Montfort Associação Cultural

20 de janeiro de 2005

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O mal no mundo

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Magnus Walberg
  • Localizaçao: – Brasil

1) Se Deus existe por que há tanto mal no mundo, como guerras, doenças, sofrimentos, pobreza, etc.?
2) Qual o significado da sociedade altamente desenvolvida de hoje? Que motivos temos para mudar?

Magnus Walberg

Prezado Magnus,
Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo.

Sua primeira pergunta é sobre porque permite Deus que haja males no mundo (guerras, doenças, morte, sofrimentos, pobreza etc).

Você deve se lembrar, meu caro Magnus, que o mal, como coisa, como ser, não existe. Lembra-se do exemplo do buraco numa folha de papel ? O buraco não existe. O que existe é o papel.

Mal é falta de ser, falta do que devia existir, ou falta de ordem.
Por exemplo, se me falta um olho, isso é um mal. É falta de algo que devia existir. Se tenho uma orelha no meio da fronte, isso é um mal porque é uma falta de ordem. O veneno de uma cobra, enquanto ser, é bom . Ele só é um mal em minhas veias. Não está, quando nelas, no local adequado. Não está em ordem.

Entretanto, há males morais, isto é, ações, más. As ações não são seres, não são substantivos. Há verbos maus, como roubar, mentir, adulterar, enganar etc.

Sempre que se faz uma ação má, no fundo se busca um bem, embora menor. Por exemplo, quem rouba busca o bem do dinheiro. Roubar é um mal, porque estabelece uma desordem entre os bens. O dinheiro é um bem. Entretanto, a justiça é um bem maior do que o dinheiro. Quem rouba, coloca o bem menor (o dinheiro) acima do bem maior (a justiça). Essa desordem é que constitui o mal moral (uma ação má).

Como expôs Santo Agostinho, o existir é um bem. Se o mal absoluto existisse, ele teria o bem da existência. Logo, não seria um mal absoluto.

E ainda: o mal vai contra a natureza. Portanto, o mal não é uma natureza.
Tudo o que Deus fez é bom .

O demônio, enquanto ser, é bom, pois tem uma garnde inteligência e uma possante vontade, que ele usa só para agir mal.

O inferno mesmo é um bem , porque por meio dele Deus faz justiça. Daí Dante fazer o inferno dizer:

Fecemi la Divina Potestate (Deus Pai), la Somma Sapienza (Deus Filho) ed il Primo Amore (o Espírito Santo).
[Fizeram-me o Divino Poder (Deus Pai), a Suma Sabedoria (Deus Filho), e o Primeiro Amor (o Espírito Santo).]

Agora, vamos à sua pergunta, sobre o porquê Deus permitir o mal relativo, como a morte, a doença, pobreza etc.

Em primeiro lugar, Deus fez todas as coisas com qualidades desiguais. Ora, essa diferença de qualidades é que permite a ordem no mundo. E a ordem é que reflete a Sabedoria de Deus.

(Eu lhe expliquei isso em São Paulo, mas se você quiser, eu lhe repito a explicação).

Havendo desigualdade nos seres, é claro que o ser com menos qualidade (uma pedra em relação a uma planta) está numa situação de carência de bem, o que é um mal relativo. Mas isso foi feito por Deus assim , para que as coisas pudessem ser ordenadas entre si, fazendo brilhar a Sabedoria de Deus, através da ordenação das coisas criadas.

Deus também permitiu a pobreza para que os homens compreendessem que a riqueza não é o bem supremo, mas só relativo. Assim também com a saúde , a vida , o saber etc.

Além disso, Deus fez as coisas com desigualdade para que no universo fosse possível existir a caridade, que é imagem do amor de Deus.

Deus é bom e faz o bem. Ele nos fez semelhantes a Ele

.
Ora, todo homem, enquanto ser, é bom . Mas para ser semelhante a Deus é preciso, como Ele, fazer o bem.

Para fazer o bem é preciso haver desigualdade. Só posso dar esmola, se existe um bolso cheio e outro vazio. Se ambos forem igualmente cheios, ou igualmente vazios, será impossível ou inútil dar esmola. A desigualdade entre pobres e ricos é que permite ao rico ser como Deus que nos dá tudo, e ensina ao rico que a riqueza não é o bem supremo. É, pois, a desigualdade entre ricos e pobres que permite que no mundo haja uma imagem do Amor de Deus.

A guerra, a morte, o pecado são males que entraram no mundo com o pecado de Adão, que desregrou toda a nossa natureza.

Quando um homem injustamente ataca outro, o atacado tem direito de se defender. O mesmo acontece com um país: se é atacado, ele pode resistir ao agressor, e fazer-lhe guerra justa.

Freqüentemente, é no sofrimento – na pobreza, na doença, na dor – que o homem se aproxima de Deus. O mal relativo o aproxima do Bem Absoluto. O que é excelente.

Meu caro Magnus, por hoje meu tempo está acabando. Noutro dia, respondo sua segunda pergunta.

In Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli.

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