Montfort Associação Cultural

14 de julho de 2013

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O Pai Nosso, as Bem Aventuranças, os Dons do Espírito Santo e a Paixão de Cristo

Autor: Marcelo Andrade

Os homens causaram sofrimento brutal a Cristo,  na antípoda dos bens que Ele nos ensinou a pedir no “Pai Nosso”, das bem aventuranças e dos dons do Espírito Santo.

“Felle potus ecce languet;

Spina, clavi, láncea,

Mite corpus perforárunt,

Unda manat et cruor;

Terra, pontus, astra, mundus,

Quo lavántur flúmine!”[1]

Com fulcro no “Comentário ao Pai Nosso” de S. Tomás de Aquino[2], pretendemos fazer um pequeno ensaio relacionando, de um lado, o “Pai Nosso”, explicado pelo Doutor Angélico, as bem-aventuranças e os dons e, de outro lado, alguns fatos relacionados à Paixão de Cristo.

Como é conhecido, as bem-aventuranças descritas em Mateus 5,1-12 associam-se, esplendidamente, aos dons do Espírito Santo, que estão relacionados em Isaías 11,2-3[3]. Com a diferença de que eles estão elencados em ordem inversa.

S. Tomás ensina que para cada uma das petições do “Pai Nosso” haverá uma bem-aventurança e um dom associados.

Não avançaremos no tema das bem-aventuranças e dos dons[4] porque extrapolaria as ambições deste texto. E o “Comentário ao Pai Nosso” de S. Tomás seguirá apresentado de forma esquemática.

Os homens causaram um sofrimento brutal a Cristo[5]. Muito desta dolência forma uma antítese[6], uma antípoda do “Pai Nosso”, das bem aventuranças e dos dons.

De forma, se rezarmos e meditarmos o “Pai Nosso”, as bem-aventuranças e os dons, podemos pensar na Paixão de Cristo.

Seguiremos a sequência adotada pelo Aquinate.

1-PAI NOSSO QUE ESTAIS NOS CÉUS

 

Segundo S. Tomás, o início do “Pai Nosso” é uma invocação e não uma petição.

Deus é nosso Pai em razão do modo especial com que nos criou, fazendo-nos à Sua imagem e semelhança.[7]

 

O Filho esteve na terra. O Verbo Encarnado habitou entre nós.

 

Ele veio para o que é seu, mas os seus não O receberam (Jo 1,11). As trevas não O compreenderam (Jo 1,5).

 

Esta invocação nos ensina a honrar a Deus[8], imitá-Lo e obedecê-Lo.

 

Porém, Cristo, na terra, não foi honrado nem imitado nem obedecido. Como diz o Salmo 21:

 

“(…) Mas eu sou verme, e não homem,

 opróbrio dos homens e desprezado do povo.

Todos os que me veem zombam de mim (…).”

Segundo S. Tomás, a expressão “que estais nos céus” exorta a contemplação das realidades celestes[9], a busca das coisas do alto.

 

Porém, os homens, do alto de sua soberba, quiseram ver Cristo não num alto merecido, mas no alto infame da Cruz.

 

 

2- SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME

 

Esta é a primeira petição e nela se pede que o nome de Deus se manifeste e resplandeça em nós.[10] Dom associado: temor[11].

 

Temor de Deus é o medo de perder as riquezas espirituais, de ofender a Cristo, de Dele se separar.

 

Porém, os homens não temeram a Cristo, ofenderam-no e quiseram se separar Dele.

 

“De fato, Ele (Cristo) será entregue aos gentios, escarnecido, ultrajado, coberto de escarros, depois de O açoitar, eles O matarão” (Lc 18,32-33).

O santo nome de Deus tem estes atributos:

- Admirável porque realiza maravilhas em suas Criaturas.

Porém, cuspiram em Cristo (Mt 26,67).

- Amável porque não há outro nome dado aos homens pelo qual possam ser salvos.

Porém, bateram Nele (Mt 27,30)

- Venerável porque “ao nome de Jesus dobre todo o joelho”.

Porém, dobraram o joelho apenas para escarnecer Dele (Mt 27,29).

- Inefável porque não há palavra capaz de expressá-Lo perfeitamente.

Porém, zombaram de Cristo (Mt 27,31).

Bem aventurado os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus.

Cristo foi pobre de espírito na terra e negaram que Ele fosse o Rei dos céus e da terra.

Os homens estavam tão ricos de si mesmos que recusaram o Reino de Deus.

Gritaram: “não temos outro rei senão César” (Jo 19,15).

A única coroa que deram a Cristo foi a de espinhos: “Os soldados teceram uma coroa de espinhos e a puseram na cabeça Dele” (Jo 19,2).

 

3- VENHA A NÓS O VOSSO REINO

 

S. Tomás ensina que fazemos esta petição para que os justos se convertam, os maus sejam punidos e a morte seja destruída. Dom associado: a piedade. [12]

Piedade é render culto a Deus como Pai, de modo filial e afetuoso, e secundariamente a todos os homens enquanto se referem a Deus.

Porém, os homens foram totalmente impiedosos com Cristo, submeteram-No ao reino deste mundo:

“Você se nega a falar comigo?”, disse Pilatos. “Não sabe que eu tenho autoridade para libertá-lo e para crucificá-lo?” (Jo 19,10).

O Justo, Cristo, foi punido brutalmente.

O mau, Barrabás, foi libertado.

E quiseram destruir a própria Vida[13] na Cruz.

Bem aventurado os mansos porque possuirão a terra.

Cristo era manso: “aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”(Mt 11,29), mas recusaram-Lhe o direito de possuir a terra.

Os homens foram iracundos.

Negaram-Lhe pousada em seu nascimento (Lc 2,7). Teve de fugir para o Egito: “Levanta-te, toma o menino (Cristo) e sua mãe e fuja para o Egito” (Mt. 2,13).

 

4-  SEJA FEITA A VOSSA VONTADE ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU

 

S. Tomás ensina que o homem não se deve fiar em seus juízos e deve aceitar e seguir a vontade de Deus para o seu próprio bem e para sua salvação. Dom associado: ciência. [14]

Por ciência, entende-se o conhecimento das coisas humanas, o reto juízo sobre as criaturas[15], devendo ordená-las ao bem Divino.

Porém, o homem fez a sua própria vontade. Quis curvar o céu ao seu desígnio, foi totalmente insipiente. Quis ordenar o bem Divino às suas misérias.

“Que crime ele cometeu?, perguntou Pilatos. Mas eles gritavam ainda mais: crucifica-o! “(Mt 27,23).

Bem aventurado os que choram porque serão consolados.

Cristo sofreu e não foi consolado.

Os homens não foram vigilantes.

No Horto das Oliveiras, Cristo disse: “Triste está minha alma até a morte, esperem aqui e velem comigo” (Mt 26,38), mas os apóstolos dormiram (Mt 26,39).

 

5- O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE

 

Esta petição é feita para o homem não desfalecer ante as suas dificuldades.[16]

Dom associado: fortaleza. O dom da fortaleza implica firmeza de alma tanto para praticar o bem quanto para evitar o mal[17]

Porém os homens evitaram o bem e praticaram o mal.

Esta petição nos ensina a evitar os vícios:

-desejo desregrado. Age desta forma como um soldado que não quer usar seu uniforme, mas o de general.

Ora, os soldados tiraram a sorte para ver quem iria ficar com a túnica de Cristo (Jo 19,24). Os homens quiseram (e ainda querem) se vestirem de Deus.

-prejudicar o próximo na aquisição dos bens materiais:

Despojaram Cristo de suas vestes (MT 27,28).

-busca de coisas supérfluas:

“aproximou-se Dele (Cristo) uma mulher que trazia um vaso de alabastro cheio de bálsamo precioso, e lho derramou sobre a cabeça, estando ele reclinado à mesa. Quando os discípulos viram isso, indignaram-se, e disseram: Para que este desperdício?” (Mt 26,6-7).
-ingratidão:

Viram que Cristo fez muitos milagres (Mt 6,2), mas depois procuravam como prender Jesus por meio de um ardil para matá-Lo (Mc 14,1).

 

Bem-aventurado os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados.

Porém, quando Cristo teve sede, não foi saciado.

Em um primeiro momento, deram-Lhe vinho misturado com fel (27,34) e Cristo não tomou.

Em um segundo momento, Cristo disse: “tenho sede”, mas não Lhe deram água, deram-Lhe vinagre. (Jo 19,28)

 

6- PERDOAI AS NOSSAS DÍVIDAS ASSIM COMO PERDOAMOS AOS NOSSOS DEVEDORES

Devemos a Deus aquilo que Lhe negamos, mas que é Seu direito, e este consiste em cumprir sua vontade em detrimento da nossa. Os pecados são dívidas pelas quais devemos pedir perdão[18]

Dom associado: Conselho.

Conselho é agir bem, é evitar o mal, é aplicar, em caso particular, os bons princípios. Aconselhar é ser misericordioso.[19]

Os homens aplicaram no caso particular de Cristo, o mau juízo.

A única dívida quitada foi a dívida iníqua de Judas, as 30 moedas. Quem foi perdoado foi Barrabás, o ladrão.

E Cristo fora condenado injustamente.

Bem aventurado os misericordiosos porque alcançarão misericórdia.

Cristo foi misericordioso e conheceu a crueldade e mesmo assim pediu perdão por aqueles que não sabiam o que faziam (Lc 23,34).

Com perversidade, pregaram-No na Cruz:

“Transpassaram minhas mãos e meus pés” (Sl 21,17-18).

 

7 – NÃO NOS DEIXEI EM CAIR EM TENTAÇÃO

 

Nesta petição, Ele nos ensina a pedir que sejamos preservados dos pecados. Dom associado: inteligência.[20]

O dom da Inteligência é a compreensão das verdades que se ordenam à fé. Estende-se, também, para as obras que versam sobre as razões eternas.[21]

Os homens foram estultos.

Os homens podem ser tentados e cair no pecado por causa do mundo, por causa da carne e por causa do demônio.

Um dos doze apóstolos traiu Cristo: “Então Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, um dos Doze” (lc 22,13).

São Pedro O negou: “Eu lhe digo, Pedro, que antes que o galo cante hoje, três vezes você me negará” (Jo 22,34).

A multidão excitada preferiu a Barrabás: “Mas os chefes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que Pilatos, ao contrário, soltasse Barrabás” (Mc 15,11)

Diz o Senhor: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai diante de meus olhos a malignidade dos vossos pensamentos e deixai de fazer o mal.”

A única purificação feita foi a maldita de Pilatos que lavou suas mãos e permitiu que o mal fosse feito.

Bem aventurados os puros de coração, pois verão a Deus.

Os homens são tão sujos que não viram a Deus em Cristo. E o sofrimento que os homens causaram a Ele foi tão indizível que Ele próprio parecia não ver o Pai.

Cristo disse: “Eli, Eli, lama sabachthani, que significa:  Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? ”(Mc 15,34).

 

8- MAS NOS LIVRAI-NOS DO MAL

 

Esta súplica visa à proteção de todo o mal, incluindo o pecado, a tribulação e a enfermidade. Dom associado: sabedoria.

Sabedoria consiste em julgar todas as coisas segundo a causa divina, como elas são vistas e queridas por Deus. É ter uma visão ordenada de tudo. É ter uma contemplação deiforme.

Os homens foram néscios, viram desordenadamente a Cristo, contemplaram-No com olhos humanos.

Quiseram calar o próprio Verbo encarnado.

Impuseram o maior mal possível a Cristo. O crime dos homens foi o deicídio.

O pior crime e mal de todos os tempos.

Pela paciência é que se conhece a sabedoria de alguém[22]. Porém, a impaciência dominou os homens que quiseram a morte rápida de Cristo por causa do sábado cerimonial.

Bem aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus.

Cristo foi pacífico, deu a paz aos apóstolos (Jo 1,27), mas negaram que Ele fosse o Filho de Deus.

Os homens inimigos entre si fizeram as pazes[23] e lutaram contra Cristo.

Foi dito a Cristo: “Se és filho de Deus, desça da cruz”(Mt 27,40).

 

9- AMÉM

 

Amém é a confirmação universal de todos os pedidos da oração do Senhor.[24]

Cristo disse do alto da Cruz: “Está consumado! Com isso, curvou a cabeça e entregou o espírito” (Jo 19,30).

 

 

O homem, do alto de sua vaidade,

contempla, no alto da Santa Cruz,

a sua própria e alta maldade.

Pois, quis apagar a santa Luz,

quis matar a genuína Vida

e  o fim do Caminho que reluz.

Quis a Verdade desmentida,

quis ao Verbo e ao Belo calar

e a misericórdia suprimida.

Quis contra a vera paz lutar,

quis a injustiça com vigor

e a sabedoria ignorar.

quis condenar o Salvador,

quis vendê-Lo em troca de dinheiro

e impor a Ele, a máxima dor.

quis vê-Lo pregado no madeiro,

quis a blasfêmia e a traição

e com o demônio ser meeiro.

E da Cruz ainda herda a salvação.

 

Marcelo Andrade, 1 de maio, na festa de São José.


[1] Antífona da Sexta-feira santa, estrofe do “Fiel madeiro da Cruz”

[2] Comentário ao Pai Nosso, S. Tomás de Aquino, editora Lótus do Saber, 2002.

[3] Conforme ensinou S. Agostinho, por primeiro.

[4] Para melhor conhecimento das bem-aventuranças e dos dons remetemos o leitor para este texto: http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=sermao&lang=bra

[5] Em geral, claro. Houve muitas exceções.  Nossa Senhora e São José são as grandes exceções.

[6] A palavra antítese aqui não foi empregada no sentido da dialética hegeliana, mas como figura de linguagem.

[7] Ibid., p. 35

[8] Ibid., p. 38

[9] Ibid., p. 46

[10] Ibid., p. 56

[11] Ibid., p. 64

[12] Ibid., p.62-64

[13] Cristo disse: eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 1,6).

[14] Ibid., p.74

[15] II-II, q. 9.

[16] Ibid., p. 87

[17] II-II, q. 139.

[18] Ibid., p. 99

[19] II-II, q. 52.

[20] Ibid., p. 113

[21] II-II, q.8.

[22] Ibid., p. 126

[23] Pilatos fez as pazes com Herodes, por exemplo.

[24] Ibid., p. 127

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