Montfort Associação Cultural

7 de outubro de 2004

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O martírio de Santo Agostinho

Tempos atrás, motivado pelo desejo de melhor compreender a doutrina católica, quis travar conhecimento com os escritos de Santo Agostinho. Para tanto – pensei – nada melhor do que buscar uma livraria católica.

Dirigi-me, portanto, a uma das maiores, no centro da cidade, e pus-me a vagar frente às estantes, passeando os olhos pelas milhares de lombadas expostas na prateleiras. Não demorei a perceber que não poderia ter escolhido melhor, caso tencionasse realizar uma pesquisa bibliográfica sobre sociologia, política, marxismo, psicanálise, religiões comparadas, ou mesmo sobre os ‘best-sellers’ do momento. Nada encontrei, porém, referente aos outrora chamados “Doutores da Igreja”.

Busquei o auxílio de um balconista, jovem magricela, de brinquinho na orelha, que a contragosto resolveu atender-me.

- Qual é mesmo o nome? – perguntou ele, folheando catálogos de editoras.

- Santo Agostinho. Escreveu as “Confissões”, “De Civitate Dei” etc…

- Ele é francês?

- Não. Nasceu na Numídia, na África…

- Ah, bom – suspirou ele. Então está na listagem de autores e temas africanos. Deixa ver. Agostinho, Santo. A… Ac… Agatha Christie: “A Morte sobre o Nilo”, Ago… Agostinho… Agostinho… Está aqui. Um momento.

Partiu como passarinho apressado para os fundos da loja, subiu uma escada, procurou por alguns momentos, agarrou uns volumes e retornou, no mesmo andarzinho empertigado e duro.

- Pronto! exclamou, colocando os livros sobre o balcão. Li: “Escritos Políticos e Poéticos”, “Obra Política” e “Obras Completas de Agostinho Neto”. Todos de uma conhecida editora católica.

- Não, protestei. Este é o Agostinho Neto, líder da revolução angolana. Refiro-me a Santo Agostinho, Bispo e doutor da Igreja…

O rapazinho bufou, contrafeito, e saiu pisando duro. Parou diante de outra estante, com os punhos na cintura:

- Como é o nome mesmo?

- Santo Agostinho.

Começou a derrubar livros das prateleiras, jogando-os no chão.

- Santo… Santo…

Agarrou triunfalmente um volume e me entregou. Li: “Santo Dias da Silva, Mártir Operário”, da autoria de famoso líder sindical. Devolvi-lhe o livro.

- Ouça. É Santo Agostinho…

- Mas, afinal, Santo é o nome ou o sobrenome? – inquiriu irritado.

- Santo não é nome nem sobrenome. Santo é o mais alto estado acessível ao homem. Santo é…

- Olha, me desculpe – interrompeu ele. Eu só trabalho aqui há um ano e nunca ouvi falar. É melhor o senhor falar com a gerente. Ela é filósofa e deve conhecer.

Estranhei o qualificativo. Veio a gerente, uma gorducha de óculos, trajada à cigana, com uma enorme figa no pescoço. Esclareceu-me que se tratava de uma estudante de filosofia da PUC. Expliquei-lhe a situação e ela pareceu compreender.

-Temos sim, disse com orgulho. É um texto atualizado, em linguagem popular. Espere…

Sumiu por alguns minutos e voltou trazendo a tão procurada obra:

“AS AUTOCRÍTICAS DO COMPANHEIRO AGOSTINHO. O LIVRO. A BIOGRAFIA SEM CENSURA DO CONTROVERTIDO INTELECTUAL. TEXTO REVISTO E CONDENSADO EM LINGUAGEM MODERNA, POR UMA COMISSÃO DE TEÓLOGOS COORDENADA POR L. DORF, ex- OFM”.

Olhei-a atônito.

- Como? O senhor queria o texto original? O senhor deve estar brincando. Quem é que vai ler esses caras antigos? Eles escreviam em latim, imagine… Não quer em latim, não? Ha, ha, ha…

Agradeci e saí, pensando que talvez o bispo Macedo, aquele que já quis comprar uma catedral católica, quem sabe um dia se interesse por editar os autores católicos…

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