Montfort Associação Cultural

13 de junho de 2006

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O mal moral e o mal intrínseco

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Carmem Lúcia
  • Idade: 26
  • Localizaçao: Florianópolis – SC – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Profissão: Estudande De Medicina
  • Religião: Católica

Caro professor Fedeli, ou prezado membro da Comunidade Montfort que, espero eu, me responda, Graça e paz!

Gostaria de entrar em um ponto que tem sido motivo de dúvidas no âmbito moral. Sempre entendi, inclusive embasada em cartas desse site, e pelos meus estudos de doutrina católica, que certas práticas, que fogem à dignidade humana, são maus por si só – aborto, eutanásia, suicídio, homicídio, relações sexuais pré-matrimoniais, etc.

Porém, um dia um amigo me confrontou com a seguinte dúvida: “você diz que a masturbação é algo intrinsecamente ruim, injustificável, então como fica o caso de uma pessoa que por causas médicas seja obrigado a fazer um espermograma? seria intrinsecamente mau o fato de ele necessitar provocar uma ejaculação fora do ato conjugal?”.

Não soube o que responder para ele. O que fiz em seguida foi levar minha dúvida ao meu pároco, que me explicou o seguinte: “Não existe o MAL intrinsecamente a um ato ou a uma coisa, pois afirmar isso seria o mesmo que dizer que Deus criou o mal, pois o mal então seria parte integrante de alguma coisa ou ação. Ao contrário, toda e qualquer origem do mal é sempre MORAL, ou seja, vem da consciência de quem o pratica. O mal entrou no mundo pela desobediência do homem, logo quando temos consciência de que algo é mau e mesmo assim o fazemos, tão somente assim tal ato pode ser considerado mau.”

O Senhor concorda com tal afirmação? E o que diz a Igreja? Para mim pareceu bastante sensato, mas logo após meu encontro com meu pároco fiquei a pensar: “mas se é assim, isso significa que o aborto, por exemplo, pode ser justificado quando é para um “bem maior”, como nos casos clássicos de estupro e risco de vida para a mãe, pois o ato de abortar em si não seria mau, o mal entraria apenas na consciência que a pessoa tem ao praticá-lo.” Por outro lado, seria justo obrigar a pessoa que meu amigo exemplificou, a não poder se tratar por se abster de algo intrinsecamente mau? Não estaríamos caindo no mesmo erro dos Testemunhas de Jeová, que — independente da divergência do que é lícito ou não para eles e para a nossa doutrina — SEMPRE proibem a transfusão de sangue, por exemplo?

Gostaria de um embasamento moral e, possivelmente se preciso, teológico, para esclarecer esse impasse que muito tem me incomodado.

Desde já agradeço a atenção, um grande abraço fraterno, e fiquem na paz de Cristo!

Muito prezada Carmen,
Salve Maria.
 
    Vamos analisar o que lhe disse, infelizmente, esse Padre que estudou mal a sua Teologia moral e a sua metafísica. Ou, quem sabe, expressou-se mal.
    Eis o que ele lhe disse:
Não existe o MAL intrinsecamente a um ato ou a uma coisa, pois afirmar isso seria o mesmo que dizer que Deus criou o mal, pois o mal então seria parte integrante de alguma coisa ou ação. Ao contrário, toda e qualquer origem do mal é sempre MORAL, ou seja, vem da consciência de quem o pratica. O mal entrou no mundo pela desobediência do homem, logo quando temos consciência de que algo é mau e mesmo assim o fazemos, tão somente assim tal ato pode ser considerado mau.”
    Sublinhei os erros mais importantes que ele cometeu, causando-lhe confusão.
    O mal enquanto ser não existe. Isso é certo. 
    Tudo o que existe foi feito por Deus. Logo tudo o que existe, todo ser, é bom enquanto ser.
    O que há são ações más: roubar, assassinar, adulterar etc. E ações não são coisas.
    Portanto, o Padre cometeu um primeiro erro ao dizer que “Não existe o MAL intrinsecamente a um ato”.
    Atos maus existem, sim. Por exemplo, é um mal moral ensinar erroneamente a moral, como fez esse sacerdote nesse texto.     Tomara que você tenha entendido mal o que ele lhe disse. Mas, se ele disse isso, errou.
    Ao contrário do que ele disse há ações más.
    Uma ação é má por desordenar os bens. Assim, roubar é uma ação objetivamente má pois que o ladrão coloca o bem do dinheiro (bem menor) acima do bem da Justiça (bem maior).
    Assim, o que torna uma ação objetivamente má é a desordenação dos bens.
    O mal objetivo de uma ação não vem da consciência de quem fez a ação má.
    Uma ação má é sempre objetivamte má, pois é uma desordem dos bens. Porém, a pessoa que age mal pode não ter consciência plena do que faz, e então – subjetivamenente — ela não tem culpa do que faz. Ela é então subjetivamente inocente.
    Uma pessoa pode ter uma consciência errônea, o que a isenta de culpa, se ela tiver ignorãncia invencível, mas a ação que ela faz sem culpa pessoal, continua sendo obejetivamente má.
    Portanto é errado o que disse o padre de que “qualquer origem do mal é sempre MORAL, ou seja, vem da consciência de quem o pratica.
    Isso não é certo.
    Você, então, argumentou corretamente ao escrever que se esse padre tivesse razão, então: “o ato de abortar em si não seria mau, o mal entraria apenas na consciência que a pessoa tem ao praticá-lo”.
    Agradeço a sua confiança. Reze por mim, que necessito da misericórdia de Deus.
    Quando se vai ficando velho, e o ocaso vem chegando, compreende-se cada vez mais a necessidade de orações e da misericórdia do Coração de Jesus.
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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