Montfort Associação Cultural

19 de novembro de 2011

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Ocupações e “desocupações”

Amilton Lagos

Introdução

                Algumas pessoas, sem se darem conta, deixam-se levar de tal modo pelas ocupações cotidianas que quase não pensam na vida intelectual e espiritual de que são dotadas. Outras, ao contrário, fazem de tudo para terem “tempo livre” para si, para fazer “o que bem lhes agrada”, mas também sem nenhum proveito para sua vida intelectual e espiritual.

Evidentemente, o que falta a esses dois extremos é o equílibrio próprio da virtude. A vontade, após o pecado original, está inclinada ao vício e para redirecioná-la à prática da virtude é preciso de esforço e do auxílio da graça. Ordinariamente, a vida vegetal no homem sustenta sua vida animal que por sua vez sustenta sua vida intelectual e que, enfim, sustenta sua vida espiritual. Dito de outro modo, precisamos nos alimentar para podermos estudar e a partir do estudo tirar frutos propícios para ter uma vida espiritual. Há, de fato, exceções, como no caso de alguém receber uma graça particular de Deus que o faz progredir na vida espiritual sem o esforço do estudo, mas aqui trataremos do caso de progresso comum de uma pessoa na vida espiritual.

Passemos, então, à questão das boas e más ocupações e das boas e más “desocupações” do homem.

Boas e más ocupações

                Primeiro, falemos das ocupações.

No mundo, é bem visto aquele que se enche de ocupações de todo tipo, que possui sua “agenda cheia”. No entanto, se tal é feito de modo desordenado, isto é, apenas se acumulando tarefas, sem considerar que é necessário também deixar um tempo disponível para a vida intelectual e espiritual, pode-se chegar a ter grandes problemas de ordem moral e material.

Como já dizia Santo Tomás, tanto o corpo como a alma precisam de repouso, não podendo trabalhar de modo contínuo, pois possuem um vigor limitado (cf. Suma Teológica, II-II, q. 168, a.2, corpo). No mesmo artigo, Santo Tomás nos conta uma história: São João Evangelista, numa ocasião em que certas pessoas tinham se escandalizado ao vê-lo jogar com seus discípulos, pediu a uma delas, que possuia um arco, que atirasse uma flecha. Após ter atirado várias vezes, ele perguntou se ela podia continuar a fazer o mesmo sem parar. O arqueiro respondeu que, se ele atirasse sem parar, o arco se quebraria. Assim, São João o fez notar que, do mesmo modo, o espírito do homem se quebraria se ele não descansasse nunca de sua aplicação. Logo é necessário, uma vez ou outra, se recrear para dar repouso à alma. Aristóteles, por sua vez, chama a virtude que controla o tempo, o lugar e o modo de descansar a alma de “eutrapelia”, lembrando também que basta um pouco de prazer para viver, de mesmo modo que basta um pouco de sal para o alimento (cf. Suma Teológica, II-II, q. 168, a. 4, a comparação com o uso do sal é de Santo Tomás).

Mas não é apenas com este intuito de repouso que se deve buscar eliminar o excessivo acúmulo de tarefas mundanas. Dom Chautard, autor do livro “A alma de todo apostolado”, também indica o perigo de se acumular desordenadamente muitas ocupações : “Por vezes, as ocupações hão de multiplicar-se a ponto tal que exijam o dispêndio de todas as nossas energias, sem que, por outro lado, nos possamos desembaraçar do fardo, ou mesmo aligeirá-lo. A consequência poderá ser a privação, por um tempo mais ou menos longo, do gozo da união a Deus, mas essa união somente sofrerá algum dano se nós assim o quisermos. Prolongando-se este estado, é necessário por tal motivo gemer, sofrer, e temer acima de tudo o habituarmo-nos a ele. O homem é fraco, inconstante. Se descuida a sua vida espiritual, depressa perde o gosto dela. Absorvido pelas ocupações materiais, acaba por comprazer-se nelas (Dom J. B. Chautard, “A alma de todo apostolado”, Livraria Francisco Alvez, 1915, p. 62). E o mesmo autor expressa bem o que muitos de nós já sentimos: “Quem o não tem experimentado? Às vezes sentimo-nos inclinados a preferir longas horas de uma ocupação fatigante a uma meia-hora de oração bem feita” (idem, p. 32).

Uma das consequências do “ativismo” (ou, como dizem os americanos, do “workaholic”) é a inquietação, pois se está sempre com pressa para executar seus afazeres. Para agir com prudência, é necessário pensar com calma antes de agir, mas quem está com pressa busca executar o quanto antes uma ação e, por isso, está mais propenso a se precipitar e a se enganar. Quem corre está mais propenso a tropeçar e a cair do que aquele que anda com calma.

São Francisco de Sales também se declara inimigo desse espírito de agitação que tanto mal causa à vida espiritual: “todos os pensamentos que nos tornam inquietos e nos agitam o espírito não são de modo algum de Deus, que é o Príncipe da Paz; eles são, então, tentações do inimigo e é, portanto, preciso rejeitá-los e desconsiderá-los.” [tradução nossa] (André Ravier, “Lettres intimes – S. François de Sales”, p. 270).

A fórmula para evitar esse espírito de agitação, que imperfeiçoa nossas obras, é dada por Dom Chautard nos seguintes termos: “Reservarei sempre algum tempo além do necessário para fazer qualquer coisa: este é o meio de nunca ter pressa nem aceleramento” (Dom Chautard, op. cit., p. 44).

Outro fruto do “ativismo” é a ignorância. Como aprender algo novo, se sempre se está ocupado com algum negócio do mundo? Santo Tomás adverte que a ignorância é culpável se alguém a busca diretamente para poder pecar com mais liberdade, ou indiretamente quando alguém, pelo incômodo que traz o estudo ou por outras ocupações não estritamente necessárias, descuida na aquisição do conhecimento que o levaria a se afastar do pecado (cf. Suma Teológica I-II, q.76, a.3, corpo). Lembramos que todo batizado é obrigado a conhecer a sua fé.

E quanto tempo podemos subtrair para o estudo? Novamente escutemos Santo Tomás : “é evidente que para a aquisição do alimento pelo trabalho manual, exigido para o sustento da natureza, é suficiente pouco tempo e necessário pouco cuidado” (Suma contra os Gentios, livro III, cap. 135, n. 6) e “como para o alimento necessário ao sustento um pouco é suficiente, àqueles que se contentam com pouco não convém dispensar muito tempo, em busca do necessário, com o trabalho manual” (idem, n. 9). Em outras palavras, não devemos acumular dinheiro mais do que o necessário para o nosso estado de vida.

Na Bíblia achamos uma idéia semelhante: “Filho, não empreendas muitos negócios, porque, se fores rico, não estarás isento de culpa. Se empreenderes muitas coisas não poderás abrangê-las, e, por mais diligência que faças, não poderás dar saída a todas.” (Eclesiástico XI, 10 – tradução da Vulgata pelo Pe. Matos Soares).

Assim, vemos que ter uma “agenda cheia” não é, em si, algo desejável.

Como a boa “desocupação” é em vista da boa ocupação, falemos agora das “desocupações”.

Boas e más “desocupações”

                Alguns podem pensar que estamos defendendo o ócio mas, como no caso das ocupações, devemos considerar as boas e más “desocupações”. Fazemos nossas as palavras de Dom Chautard: “Estimular os pretendidos apóstolos que prestam culto ao repouso; galvanizar as almas iludidas pelo egoísmo que lhes mostra na ociosidade um meio de favorecer a piedade (…) dispostos a aceitar certas obras, contanto que elas em nada perturbem o seu sossego e o seu ideal de tranquilidade: tal não é o nosso fito.” (Dom Chautard, op. cit., p. 28).

                Santo Tomás também condena o ócio inútil : “Por conseguinte, é um erro totalmente absurdo o daqueles que defendem a sentença de que o Senhor proibiu toda solicitude na procura do sustento próprio, pois todo ato requer solicitude. (…) segundo a ordenação divina, é necessário que ele exerça atividades corporais e busque as coisas espirituais, e tanto mais perfeito será ele quanto mais buscar as coisas espirituais. Ademais, não há um modo de perfeição humana que prescinda totalmente do corpóreo, porque, como as ações corporais se ordenam para a conservação da vida humana, alguém, não as fazendo, negligencia a própria vida que todos devemos conservar. Também, esperar de Deus, sem fazer coisa alguma, o subsídio para aquilo que se pode conseguir por si mesmo, é estultícia e tentar a Deus.” (Suma contra os Gentios, livro III, cap. 135, n. 18).

                Ainda temos outro exemplo de má “desocupação”: “Eis qual foi a (causa da) iniqüidade de Sodoma, tua irmã: a soberba, a fartura de pão e a abundância, a ociosidade dela e de suas filhas, e o não estender a mão para o pobre indigente.” (Ez XVI, 49). Entendamos “pobre” não apenas no sentido material, mas também no sentido espiritual, isto é, aquele que é ignorante, sobretudo das coisas que dizem respeito à vida eterna. Por isso diz São Jerônimo: “tenha sempre algum trabalho em mãos, de modo que o demônio sempre o ache ocupado” [tradução nossa] (carta 125 de São Jerônimo a Rusticus – www.newadvent.org/fathers/3001125.html) que se relaciona bem com o conhecido ditado: o ócio é a oficina do demônio. Ou ainda: “a ociosidade ensina muita malícia” (Eclesiástico XXXIII, 29).

                Por outro lado, quanto à boa “desocupação”, temos a seguinte passagem da Bíblia: “O letrado adquire sabedoria no tempo do ócio, e o que tem poucas ocupações alcançará a sabedoria. De que sabedoria será cheio o que pega no arado, e o que faz timbre de saber picar os bois com o aguilhão, e se ocupa constantemente com seus trabalhos, e cuja conversação é somente sobre novilhos de touros?” (Eclesiástico XXXVIII, 25-26). Não é preciso de muito esforço para adaptarmos esse fragmento ao contexto moderno: troquemos “bois” por “computadores ou celulares” e “novilhos de touros” por “últimas novidades da tecnologia”. Vemos, no entanto, que o ócio mencionado nessa passagem da Bíblia não é o ócio absoluto, mas o tempo livre útil para ser aplicado em coisas mais importantes que os afazeres mundanos. No Novo Testamento temos uma passagem correlata ao mesmo assunto: “Marta, Marta, afadigas-te e andas inquieta com muitas coisas. Entretanto uma só coisa é necessária” (Lucas X, 41-42) como também na “Imitação de Cristo” em que lemos: “mui insensato é quem de outras coisas se ocupa e não das que tocam à sua salvação” (op. cit., livro I, cap. 2).

Santo Tomás nos ensina que empregar o ócio no estudo da verdade não somente não é algo mau em si, mas é algo bastante louvável (cf. De Perfectione, cap. 19 – www.corpusthomisticum.org/oap.html ). O ócio santo deve buscar a verdade, enquanto que os negócios de que nos ocupamos devem tratar das necessidades de nosso estado sem exageros.

                Com o tempo livre podemos, então, aplicarmos-nos utilmente à leitura, ao estudo, à meditação e à contemplação, de modo a adquirir mais sabedoria. Ao contrário, se nada fizermos durante esse tempo livre, teremos menos sabedoria do que os que estão sempre atarefados, pois a atividade ao menos gera uma certa experiência e a experiência adquirida colabora para uma maior prudência.

O filósofo antigo Sêneca também condicionava o ócio ao estudo, de modo que sem o estudo, o ócio levaria à morte, ao menos entendida no sentido de morte espiritual (“otium sine litteris mors est” – Sêneca, carta LXXXII, 3 – www.thelatinlibrary.com/sen/seneca.ep10.html ).

Outro exemplo de ócio santo é o ócio relativo ao 3º mandamento. Todos os católicos devem guardar os domingos e dias de festas. Isto é, devemos nos afastar nesses dias dos afazeres mundanos e nos ocuparmos daquilo que nos leva a Deus, seu culto e sua doutrina.

                Assim, vemos que diminuir as ocupações não implica em abandonar toda atividade, mas sim sobretudo as ocupações inúteis, podendo assim nos dedicar àquelas ocupações aconselhadas pelo Evangelho, tais como as obras de caridade material e espiritual.

Conclusão

                O intuito deste artigo é o de nos motivar a bem usar o tempo que temos e também o de ter o tempo para poder bem usar.

Em suma, é bom conseguirmos subtrair certo tempo dos nossos afazeres mundanos, na medida em que esses afazeres não são estritamente necessários para cumprir o nosso dever de estado. No entanto, esse tempo livre não deve ser desperdiçado, mas bem empregado com coisas mais elevadas, mais espirituais, para podermos melhor chegar ao nosso verdadeiro fim, que não é o de comermos e morrermos simplesmente, mas o de conhecer e amar a Deus.

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