Montfort Associação Cultural

3 de janeiro de 2010

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O que a Montfort defende?

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Álvaro Lisboa
  • Localizaçao: Maceió – AL – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Profissão: Estudante
  • Religião: Católica

Caro professor Orlando Fedelli,

Salve Maria!

É inégavel que o site Montfort é no mínimo muito curioso, ainda como é inegável a formação intelectual dos que aqui redigem e fazem parte, embora eu discorde de muita coisa que aqui encontro, ainda que entenda e até concorde com certos argumentos aqui expostos.
O senhor alega estar em defesa da fé e da Igreja, mas o que mais se encontra aqui, são “insultos” e julgamentos sobre nossos irmãos de fé que constituem queiramos ou não a Igreja.

Não participo de nenhum grupo da RCC, mas já frequentei acampamentos de evangelização da Canção Nova, já frequentei reuniões de alguns grupos, mas nunca me firmei como carismático, não por questões negativas, mas por ter me identificado com outro carisma. Assumo ainda, que já vivi experiências fortes com momentos de orações em línguas, e já presenciei os dons de sabedoria e ciência onde muitas pessoas já foram norteadas a uma vida cristã, ou até salvas de situações as quais viviam, mas não vem ao caso.
É interessante porque leio aqui intrigas e discussões entre Igreja x Igreja, e são esses os mesmos argumentos quando a discussão se faz entre a Igreja e outras crenças. É interessante a forma como é julgada aqui a RCC como o princípio pra uma série de fatores negativos para a Igreja, assim como os ateus ou protestantes, julgam certa época ou período para julgar toda a história da Igreja Una e Santa.
Por mais que não se deva usar isso como desculpa, eu e você, assim como todos que hoje fazem ou fizeram a Igreja, somos humanos, permissíveis a erros e falhas cujo não se pode culpar toda uma pluralidade por conta de uma minoria ou parcela de erro. Tanto que há em toda a história da Igreja vários embates cabíveis de escândalos e dúvidas, sempre esses realizados por humanos.
Quando leio algumas cartas enviadas por leitores do site, e as respostas do senhor por conta de um fato “isolado”, fico pasmado com a totalidade de culpa que certo movimento recebe por conta de uma parcela de pessoas que de fato erram ou não, por algumas de suas atitudes.

O que mais me intriga aqui é a alegada infalibilidade do concílio Vaticano II por conta da associação. Creio que por mais estudo e formação intelectual que se possa existir em um cristão, não há como diferenciar racionalidade da subjetividade de viver a fé católica. E como Igreja Católica Apostólica Romana, o concílio Vaticano II é verdade de fé, para aqueles que comungam do Cristo ressucitado na hóstia consgrada. Não há como pressupor infalível um CONCÍLIO, e por mais suspeitas que o senhor possa ter encontrado sobre o desenrrolar do mesmo, provavelmente o senhor encontrará em vários outros momentos da Igreja, onde se discutem vários dogmas e princípios da Mesma.

Intrigante quando o senhor comenta sobre Santa Missa. Não há dúvidas que a “Missa de Sempre” é de fato inspirada e dirigida por Jesus Cristo, mas não há como negar que a “Missa atual” (ou seja lá como o senhor denomine-A) constitui, também, a ressurreição de Cristo e Sua grandeza. E o principal, faz com que toda a assembléia participe da Ceia do Senhor, ao contemplar Jesus, que nos fala e nos sustenta. Infelizmente nunca pude presenciar uma missa Tridentina, mas anseio por isso, pois não dúvido de sua Santidade, mas a eucaristia consagrada na Santa Missa é um fato real e não há como haver discórdia.

Dividimos do mesmo pensamento em relação a situações anti-litúrgicas, como as músicas que hoje se encontram em meio as Santa Missas, à algumas formas de adoração ao Santíssimo e situações que nos intrigam em que o Sagrado é olhado de uma forma diferente. Embora não se possa acusar os leigos fiéis de profanação e heresia, quando os mesmos desconhecem as atitudes pecaminosas diante dessas circustâncias.

Enfim, diante de discóridas e concórdias, venho, infelizmente, escrevê-lo – ainda que com muito respeito – como um discordante. Ao lêr algum de seus argumentos, percebo um tom de agressão para alguns sacerdotes, bispos, e leigos, ou seja a Igreja. Acredito e concordo com o Vaticano II, independente da pastoralidade ou não que tenha tido, e são de movimentos pastorais que o mundo precisa. Me lembro de uns dados que aqui encontrei sobre a diminuição de fiéis católicos, salvo engano, na França, e toda a culpa sendo lançada no concílio Vaticano II, e não na globalização, na alienação que o a mídia acarreta, na falta de pastoralidade e das discussões ardentes dentro da própria Igreja. Rezo por que o senhor esteja sempre iluminado pelo Espírito Santo, e que por mais próximo de erros que todos estejamos, o senhor possa, assim como eu e todos cristãos, dinfundir ao mundo a Verdade que se encontra em Cristo Jesus.

Que a tradição não seja confundida com o tradicionalismo.
Que sua indiferença para com o povo de Deus, seja subsituida pela unidade de uma única fé, de um só povo, por um só coração, que vem do alto.

Estaremos sempre unidos, mesmo com as discórdias, pela Santa Eucaristia.

Deus, só.

Nemo dat quod non habet.

Muito prezado Álvaro, salve Maria.
 
Você tem razão: ninguém dá o que não tem.
 
Você pretendeu ter caridade para comigo e me dar ensinamentos sobre o que não conhece.
 
Nós não somos a Igreja. Somos parte dela e parte menor porque pertencemos à Igreja discente. Só o clero foi constituido por Cristo como Igreja docente.
 
Também nunca afirmei que o Vaticano II é infalível.
 
Sempre ensinei o oposto: o Vaticano II foi FALÍVEL.
 
E a Missa não é inspirada por Deus. Foi feita por Cristo Deus.
 
E a Missa nunca foi ceia e nem a “constitui, também, a ressurreição de Cristo e Sua grandeza”  como vocë bem erradamente escreveu.
 
Por isso antes de escrever sobre o que não sabe, seria muito bom que você estudasse o catecismo romano (ou de Trento), que estudasse o que é a Missa (leia a Mediator Dei de Pio XII e os textos do Concílio de Trento). Por fim, seria bom que você rezasse pedindo a Nossa Senhora que lhe obtenha de Jesus Cristo a graça da sabedoria e a vitória sobre a presunção.
 
Deus lhe conceda muitas graças neste Natal.
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

Replica

Caro professor Orlando Fedelli,

Muito me espanta o quanto em curtas linhas o senhor consegue afirmar aquilo o que eu outrora havia repetido: Nemo dat quod non habet. De fato, ninguém dá aquilo que não tem, e minha pretenção não foi nunca de tentar ensinar algo ao senhor, até porque pela sua formação, experiência e sabedoria, não há como comparar meu conhecimento telógico com o seu.

Ainda volto a afirmar, que o senhor não pode dar aquilo que não tem. E ser Igreja, significa “ser amor”. Ou ser de Deus, aquilo que se é afirmado no Pai-nosso, é deixar com que “Deus seja tudo em todos”, e como na sua primeira encíclica o Papa Bento XVI titulou: “Deus caritas est”, e ser Igreja, defender a fé católica, exige um minímo de caridade, o laço com a perfeição, a qual busco, e imagino também que o senhor a busque, a perfeição em Deus.

Na resposta a minha carta, o senhor afirmou que a Missa não é uma ceia, e de fato não é, apenas. O senhor me indicou a Mediator Dei de Pio XII, e lá se encontra redigido o seguinte: “A Igreja, pois, fiel ao mandato recebido do seu Fundador, continua o ofício sacerdotal de Jesus Cristo, sobretudo com a sagrada liturgia. E o faz em primeiro lugar no altar, onde o sacrifício da cruz é perpetuamente representado e renovado, com a só diferença no modo de oferecer;” Continuar o ofício sacerdotal de Jesus Cristo, mesmo que como Igreja discente, significa assumir uma realidade talvez maior do que o conhecimento puramente teológico. – “onde o sacrifício da cruz é continuado” – o senhor, mais do que eu, sabe que a Redenção tinha de passar pela cruz, que o erro dos fiéis no princípio, foi de não entender o “escândalo da cruz”. Ou seja, se na Santa Missa representamos o “sacrifício da cruz”, então é na mesma que se inicia o projeto da Salvação, é lá, na hóstia consagrada, que Cristo ressucita em nós, que o Deus amor, se faz vivo em cada um de nós. Ainda sobre a representação da grandeza de Cristo, a qual comentei e o senhor acusa de erro, encontra-se assim escrito por Pio XII: “Os infinitos e imensos méritos desse sacrifício, com efeito, não têm limites: estendem-se à universalidade dos homens de todo lugar e de todo tempo, porque, nele, o sacerdote e a vítima é Deus Homem; porque a sua imolação como a sua obediência à vontade do Eterno Pai foi perfeitíssima, e porque foi como Cabeça do gênero humano, que ele quis morrer.” Se os infinitos méritos da cruz não correspondem a grandeza de Deus, não sei em que o Senhor acredita.

“Vós sois templos do Espírito Santo”. “Amai-vos uns aos outros assim como Eu vou amei”. Caro Orlando, ser Igreja, ainda que discente, é ser amor. É respeitar o sacrifício de Cristo para com a humanidade e difundir a verdade que é caridosa, que é sabedoria do altíssimo e não tradicionalismo interpretativo como o senhor julga ser.

Que bom que o senhor admite: “Sempre ensinei o oposto: o Vaticano II foi FALÍVEL”. Afinal o senhor também sabiamente conclui: “Nós não somos a Igreja.”, então não cabe ao senhor definir aquilo o que é válido ou não.

O senhor ainda me indica orar pela vitória sobre a presunção. Que o Senhor me faça humilde. esvazie meu ser e preencha-o com Sua sabedoria, com sua história que me é entregue pela Eucaristia.

Que Deus o abençoe.

Dei, solum.

Muito prezado Álvaro,
Salve Maria.
 
     Você declara que não sabe o que a Montfort defende. Mas, apesar de não saber o que defendo, me critica. Uma coisa você sabe: que eu não tenho caridade. Coisa que só Deus pode saber, pois só Deus conhece o que somos realmente. Mas pelo menos você imagina que eu busque a perfeição. O que já é alguma coisa.
     Você diz que Deus é amor…
     Diga-me: que é o amor?
     E como o Deus Amor escreveu o terrível Salmo CVIII?
     É o amor que o faz me escrever manifestando tanta amargura e insatisfação em sua alma?
     Disse-lhe que pedisse a Deus graças para você vencer sua presunção.
     Ora eis o que você escreveu, julgando estar pontificando e ensinando:
 
Ou seja, se na Santa Missa representamos o “sacrifício da cruz”, então é na mesma que se inicia o projeto da Salvação, é lá, na hóstia consagrada, que Cristo ressucita em nós, que o Deus amor, se faz vivo em cada um de nós”.
 
     Meu caro, dizer que na Missa “representamos” o sacrifício da Cruz é heresia. A Missa não é um teatro onde se representa a morte de Cristo na Cruz. Na Missa se renova misticamente a morte de Cristo.
     E também não é certo dizer que Deus se faz vivo em nós pela Missa e pela comunhão. Cristo está vivo, pois já ressuscitou. Cristo não nos torna vivos quando comungamos. Ele aumenta então a vida da graça em nós, se bem comungamos. Pois que para receber a Cristo eucarístico devemos já antes estar vivos pela graça santificante. É sacrilégio comungar estando mortos pelo pecado mortal.
     Esta pequena lição caridosa a dou para ajudar sua alma a ser um pouco mais humilde.
     E desde quando eu me disse tradicionalista?
     Claro que defendo a Tradição da Igreja, mas evito dizer-me simplesmente tradicionalista por causa dos múltiplos sentidos que essa palavra tem. Por exemplo, o Vaticano I, o Concílio infalivel de 1870, condenou o fideísmo dos filósofos tradicionalistas. A TFP se diz defensora da Tradição e o gnóstco Rene Guenon chamava a Gnose de Tradição. E Cristo condenou a tradição (cabalah) dos fariseus.
     Ao me atribuir o adjetivo tradicionalista, você mostra a presunção de saber o que é o tradicionalismo, e o que pretende saber de mim mesmo internamente.
 
     Em suma, você pretende dar o que não tem: sabedoria  e humildade, bancando ter uma caridade que não possui, pois não pode haver caridade sem a verdade.
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

 
PS. Poderia perguntar-lhe qual é a sua profissão? Por que você não a colocou em seus dados pessoais? Estudou você em seminário? Seu estilo e seu “amor” me parecem tão seminarísticos… ou será imaginação minha? OF

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