Montfort Associação Cultural

11 de agosto de 2014

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O que é hermenêutica da continuidade?

Autor: Alberto Zucchi

  • Consulente: João Emiliano
  • Enviada em: 5 de junho de 2014
  • Religião: Católica

Caros amigos da Montfort,
Salve Maria!

Gostaria de saber o que é a hermenêutica da continuidade e sua relação com a crise (que é mais sentida por grupos católicos mais conservadores) em que vive a Igreja hoje.

Obrigado.

Data: 11 de agosto de 2014

Prezado João,

Salve Maria!

O Professor Orlando, sempre no seu estilo direto e certeiro, no artigo Tradição ou Interpretação, apresentou da seguinte forma a hermenêutica da continuidade:

“No Discurso à Cúria Romana, em 22 de Dezembro de 2005, o Papa Bento XVI condenou a “hermenêutica da ruptura”, isto é, a interpretação ou leitura dos textos do Concílio Vaticano II, conforme o chamado “espírito do Concílio”. Bento XVI defendeu a hermenêutica da continuidade, isto é, uma leitura dos textos do Concilio segundo a letra, em continuidade com os ensinamentos tradicionais da Igreja. Falou ainda que uma recepção correta do Vaticano II ainda não fora feita”.

A hermenêutica da continuidade é uma forma de interpretar os textos do Vaticano II que tem, como pressuposto, que os textos do Concílio estão de acordo com a doutrina tradicional da Igreja. Esta forma de interpretação seria utilizada em geral pelos grupos conservadores e mesmo por alguns que se autodenominam tradicionalistas.

Este tipo de interpretação se oporia à hermenêutica da ruptura, segundo a qual os textos deste mesmo concílio devem ser considerados como uma ruptura com o passado, e portanto, se opõem à doutrina tradicional da Igreja Católica. Este tipo de leitura era a predominante, ao menos no grosso dos meios eclesiásticos, e era utilizada por modernistas e por também vários grupos tradicionalistas.

Sem dúvida, parece uma tarefa impossível querer conciliar todos os textos do Concílio Vaticano II com a doutrina católica precedente ensinada pelos Papas. Pelo menos para nós, que não somos teólogos, alguns trechos se apresentam como claramente contrários ao que foi ensinado pelos Papas precedentes. Veja por exemplo, a seguinte comparação entra a Encíclica Pascendi do Papa São Pio X e a Declaração Nostra Aetate que faz parte dos textos do Concílio Vaticano II:

CARTA ENCÍCLICA
DO SUMO PONTÍFICE
PIO X
PASCENDI DOMINICI GREGIS

SOBRE
AS DOUTRINAS MODERNISTAS

DECLARAÇÃO
NOSTRA AETATE
SOBRE A IGREJA
E AS RELIGIÕES NÃO-CRISTÃS

 

O modernista crente…Cumpre, entretanto, desde já, notar que, posta esta doutrina da experiência unida à outra do simbolismo, toda religião, não executada sequer a dos idólatras, deve ser tida por verdadeira. E na verdade, porque não fora possível o se acharem tais experiências em qualquer religião? E não poucos presumem que de fato já se as tenha encontrado. Com que direito, pois, os modernistas negarão a verdade a uma experiência afirmada, por exemplo, por um maometano? Com que direito reivindicarão experiências verdadeiras só para os católicos? E os modernistas de fato não negam, ao contrário, concedem, uns confusa e outros manifestamente, que todas as religiões são verdadeiras. É claro, porém, que eles não poderiam pensar de outro modo. 2. Desde os tempos mais remotos até aos nossos dias, encontra-se nos diversos povos certa percepção daquela força oculta presente no curso das coisas e acontecimentos humanos; encontra-se por vezes até o conhecimento da divindade suprema ou mesmo de Deus Pai. Percepção e conhecimento esses que penetram as suas vidas de profundo sentido religioso. Por sua vez, as religiões ligadas ao progresso da cultura, procuram responder às mesmas questões com noções mais apuradas e uma linguagem mais elaborada. Assim, no hinduísmo, os homens perscrutam o mistério divino e exprimem-no com a fecundidade inexaurível dos mitos e os esforços da penetração filosófica, buscando a libertação das angústias da nossa condição quer por meio de certas formas de ascetismo, quer por uma profunda meditação, quer, finalmente, pelo refúgio amoroso e confiante em Deus. No budismo, segundo as suas várias formas, reconhece-se a radical insuficiência deste mundo mutável, e propõe-se o caminho pelo qual os homens, com espírito devoto e confiante, possam alcançar o estado de libertação perfeita ou atingir, pelos próprios esforços ou ajudados do alto a suprema iluminação. De igual modo, as outras religiões que existem no mundo procuram de vários modos ir ao encontro das inquietações do coração humano, propondo caminhos, isto é, doutrinas e normas de vida e também ritos sagrados.

Parece simplesmente impossível não ver que os dois textos têm ensinamentos opostos. Enquanto São Pio X condena aqueles que procuraram encontrar experiências verdadeiras em outras religiões, a Nostra Aetate descreve algumas destas experiências como sendo algo bom que levariam até o conhecimento de Deus, e portanto, verdadeiras.

Isto posto, não deixa de ser interessante e mesmo necessário analisar um pouco mais a hermenêutica da continuidade. Vejamos o que sobre ela afirmam algumas personalidades da linha tradicional da Igreja.

Comecemos por Dom Fellay. Ele trata da hermenêutica da ruptura em uma carta particular aos outros três bispos da FSSPX, que acabou vindo a público. Não se trata de uma opinião política, mas de uma convicção de Dom Fellay expressa aos demais bispos da FSSPX:

“de uma parte se atribuem às autoridades atuais todos os erros e todos os males que se encontram na Igreja, ignorando o fato que estas procuram, pelo menos em parte, livrar-se dos mais graves (a condenação da “hermenêutica da ruptura” denuncia erros bem reais). Por outro lado, se pretende que TODOS estejam enraizados nesta pertinácia (“todos os modernistas,” … “todos podres”). Ora, isso é manifestamente falso. Uma grande maioria foi arrastada no movimento, mas não todos”.

Segundo Dom Fellay, foi boa a condenação da hermenêutica da ruptura. Assim parece claro que para ele a defesa da hermenêutica da continuidade, mesmo não sendo algo totalmente correto, tem aspectos bons.

Nesta mesma linha, escreveu o Professor Orlando:

“Condenando o “espírito do Vaticano II”, condenado a “hermenêutica da ruptura”, Bento XVI escolheu – ainda que sem querer – a volta às condenações, e, portanto, a volta ao dogmatismo.

A Fenomenologia e suas hermenêuticas estão em xeque-mate o que deixou [O Vaticano II] sem saída, num xeque-mate surpreendente.

Deo gratias!”

Em sua essência, o raciocínio do Professor Orlando é semelhante ao de Dom Fellay: apesar de ambos não defenderem a hermenêutica da continuidade,  acreditam eles que existem aspectos positivos na condenação da hermenêutica da ruptura. Portanto, as palavras de Bento XVI estão longe de serem apenas objeto de crítica.

O Padre Barthe caminha na mesma direção, vejamos:

“O ratzinguerismo busca algo como uma síntese das posições afrontadas, com uma relativização da posição “progressista” embora conservando uma parte de suas contribuições. Isto vale em liturgia, nos projetos de reforma da reforma. Eu tive ocasião de dizer que essa tentativa de ultrapassagem positiva era paralela àquela que Joseph Ratzinger, Ignace de la Potterie, Henri de Lubac, Balthasar, conduziram contra o historicismo da crítica bíblica racionalista: a herança da crítica bíblica não é rejeitada, mas relativizada e integrada em uma concepção mais vasta da inspiração.

Se esse processo se confirmar, ele terá a vantagem de provocar uma espécie de desequilíbrio do edifício ideológico conciliar (eu não digo de todo o Concílio, em todos os seus textos, eu digo do Concílio como ideologia). (Padre Barthe, tradução nossa, http://rendezvous.leforumcatholique.org/message.php?id=12&num=1596).

Para o Padre Barthe, a ação de Bento XVI, sem condenar cada ponto específico do Concílio, levaria a uma destruição do Concílio como ideologia. O comentário está muito alinhado com as observações do Professor Orlando e Dom Fellay que, embora não concordando completamente com as afirmações de Bento XVI, consideram que elas têm um bom efeito: o Professor Orlando afirma que o Concílio ficou em um “xeque-mate” e Dom Fellay que erros bem reais foram denunciados.

Monsenhor Brunero Gherardini tem uma visão ao menos muito simpática do famoso discurso de 22 de dezembro de 2005, em que Bento XVI torna clara a sua defesa da hermenêutica da continuidade:

“A única palavra que pode realmente colocar tudo em suas devidas dimensões e trazer o Vaticano II ao quadro de uma autêntica hermenêutica teológica é aquela do Papa, especialmente se ela é expressa em um dos seus documentos mais solenes. Humildemente, mas intensamente, peço e imploro um tal documento, principalmente porque o Papa, nos primórdios do pontificado (22 de dezembro de 2005), manifestou uma viva sensibilidade ao problema do Vaticano II e fixou o critério da sua correta interpretação na hermenêutica da continuidade. O fato de o discurso que elucidava tal critério ter sido apresentado depois por meio do “Osservatore Romano” (25 de janeiro de 2009, p. 5) é um claro sintoma de que o problema existe e de que o primeiro a considera-lo foi o Sumo Pontífice”.

(Concilio Vaticano II, um debate a ser feito, Mons. Brunero Gherardini, editora Pinus, Brasilia, 2011, p. 24).

Mons. Gherardini considera que o fato de que o Papa defina como critério de interpretação do Concílio a hermenêutica da continuidade, deixou claro o problema que existe no Vaticano II e que o Papa é sensível a ele. Isso não implica numa aceitação de tudo que está afirmado nos diversos documentos do Concílio, muito menos de seus erros.

O cardeal Ranjith, conhecido por suas posições conservadoras, na introdução ao livro de Mons Gherardini citado, afirma:

 “Desejo antes de tudo exprimir minha apreciação com relação à articulação temática que caracteriza esse estudo de Mons. Brunero Gherardini sobre os textos do Concílio Vaticano II. Essa inciativa ganha um valor especialmente no contexto hodierno, marcado por um debate sobre o significado dos ensinamentos conciliares, principalmente à luz da chave hermenêutica proposta e valorizada pelo Papa Bento XVI, a da continuidade de tais ensinamentos dentro da Tradição eclesial”.  (Mons Brunero Gherardini, op. cit., p. 11)

De acordo com a afirmação do Cardeal, os debates sobre os textos conciliares têm um valor especial na chave hermenêutica proposta por Bento XVI, ou seja, a hermenêutica da continuidade produz um debate, e não obrigatoriamente a aceitação dos textos conciliares.

 

Dom Mario Oliveri, bispo de Albenga-Impéria, comentou favoravelmente o livro de Romano Amério, Iota Unum. Nesta ocasião, ele manifesta claramente seu pensamento de que os problemas doutrinários do Vaticano II não se limitam a uma questão de interpretação. Já na apresentação do mesmo livro de Mosenhor Gherardini ele acrescenta:

“Conforta-me muito ter lido recentemente o discurso do Santo Padre à Plenária da Congregação para o Clero. Ao falar sobre a formação dos sacerdotes, ele afirma: A missão tem suas raízes, de maneira especial, em uma boa formação, desenvolvida em comunhão com a ininterrupta Tradição eclesial, sem rupturas nem tentações de descontinuidade. Nesse sentido, é importante incentivas os Sacerdotes principalmente as jovens gerações, a receberem corretamente os textos do Concílio Ecumênico Vaticano II, interpretados à luz de toda a bagagem doutrinal da Igreja”. (Mons Brunero Gherardini, op. Cit., p. 9.).

Dom Olivieri, que não deixou de considerar os problemas doutrinários do Vaticano II, se sente confortado ao ler que o Papa considera que os jovens sacerdotes devem ser orientados na hermenêutica da continuidade.

E para concluir esta lista de citações, muito extensa para uma carta, vamos a Roberto De Mattei. Colocamos todas as considerações deste autor sob grave suspeita, pois alguém que afirma que o ponto de referência de seu trabalho é sinteticamente resumido no livro Revolução e Contra-Revolução de Plinio Corrêa de Oliveira (PCO), não merece qualquer crédito. Transcrevo a citação, porém, como um argumento ad hominem para alguns que, embora se denominem tradicionalistas, correm atrás de autógrafos ao final das suas conferências.

De Mattei na introdução de seu livro “O Concílio Vaticano II uma Histórica nunca escrita” trata do problema da hermenêutica do Concílio Vaticano II, baseando-se principalmente no discurso de Bento XVI à Cúria Romana, que já mencionamos. Bem ao estilo de Plinio, no que se refere a um posicionamento sobre as questões de doutrina católica, De Mattei fica “em cima do muro”.

Após muitas descrições, citações e nenhuma afirmação de sua posição pessoal, existe um trecho que parece algo como que uma tomada de posição:

“A hermenêutica da continuidade salienta – e bem – o papel do Magistério, mas comporta o risco de eliminar, não apenas uma concepção teológica errada, mas também o próprio facto que está em discussão. A consequência desta obra de supressão do evento é não existir hoje nenhuma alternativa séria à escola de Bolonha, à qual deve ser reconhecido o mérito de apresentar uma reconstrução factual, ainda que tendenciosa, do acontecimento”.

“Para muitos defensores da hermenêutica da continuidade, tornou-se necessária a remoção histórica do ´evento` conciliar, a fim de separar o Concílio do pós-Concílio e de isolar este último como uma patologia que se desenvolveu num corpo são. Temos contudo de nos perguntar se a anulação do Concílio-evento nos permitirá compreender em profundidade aquilo que aconteceu no pós-Concílio. Com efeito, o Concílio Vaticano II foi um evento que não ficou concluído com a solene sessão de encerramento do mesmo, mas antes prosseguiu na respectiva aplicação e recepção histórica”  (Roberto De Mattei, O Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita, Caminhos Romano, 2012, pp. 21 e 22)

Portanto, no confuso texto do candidato a discípulo perfeito de PCO, a dificuldade em se considerar a hermenêutica da continuidade, não seria uma questão doutrinária – ou seja, um rompimento entre a doutrina tradicional da igreja e a doutrina proposta pelo Concílio Vaticano II – mas sim que esta hermenêutica excluiria a análise do evento histórico que permitiu uma mudança na orientação da Igreja Católica.

Estaria eu distorcendo o pensamento de um homem de tantos títulos e tão considerado pelo governo italiano, com o intuito de apresenta-lo como sendo ao menos parcialmente favorável a Bento XVI?

O livro é decepcionante em matéria de conteúdo. Mas sua conclusão, de apenas algumas linhas, após 509 páginas, não deixará qualquer dúvida e dispensa comentários adicionais:

“Ao terminar este volume, seja-me permitido dirigir-me com devoção a Sua Santidade Bento XVI, em quem reconheço o sucessor de Pedro e ao qual me sinto indissoluvelmente vinculado, exprimindo-lhe um agradecimento profundo por ter aberto as portas a um debate sério sobre o Concílio Vaticano II. Foi para este debate que quis oferece o meu contributo, não de teólogo, mas de historiador, unindo-me contendo às súplicas daqueles teólogos que solicitam, respeitosa e filialmente, ao Vigário de Cristo na terra que promova uma análise aprofundada do Concílio Vaticano II, em toda a sua complexidade e extensão, para verificar a sua continuidade relativamente aos vinte concílios anteriores e dissipar as nuvens e as dúvidas que fazem sofrer a Igreja desde há quase meio século…” (Roberto De Mattei, op. cit. p. 510).

A que conclusão pretendo eu chegar com estas citações?

Por um lado, os graves problemas doutrinários trazidos pelos textos do Concílio estão longe de serem resolvidos com a simples aplicação da hermenêutica da continuidade. Entretanto, por outro lado, afirmar que defender Bento XVI por ter criado este método implica, necessariamente, na aceitação dos erros do Vaticano II é, para dizer o mínimo, uma grande tolice.

Como diz um jovem padre, de grande conhecimento filosófico e cujo único defeito é ser amigo meu, “se queres ser teólogo distingue frequentemente”.

A hermenêutica da continuidade não é a solução para as questões relativas às divergências doutrinárias entre o ensinamento tradicional do magistério católico e algumas afirmações dos textos do Vaticano II como, por exemplo, a questão do ecumenismo na Nostra Aetate, mencionada no início desta resposta.

Mas também é, sem dúvida, um sério erro querer reduzir a hermenêutica da continuidade a uma espécie de manobra realizada por Bento XVI, para iludir os tradicionalistas e leva-los à aceitação das “piores heresias do Vaticano II”. A não ser que se julgue que todos aqueles citados acima, do Professor Orlando, até De Mattei, passando por Dom Fellay e por tantos outros, estiveram envolvidos nesta conspiração.

Tal pensamento seria uma insanidade, contrária à realidade histórica do que foi o Pontificado de Bento XVI.

Infelizmente, na era moderna, a insanidade não é exceção, e é possível que alguns cheguem mesmo à loucura de pensar que até nós, que não temos qualquer importância neste debate, estaríamos envolvidos no plano maléfico.

Aqui vale a pena lembrar que, no próximo domingo, todos aqueles que irão assistir à Missa Antiga na cidade de São Paulo e em todo o restante do Brasil – com exceção de algumas dezenas de pessoas – devem isso a Bento XVI. Faria isto também parte do plano maléfico ou seria ingenuidade do Papa nos obter esta grande graça? Mesmo em um período de tanta insanidade, creio que não é necessário responder a esta pergunta.

Acredito ainda ser oportuno preveni-lo sobre um erro que, apesar de não ser propriamente novo, tem ganhado corpo nos meios que você chama de “conservadores”.

Têm se desenvolvido, especialmente nos ambientes próximos a Dom Williamson, uma mentalidade que eu chamaria de conservadorismo jacobino. Assim, os jacobinos rotulavam seus inimigos com expressões do tipo refratário, inimigo da revolução, supersticioso, de forma a que uma simples acusação se constituía em prova definitiva, permitindo ao acusador levar à guilhotina seus próprios inimigos, mesmo sendo esses os revolucionários mais ardorosos. Do mesmo modo, este tipo de conservador acredita que, sendo possuidor de uma missão especial designada pela Divina Providência e proclamando suas virtudes de grande defensor da Fé, ele pode rotular seus adversários e a partir disso, exigir sua execração pública.

Para tanto, assim como os Jacobinos, eles devem se mostrar cada vez mais fervorosos, ampliando suas condenações e reafirmando suas virtudes.

Graças a Deus, eles não têm o poder da guilhotina, senão muitos de nós já teríamos a cabeça separada do resto do corpo! Mas, assim como aconteceu com Robespierre, creio que logo mais cairão… no ridículo.

Esta resposta já vai muito longe, mas é útil tratar ainda de um ponto.

Como vimos, a hermenêutica é um método utilizado para interpretar um texto. No caso do Vaticano II, os dois métodos propostos seriam o da continuidade e o da ruptura.

Ora, apresentados desta forma, os dois métodos não poderiam ter como finalidade interpretar o texto, uma vez que eles enunciam no próprio nome o resultado da interpretação: a continuidade no primeiro caso e a ruptura no segundo. Estaríamos, portanto, diante de uma grave falha metodológica, uma vez que o método de análise não seria isento mas, pelo contrário, determinaria previamente a conclusão do exame do texto.

Para esclarecer meu raciocínio, vejamos a proposta de um método isento para a hermenêutica dos textos do Vaticano II.

O sacerdote Ignace de la Potterie – o mesmo autor citado acima pelo Padre Barthe – em um congresso no Pontifício Instituto Bíblico no inverno  de 1967-1968, sobre a Constituição Dogmática Dei Verbum, proporá algo completamente diferente de Bento XVI:

“O fato de existirem interpretações tão diversas do nosso trecho [capítulo II nº 11 da Constituição Dogmática Dei Verbum] suscita um interessante problema de hermenêutica conciliar. Qual é o melhor método para interpretar esse texto de maneira objetiva? Ao que parece, é preciso, antes de mais nada, recoloca-lo no contexto vivo da sua elaboração progressiva no Concílio. Isto exige dupla análise: primeiro é preciso acompanhar o texto nas suas redações sucessivas, procurando entender, em cada uma das etapas, o motivo, o significado e especialmente o espírito das alterações introduzidas; isto pode ser muito bem feito, se se quiser levar em conta tanto as intervenções dos Padres que pediram tais mudanças, como as explicações da Comissão doutrinal que as formulou. A outra análise consistirá em aplicar depois, à última e definitiva redação do texto, um método clássico de exegese bíblica, a saber, o exame dos textos paralelos: a Constituição fala agora da verdade que Deus fez consignar nas Sagradas Letras para nossa salvação; será preciso, pois, ilustrar esta fórmula com outros textos do Concílio (especialmente na Constituição Dei Verbum) onde, como no nosso texto, é usada a palavra veritas em referência à ação de Deus entre os homens e ao seu desígnio salvífico”. (A Bíblia na Igreja depois da Dei Verbum, A verdade da Sagrada Escritura conforme a doutrina do Concílio – Ignace de la Potterie, pp. 80-81)

É claro, portanto, que querer aplicar a hermenêutica da continuidade ou da ruptura para analisar os erros do Vaticano II se constitui em um erro metodológico.

Seria possível que Bento XVI cometesse um erro metodológico tão primário?

Não cremos que isto seja possível. E portanto, ou nós nos enganamos, o que é uma hipótese bem razoável, ou há uma explicação.

A aplicação de uma hermenêutica com objetivo previamente estabelecido é adequada quando sabemos que existiu a intenção de tornar dúbio um texto, a fim de que ele pudesse ser interpretado em ao menos dois sentidos diferentes, de forma lógica e consistente. Este tipo de hermenêutica tem como objetivo decifrar o texto.

É o que ocorre, por exemplo, com a Divina Comédia, escrita por Dante. O autor renascentista escreveu um texto que permite uma interpretação católica, mas esconde uma doutrina gnóstica. Criado por medo da condenação das autoridades da Igreja, esse duplo sentido foi de tal maneira bem elaborado que, durante muito tempo, a católica foi a única interpretação dada ao texto, inclusive pelos Papas. Tendo fortes indícios históricos de que Dante era adepto dela e possuindo-se a chave da doutrina gnóstica, aplica-se essa ao texto e aparece claramente uma nova doutrina, contrária mesmo à doutrina católica. Trata-se de um autor genial pois escrever um texto com duas possibilidades muito reais de interpretação, não é qualquer herege que é capaz de fazê-lo.

No caso da Divina Comédia, pode-se dizer que existem duas hermenêuticas. A hermenêutica católica, que leva à interpretação do texto segundo a doutrina católica, e a hermenêutica gnóstica, que acarreta em uma interpretação gnóstica, revelando a verdadeira intenção de Dante. Neste caso não há erro metodológico em aplicar a hermenêutica com um objetivo estabelecido, por que sabe-se que a intenção do autor foi ocultar seu pensamento.

Ora, o suposto erro metodológico de Bento XVI desaparecerá se considerarmos que havia ao menos um grupo, no decorrer do Vaticano II, que pretendia utilizar uma linguagem dúbia, que permitisse uma dupla interpretação, a saber, uma em continuidade, outra em ruptura com a doutrina católica.

A leitura da obra O Reno desemboca do Tibre, de Ralph M. Wiltgen, S.V.D., deixa claro que a atuação dos clérigos alemães conduziu o Vaticano II a uma posição doutrinária que não era a vontade da maioria. Ora, o então teólogo Joseph Ratzinger era alemão e estava no Concílio…

Qual seria a doutrina que o “Reno” pretendia esconder?

Voltemos novamente ao Monsenhor Gherardini:

 “A maior diferença [entre a mentalidade pré e pós conciliar], todavia, era constituída pelas respectivas concepções antropológicas. A concepção “de criatura” do homem, constitucionalmente dependente de Deus e dos órgãos eclesiásticos, que fazem as vezes de Deus por vontade e disposição dele, chocava-se radical e antiteticamente com as filosofias modernas e com as modernas elaborações antropológicas, cujas doutrinas, não sendo unívocas, mas até mesmo contraditórias, fazem do homem o protagonista único do mundo e da história.” (Brunero Gherardini, op. cit. p. 37).

A diferença então entre as duas correntes é a concepção do homem em relação a Deus. A apresentação desta mentalidade pelo Monsenhor Gherardini tem uma incrível semelhança com a apresentada pelo Professor Orlando em seu livro Antropoteismo, a religião do homem.

Para ambos, de um lado há a doutrina católica colocando o homem como submisso a Deus e de outro a Gnose e o Panteísmo que “mesmo não sendo unívocas mas até mesmo contraditórias, fazem do homem o protagonista único do mundo e da história”.

A doutrina que se pretendeu ocultar no Vaticano II talvez tenha sido a Gnose. Quem sabe foi a Divina Providência quem inspirou o Professor a dedicar este livro a Bento XVI.

É evidente que ocultar a gnose em uma obra de Dante é tarefa muito diferente, em uma realidade completamente diversa, de ocultar a gnose nos textos do Vaticano II. Mas, para aqueles que julgam nossa hipótese ousada, recomendo a leitura do trabalho do Professor Orlando A religião do Vaticano II, que consta em nosso site.

Bento XVI, portanto, ao tratar de duas hermenêuticas, não teria cometido um erro metodológico mas, na realidade, teria nos avisado de que, por trás do Vaticano II, há uma doutrina propositadamente escondida.

Já vejo a turma dos Jacobinos me acusando de que, como bom discípulo do Professor Orlando, sou um otimista em relação a Bento XVI.

Discípulo do Professor Orlando certamente sim, bom certamente não, quanto ao otimismo, precisa ser provado. Na realidade, posso estar certo ou errado em relação às considerações que faço, mas elas não envolvem nenhuma impressão particular minha sobre a realidade. Não se trata, portanto, de ser otimista ou pessimista.

Suponhamos que Bento XVI desejasse fazer uma crítica séria ao Vaticano II, o que parece ser a opinião de todos os autores citados anteriormente. Nesse caso, tendo em vista a situação atual da Igreja, as questões pastorais e a própria personalidade de Bento XVI, é muito razoável acreditar que ele quisesse evitar o confronto que certamente aconteceria se o Concílio fosse condenado como uma ruptura com a tradição católica, pois isso constituiria uma clara declaração de heresia do Vaticano II.

Muito provavelmente, Bento XVI, nesse caso, preferiria optar por uma linha de convencimento de importantes líderes intelectuais para que, a partir deles, houvesse uma modificação no pensamento católico.

Para finalizar, é necessário lembrar que somente o Papa poderá dizer qual a interpretação que pode ser dada aos textos do Concílio. E a nós caberá dar o assentimento que é devido às afirmações do Papa. Isso porque, se o Papa se pronuncia através de uma entrevista a um jornalista declaradamente esquerdista, que não se preocupa – também declaradamente – em ser fiel ao que o Papa afirmou, nenhum assentimento é obrigatório. Mas se um dia o Papa se pronunciar de forma infalível, nos lhe daremos o nosso completo e total assentimento.

Espero ter atendido a seu pedido porque, sem dúvida, esta resposta foi muito longa.

Agradeço a você e a todos aqueles que têm divulgado nosso site, mesmo que esta não seja a intenção de diversos blogueiros. Deus lhes pague e Nossa Senhora lhes retribua o favor, mesmo não proposital.

 

Salve Maria,
Alberto Luiz Zucchi

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