cobre nem espere tudo, perfeição total segundo seu parecer, anulação total do Vaticano II, poder político a Igreja. Talvez tudo não possa ser do jeito que o senhor acha que deve. Talvez se o senhor for menos duro as pessoas acreditem mais no que o senhor defende de essencial. Não estou falando como Pedro pra que me diga “vai-te , Satanás, teus pensamentos são os do mundo”, não é a rendição diante do mal ou a fuga da hostilidade que lhe proponho, é apenas um pouco mais de doçura e paciência como Deus tem e o papa parece ter também em boa dose, senão já tinha virado a mesa e descido o chicote . É aquela paciência que visa preservar o trigo não o arrancando junto com o joio.

Muitas vezes lendo o seu site pensei em escrever-lhe, mas outras eu disse pra mim mesmo “ah, isso já é demais, até dos que defendem a mesma bandeira devemos ser inimigos por causa deste ou daquele ponto em que não somos totalmente conformes?!”(refiro-me ao Veritatis). Vejamos primeiro o essencial, depois lutemos para acertar os detalhes.

Sabe o que eu acho? Um novo Concílio seria a solução. Um Concílio que não fosse pastoral claro, que fosse dogmático , doutrinal e moral, pra que o Espírito aja livremente colocando as coisas no seu devido lugar, fazendo justiça aos verdadeiros católicos.

Quando sentei pra escrever essa carta não ia escrever nada disso. Ia comentar artigos e cartas, ia falar deste ou daquele ponto… ia elogiá-lo e enfatizar os pontos em que concordo inteiramente com o senhor, mas fica pra outra vez, hoje foi isso que saiu. Espero não tê-lo magoado.

Um grande abraço . no coração de Jesus e da Rainha da Paz.

Teresa Cristina

Muito prezada Teresa Cristina,
Salve Maria.
    
    Que bela carta a senhora me escreveu!
    E não julgue que me magoou. Pelo contrário. E lhe agradeço os bons conselhos para corrigir meu estilo e especialmente o meu caráter.
Como são difíceis de vencer defeitos velhos, em velhos muito entortados por eles, no decorrer de já longa vida! Só resta aos velhos pedir e esperar por misericórdia, rogando a Deus a graça de conseguir um pequeno desentorte, que seja  ainda possível.
   
    Sua carta me tocou muito por sua forma e pelo seu fundo. 
    Pelo belo estilo que lhe faz honra.
    E não pense que me zanguei por me censurar a dureza.
    Dureza de um velho combatente, que chora com muita facilidade e cujo coração anda cada vez mais amolecido.
    Sou um duro chorão.
    Como se enternece o coração, quando envelhece!
    Mas que Deus me conceda a graça de ser prudentemente duro contra todos os seus inimigos. E a graça de chorar com eles, quando se arrependem.
    Minha cara Dona Teresa Cristina, minhas cartas a chocaram por minha dureza. Espero que tenha lido também como me comovo, quando alguém se converte
    Li, ainda hoje, no livro da Sabedoria: 

De fato, o espírito de Sabedoria é cheio de bondade, todavia não deixará sem castigo os lábios do maldizente“. ( Sab, I, 6).

    E nos Salmos se lê: ”Minha boca proclamará a verdade, e meus lábios detestarão o ímpio” ( ) que São Tomás comenta no primeiro capítulo da Suma Teológica. Se tiver tempo, leia esse comentário de São Tomás. Tenho certeza de que a senhora vai gostar.

    Comoveu-me sua luta isolada para se manter fiel
    E quantos católicos, hoje, estão como a senhora! Quantos católicos foram moídos pelo que aconteceu depois do Concílio Vaticano II. Por causa do Concílio. Quantos católicos estão desamparados nesse mar de heresias que os cerca, e cujos vagalhões ameaçam afogar o mundo. Quantos católicos náufragos nesse mar. Sem um socorro. Sem um horizonte à vista.
    Hoje, já se vê uma fímbria no horizonte: a Missa foi liberada.
    Só falta ser conhecido o Segredo de Fátima.
    Em sua primaira parte, Nossa Senhora pedia que se rezasse pela salvação dos pecadores.
    Como diz o Direito Canônico: “Salus animarum suprema lex est“. A salvação das almas é a suprema lei.
    E as almas estâo abandonadas. Nunca houve tantas pastorais. Nunca houve tão poucos pastores. Perdendo-se as ovelhas.
    
Depos do Concílio Vaticano II, as CNBBs foram tomadas por uma febre verborrágica jamais vista na História. Nunca se fizeram tantos manifestos. Inúteis. Tantos programações vazias. Tantos planos. Fracassados.
    A senhora foi vítima deles. E quando se sabe que, em certos meios, isso foi astuta e diabolicamente planejado, para destruir, surge uma santa indignação. Claro que muitos não sabem. Mas, Deus sabe se tudo isso foi planejado…
    Fátima é o respiradouro. E Fátima aponta para a solução: o Papa.
   Nesta crise da Igreja, na qual Deus foi obrigado a mandar sua Mãe Santíssima dizer ao Papa o que só um Papa pode fazer, quando aparece um Papa, — ainda que vacilando –  fazendo o mais essencial, a liberação da Missa, então aparece a aurora no horizonte da História. 
    Recomendo-lhe que esqueça as falsas e ecumênicas revelações de Medjugorje e se aproxime de Nossa Senhora de Fátima, da Missa de sempre que jamais foi abolida e do Papa, qualquer que seja o seu nome. Aproximar-se de Pedro, não importando que seja também Simão.
Do papa vem a solução.
    Que Papa?
    Este que nos rege, hoje, e que liberou a Missa, dando o primeiro passo para a vitória final? Ou será outro que ainda virá?
    Pouco impoorta quem seja. Nossa Senhora nos prometeu a vitória da Igreja. E ela virá , e só poderá vir por meio de um Papa.
    Nós, ainda que sejamos pecadores, façamos o nosso dever, hoje. Defendamos a Fé. Procuremos salvar almas.
    A mim já resta pouco tempo. Quero usá-lo nesse combate.
    A senhora não quer me ajudar nesse apostolado?
    Escreva-me sempre.

In Corde Jesu, semper, 
Orlando Fedeli


PS. Gostaria muito de conhecê-la pessoalmente, em uma de minhas palestras no Rio de Janeiro. OF

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