Montfort Associação Cultural

23 de novembro de 2004

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O Neocatecumenato, o Papa e bons frutos

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Alexandre
  • Localizaçao: – Brasil

Caro irmão em Cristo.

Estive lendo a longa e, pressuponho, cansativa discussão que você tem travado com os membros do Caminho Neocatecumenal. Se te escrevo esta mensagem, não é para te cansar ainda mais (tanto que evitarei, ao máximo, repetir as coisas que os outros já disseram). Se te escrevo é porque, como você, já fui um adversário deste Caminho (embora não com tanta veemência) e apenas quando o Senhor o abriu em minha vida é que o pude, verdadeiramente, avaliar e perceber os meus erros. De cara, digo que não li o livro do Pe. Zoffoli, embora muito já tenha ouvido falar a respeito (há, aliás, comentários de que o mesmo teria morrido abraçado numa ícone pintada por Kiko, o que, evidentemente, pode ser lenda). Quero, apenas, comentar o que tenho lido em tuas assertivas. E, creia, faço-o com caridade, pois respeito e admiro o trabalho que está fazendo na Internet.

Já estou há um bom tempo neste caminho e, até agora, não ouvi falar das apostilas do Kiko que o senhor tanto gostaria de ler. Pelo que pude perceber da correspondência trocada com o padre de Barcelona (acho que o nome é Jacob Bellido), tratar-se-iam de catequeses elaboradas por Kiko e Carmem, que são passadas a todas as comunidades nos momentos oportunos. O padre de Barcelona afirmou que as mesmas não são publicadas pois poderiam escandalizar a muitos, ao que o senhor respondeu ser bastante estranho que elas tenham algo de escandaloso. Posso, com a mais absoluta certeza, esclarecer o que o padre quis dizer. Sabe o que pode escandalizar nestas catequeses? É a CRUZ de Cristo, motivo de escândalo e loucura desde o começo da Igreja. Acho que o senhor não desconhece a profunda e constante paganização de nossa sociedade. Os católicos, em sua imensa maioria, estão com um pé na Igreja e com um pé fora dela. Para estes, a cruz é escândalo (como para os judeus) e loucura (como para os pagãos). Se a tua Paróquia não vive esta realidade, então, de fato, o Caminho não é para a mesma. Mas, na imensa maioria dos casos, os católicos ainda não estamos preparados para ouvir as verdades mais profundas do Evangelho sem que nos escandalizemos. Digo-o por mim mesmo: se, no começo do Caminho, eu tivesse recebido as catequeses que hoje recebo, teria abandonado tudo (pois não as poderia suportar) e esta graça de Deus teria passado em minha vida. E não é de se estranhar este proceder. O próprio São Paulo afirmava que, para uns, dava leite como alimento, para outros, comida sólida. O próprio Jesus afirmou que tinha muitas coisas a ensinar a seus discípulos, mas que, naquele momento, não poderiam suportar. Tudo tem seu tempo no Caminho. É um itinerário de formação cristã católica profundíssimo e que, ao contrário do que está no teu site, prima pela ortodoxia da fé. Este é o motivo pelo qual estas catequeses não são divulgadas aos quatro ventos. O segredo é guardado por caridade, e não por presunção ou por medo de que percebam nossas supostas heresias. Não somos como a maçonaria, pelo que muita coisa do caminho está publicada. Apenas que nós, os membros, não fazemos propaganda do que vivemos e, por experiência, preferimos testemunhar com nossa vida.

Muitos já te disseram que o Papa apóia o Caminho, e, em geral, você responde que tal apoio não é infalível. Cita, geralmente, o Papa Pio X, no caso de Sillon, quando o mesmo teria sido enganado. Mas veja que o atual Papa não pode estar enganado pelo Caminho, pois o contato que tem mantido, há mais de vinte anos, com as comunidades neocatecumenais é muito estreito. O Papa nos conhece profundamente, não há como estar enganado por uma propaganda do Kiko. Se o senhor tem acompanhado as perigrinações do Papa pela TV, ou mesmo pessoalmente, e se ainda não o souber, saiba que tem estado em contato com o Caminho. Apenas para exemplificar, naquela grande celebração realizada às margens do Mar da Galiléia, os elementos neocatecumenais eram abundantes. Cantaram-se músicas do Caminho, sendo uma delas (a da comunhão) cantada pelo próprio Kiko. Ele, inclusive, foi um dos que recebeu a Sagrada Comunhão das mãos de Sua Santidade. O trono em que o Papa esteva sentado tinha sido feito pelo Kiko; o altar foi enfeitado nos moldes neocatecumenais; ao lado deste altar havia uma ícone também pintada pelo Kiko; o Papa terminou a celebração e foi consagrar, pessoalmente, uma casa de retiros do Caminho construída à margens do mar da Galiléia. Não te pareceria estranho que, na maior celebração cristã já ocorrida na Terra Santa, predominasse um movimento repleto de heresias? E isto é só um exemplo. Em muitas outras oportunidades, o Papa se tem cercado do Caminho (inclusive, no encontro com as famílias que manteve há alguns anos no Rio de Janeiro).

Digo isto para o senhor perceba que o Papa não apenas ouviu falar do Caminho, mas AMA e ACOMPANHA o mesmo. É de uma inverossimilhança tremenda pensar que este Papa não teria, ainda, percebido todas aquelas grotescas heresias que o Senhor elencou neste site. Além disto, é necessário que se diga, também o Papa Paulo VI deu decidido e público apoio ao Neocatecumenato, pelo que o senhor teria que sustentar que este movimento já tem enganado a dois Papas. Não bastasse isto, como já o disse o padre de Barcelona, o próprio Cardeal Ratzinger aprova o Caminho, pelo que também a este o Kiko estaria enganando. E, aliás, teria que sustentar que vem enganando a todos os que vem estudando o neocatecumenato, à exceção, claro, do Pe. Zoffoli.

O grande erro que vejo o senho cometer é um erro de pressupostos. O senhor leu o livro do Pe. Zoffoli, aceitou seus argumentos e, para não se desapegar dos mesmos, tem desconsiderado tudo o mais. O Pe. Zoffoli afirmou que o Caminho está repleto de heresias? Pois bem, o Padre de Barcelona, que vive dentro do Caminho, afirma que não há heresia alguma. Porque, então, o senhor mantém o pressuposto de que o Caminho é herético, sendo que caberia a nós provar o contrário? Não seria mais honesto, pelo menos, gozarmos do benefício da dúvida? Se o senhor não conhece as malfadadas apostilas, é porque o Pe. Zoffoli não as citou textualmente em seu livro. Por que, então, o senhor acredita tanto elas teriam heresias se jamais teve acesso às mesmas? Seria porque paira sobre estas apostilas um ar de segredo e mistério (se não contém heresias, porque não as tornar públicas). Já disse que não há divulgação explícita apenas por caridade e para não afastar as pessoas do Caminho.

Tudo o que o Senhor tem ao seu favor são as palavras do Pe. Zoffoli. Permita-me dizer que, com a mais absoluta certeza, o senhor não conhece o Caminho, suas práticas e sua história. Como posso afirmá-lo? Pela razão de que, mais de uma vez, o senhor fala no Pe. Kiko. O que vou escrever a seguir, entenda-o literalmente : qualquer pessoa que tenha começado ontem o Caminho, hoje poderia te dizer que o Kiko não é padre, mas leigo (que vive na pobreza e na castidade), assim como leiga é a Carmem. Se o Senhor acredita que o Kiko é padre, é porque não pesquisou, ainda, o tema que tem comentado, muito embora já tenha, em seu coração, condenado este caminho. Afinal, o senhor mesmo disse, de forma peremptória: o Caminho está repleto de heresias e um dia isto será declarado (embora eu pudesse, da mesma forma, afirmar o contrário: o Caminho não possui qualquer heresia e, um dia, isto será declarado. E ficaríamos nisto!). Como, então, o senhor já julgou sem conhecer, profundamente, os dois lados?

Ao que parece, apenas se surgissem as ditas apostilas é que o senhor se convenceria do enorme erro cometido pelo Pe. Zoffoli. Apenas me permita dizer que o Caminho não começou ontem. Ao contrário, conta já com quase quarenta anos. E, se Jesus não mentiu ao dizer que uma obra se reconhece pelos frutos, então, os frutos mostram que o neocatecumenato é obra do Espírito Santo. Não estou falando, apenas, de mudança de vida (como pessoas que abandonam drogas, crimes, que encontram a paz, etc.), pois as mesmas também são encontradas fora da Igreja. Falo de FRUTOS PARA A IGREJA, que nenhuma heresia pode gerar. São milhares de vocações sacerdotais e outras milhares para a vida religiosa; são dezenas de seminários no mundo todo; são tantas e tantas paróquias e dioceses que, frias que estavam, reencontraram o ardor cristão; são inúmeras famílias que saem em missão pelo mundo; são inúmeros casais que voltaram a se abrir para a vida, abrindo mão de métodos anticoncepcionais; são frutos de obediência ao Papa e aos bispos. Nenhuma heresia resulta nisto.

Mas, se alguém afirma que as heresias citadas são falsas, o senhor responde: mostre-me as apostilas do Kiko. Se afirma que a Igreja já estudou e aprovou as catequeses e as etapas do Caminho, o senhor afirma: mostre-me as apostilas. Se afirma que o Papa nos acompanha de perto e nos recomenda, afirma: ele pode estar errado, portanto, mostre-me as apostilas. Se afirma, como fez o padre de Barcelona, que as mesmas simplesmente não existem, novamente o senhor rebate: mostre-me-as. Se o senhor ficar esperando tais apostilas, agarrando-se ao que disse o Pe. Zoffoli, desconsiderando tudo o mais, perderá a graça de conhecer o Caminho, pois posso antever que jamais terá estas supostas apostilas em mãos.

Parece-me que o senhor, mutatis mutandis, comete o mesmo erro lógico dos protestantes. Os mesmos, ainda que não o percebam, primeiramente concebem uma doutrina e, depois, partem para a Bíblia para ver como a mesma a pode apoiar. O senhor também já concebeu uma opinião (qual seja, que o Caminho está repleto de heresias) e, agora, parte para os fatos para ver como os mesmos apóiam esta opinião, não obstante não a apoiarem. Igualmente, os protestantes afirmam as maiores barbaridades a respeito da fé católica (como a que nós adoramos imagens) e nos vemos na incômoda contingência de ter que os provar que estão errados. Por mais que digamos que não adoramos imagem alguma, os mesmos não acreditam e querem provas. Ora, nós sabemos no que acreditamos, visto que o crer é subjetivo. Não tenho como provar que eu creio naquilo que creio. Da mesma forma, como poderíamos provar ao senhor que todas aquelas heresias apontadas não fazem parte do Caminho? Ora, eu, como membro do Caminho, sei no que creio, e sei que não creio em nada daquilo que o senhor disse. Não conheço ninguém no Caminho que apoiaria aquelas idéias (que Cristo não morreu por nós na cruz, que não operou a redenção, que não há transubstanciação, etc). Ao contrário, elas estão em profunda oposição a TUDO o que tenho visto e ouvido no Caminho desde o princípio.

Que posso fazer para te provar isto? Não tenho as apostilas, mas pertenço ao Caminho e sei que tudo é uma grandíssima bobagem. Apenas, sinceramente, lamento a resposta que foi dada àquela leitora, pois o senhor, sem o saber, pode tê-la afastado, definitivamente do Caminho e, talvez da Igreja. E, sem conhecer o Caminho, está, neste ponto, como disse Gamaliel, a combater com o próprio Deus.

Desculpe o tamanho deste. Aproveito para agradecer o empenho em defender a Igreja de Cristo.

Abraços,
Alexandre.

Prezado Alexandre,
salve Maria.

Sou-lhe grato pelas expressões de admiração pelo trabalho que desenvolvemos, defendendo a Fé católica, na Internet. Pois me escreve você:
“Aproveito para agradecer o empenho em defender a Igreja de Cristo”.

Peço-lhe que reze por nós, para que Deus nos ajude a ser fiéis à verdade, defendendo a Igeja Católica — que é a única Igreja de Cristo — sem perder a verdadeira caridade, que, por vezes, exige a correção de erros, a discussão e até a dureza da polêmica.
Por isso mesmo, permita-me corrigi-lo num ponto.
Em meio a palavras de admiração pelo trabalho do site Montfort em prol da religião Católica, e afirmando que quer manter a caridade para conosco, você nos manda uma farpa, escondida numa frase respeitosa:
” [O Neo Catecumenato] É um itinerário de formação cristã católica profundíssimo e que, ao contrário do que está no teu site, prima pela ortodoxia da fé”.

Você pode me provar em que ponto nosso site “não prima pela ortodoxia na Fé”?
Se você provasse isso, teria provado também que você não foi sincero nas palavras de elogio a nosso site ao dizer: “E, creia, faço-o com caridade, pois respeito e admiro o trabalho que está fazendo na Internet”.

Qual é, então, a sua verdadeira posição em relação a nós? Qual é a sua palavra que vale?
Você respeita e admira um site que não primaria pela ortodoxia na Fé?
A contradição não é sinal de sinceridade… E essa falta de sinceridade não é um indício favorável ao neo catecumenato…
Além disso, se quer falar de ortodoxia, permita-me provar um erro seu contra a fé, erro existente em sua própria carta (e o aponto realmente por caridade, querendo elucidá-lo, creia-me).
Escreveu você: “o crer é subjetivo. Não tenho como provar que eu creio naquilo que creio”.
O crer não é subjetivo. E há sim meio de provar que a Fé católica é verdadeira. Sua afirmativa cheira a fideísmo, erro condenado pelo Concílo Vaticano I (cfr Denzinger 1812: “Se alguém disser que a revelação divina não pode tornar-se crível por sinais externos e que, portanto, os homens devem mover-se à fé apenas pela experiência interior de cada um e pela inspiração privada, seja anátema”).
Não tenho, de fato, polemizado com membros do neo catecumenato.
Resumi um trabalho do Padre Zoffoli a respeito desse movimento. Alguns do Movimento Neo Catecumenal me escreveram, contestanto a veracidade dos documentos citados por Padre Zoffoli. Respondi pedindo que me enviassem as apostilas em pauta. Ninguém do Neo Catecumenato mas forneceu.

Não houve polêmica.
Talvez ainda haja, se receber todas as apostilas completas.
Você pode fornecer essas apostilas?
Quanto ao Padre Zoffoli ter morrido abraçado num quadro feito por Kiko, pelo que sei , isso é lenda mesmo, como você mesmo chega a admitir.
E se fosse verdade, só provaria que Padre Zoffoli, tinha mau gosto estético, porque as pinturas feitas por Kiko são medonhas (vi algumas). E esse abraço final numa obra de arte não provaria que as apostilas não contém o que Padre Zoffoli disse que elas contém..
Acredito em sua afirmação de que nunca leu as tais apostilas.
Você me garante:”Não tenho as apostilas, mas pertenço ao Caminho e sei que tudo é uma grandíssima bobagem”.
Entretanto, as apostilas existem.
Como se explica que elas não sejam comunicadas nem a velhos membros desse movimento como você?
Isso prova que há segredos doutrinários no Neo Catecumenato, o que é muito suspeito.
Eu não sabia que Jacob Bellido é sacerdote. Se ele é padre, ele omitiu sua condição de sacerdote na mensagem que me enviou.
Você me garante que o que pode escandalizar nas apostilas de Kiko é a pregação da cruz de Cristo.
Ora, meu caro, a Igreja prega a cruz de Cristo há dois mil anos, e nunca fez essa pregação secretamente: proclamou-a em alto e bom som. Pois Nosso Senhor não recomendou que gritássemos do alto dos telhados o que Ele nos ensinou?
Por que Kiko espalha suas apostilas “discretamente”, em vez de obedecer a Cristo, proclamando a cruz do alto dos telhados?
Você me cita ainda que o Papa João Paulo II apoiaria o Neo catecumenato, e que afirmo que um Papa pode enganar-se num elogio a um movimento, e lembra que cito o fato de São Pio X ter elogiado e incentivado o Sillon, e mais tarde, declarou que o Sillon o enganara, e o condenou.
Se esse exemplo não lhe é suficiente, lembro-lhe outro.
O próprio Papa João Paulo II escreveu um carta à CNBB, elogiando a Teologia da Libertação, e depois a condenou, fato que provocou a apostasia do ex frei Boff.
Cito-lhe a carta do Papa João Paulo II à CNBB, carta oficial, elogiando a Teologia da Libertação:
“ESTAMOS CONVENCIDOS, NÓS E OS SENHORES, DE QUE A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO É NÃO SÓ OPORTUNA, MAS ÚTIL E NECESSÁRIA” (João Paulo II, Carta aos Bispos do Brasil — 9 de Abril de 1986, apud Frei Leonardo Boff, A Trindade, a Sociedade e a Libertação, Vozes, Petrópolis, 1986, 2a, edição, contra capa).
E, algum tempo depois, a Teologia da Libertação foi condenada por João Paulo II.
A seguir, você argumenta que se um Padre (Zoffoli) critica o neo catecumenato, outro Padre (Jacob Bellido) o elogia, e fica-se sem saber quem seguir.
Essa questão, meu caro, não se resolve com um enquete de opinião de padres. Isso não é um concurso de popularidade, ou de opiniões, ainda que eclesiásticas. Trata-se de verificar se os documentos de Kiko contém ou não as heresias apontadas por Padre Zoffoli. Se contém heresias, de nada valem os elogios até de um anjo do céu.
Publiquem as apostilas de Kiko. Todas as apostilas. Integralmente.
Você me diz que não farão isso, porque a cruz escandaliza. Maior é o escândalo proveniente de não publicar as apostilas, o que faz manter a suspeita de heresia. Publiquem as apostilas.
Você me garante:
“Já disse que não há divulgação explícita apenas por caridade e para não afastar as pessoas do Caminho”.
Você então confessa que, se fossem publicadas as apostilas — que falariam só da CRUZ de Cristo — muitas pessoas se afastariam do “Caminho”..
Mas, então, esses membros do Neo catecumenato não amam a cruz de Cristo?
Parece que o Padre Zoffoli tem mais lógica, e que tem razão.
Que cristãos são esses que se escandalizam com a cruz de Cristo?

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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