Montfort Associação Cultural

7 de março de 2007

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O nosso cérebro está programado para acreditar em Deus?

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Luís Froes
  • Idade: 18
  • Localizaçao: Lisboa – Portugal
  • Religião: Católica

Lisboa, 18 de Janeiro de 2006
Santa Margarida da Hungria, virgem

Meu caro Professor Orlando Fedeli,

Creio que não existe coisa mais preciosa que a Fé: a Fé católica, límpida, clara. Este é o maior dom para a vida, seguramente; mas é-o também como desafio, pois creio que a maior aventura da vida é conhecer Cristo e suplicar-Lhe que Se revele, entregar a liberdade para que Ele Se dê a conhecer e transforme a nossa vida, que guiada unicamente pelo nosso critério se torna mesquinha, vazia de significado.
Mas a graça de uma Fé límpida, indefectível, assente na verdadeira doutrina da Santa Mãe Igreja é, nos tempos actuais – tempos de crise no clero -, ainda mais preciosa, porque mais difícil. Digo difícil porque a heresia modernista penetrou no seio do próprio clero, dando a Satanás a possibilidade de desvirtuar a actual transmissão da transmissão com clareza da doutrina certa da Igreja.

Recentemente encontrei numa revista portuguesa uma reportagem que me levantou algumas dúvidas e perguntas e me suscitou algumas reflexões e apreciações, e que passo a transcrever. Colocarei números no fim de cada afirmação merecedora de comentário ou questão, listando-os no final do texto que segue abaixo:



«porque Deus nunca desaparecerá

O nosso cérebro está programado para acreditar
A fé, remédio milagroso contra a ansiedade

O nosso cérebro está programado para acreditar

Estudos recentes na área da neurobiologia revelam que a estrutura, a química, a cognição…tudo no nosso cérebro nos impulsiona a acreditar. Mais ainda: poderá ter sido identificada uma «molécula da fé».

Acreditar em Deus? Em geral, é a palavra «Deus» que focaliza os debates. Como se o facto de «acreditar» fosse uma disposição perfeitamente aceite, para não dizer natural, no homem. E é justamente o caso! Após alguns anos de pesquisa, trabalhos realizados tanto por neurobiólogos como por especialistas na área da cognição demonstram que a nossa aptidão para crer em algo superior tem origem não no céu, mas no nosso cérebro. É que, à luz de modernos instrumentos de imagiologia cerebral, o nosso encéfalo parece que está idealmente estruturado para aderirmos à ideia de divino. (1) A ponto de se poder falar de uma verdadeira predisposição do homem para o sentimento religioso. (2) Começam a desvendar-se processos cerebrais que sustentam esta misteriosa faculdade. Com uma surpresa de monta: a descoberta do papel crucial de uma pequena molécula naqueles que têm fé!

A neuroteologia dá os primeiros passos

Esta descoberta deve-se a meia dúzia de neurobiólogos que, após cerca de cinco anos de pesquisa, conseguiram levantar o véu sobre essa “unio mystica” que Santa Teresa de Ávila, no século XVI foi provavelmente a primeira a descrever em pormenor: «É uma espécie de desfalecimento que retira a pouco e pouco a respiração e todas as forças do corpo. É em vão que queremos falar, não conseguimos formar uma palavra e, se conseguimos, não teremos força para a pronunciar. Toda a força exterior se esgota, mas a força interior engrandece. É assim o estado de duas coisas que estavam divididas e que agora são só uma.» Mas esta extática sensação de fusão com Deus (3) não é apanágio dos cristãos: os monges budistas também entram em transe quando meditam, assim como os místicos muçulmanos, que quando comungam com o divino fazem-no em transe. (4) Apesar de extremos, estes fenómenos de «fusão mística» são universais e, daí, terem começado a ser estudados como qualquer outra manifestação humana. Uma pesquisa que se inscreve nas investigações mais gerais sobre os sentimentos religiosos e que abriram o caminho, há dez anos, à criação de uma nova disciplina, chamada «neuroteologia», cujo «objectivo é identificar os mecanismos cognitivos que regem a crença em Deus», explica o neurobiólogo Andrew Newberd, director da clínica de medicina nuclear da Universidade da Pensilvância (EUA) e pioneiro neste novo campo científico. «É claro que a definição de Deus que nós utilizamos não é a mesma que usam os teólogos, que reflectem de forma precisa sobre a natureza e os atributos de Deus. Para nós, este é simplesmente definido como uma entidade superior, quase sempre invisível, que está na origem do mundo.»

Resultados espectaculares

Os trabalhos dos neuroteólogos começam agora a dar os primeiros resultados. É certo que precisam ainda de ser aprofundados, mas o que revelam é para já espectacular: na origem da propensão para a fé estará… a serotonina, uma substância que, no cérebro, transmite a informação de um neurónio para o outro (um neurotransmissor, portanto), e sobre a qual se sabe já que está implicada nas sensações de fome, de sede e de sono. Uma verdadeira descoberta, que vem dar força a uma intuição que surgiu no início do ano 2000. Nesta data, os neuroteólogos tomaram conhecimento de trabalhos que aparentemente não tinham nada a ver com o assunto em causa: estudos, dirigidos por biólogos nos anos noventa, sobre os efeitos no cérebro das drogas ditas «psicadélicas» (LSD, etc.). Ora, estas pesquisas indicam que a serotonina pode criar estados similares aos produzidos por estas drogas, tais como modificações da percepção sensorial, alucinações, sensação de fusão com o mundo… ou seja, nem mais nem menos do que as sensações que os místicos dizem experimentar durante os seus estados extáticos. (5) «Descobriu-se que o cérebro reage às moléculas do LSD e da psilocibina [molécula presente num «cogumelo mágico»] como se se tratasse de serotonina, porque as suas estruturas moleculares são muito parecidas com esta última», explica o biólogo Olivier Cases (Unidade Inserm 106, Hospital da Pitié-Salpêtrière, Paris). «Devido a esta semelhança. estas drogas conseguem induzir artificialmente uma libertação em massa de glutamato, um neurotransmissor que assegura a transmissão de informações sensoriais, fazendo-se passar pela serotonina.» O que, no fim de contas, provoca as alterações de percepção… Daí a pôr a hipótese de que as experiências místicas «naturais», ou seja, sem influência de drogas, poderiam ser provocadas pela serotonina foi um passo.
Mas ainda faltava demonstrá-lo! E em 2003 foi vencida uma etapa crucial neste sentido. Sob a orientação da neurobióloga Jaqueline Borg e da sua equipa (Universidade Karolinska de Estocolmo, Suécia), uma experiência que envolvia 15 voluntários estabeleceu que a tendência para ver o mundo como habitado pelo divino – uma tendência baptizada de «religiosidade» pelos investigadores – depende efectivamente da taxa de serotonina. (6)

A culpa é da serotonina

Mais precisamente, investigando o cérebro dos seus voluntários através da tomografia por emissão de positrões (TEP), a equipa sueca pôs em evidência o papel de certos receptores químicos, chamados 5HT1A. Situados numa categora de neurónios ditos “serotoninérgicos”, estes receptores têm a arte de fazer baixar a quantidade de serotonina libertada no cérebro. Ora, parece que quanto mais fraca era a quantidade destes receptores 5HT1A, e quanto mais elevada era a taxa de serotonina, maior era a religiosidade demonstrada. Ou seja, neste caso «os sujeitos tinham uma tendência para apreender as dificuldades da vida desenvolvendo a ideia de que uma presença divina existe no mundo. Diziam também muitas vezes ter vivido experiências místicas. Ou, ainda, acreditavam em milagres ou na existência de um sexto sentido.» Assim, uma taxa elevada de serotonina no cérebro aumentaria o grau de religiosidade!
Questão: como é que os cientistas fizeram para avaliar esta famosa religiosidade? Simples: empregaram um instrumento frequentemente utilizado pelos psiquiatras para determinar as grandes tendências da personalidade dos seus pacientes. A saber, o Inventário de Temperamento e Carácter (TCI – “Temperament and Character Inventory”), um registo composto por 238 questões que permite avaliar a importância no indivíduo de 25 aspectos fundamentais da personalidade humana, tais como a impulsividade, a dependência da opinião dos outros, o medo do desconhecido, etc. Ora, «neste questionário, há uma série de perguntas destinadas a avaliar o grau de religiosidade dos sujeitos, do género “Já se sentiu em contacto com uma presença espiritual divina?” ou “As experiências religiosas ajudaram-no a compreender o sentido da sua vida?”», conta Jacqueline Borg. E a dimensão perturbadora do resultado obtido pelos investigadores suecos aparece desde logo quando se fica a saber que, entre os 25 aspectos da personalidade dos voluntários avaliados pelo TCI, a religiosidade se revelou… o único parâmetro correlacionado com a densidade dos receptores 5HT1A.
A consequência desta descoberta pode parecer sacrilégio. É que, para Jacqueline Borgm impõe-se antes de mais uma conclusão: «O sistema de produção de serotonina poderia ser visto como uma das bases biológicas da crença religiosa, mesmo que o resultado do estudo deva ainda ser aprofundado com trabalhos realizados com um painel de voluntários mais alargado.» (7)

A «molécula da fé»

Pode dizer-se que foi descoberta a «molécula da fé»? «Certamente que não», responde sorrindo a bióloga Catherine Belzung, da Universidade de Tours. «Se é certo que a crença em Deus pode ser favorecida pela acção de uma molécula como a serotonina, ela não pode en caso algum resumir-se à acção exclusiva desta molécula.» E, de resto, Jacqueline Borg não o nega: «Um estudo alemão realizado em 2002 sugere que outros neurotransmissores poderiam estar implicados na religiosidade: os opióides, que são conhecidos por terem um papel importante na sensação de dor. Assim como para a LSD e a serotonina, verifica-se que as drogas opiáceas, tais como a morfina ou o ópio, que imitam a acção dos opióides naturalmente segregados pelo cérebro, modificam as percepções sensoriais.» Se somos crentes, é porque o nosso cérebro nos preparou quimicamente para isso, (8) mas não só…
De facto, o estranho fenómeno da crença não se desenrola apenas ao nível molecular. Antes de investigar a química do cérebro, outros neuroteólogos trabalharam sobre a sua estrutura. E também aí obtiveram resultados perturbadores, identificando certas zonas do cérebro indubitavalmente implicadas na sensação de uma presença divina. Trabalhos que ainda não podem ser «cruzados» com os realizados sobre o papel dos neurotransmissores, mas que são mais uma peça na tentativa de construir o «puzzle» complexo da cognição religiosa. Concretamente, as pesquisas mostraram uma zona cortical bem precisa na parte superior traseira do crânio: o córtex parietal superior. O famoso sentimento de fusão mística com o mundo parece tanto mais manifesto quanto mais moderada é a actividade desta zona. Foi uma célebre experiência de imagiologia cerebral realizada em 2001 pelo neurobiólogo Andrew Newberg que o demonstrou. Analisando através do TEP a activação cerebral de oito monges tibetanos budistas imersos, através de uma técnica de respiração específica, num estado de meditação conhecido por levar a esta sensação de simbiose, o neurobiólogo descobriu no seu ecrã um estranho fenómeno: quanto mais profunda parecia a meditação, mais a zona do córtex parietal superior do cérebro… escurecia. Sinal de uma queda brusca da irrigação sanguínea, logo de uma diminuição da actividade. Porquê esta zona? Andrew Newberg tem uma explicação: «Uma das funções do córtex parietal superior é a de permitir ao indivíduo fazer a distinção entre o seu corpo e o ambiente que o rodeia e de se orientar no espaço. O que explicaria, quando a sua actividade abranda, a emergência de alterações da percepção espacial e da sensação de fusão com o Universo.» (9)
E não é só o cortéx parietal superior. «Outros trabalhos indicam que é provavelmente toda uma rede cerebral que é mobilizada», descreve Andrew Newberg. «Por exemplo, pesquisas realizadas nos anos noventa pelo neuropsicólogo norte-americano Michael Persinger sugerem que a estimulação electromagnética dos lóbulos temporais, zonas localizadas ao nível das têmporas, provocariam a sensação de ter a seu lado uma presença invisível. Estas zonas do cérebro poderiam então também estar implicadas na apetência para sentir uma presença divina.» Munido destas constatações, Andrew Newberg empenhou-se em identificar nos seus mais pequenos recantos esta estranha rede cortical. Com a esperança de chegar a uma verdadeira cartografia cerebral da fé.
Todos estes trabalhos lhe asseguram: o ser humano parece perfeitamente programado para acreditar em Deus e cada um de nós é herdeiro de um cérebro naturalmente inclinado para produzir o sentimento de que o mundo é habitado por uma entidade superior. Sem contar com o facto de que os nossos próprios genes poderão também ter uma palavra a dizer nesta matéria [ver caixa «O sentimento religioso terá também uma base genética»].
Sim, mas outros cientistas, estes da área da antropologia cognitiva, uma disciplina que estuda as relações entre a cultura e as estruturas cognitivas, postulam que o nosso encéfalo está ainda melhor estruturado para aderir a essa ideia… quando ela nos é transmitida por outros. Para compreender, é preciso ir buscar os trabalhos da psicologia cognitiva realizados com três bebés há cerca de 15 anos. Em 1992, a psicóloga norte-americana Karen Wynn, da Universidade de Yale (EUA), teve a ideia de apresentar uma pequena peça de teatro de marionetas a crianças de quatro meses. E descobriu que elas são capazes, desde essa idade, de saber que uma marioneta não pode estar em dois lugares diferentes ao mesmo tempo, assim como não pode desaparecer subitamente. Na mesma época, «outros trabalhos realizados pelos psicólogos norte-americanos Henry Wellman e Susan Gelman mostram que, antes de fazerem um ano, as crianças são capazes de saber que um homem não se pode transformar num animal ou num objecto», explica Dan Sperber, director de pesquisa no Instituto de Ciências Cognitivas Jean Nicod (CNRS, Paris). «Intuitivamente, eles classificam os seres humanos em categorias bem distintas das dos animais e dos objectos.» Não há dúvida, o homem possui de forma inata uma percepção do mundo de que faz parte o «natural» e o «sobrenatural». (10)

Terreno fértil para a crença

O que, para Dan Sperber, demonstra uma vez mais que o nosso encéfalo é um terreno fértil para as crenças religiosas. Até porque estas só podem ser explicadas pelo facto facto de o nosso cérebro estar equipado por um mecanismo psicológico inato que, em suma, nos torna particularmente sensíveis às ideias que estipulam a existência de divindades: (11) «As crenças religiosas envolvem personagens dotadas de poderes sobrenaturais: entidade divina invisível, dotada do dom da ubiquidade, ou ainda capaz de se materializar num animal ou num objecto.
Ora, isso viola as noções intuitivas que herdamos à nascença.» E como a nossa percepção intuitiva do real é inata, a sua transgressão pelas crenças religiosas (12) provoca uma reacção emocional forte. Dito de outra forma, o simples facto de as evocar contradiz a tal ponto o nosso entendimento que somos levados a atribuir-lhe um poder esclarecedor superior. (13) No fim de contas, é muito naturalmente que nos inclinamos a acreditar em Deus.
Química, estrutura, cognição…o nosso cérebro prepara cada um de nós para aderir à ideia de Deus. Pode dizer-se que este último não passa de uma criação do nosso cérebro? «O que todos estes trabalhos parecem indicar é que o ser humano está muito bem equipado cognitivamente para acreditar», explica Andrew Newberg. «EM compensação, não se pronunciam de forma alguma sobre a existência efectiva de Deus.» Esta continua a ser uma questão para a qual a ciência não tem resposta.

[O sentimento religioso terá também uma base genética

Um estudo dirigido pela psicóloga Laura Koenig (Universidade do Minnesota, EUA) e publicado em 2005 no "Journal of Personality" revela que a atracção pela religião é não só determinada pelo ambiente no qual o indivíduo cresce, mas também...pelos seus genes. Os trabalhos foram realizados com um painel de 546 voluntários adultos, compostos por 169 pares de gémeos monozigóticos (os chamados «gémeos verdadeiros», ou seja, os que possuem um património genético absolutamente idêntico) e 104 pares de gémeos dizigóticos (chamados «gémeos falsos», que não têm mais genes em comum do que quaisquer irmãos não gémeos). Foi-lhes feito um questionário para avaliar a importância ocupada pela religião na sua vida no momento do teste (quantas vezes rezavam, respeito pelos ritos religiosos, etc.) mas também para medir o lugar que ela tinha ocupado durante a sua infância. Resultado: para o período adulto, a atitude face à religião adoptada pelos dois gémeos de um par monozigótico era mais frequentemente similar do que no seio dos pares dizigóticos. Em compensação, para o período da infância, os investigadores não encontraram diferenças significativas entre os dois tipos de gémeos. O que sugere que existirão de facto bases genéticas na origem da religiosidade, mas que a asua influência se faz sentir progressivamente ao longo do desenvolvimento do indivíduo, quando se liberta das influências do ambiente recebidas na infância.]

A fé, remédio milagroso contra a ansiedade

Porque dá resposta às dúvidas existencias e cria um sentimento de segurança, na medida em que ajuda a fortalecer a sensação de pertença a uma comunidade, pode dizer-se que a religião é um verdadeiro ansiolítico. Que até age sobre a saúde!

Parece um paradoxo: acreditar em Deus aumenta… a esperança de vida na Terra! É esta inusitada conclusão de trabalhos que, após uma década, mostra que os indivíduos que crêem na existência de uma entidade divina aumentam a sua longevidade. E de modo considerável, ainda por cima! Em 2002, o professor de psiquiatria David B. Larson, da Universidade Luke, na Carolina do Norte (EUA), estimava que os crentes viviam em média 29 por cento mais tempo que do que os não crentes. Fruto da síntese de 42 estudos médicos realizados entre 1977 e 1999 e envolvendo cerca de de 126 mil pessoas, esta cifra, pela sua amplitude, põe desde logo uma questão: em que é que o facto de acreditar pode ter uma influência na nossa esperança de vida? A resposta dá-se numa palavra: ansiolítico. É que, se as religiões têm uma virtude, é a de serem um remédio contra a angústia. Os atentados de 2001 contra o World Trade Center foram a ocasião de confirmar exemplarmente esta ideia. Nos meses que se seguiram ao fatídico 11 de Setembro, as autoridades sanitárias norte-americanas constataram, com efeito, um claro aumento da ansiedade no seio da população; ora, ao mesmo tempo, muitos americanos decidiram entregar-se a práticas religiosas que, até então, lhes eram indiferentes…

Um discurso reconfortante

Mais claro ainda: psicólogos da Univerisade de Washington revelaram no início de 2005 os resultados de um estudo levado a cabo na época com 453 estudantes de todas as confissões. Do qual se destaca que os que recorreram a comportamentos religiosos como rezar para gerir o trauma conseguiram acalmar a sua angústia muito mais eficazmente do que os outros. Um resultado que vem ao encontro de estudos realizados em contextos completamente diferentes. Em 2002, por exemplo, o psicólogo Victor G. Cicirelli, da Universidade Purdue, em Indiana (EUA), submeteu um grupo de 388 pessoas, desta vez entre os sessenta e os cem anos, à «Escala multidimensional do medo da morte», um teste psicológico, frequentemente utilizado pelos geriatras para medir o nível de ansiedade dos seus pacientes face à morte. Veredicto: os sujeitos crentes apresentavam um nível de angústia inferior ao dos indivíduos não crentes.
É portanto uma certeza científica: a crença em Deus permite reduzir a angústia. Porquê? Porque as religiões dão precisamente as respostas às interrogações mais profundas do homem. O sentido da vida, a questão das origens, a angústia da morte…Pouco importa o nome do deus que adoram, a génese que descrevem ou a natureza do paraíso que prometem, todas, cada uma à sua maneira, produzem um discurso que dá uma resposta ao que angustia o homem quando pensa na sua condição. Uma resposta em que cada um pode desde logo encontrar refúgio, na medida em que adoptar durante a sua vida um comportamento conforme às leis ditadas pela religião que abraça. (1)

Uma «ilusão de controlo»

A verdade é que, quando se acredita em Deus, torna-se possível agir precisamente onde o sentimento da própria finitude aterroriza. O que reduz consideravelmente qualquer ansiedade. Ora, na realidade, este fenómeno inscreve-se num quadro mais vasto que os investigadores em psicologia social conhecem bem por o estudarem desde os anos setenta. A saber: «Quando o indivíduo é exposto a uma situação em que acontecimentos negativos fora do seu controlo podem surgir a qualquer momento, ele utiliza um estratagema chamado «ilusão de controlo», explica Olivier Desrichard, do Laboratório de psicologia social das Universidades de Savoie (Chambéry) e Pierre-Mendés-France (Grenoble). «Este mecanismo consiste em convencer-se de que dispõe de um poder sobre o seu meio envolvente, suceptível de lhe permitir evitar ser exposto a esse acontecimento negativo.» Um exemplo? Um estudo dirigido por Isabelle Milhabet (Universidade de Nice-Sophia-Antipolis), com o qual Olivier Desrichard colaborou, descreve na perfeição as engrenagens desse mecanismo: «Ao avaliar a percepção que uma população de estudantes tinha de contrair o vírus da sida, descobrimos que cada um considerava que corria menos riscos de ser infectado do que todos os outros», explica o investigador. Ora, se cada um tem a mesma percepção isso vai dar forçosamente a um problema de lógica! Uma verdadeira «ilusão de controlo», que está na origem de muitos comprotamentos como a do desportista que beija a sua medalha antes de entrar em campo. E, visto desse ângulo, a religião aparece finalmente como uma ilusão de controlo entre tantas outras… (2)

[Também faz bem à saúde das sociedades?

Se a religião tem um efeito benéfico na saúde dos indivíduos, também o tem na das sociedades? Neste caso, a resposta é mais difícil. Se o protestantismo e o budismo parecem efectivamente favorecer a prosperidade das nações (uma grande parte da Ásia de Leste, actualmente em plena explosão económica, é budista), a religião católica e a islâmica, pelo contrário, parecem muito menos operantes. É em todo o caso o que demonstra um estudo dirigido pelo economista Luigi Zingales (Universidade de Chicago, EUA), com uma amostra de cem mil pessoas, originárias de 54 países. O investigador mediu em cada indivíduo a intensidade das atitudes individuais consideradas pelos economistas como as mais favoráveis para o sucesso de um país, tais como a aceitação das desigualdades, a atitude face à competição ou ainda a confiança depositada no governo. Depois, relacionou estes dados com a religião de cada sujeito. Resultado: budistas e protestantes são menos contrários à competição e às desigualdades sociais do que os católicos e os muçulmanos. Resultados que têm no entanto uma "nuance", uma vez que para a confiança depositada no governo, um factor igualmente considerado essencial, são os católicos e os muçulmanos que fazem prova de um grau mais elevado]

Uma questão de psicologia

O que é que o ser humano procura evistar com esta pirueta cognitiva? Nada menos que um estado psicológico desastroso. Precisamente: «Ser exposto a longo prazo a uma situação perigosa em relação à qual se sabe que não se pode fazer nada, como uma catástrofe natural, uma doença ou uma guerra, provoca um estado chamado “inibição da acção”, o qual é extremamente traumatizante para o organismo», explica o biólogo Georges Chapoutier, director de pesquisa da equipa CNRS «Vulnerabilidade, Adaptação e Psicopatologia» (Universidade de Paris VI e Paris VII). Em tal caso, com efeito, «o organismo entra num estado psicológico dito de alerta: hormonas como a adrenalina e os corticóides [como o célebre cortisol, também chamado "hormona do stress"], são segregadas enquanto o ritmo cardíaco acelera e a tensão arterial aumenta. Durante as primeiras horas, esta reacção é benéfica, pois “acorda” literalmente o organismo a fim de lhe permitir agir da melhor maneira para assegurar a sobrevivência. Mas se este estado de alerta se mantém, as coisas degradam-se rapidamente. Dando origem a patologias como as úlceras de estômago, ou mesmo cancros.» Está visto, até a nossa psicologia nos leva então a procurar todos os meios possíveis para escapar à angústia…
E se a fé apazigua grande parte das nossas angústias metafísicas, possui ainda um outro trunfo: o de permitir ao crente fazer parte de uma comunidade religiosa. É que estar integrado num grupo social dá segurança e, por isso, reduz a ansiedade. Uma única prova: em 2000, um psiquiatra norte-americano da Universidade do Alabama demonstrou que em 236 voluntários em situação de ressaca de drigas e álcool, os que eram crentes beneficiavam de um suporte social acrescido…o que no final induzia neles um mais baixo nível de ansiedade. Resultados obtidos pela análise das respostas dadas pelos sujeitos a um questionário psicológico especificamente concebido para o estudo. Qual é a explicação para este benefício? A resposta está nos primórdios da humanidade. Mais precisamente durante o Pleistoceno (de -1,8 milhões de anos a – 10 mil anos), quando os “Homo” evoluíam exclusivamente em pequenos grupos de uma dezena de indivíduos. Não fazer parte de um grupo equivale então muito simplesmente a uma condenação à morte. «Durante esse período, o homem só sobrevivia se beneficiasse de relações de cooperação com os seus semelhantes», explica Boris Cyrulnik, professor de etologia na Universidade de Toulon. «O que explica que é portanto no interior de um grupo que um ser humano experimenta bem-estar.» Uma experiência que perdura ainda hoje em quem quer que seja que se encontre integrado num grupo social. Certamente, as virtudes ansiolíticas trazidas pela inclusão social não são mais do que uma consequência indirecta da fé, mas um tal benefício não é menos precioso por isso.
Psicologia, fisiologia, social: no fim de contas, temos todas as razões do mundo para ter fé. Mais um sinal de que a crença em Deus não está prestes a desaparecer. Porque uma coisa é certa: como resume muito bem o neurobiólogo Andrew Newberg, especialista em cognição religiosa, «a ansiedade que o ser humano experimenta face à morte existirá sempre e, como a fé permite reduzir eficazmente essa ansiedade, Deus nunca desaparecerá»! (3) »



Questões, comentários e reflexões

O nosso cérebro está programado para acreditar

(1). Meu caro professor, não se parece esta conclusão com a premissa do racionalismo cartesiano de que Deus é uma ideia inata? É possível, em consonância com a santa doutrina católica, acreditar que Deus criou o nosso cérebro com uma propensão de adesão à fé? Um programa de fé?

(2). «Predisposição do homem para o sentimento religioso»: Meu caro professor Orlado, é correcto falar nisto? É, aliás, correcto falar de «sentimento religioso»? O que seria o «sentimento religioso»? O homem sentir Deus? Mas isso é possível? Não creio que assim seja…aliás, tal expressão levanta uma aparente contradição com o que a reportagem diz imediatamente antes: o cérebro humano está programado para acreditar em Deus. Ou seja, o homem foi, como é dito mais abaixo, «perfeitamente programado para acreditar em Deus e cada um de nós é herdeiro de um cérebro naturalmente inclinado para produzir o sentimento de que o mundo é habitado por uma entidade superior» e, simultaneamente, o homem tem uma natural e – diria mesmo – imanente disposição para o «sentimento religioso»? É isto que é dito no texto, mas ambas as premissas me parecem falsas à luz da Doutrina Católica. Se a primeira se identifica quase com o racionalismo cartesiano (o homem estruturado para aderir à ideia de Deus), a segunda (a experiência naturalmente humana do «sentimento religioso») me parece típica das teses modernistas, de que é paradigmática a repetida e obscura expressão actual «Eu sinto Deus à minha maneira», que o Santo Padre condenou há dois verões em Colónia, nas Jornadas Mundiais da Juventude.

(3). «Extática sensação de fusão com Deus»? Que expressão obscura! «Sensação de fusão com Deus»? Tal expressão recorda-me um acontecimento ocorrido em tempos numa assembleia do Movimento de Comunhão e Libertação, quando, na fase de perguntas e respostas, um amigo meu, em resposta a um outro que havia afirmado, constrangido, que sentia desânimo por todos os domingos, depois de comungar na Santa Missa, quando regressava ao lugar, e nos momentos que se seguiam, «não sentir nada de diferente nem nada de especial», quando um amigo meu, dizia eu, declarou em resposta: «Nós não somos propriamente animaizinhos, não fomos criados para ter sensações e viver instintivamente. A Fé não é um sentimento!», deixando claro que a razão é um dom de Deus para que o homem possa conhecer a realidade, abraçá-la e procurar a Verdade, pelo que a primeira premissa da Fé – sendo que a Fé é a adesão da inteligência às Verdades reveladas por Deus, é o reconhecimento claro e pleno das Verdades que Deus revelou – é a racionalidade, e nunca o sentimento ou o sentimentalismo vago, que é sempre nebuloso e obscuro e que tolda a racionalidade. Por isso, não comungamos para sentir Cristo, mas porque a presença de Cristo, do corpo de Cristo, da carne de Cristo (bem documentada no milagre de Lanciano) na Hóstia Consagrada é a modalidade sacramental mais decisiva da História, porque é aquela com que Deus feito homem, depois de flagelado e coroado de espinhos, depois de ter carregado a Cruz, depois de morrer crucificado nela, depois de ressuscitar ao terceiro dia e depois de subir aos Céus, decidiu permanecer materialmente na história dos homens, para nos acompanhar, para nos limpar das nossas misérias, das nossas impurezas, para que sejamos cada vez mais d” Ele, para que vivamos cada vez mais para Ele, em suma, para que possamos santificarmo-nos dia após dia, sempre a retomar a luta pelo Bem, como cavaleiros bravos, sem abandonar a estrada certa até ao último momento da nossa vida na Terra, para depois comparecermos diante d” Ele.

(4). Ao mesmo tempo, o texto cita até Santa Teresa de Jesus (citação bem estranha, diga-se), para depois dar a entender que essa “unio mystica” por ela supostamente descrita, também os budistas (imagine-se, o budismo, que nem sequer pode ser chamado de religião) e os muçulmanos a experimentam, como se Deus fosse uma experiência que se faz intimamente. Mais uma vez o texto não é claro nos conceitos de que trata, dando a entender, de forma subtil e indirecta, que a Fé Católica é semelhante à filosofia budista ou ao fé do Islão.

(5). «…Sensações que os místicos dizem experimentar durante os seus estados extáticos». De volta a euforia sensacionista, mística, esóterica, diria mesmo ocultista. É no mínimo irónico, para não dizer paradoxal, ou para não dizer mesmo contraditório, que o texto nos fale do cérebro humano como o grande agente – agente causador – da Fé e depois se perca em misticismos dignos de superstições histéricas típicas dos actuais e tão falados horóscopos, tarot, alquimia, etc.

(6). Aqui começa a delinear-se a questão pretensamente científica: «Sob a orientação da neurobióloga Jaqueline Borg e da sua equipa (Universidade Karolinska de Estocolmo, Suécia), uma experiência que envolvia 15 voluntários estabeleceu que a tendência para ver o mundo como habitado pelo divino – uma tendência baptizada de «religiosidade» pelos investigadores – depende efectivamente da taxa de serotonina.». Meu caro professor, sei que o senhor é professor de História e não de Neurologia, mas pergunto-lhe, acha esta conclusão válida? Eu não posso crer que a “religiosidade” de o homem, criado livremente por Deus, seja determinada por uma taxa de uma qualquer substância.

(7). O jornalista avisa bem quando fala em possibilidade de sacrilégio! «Bases biológicas da crença religiosa»? É possível, com rigor científico, sem entrar no caminho da heresia e do anátema, falar em «bases biológicas da crença religiosa»?

(8). «Se somos crentes, é porque o nosso cérebro nos preparou quimicamente para isso…» Professor, isto é possível? O jornalista acrescenta à expressão citada um «mas não só…». Ainda assim, é lícito concluir que a nossa fé se deve, também, a uma natural disposição química?

(9). «…emergência de alterações da percepção espacial e da sensação de fusão com o Universo». Meu caro professor, eu rezo diariamente com os meus amigos de Comunhão e Libertação no liceu as Laudes, no intervalo das 10 da manhã, e o Angelus, precisamente ao meio-dia. Não me lembro de algum de nós passar por «alterações da percepção espacial» e pela «sensação de fusão com o universo». Além disso, tenho por hábito confessar-me Domingo após Domingo, comungar pelo menos semanalmente, rezar muitas vezes o terço, e nunca nas minhas práticas religiosas individuais ou em comunidade passei, graças a Deus, por estados de «sensação de fusão com o Universo» ou por «alterações da percepção especial».

(10). «Não há dúvida, o homem possui de forma inata uma percepção do mundo de que faz parte o “natural” e o “sobrenatural”.» Esta frase levantou-me enormes dúvidas. Em primeiro lugar, porque as razões e os exemplos dados pelo texto como fundamento para esta afirmação, além de, mais uma vez, se mostrarem pouco claros, nem sequer sustentam devidamente a tese afirmada. Depois, porque não me parece nada evidente e irrefutável que o homem tenha a capacidade inata de distinguir a ordem natural e a ordem sobrenatural, como mostram os desvarios gnósticos, que nascem precisamente da da confusão das duas ordens. No entanto, como não estou seguro desta minha posição, peço-lhe que me corrija se estiver errado, meu caro professor.

(11). «…o nosso encéfalo é um terreno fértil para as crenças religiosas. Até porque estas só podem ser explicadas pelo facto facto de o nosso cérebro estar equipado por um mecanismo psicológico inato que, em suma, nos torna particularmente sensíveis às ideias que estipulam a existência de divindades.» Isto tem de ser mentira! Senão, como explicar que Paul Claudel tenha sido conquistado pela graça durante o canto das Vésperas, no Natal de 1886, em Notre-Dame, Paris, convertendo-se à Fé verdadeira? Um mecanismo inato? Ou antes um acto livre da consciência de um homem que, diante da beleza do canto das Vésperas e da Catedral de Notre-Dame, se converteu à Igreja de Cristo? Se a Fé nascesse de um «mecanismo psicológico inato» como seria possível a conversão? Como seria possível a comoção diante da beleza? A beleza é esplendor da Verdade, aponta claramente para ela, pelo que a própria beleza é um sinal da bondade e perfeição de Deus. A arte moderna é terrível, é verdadeiramente assustadora, porque nega a Verdade e, consequentemente, nega a beleza. É abstracta, muitas vezes irrazoável e irracional, por isso prejudicial à alma humana, que foi criada por Deus com uma enorme sede de Bem, de Beleza, de Verdade.

(12). «E como a nossa percepção intuitiva do real é inata, a sua transgressão pelas crenças religiosas…» Será um erro de compreensão meu ou o autor da reportagem dá a entender que a crença religiosa transgride a percepção do real? Mas será possível que a Fé em Jesus Cristo e na Santa Madre Igreja seja uma transgressão à percepção real, como se a Encarnação do Verbo Divino não fosse um facto, um acontecimento real, acontecido, histórico? Falando do budismo, sim, é verdade, de facto o budismo preconiza mesmo a fuga da realidade quando está se mostra adversa. Daí a célebre distinção que Chesterton, na sua obra “Ortodoxia”, fez entre as imagens do “religioso” budista e do santo católico: enquanto o primeiro se apresenta de olhos fechados, numa atitude meditativa, as imagens dos santos católicos mostram-nos sempre um santo de olhos bem abertos, numa postura viva e activa. O “religioso” budista fecha-se numa atitude egoísta e introspectiva, enquanto o santo católico vive intensamente a realidade oferecendo-se inteiramente a Deus e aos seus próximos. Neste sentido, parece-me infundamentada a acusão das crenças religiosas transgredirem a realidade, completada com a ideia de que, por essa mesma razão, provocam uma «reacção emocional forte» – o jornalista gosta muito de emoções, parecendo esquecer os profícuos séculos de filosofia católica de conciliação do papel da Fé e da Razão, depois sucessivamente e progressivamente deturpadas e adulteradas pelo racionalismo cartesiano, pelo iluminismo, pelo romantismo, pelo positivismo, pelo marxismo, pelas ideologias do século XX, pelo existencialismo absurdo de Sartre.

(13). «Dito de outra forma, o simples facto de as evocar contradiz a tal ponto o nosso entendimento que somos levados a atribuir-lhe um poder esclarecedor superior.» Creio que a intenção desta frase expressão é clara: remeter a Fé para o âmbito do irracional, do oculto, do absurdo mesmo. Como se a Fé verdadeira, a Fé Católica Apostólica Romana, pudesse contradizer o entendimento; como se a Fé em Cristo fosse um sentimento, uma adesão irracional, oculta, vazia de sentido e de ordem. Como se a pureza da santa Doutrina Católica fosse contrária à nossa Razão, como se Deus nos desse a Razão, por um lado, e a Fé, por outro, e as colocasse em campos opostos, agindo de forma contraditória. Como se Deus pudesse agir de forma contraditória!

A fé, remédio milagroso contra a ansiedade

(1). «Pouco importa o nome do deus que adoram, a génese que descrevem ou a natureza do paraíso que prometem, todas, cada uma à sua maneira, produzem um discurso que dá uma resposta ao que angustia o homem quando pensa na sua condição.» Encontramos aqui a confirmação da ideia que a primeira parte da reportagem suscitou em mim: estamos diante de uma posição culturalmente relativista. Todas as religiões são tratadas de modo idêntico, como se todas fossem verdadeiras. Mas o ponto central é que, como disse Monsenhor Luigi Giussani, “toda a História é atravessada pelo anúncio do Deus que Se fez homem!”
Hoje esquece-se ou pretende-se ignorar um facto: o Verbo fez-Se homem, morreu por nós, ressuscitou e venceu o pecado, permanecendo na história por meio da companhia humana fundada sob a autoridade do Papa – a Igreja -, a quem Cristo entregou as chaves do Reino dos Céus e a quem prometeu assistência na luta contra o Demónio, até ao fim dos tempos – “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. E Eu te darei as chaves do Reino dos Céus. Tudo o que ligares na terra será ligado no céu. Tudo o que desligares na terra, será desligado no céu. E as portas do Inferno não prevalecerão contra ti.” ( Mt. XVI, ). Esquece-se, portanto, este facto histórico fundamental: O Verbo Divino fez-Se carne, revelando-Se, deixando claro o caminho e concedendo-nos a Igreja como modalidade de encontro carnal com Ele, pelo que não existe outro caminho, outro método, outro local de salvação.

(2). Todo este parágrafo se afigura ridículo e falso, na medida em que a religião – e aqui julgo que nenhuma delas – consiste num mecanismo de «ilusão de controlo». «Este mecanismo consiste em convencer-se de que dispõe de um poder sobre o seu meio envolvente, suceptível de lhe permitir evitar ser exposto a esse acontecimento negativo.» Tal afirmação é falsa, na medida em que o próprio Deus feito homem foi flagelado, coroado de espinhos, carregou a cruz onde veio a ser crucificado para morrer. Deus, Criador do Céu e da Terra, de todos os planetas, estrelas, galáxias, Criador do Universo, humilhado, torturado, morto às mãos dos homens. E, no entanto, era Deus. Onde está a «ilusão de controlo»? Para um crente católico, julgo que não há ilusão nem controlo, mas consciência de que nós homens, somos frágeis, pequenos, finitos, criaturas livres, mas totalmente dependentes do Criador. O período da Quaresma é propício para nos recordarmos disto: «Recorda-te que és pó e em pó te hás-de tornar.» (Gén. 3, 19). Julgo que, a este nível, a Igreja, como Mãe prudente, recorda-nos a nossa condição de criaturas finitas, limitadas pelo pecado, assinalando que a religiosidade nunca será por nós vivida em plenitude nesta vida terrena.

(3). A reportagem termina com a afirmação de que «Deus nunca desaparecerá». Além da contradição lógica que quase invoca – Deus, sendo Deus, não pode desaparecer, pelo que a expressão é inadequada -, tudo está construído de maneira a crer que «Deus nunca desaparecerá», não porque seja Deus, mas porque o homem não o permite: a ansiedade que o ser humano vive em relação à morte torna o desaparecimento de Deus impossível. Trata-se de uma conclusão absurda, porque pressupõe um deus feito à nossa medida, segundo a nossa capacidade, em função da nossa condição existencial. Já não é Deus que criou o homem para o amar, mas o homem que necessita de Deus – ainda que Ele não passe de um postulado – para enfrentar a ansiedade face à morte – Deus olhado como um antídoto face à morte, tão só e simplesmente.

Conclusões finais

Meu caro professor Orlando, detendo-me a pensar sobre esta reportagem, pude deparar-me com duas questões fundamentais.
A primeira diz respeito à própria origem da Fé, vista como decorrente de uma programação inata do cérebro humano. A pergunta que se impõe é a seguinte: onde está o espaço da liberdade humana? Onde se joga a escolha pelo caminho de Cristo, pelo caminho do Bem e da Verdade? Julgo que a própria premissa de que a Fé tem origem exclusiva num mecanismo programado do cérebro humano se torna incompatível com o acontecimento da conversão na vida do homem.
Tal premissa impede uma adesão livre à Verdade, chega mesmo a impedir a tomada de consciência do Bem que se encontrou, o reconhecimento da impossível correspondência vivida no encontro com Cristo, esta impossível correspondência da nossa pobre humanidade com o Bem que Oscar Wilde exprime bem num dos seus livros, «A Woman of No Importance», quando uma das suas personagens, numa clara afirmação da contradição entre os seus próprios limites e os seus valores, num desejo de afirmar que o homem é pecador e precisa de ser amado e perdoado, diz «O doente não pergunta se a mão que lhe arranja a almofada é pura, nem o moribundo se importa se os lábios que tocam a sua testa conheceram o pecado (…). E tu pensas que eu passo demasiado tempo a ir à Igreja e nos deveres da Igreja. Mas onde mais posso eu ir? A casa de Deus é a única casa onde os pecadores são bem vindos.»
Assim, Wilde afirma no seu «Personal Diary»: «O catolicismo é a única religião onde se pode ir morrer.» Mas tal afirmação não se trata de um desvario. Se relermos a obra de Oscar Wilde à luz dos acontecimentos do final da sua vida, percebos que a sua conversão ao Catolicismo não é um absurdo, mas pelo contrário é o culminar de uma estrada que estava a ser trilhada. Depois de uma infância em que o pai o impediu de ser católico e das incertezas morais que marcaram grande parte da sua vida, somente no dia 29 de Novembro de 1900, no dia da sua morte, é que Wilde, já debilitado, foi aceite na Santa Madre Igreja, recebendo o baptismo no leito. Foi como que a conclusão da sua busca pela verdadeira beleza, além do puro gosto estético: «E aqui eu viro a minha cara para casa/ Pois toda a minha peregrinação está feita/ Ainda que, eu acho, ao longe o sol encarnado/ Indica o caminho para Roma sagrada.» («Rome Unvisited»).

Por outro lado, a premissa segundo a qual existe no homem uma «verdadeira predisposição para o sentimento religioso» recoloca a questão, alargando o leque de problemas: onde reside a liberdade de adesão racional às verdades da Fé? Onde reside a possibilidade de escolha? E, por outro lado, onde encontrar clareza e distinção na Fé se tudo não passe de um sentimento? O misticismo, o sensacionismo, o ocultismo, etc., tudo isto apela à irracionalidade e à falta de clareza no juízo humano, afastando a Fé da vida prática, da concretez da vida, na medida em que declara que a Fé não passa de uma intuição mística, tão ao gosto dos gnósticos, que nenhuma incidência ou relação tem com a realidade em que o homem se encontra. No fundo, trata-se daquilo que o grande G. K. Chesterton descreveu de forma soberba quando afirmou: «Enquanto que todas as sociedades humanas consideram a inclinação ao misticismo como algo extraordinário, tenho eu que objectar, entretanto, que uma só sociedade entre elas, o Catolicismo, leva em conta as coisas quotidianas. Todas as outras as deixam de lado e as menosprezam.»

Em «Choruses from “The Rock”», o poeta americano – depois inglês – Thomas Stearns Eliot descreve, com o entusiasmo pela tradição que lhe era próprio, um percurso humano absolutamente incompatível com o inatismo e a imanência da religiosidade que nos querem vender:

«Então pareceu que os homens deviam caminhar da luz para a luz, na luz do Verbo,
Através da Paixão e do Sacrifício salvos, apesar do seu ser negativo;
Bestiais como sempre, carnais, centrados em si como sempre,
egoístas e obtusos como sempre tinham sido,
Contudo sempre em luta, sempre a reafirmarem, sempre a
retomarem a sua marcha no caminho iluminado pela luz;
Parando frequentemente, perdendo tempo, desviando-se,
atrasando-se, voltando, mas jamais seguindo outro caminho.»

É este conceito de destino, este tender para o Ideal, pecando sem dúvida, mas, graças ao Sacramento da Confissão, retomando o caminho da graça santificante, que vence a anarquia do misticismo, a confusão do sentimentalismo, porque é mais belo o homem caminhar com um destino certo e chegar lá do que lançar-se simplesmente ao improviso, para combater a anarquia. Assim, o poeta de «The Man Who Was Thurday» de Chesterton, numa discussão com o seu opositor anarquista, detém-se espantado com um mapa de comboio e com a chegada ao local esperado: «Você diz desdenhosamente que quando se deixa Sloane Square se tem que chegar a Victoria. Digo-lhe que se poderiam fazer mil coisas diferentes, e ao chegar tenho a sensação de ter escapado por pouco. Quando oiço o revisor gritar “Victoria” dou à palavra o seu sentido.»

Contra a ideia modernista de religiosidade, Don Luigi Giussani respondia com o «sentido religioso», não como programação cerebral para a adesão a Deus ou como predisposição humana para o sentimento religioso, mas como algo que Deus colocou no coração do homem desde a Criação: o desejo, a sede de Infinito, de Absoluto, de Bem, de Verdade, de Amor, de Alegria, de Felicidade, em suma, a sede de Deus, que nos criou para Si – «Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti.» (Santo Agostinho)
Daí que Giussani gostasse de Mozart, porque a beleza é sinal de Deus, é esplendor da Verdade. Mozart, figura cheia de incoerências morais, revelava na sua música uma sede e uma comoção diante da beleza impressionantes. Não podemos negar o pecado original, aquela “fractura” em virtude da qual o homem, embora reconheça o bem e o caminho certo, existencialmente é incapaz de o praticar – «Não pratico o bem que quero e pratico o mal que não quero», diz Sao Paulo; estruturalmente o homem seria capaz, mas o mau uso da liberdade dos nossos pais deixou-nos esta ferida, esta incapacidade, que só é vencida por Cristo. A Via Sacra ajuda-nos a recordar a que preço fomos salvos. Num mundo que cada vez mais quer ver Jesus como um líder religioso carismático ou um filosófo, a Via Sacra relembra que Ele é o Cordeiro imulado, no sangue do qual lavamos as nossas almas.

Meu caro professor Orlando, termino aqui a minha reflexão sobre a reportagem transcrita, que lhe envio agora.
Aguardo o seu juízo, sempre fundamentado na Doutrina Católica, que conhece melhor do que eu, sobre o que lhe envio.
Peço-lhe que, caso encontre algum erro ou mentira nas minhas apreciações, os indique e corrija.

Com os melhores cumprimentos,
Luís Froes

PS – A data do referendo do aborto aproxima-se. Suplico-lhe as suas orações e as da Monfort pedindo a Deus e a Nossa Senhora que protejam a vida e jamais permitam que esse crime terrível seja liberalizado em Portugal.

Muito prezado  Luis,
Salve Maria.
 
     A Fé é um dom de Deus. Recebemos esse dom no Batismo. O que é impossível aos homens, é possível para Deus. É Ele que nos sustenta na Fé apesar dos pecados e traições do clero, hoje.
     Não é nosso cérebro que está “programado” para a Fé. Se fôssemos “programados” não teríamos mérito pois fariamos tudo pré determinadamente pelo “programa” que nos teria sido imposto. Deus nos fez livres e semlhantes a Ele. Por isso, temos atração por Deus, pois todo semelhante tende para o seu semelhante. Mas essa atração não elimina nossa liberdade de escolha. Somos capazes, por nossa imperfeição, a preferir uma criatura, pelo bem que nela há que a torna parecida como o Bem Absoluto de Deus sob alguma aspecto, ao próprio Deus. E é nisso que consiste o pecado: preferir o bem relativo da criatura ao Bem Absoluto que é Deus.
    Por isso, você comenta corretamente dizendo que: 

onde está o espaço da liberdade humana? Onde se joga a escolha pelo caminho de Cristo, pelo caminho do Bem e da Verdade? Julgo que a própria premissa de que a Fé tem origem exclusiva num mecanismo programado do cérebro humano se torna incompatível com o acontecimento da conversão na vida do homem”.


    E comenta bem ainda outra vez ao me dizer: onde reside a liberdade de adesão racional às verdades da Fé? Onde reside a possibilidade de escolha? E, por outro lado, onde encontrar clareza e distinção na Fé se tudo não passe de um sentimento? O misticismo, o sensacionismo, o ocultismo, etc., tudo isto apela à irracionalidade e à falta de clareza no juízo humano”, mostrando como isso é no fundo Gnose.
    Não há uma “Molécula da Fé” como diz estupidamente esse artigo. A Fé é sobrenatural e qualquer molécula é material e natural. A distância do natural ao sobrenatural é incomensurável. O sobrenatural — como diz o seu nome — é algo que transcende a natureza.
Neuroteologia é algo infinitamente mais estúpido como falar da psique do mármore. Como falar em «bases biológicas da crença religiosa»?
    Depois, a Fé não é um sentimento religioso. A Fé um dom e uma virtude e nunca um sentimento. Quem definia a Fé como sentimento religioso eram os hereges modernistas que foram condenados exatamente por esse erro.
    Fusão com Deus é expressão estranha que indicaria uma absorção metafísica pelo nosso ser e o Ser de Deus. Ora, essa fusão é exatamente o que ensina a Gnose. Daí, no artigo, se falar em fusão com Deus, citando Buda.
    Você nota bem em seu ponto 5 que há uma contradição muito grande no artigo que, ora é naturalista, ora esotérico e gnóstico, mostrando muito sintomaticamente a contradição dialética de toda heresia gnóstica para a qual o natural é sobrenatural, e a matéria é, ao mesmo tempo, má e boa.
    E como toda a Gnose, o autor é ao mesmo tempo racionalista e defensor da intuição irracional ou a racional.
    Não perca tempo com essas loucuras pseudo científicas e “teológicas”.
 
    Não sabia que Wilde foi batizado na hora da morte. Sabia que teve uma morte horrível proporcionada à sua vida horrível. Li sua biografia e fiquei enojado. É certo que ele era bem inteligente, como o comprovam os seus geniais paradoxos. 
    Gostei das frases que você citou dele: 

«A casa de Deus é a única casa onde os pecadores são bem vindos.» 
«O catolicismo é a única religião onde se pode ir morrer


    São bem verdadeiras.
    Mas, ao lê-las, lembrei-me do que dizia minha avó: “Desta vez o diabo disse: “ái Jesus”.
   
    Quanto a Elliot, ele era um gnóstico e um modernista.
   
    Você certamente leu com atenção os livros e artigos de Monsenhor Giussani.
    Gostaria de saber que quer ele dizer com a palavra “presença“, que ele jamais define claramente. 
    Como me parece bem ambíguo, em italiano, o titulo “Il Senso religioso”.
  Que é senso” em italiano?
    No dicionário iatlaino se lê que “senso” pode significar sentido como também sentimento Essas duas palavras repetidas obsessivamente por Monsenhor Giussani , com sentidos muito flúidos, sempre me deixaram com “a pulga atrás da orelha”, como se diz no Brasil. Afinal, se a tradução real do título do livro fosse “O Sentimento Religioso” ???

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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