Montfort Associação Cultural

7 de janeiro de 2005

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O livro sagrado das contradições

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Max
  • Idade: 17
  • Localizaçao: Fortaleza – CE – Brasil
  • Religião: Católica

Bom, encontrei este artigo na net, é bem “interessante”. Ficaria muito grato se a monfort resolvesse este enigma….

O livro sagrado das contradiçoes

Para mostrarmos algumas dessas contradições, recorramos ao primeiro livro do Antigo Testamento (conforme texto de Elsie Dubugras – Revista Planeta), – o Gênesis, que começa descrevendo a criação da Terra, do home e da mulher e falando da ordem que o casal recebeu de Deus: a de que procriassem (Gên.1:27/28). No segundo capítulo do mesmo livro, a história muda. Depois de dar existência à Terra, Deus criou Adão e Eva. Ambos estavam no Jardim do Éden e podiam usufruir de tudo o que lá crescia, menos do fruto da árvore do bem e do mal (ves.17). O terceiro capítulo conta como Adão e Eva desobedeceram às ordens divinas, comendo o fruto proibido, e foram expulsos do Paraíso. Presume-se que o sexo fosse o fruto proibido, já que, no versículo 15, Deus diz à Eva:”…com dor terás teus filhos…” e em seguida, nasceram Caim e Abel. Quando os dois se tornam adultos, ocorre o primeiro crime da história da humanidade: Caim assassina Abel, sendo expulso do convívio familiar. Todavia ao ser expulso, “…pôs o Senhor um sinal em Caim para que não o ferisse quem o achasse”(Gên.4/15). Mas quem seria esse qualquer, se no mundo só haviam três pessoas: Adão, Eva e Caim? Caim partiu, viajou tranquilamente e ao chegar à terra de Node, encontrou uma mulher com quem se casou e teve um filho, Enoque, que depois também se casaria, gerando Cainã(vers.10). Estes episódios evidenciam que haviam outros seres humanos na Terra, pois até o terceiro filho de Adão e Eva, Set, encontrou uma jovem com quem se uniu e teve um filho(Gên. 5:6). De onde teriam vindo os habitantes de Node? Que não deveriam ser poucos, uma vez que Caim ajudou a construir uma cidade para abrigá-los .

Como explicar a presença na Terra de seres que não haviam sido criados por Deus? Especialistas em etimologia afirmam que o substantivo Adam, longe de se classificar como nome próprio, figuraria na verdade, entre os diversos termos usados para designar o gênero humano. A palavra só seria empregada como nome próprio em circunstâncias específicas e para indicar certa pessoa ou um ato praticado por ela, como se vê no Gênese: “E tornou Adão a conhecer sua mulher(4:25) e “este é o livro das gerações de Adão(5:11)”. De acordo com essa teoria, o relato bíblico da criação do homem seria portanto alegórico, e a origem de toda a humanidade estaria simbolizada na origem de um único indivíduo. Neste caso, as menções posteriores a outros seres humanos não constituiriam qualquer tipo de contradição. Retomando o Gênese, observamos que, após o nascimento de Set, não há mais citações a Eva, mas apenas aos numerosos descendentes de Adão, cujas idades são listadas. Set chegou aos 912 anos, Enos a 905, Cainã a 910 e Matusalá aos 969(Gên.5:8 a 27). Todos eles tiveram filhos em idades avançadas: Enos aos 90, Cainã aos 70, Malalael aos 65, Matusalá aos 187. Em questão de paternidade, Noé, que gerou seu primogênito aos 500 anos de idade(Gên.5:32), não foi superado por ninguém. Até hoje não se sabe se eles viveram todo esse tempo, o que parece pouco provável, ou se nos calendários antigos os anos tinham menos meses, tendo assim duração mais curta que os atuais. Essa hipótese é sem dúvida, a mais razoável. Não se sabe proque os descendentes de Adão e Eva se corromperam, e Deus, desgostoso com a violência que imperava, resolveu exterminar a raça humana, fazendo chover durante quarenta dais e noites(Gên.6:12).

Só se salvaram do dilúvio universal Nóe, sua família e um casal de cada animal existente na Terra. O episódio do dilúvio está respaldado na tradição da Babilônia. Segundo registros dessa antiga civilização, um dilúvio de grandes proporções teria realmente ocorrido na Terra. Tal fato foi comprovado recentemente por um grupo de arqueólogos, que , escavando uma área onde se concentravam cidades babilônicas, encontrou depósitos que só poderiam resultar de um dilúvio de proporções gigantescas. O fenômeno contudo teve abrangência local, e não universal. A humanidade recomeçou com Noé eo seus, que o Senhor abençoou, mandando que se multiplicassem (Gên. 9:1/19). Esta determinação divina indica que, se não houve erro de tradução, ocorreu outro, o de má interpretação quanto ao que seria pecado original. Se o Senhor ordenou que procriassem, como poderia ter condenado a prática do sexo por Adão e Eva? Outras menções no Antigo Testamento merecem igual atenção, como as do arrependimento que Deus revelou por ter criado a humanidade (Gên.6:6/7), por ter se irado com seu povo(Êxodo 32:14), por ter feito Saul rei de Israel(I Samuel 15:35), pela morte de 70 mil pessoas devido à peste(II Samuel 24:15/16) e por diversos outros motivos detalhadamente citados em I Crônicas 21:15, Jeremias 26:13, Amós 7:3 e Jonas 3:9. Não seria ilógico contudo, acreditar que o Criador do Céu e da Terra, tivesse errado e mostrado seu arrependimento como se foram um simples ser humano? Incoerências são também encontradas no Novo Testamento, que vem despertando o interesse de um número cada vez maior de pesquisadores. Segundo estudiosos, os autores dos Evangelhos intitulados Matheus, Marcos, Lucas e João não conheceram Jesus pessoalmente – o Evangelho seugndo São Marcos, por exemplo, foi escrito 70 anos após a crucificação de Cristo.

Eles obtiveram os fatos que narram de pregações da Igreja primitiva, de tradições e ensinamentos orais que permaneceram na memória do povo, de relatos alheios, etc. Algumas diferenças de um episódio específico: o que aconteceu após o sepultamento de Jesus. O Evangelho segundo João diz que Maria Madalena encontrou-se com Jesus perto do sepulcro, mas não o reconheceu, confundindo-o com o hortelão(João 20:14/16). Já Matheus (28:6) conta que o anjo explicou as visitas que Jesus não estava mais lá, pois havia ressuscitado. Em Marcos(16:6) esta informação é dada por um mancebo, e em Lucas(24:4/6) os varões dão a mesma notícia. Além dessas divergências claras entre os evangelhos, de acordo com pesquisadores modernos, somente cerca de 18% das frases atribuídas a Jesus foram proferidas por ele.

Da oração mais conhecida dos cristãos, o Pai Nosso, só estas duas palavras são do Mestre. Jesus não teria dito “Perdoai nossas ofensas”, mas “Perdoai nossas dívidas”, uma vez que costumava a falar a platéias pobres, que não entenderiam a palavra “ofensa”.

Prezado Max, salve Maria.

Com prazer atendo suas dúvidas.

Sua carta demonstra como é perigoso começar a ler a Sagrada Escritura sem ter alguém para consultar, nem ter conhecimento maior de religião. Pior ainda, se a pessoa vai procurar informações numa revista esotérica e gnóstica, como aquela que você cita.

Então, o primeiro conselho que lhe dou é: não leia revistas esotéricas, que só buscam enturvar as águas, para pescar incautos.

Na Sagrada Escritura, não há contradição nenhuma, pois Deus, seu autor, não pode nem errar, nem nos enganar. Nós é que, por falta de conhecimento, ou por má interpretação, caímos em contradição.

Você começa caindo numa primeira contradição ao dizer que: Presume-se que o sexo fosse o fruto proibido, já que, no versículo 15, Deus diz à Eva:”…com dor terás teus filhos…” e em seguida, nasceram Caim e Abel.” De onde você tirou essa presunção?

Se o pecado original tivesse sido a união conjugal de Adão e Eva, o casamento seria pecado. Ora, o matrimônio é um sacramento.

É um absurdo gnóstico – típico de revistas esotéricas – afirmar que o pecado original foi a união conjugal.

Deus fez todos os animais macho e fêmea, para que procriassem, unindo-se sexualmente.

Também com o homem fez assim: “E criou Deus o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus; criou-os varão e fêmea. E Deus os abençoou e disse: “Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra, …” (Gen.I, 27-29).

Deus os fez “macho e fêmea”, para procriarem, e ordenou explicitamente que tivessem filhos.

Logo, o pecado original não foi o ato conjugal.

Tanto assim que, quando Eva deu o fruto proibido a Adão, está escrito que ela deu o fruto ao “viro suo” , isto é, a seu marido, e não ao homem.

A seguir, você decide que só havia três pessoas vivas: Adão, Eva e Caim.

Ora, a Sagrada Escritura só cita três nomes. Como só cita três filhos de Adão e Eva: Caim, Abel e Set.

O fato de não citar outros nomes não significa que Eva tivesse tido apenas três filhos.

O povo hebreu era patriarcal, e, nos povos patriarcais, o poder paterno é herdado pelo primogênito. Por isso, é citado Caim , primogênito de Adão. Mas ele perdeu o direito de herança e de mando, por ter assassinado seu irmão Abel.

Daí, citar-se o terceiro filho, Set, por ter ele sido o herdeiro da autoridade de Adão.

É evidente que Adão e Eva tiveram outros filhos, já que Set não poderia ter se casado com a filha do português da esquina, já que não havia esquina, não havia português, nem a filha do português da esquina.

Set – por necessidade absoluta  teve que casar-se com uma irmã. Já na segunda geração foi vedado o casamento entre irmãos, ficando possível o casamento entre primos.

Portanto, todos os homens descendem de Adão e Eva, e, por isso, a qualquer raça que pertençamos, somos todos irmãos. Afirmar o contrário é abrir caminho para o racismo e para o nazismo.

Todos os homens, brancos, pretos, amarelos, somos todos irmãos, descendentes do único casal original.

E isso é doutrina católica. Pio XII, na encíclica Humani Generis, ensinou que o poligenismo – isto é, a doutrina que supõe que tenham existido vários casais originais, é condenada pela doutrina católica. O monogenismo – a existência de um só casal original de que todos descendemos, é de crença obrigatória. E é de bom senso. As raças humanas não são sub espécies. Dizer isso é cair no racismo e no nazismo.

Não contente de “presumir” o que a Sagrada Escritura não diz, e depois de entender mal o que ela afirma, você inventa o que ela não registra, pois me escreve: “Caim partiu, viajou tranquilamente e ao chegar à terra de Node, encontrou uma mulher com quem se casou e teve um filho, Enoque, que depois também se casaria, gerando Cainã (vers.10). Ora, na Sagrada Escritura não está dito isso – que Caim encontrou uma mulher - mas, sim, o seguinte: “E Caim, tendo se retirado diante da face do Senhor, andou errante sobre a terra, e habitou no país de Nod que está a nascente do Éden. E Caim conheceu sua mulher, a qual concebeu e deu à luz Henoc” (Gen. IV, 16-17).

E não pense que a expressão “conheceu sua mulher” significa que ela lhe foi apresentada no país de Nod. “Conhecer”, na linguagem bíblica, significa ter relação sexual. Por isso, até hoje, alguém pode dizer: “Não conheço mulher”, para significar que nunca teve relações sexuais com uma mulher.

Meu caro Max, você que é jovem, aprenda então a não ser precipitado, e, sobretudo, preste atenção nos textos. Você escreveu que na Bíblia está dito que Caim “encontrou uma mulher”. E essas palavras não estão lá.

A seguir você me vem com os “especialistas em etimologia” os quais você nem cita, porque… não os conhece.

Adão significa – etimologicamente — feito de terra, pois Deus fez o corpo do homem de terra. E basta examinar quimicamente a composição do corpo humano para concordar com isso.

Depois, você sobe num púlpito imaginário e pontifica que é pouco provável que os antigos soubessem contar a duração do ano.

Meu caro, não seja tão peremptório.

A contagem da duração do ano não é tão difícil assim. Talvez ela seja mais difícil para um aluno de colegial de nossos dias do que para aqueles homens que se qualificam, hoje, como brutos primitivos, no sentido evolucionista, isto é, macacal ou primata da teoria evolucionista, darwiniana ou não darwiniana, pouco importa. Pois todo evolucionismo está errado.

Depois, em seu dilúvio de presunções, você trata do dilúvio com que Deus castigou a humanidade, tendo se salvado apenas oito pessoas, Noé, sua esposa, seus três filhos e noras.

E quando, na Bíblia, se diz que “Deus se arrependeu”, ela está usando apenas uma linguagem humana, uma linguagem antropomórfica, atribuindo a Deus um sentimento que é próprio do homem.

Você poderia alegar uma “contradição” maior ainda, citando textos ds Bíblia nos quais se fala da mão e do braço de Deus. Ora, sendo Deus espírito, Ele não tem nem mão, nem braço.

Meu caro, isso é apenas uma linguagem metafórica.

Se fosse como você interpreta, também quando você lesse um historiador que afirmasse que Colbert foi o braço direito de Luis XIV, você deveria imaginar o rei francês como um monstro, cujo braço direito fosse – literalmente – um outro homem: Colbert.

Meu caro Max, você precisa aprender a intrepretar corretamente o que lê, antes de fazer exegese bíblica.

Você repete o que leu em alguma revisteca esotérica ou modernista, quando me escreve: “Incoerências são também encontradas no Novo Testamento, que vem despertando o interesse de um número cada vez maior de pesquisadores. Segundo estudiosos, os autores dos Evangelhos intitulados Matheus, Marcos, Lucas e João não conheceram Jesus pessoalmente – o Evangelho seugundo São Marcos, por exemplo, foi escrito 70 anos após a crucificação de Cristo”. Que pesquisadores e que especialistas são esses?

Citar vagamente especialistas e pesquisadores sem dar-lhes os nomes, e sem citar seus trabalhos é fácil, meu caro.

Tais especialistas, são repetidores do que disseram os exegetas modernistas como o Padre Alfred Loisy, excomungado por dizer exatamente o que você atribui aos tais misteriosos especialistas e pesquisadores.

Pois fique sabendo que uma das últimas grandes descobertas de textos dos Manuscritos do Mar Morto foi a de um fragmento do Evangelho de São Marcos. Ora , os manuscritos do Mar Morto foram abandonados, nas cavernas de Qumram, no ano 70 depois de Cristo. Logo, havia lá um texto do Evangelho de São Marcos, antes do ano 70.

Deste modo, o que você alega sobre os evangelistas é totalmente falso.

Concluindo, não se meta a falar do que você não sabe, especialmente criticando a palavra de Deus. Lamentando sua presunção juvenil, e desejando que Deus tenha pena de você, dando-lhe a graça da humildade, despeço-me.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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